Grupos

 

Desastradamente Artista

 

Auxiliadora Carvalho

 

Considerava-me uma exímia estilista de bonecas de papel, mas minha irmã Alaíde detinha maiores habilidades na arte de figurinista. Muitas vezes ousava lhe roubar algumas para brincar ou copiar os moldes.

 

Certa vez roubei a Madalena. Morena bem maquiada e muito elegante. Sua figurinha favorita.

 

Neste dia, fui brincar com amiga Izalena Moura. Ela perdeu a mãe muito cedo e foi criada pelos avós Seu Zé e D. Nem Moura. Era quase nossa vizinha da casa da Praça Getúlio Vargas, onde moramos, de 1957 a 1959. Ela tinha lindos brinquedos, bonecas de louça e de pano, minimóveis para sala de estar, dormitório e sala de jantar. Era muito amada pelos avós, afável, vaidosa e traquina.

 

A cada sessão de brincadeiras ela me surrupiava figurinhas ou suas roupas, como a maioria de minhas parceiras. Ao chegar em casa, confirmei a rapinagem com desaparecimento da furtada Madalena. Não estava dentro do meu caderno. E agora?! Era aguardar a vistoria da organizada Lalá, que cotidianamente contava e recontava suas figurinhas. Só em pensar na sua fúria e o poder de fogo do seu cocorote na minha “moleira”, me dava arrepios.

 

No aguardo da declaração de guerra da Alaíde para ter de volta a Madalena fui brincar de trapezista no circo montado pela Conceição Morais, filha do seu Moacir Mourão, na área da sua casa, à Rua Pe. Angelim.

 

Meu trapézio era o parapeito da janela. Entrava em cena, saracoteava as pernas como as trapezistas que conhecemos nos circos que passaram por Ipueiras. Depois plantávamos bananeiras, dobrando as pernas sobre o parapeito da janela, ficando lá enganchadas e libertando as mãos fincadas no chão, para saudar a nossa minúscula platéia, composta da meninada da vizinhança.

 

Tal estripulia tinha sido reforçada por um bom prato de baião de dois com torremos crocantes, preparados para nosso jantar pela Maria Gonzaga, empregada da mamãe.

 

Fiz a primeira apresentação, a segunda e a última cambalhota. Palmas... ovações... meus agradecimentos e saio de cena.

 

Graças a Deus, pois uma dor desviada ao lado da costela esquerda estava me tirando o fôlego. Fui pra casa e falei pra mamãe que estava sentada na calçada da nossa casa, sobre a dor que sentia. Achou que era fome e me empurrou um pão umedecido num copo de leite fervido com açúcar.

 

A má digestão aumentou turbinada com o inchaço do pão. A dor se ampliou e o medo de morrer me deixou sufocada. Grito que estou morrendo, pois não consigo respirar. Cada vez que respirava parecia que uma bomba de agulhas estourava nos meus pulmões. A mamãe se socorre no seu Idálio da farmácia. Ele me medica a distância de 50m e manda um vidro de leite de magnésia pra eu tomar. Tomo e não resolve. Já sem forças pra gritar, mudam-me da rede pra cama da mamãe, no quarto vizinho a nossa sala de visitas, fronteira com a rua. Acesso aberto à Praça Getúlio Vargas. Nossa famosa avenida.

 

Meus gritos afligem a mamãe que corre atrás do Dr. Melquíades pra vir me socorrer, mas não estava na cidade. Volta a farmácia do Seu Idálio e ele muda a medicação, mandando-me entornar uma garrafa de água inglesa. E foi muito pior! Meus gemidos atravessaram a avenida e a notícia da minha morte iminente rodopiou nos quatro cantos, da cidade.

 

A vizinhança amiga acorreu para prestar solidariedade à minha mãe que recentemente tinha sido abandonada pelo marido e agora fadada a perder uma filha que padece de uma dor misteriosa. Entre um puxado de fôlego, via chegantes curiosos e penalizados do meu sofrimento. Estavam ali em torno da cama onde me deitaram em posição de moribunda, D. Maria Lima e suas filhas, D. Mocinha e suas filhas, a meninada da avenida, minhas companheiras de circo e sua seleta platéia. Será que vou morrer aos dez anos? Não, naaãoo!

 

Neste ínterim, entra a D. Nem Moura e Izalena. Izalena trazia nas mãos todas as minhas figurinhas por ela surrupiadas, inclusive a Madalena da Alaíde. E me devolveu tudo, com uma ternura de arrependimento traída pelos seus grandes olhos verdes, espertos pelo medo de que eu viesse a falecer e lhe aparecesse depois em forma de visagem, puxando-lhe os cabelos, perturbando sua vida, a lhe cobrar tais figurinhas.

 

Ouvi então sua avó, D. Nem, dando instruções à minha mãe para amornar um litro d’água e em seguida me desse pra beber até vomitar. Se eu conseguisse tal “hugoo”, estaria salva.

 

A água morna, enfiada boca adentro, com mandíbula esguichada pela força das mãos aflitas da mamãe, olhos imperativos da D. Nem e imobilizada pelos músculos retinidos da paciência e fervor do enfermeiro, carinhosamente alcunhado de “Nego Mariano”, chegava ao seu destino. Dito e feito.  Vomitei a seguir o tão apetitoso baião de dois & companhias.

 

Assim Izalena e sua avó salvaram minha vida. D. Nem com sua receita pra má digestão que aviada, foi tiro e queda. Izalena, devolvendo-me as figurinhas, inclusive a Madalena, salvou-me do capeta enfurecido, chamado Alaíde.

 

 

Comentários

(22:12 @ 17/04/2006) Mariah Socorro disse:
Fui especialista em tal brincadeira,a qual me deu suporte para costurar,criar e reinventar modelitos.Sonho ainda fazer um curso de estilismo,pois desenvolvi habilidades de desenho de indumentárias nesta época de menininha. Interessante é que a Barbie (boneca) tem um site em vários idiomas,com toda esta exposição da Cili. Beijos

(20:24 @ 21/04/2006) Solange disse:
Auxiliadora, que interessante o teu conto/memória de infância... Assim cmo tu, também tinha sonhos de artista de circo, principalmente quando eramos visitados por aqueles pequenos circo... trapazias, bailarinas eram os sonhos, pois imaginavámos que tomando azeite de oliva ficariamos com as "juntas" flexiveis... e haja tentativas de subir no trapézio (as árcores)... Hoje vejo o quão rica foi nossa infância de crianças do interior, o simbolicos nos invadia em nossos faz-de-conta próprio do mundo infantil, que sem saber nossos pais estavam contribuindo com nosso desenvolvimento por meio do brinquedo, o que nos dizem os pesquisadores em seus trabalhos, como: Piaget, Vygotsky e outros. Feliz estou com tua contribuição. Abraços, Solange Rosa