Tributo a Costa Matos
12:39 @ 14/03/2009
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Costa Matos
Meu caríssimo Prof. Costa Matos, existem notícias ou fatos que, se pudéssemos, postergávamos, deixávamos pra lá, como se diz popularmente. Assim ocorre quando somos informados de que alguém a quem prezamos muito, partiu, foi embora.
Na maioria das vezes, essa partida se dá em silêncio, sem uma despedida formal. O senhor, sempre tinha algo a ensinar, a reanimar em nós, com seu exemplo, com seus conhecimentos. A morte é um mistério, professor. Não sei se o senhor percebe o que se passa desse outro lado da vida.
Crentes que somos na vida eterna e num Deus que nos há de receber um dia, sei que Ele, de braços abertos, o acolheu e deu-lhe as boas-vindas no Paraíso, pelo bem que o senhor praticou aqui. Recordo, saudoso, nossas conversas. Lembro-me de seus telefonemas. De seu alento quando a caminhada se parecia tão difícil e o senhor, com sua voz serena, ensinou-me a ter paciência, talvez lembrando aquele adágio universal: tudo passa!
Não consegui agradecer-lhe pelo seu tão belo artigo “As pedras do caminho...”, publicado neste jornal. O senhor deu-me qualidades que desconheço, mas suas palavras me aqueceram a alma, o que não é novidade, partindo do senhor. Fico-lhe grato.
Professor, nossa Literatura ficou órfã de sua presença física, mas não de sua presença poética, de suas crônicas, de seus romances. Eles permanecerão e provarão que o aluno da dona Ester Mourão (mãe do querido Gerardo Mello Mourão) é verdadeiramente um imortal. A imortalidade literária consiste na permanência de suas obras literárias mesmo após a sua morte.
Em dois anos a Ipueiras perdeu dois de seus mais ilustres filhos, pois, no próximo dia 9 de março, recordamos o segundo ano da partida de Gerardo Mello Mourão, maior poeta de sua geração que fez ao passar por Ipueiras, o imortal da ABL, Antonio Olinto, afirmar, Ipueiras: aqui nasceu a poesia!.
Agora, parte o senhor, o poeta terno, o cronista sensível, o romancista habilidoso, o ser humano afetuoso, fraterno, irmão que deixará muita saudade entre os que o admirávamos. Abrace nossos amigos que aí estão e interceda a Deus por nós. Até um dia!
JOSÉ LUÍS LIRA
Advogado e professor
Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=620518
"...O cenário das histórias de Costa Matos são as pequenas cidades do interior, onde os acontecimentos, de natureza doméstica, política ou moral, assumem geralmente dimensões inesperadas. O padre, o juiz, o promotor público, o tabelião, os tipos populares que proliferam em todos os níveis da hierarquia social - toda essa fauna humana constitui a matéria-prima destas bem conformadas narrativas de Costa Matos, um escritor com absoluto domínio das possibilidades do idioma, a que dá tratamento cuidadoso e irrepreensível.
"Conto o que me contaram". Essa frase de Heródoto poderia servir de prólogo para este livro de Costa Matos. Presumivelmente, ele nos conta fatos que testemunhou ao longo de sua vida, ou que lhe foram relatados por outras pessoas. Se é verdade que "a vida imita a arte", não é menos verdadeiro que a arte é também uma imitação da vida no plano metafórico. Seria irrelevante, portanto, indagar se os fatos arrolados nas histórias de Costa Matos são reais ou são fictícios. O que importa assinalar é que o sopro do ficcionista é suficientemente forte para dar corpo e alma a esses "bonecos de barro", contemporâneos dos primatas criados por Deus.
Francisco Carvalho
(Na Trilha dos Matuiús -1998)
***
Rio de Janeiro, 18 de julho de 1983
Costa Matos,
gratíssimo pelos seus livros Na última curva da esperança (e O Sono das respostas. Logo me inteirei de sua poesia direta e sem rebuços. Digo isto porque ela é certeira do poeta ao que lê. Quando digo sem rebuços, não quero dizer que ela seja simples e sem mistério. Tem as duas qualidades e principalmente certa onda enigmática que está na sua origem.
Que poesia bravia, revoltada, orgulhosa e tão sensível à nossa hora que passa - veja-se O homem e seus medos que destaquei porque muito me atingiu.
O medo tem sido a minha constante, desde que me entendi por gente. Medo das coisas que você aponta como temerosas e hoje - medo do Brasil. Eu me sinto como se estivesse, pior que diante de um pelotão de fuzilamento - trancado numa masmorra escura junto com uma cobra cascavel. E sua poesia me diz que nossa única fuga é mesmo pela própria poesia.
Um abraço e obrigado,
Seu, do coração,
Pedro Nava
Quando chega uma notícia dessas para mim, logo mentalizo o mapa das ruas e praças de Ipueiras. E, na rua em que morou o falecido, exatamente na casa de sua família, faço as minhas reminiscências.
Foi o que fiz hoje no sobrado do Professor Costa Matos, localizado em parte alta da cidade, de aspecto destacado, pois em seu entorno a predominância de casinhas de taipa, da vila formada pelas famílias de operários da fábrica de algodão do Major Sebastião Matos.
O sobrado que frequentei na minha infância, pois amigo de Lalu e Carlito. Na adolescência, quando a família já não residia em Ipueiras, o local ficava a disposição dos dois filhos para passarem as férias de julho e do final do ano. Nós, também de férias, nos juntávamos aos demais amigos da cidade e praticávamos o futebol no campinho que fazia parte da propriedade dos Matos. E aí, a utilização do espaço ficava intercalada entre sessões de leituras de revistas de esportes, de quadrinhos, de então proibidas revistas de sexo, de encontros para umas primeiras golpadas de bebidas nas ocasiões que antecediam a ida para as tertúlias em casas das namoradas ou no Grêmio.
Já em Fortaleza, na casa da Avenida Bezerra de Menezes, depois daquelas saudáveis farras de sábado para domingo, terminávamos dormindo nas redes carinhosamente dispostas pela Dona Alderi, no quartinho dos fundos. Lá pelas 10, 11 horas chegava o Professor para conversar, saber como foi a noitada. Ouvia, contava umas daquelas estórias de causos e pessoas de Ipueiras e, depois, uma longa sessão de conselhos e orientações.
Tive o privilégio de ser seu datilógrafo em trabalho literário, um conto que o Professor Costa Matos inscreveu para concurso literário no Paraná, que, por certo foi mais um vitorioso dentre inúmeros em que participou. Na sua atuação como dirigente da Receita Federal, aqui em Fortaleza, lembro de uma solidária manifestação que fez a minha família, na pessoa de um irmão que, caixa de Banco, tivera um grande prejuízo ao pagar a mais um valor de um cheque. A pessoa que recebeu o numerário não foi honesta e levou o dinheiro. Ocorreu falta de caixa. A solução encontrada foi promover uma rifa em que, com a arrecadação, seria coberto o prejuízo. Fui até a Receita Federal e, gentilmente, no seu gabinete, o Professor Costa Matos adquiriu cartelas que muito contribuíram para resolver aquele problema.
Guardo dele o carinho especial que tinha quando se encontrava comigo. Sempre com um sorriso aberto e com palavras para provocar sorrisos. E sempre se dirigia a mim chamando-me Pequeno Tadeu.
Ao nosso grande Poeta, pequeno na estatura física, a lembrança de um conterrâneo que reconhece ser pequeno diante da grandiosidade de exemplos por ele deixados nestes 81 anos de vida terrena.
Abraços do Francisco Tadeu Fontenele.
***
TRÊS POETAS E UMA SAUDADE
Dia quatorze de março
Dia Nacional da poesia.
Presto minha homenagem
Com carinho neste dia,
A três bardos cearenses
Que nos deram alegria.
O céu está em festa
Vejam que constelação,
Com Patativa do Assaré,
E Gerardo Mello Mourão,
Juntos com Costa Matos
Versejando sobre o sertão.
Patativa muito encantou
Aquele que pode escutar
A cantiga da vaca estrela
Junto com o boi Fubá.
E com a “Triste Partida”,
Fez muita gente Chorar.
Nossa cultura popular
Deve muito a Patativa.
Sua alma de poeta
Era de sua terra cativa.
Mesmo com sua partida
Sua história é bem viva.
Cantou as amarguras
De um povo sofredor.
Cantou a beleza da rosa,
Cantou alegria e a dor.
Cantou a vida sofrida
Do pobre agricultor.
Costa Matos meu poeta,
Poeta de minha infância,
Seus poemas que eu li
Quando ainda era criança,
Num livro emprestado,
Ainda trago na lembrança.
Mais tarde eu recebi
Vindo de suas mãos,
Livros a mim ofertados,
E foi grande a emoção.
Pra ele fiz um poema,
Demonstrando gratidão.
O poeta fez de Ipueiras,
Um poema de amor.
Cantou a beleza da serra,
Cantou os ipês em flor,
Cantou os pirilampos,
Com borboletas brincou.
Poeta segue tua trilha,
Pois brilharás no além.
Aqui ficou a saudade,
Dos que lhe querem bem.
Nas alturas sei que os anjos,
Certamente dirão, amém.
Meu muito querido amigo,
Gerardo Mello Mourão,
Dele fui muito próxima
Segurei em sua mão
Cada palavra que ele dizia
Eu ouvia como oração.
Ainda hoje não esqueço
Minhas visitas ao seu lar.
Era ele quem mais falava,
E eu gostava de escutar.
E sua sala de visita
Chegava a me encantar.
Por mim ele foi recebido
Num evento cultural
Na cidade de Ipueiras,
Em nossa terra natal.
Sua alegria era tanta,
E a minha sem igual.
Tenho parte de seus livros,
Que ele mesmo me deu.
Adoro “Rastro de Apolo”,
E “O Bêbado de Deus”.
O livro “Invenção do Mar”
Perde quem nunca leu.
Gerardo se foi há dois anos,
Costa Matos partiu agora.
Março não foi camarada,
A saudade eu sei é grande,
Mas na história ficará
Os feitos destes poetas,
Que gostavam de versejar,
E espalharam pelo mundo,
Um canto bem singular.
Dalinha Catunda
Comentários
(19:27 @ 14/03/2009) Roberto disse:
Tenho a certeza que num futuro qualquer a forte saudade do(a) amigo(a) que partiu será muito menos dolorosa. Rogo a Deus nos abençoe e nos conceda a graça, a grande dádiva de comunicar com os queridos e queridas que partiram antes de nós. Também peço a Deus que me perdoe por ainda não imaginar as possíveis implicâncias de tal pedido. Agradeço a oportunidade de contribuir para a esperança de dias melhores vindouros. Abraços de Viçosa Roberto
(19:48 @ 14/03/2009) Jean Kleber disse:
Excelente coletânea de depoimentos sobre Costa Matos. Emocionante. O blog Ipueiras está de parabéns por prestar essa homenagem de forma singela e criativa. Costa Matos é uma unaimidade entre os que tiveram contato com sua obra e sua pessoa. Todos gostam. Todos querem homenageá-lo. Sentem-se bem assim. Melhor ainda, sentem a necessidade de homenageá-lo. De prestar-lhe reconhecimento. Parabéns ao Marcondes, coordenador do blog, pela arte.