Grupos

No adro dessa Matriz, um dia, eu menino dei com ele, cheio de roupas se abotoando. “Zacarias, p'ra que tanta roupa? E ele, em sua lógica: “É meu guarda-roupa. Eu sou o cabide”... Aqui, o duplo tributo: a Zacarias e ao sensível escritor que, no www.ipueiras.com, nos conta a história a seguir:

 

A VIDA DE ZACARIAS

Bergson Frota

O conto que narro é uma história comum.

    A de um homem apaixonado e  não correspondido.

                                                       

    Chamava-se Zacarias, órfão de pai e mãe que junto com uma menina também no mundo sozinha como irmãos foram criados por uma zelosa viúva.

   

Na medida que cresciam, começou o desacerto, o jovem Zacarias se apaixonou por Marilisa a irmã de criação. Para Rufina a viúva, que logo percebeu a afeição, não restava uma saída senão  expulsar o ra­paz.

   

Moravam num sítio distante, mas próximo a Ipu­eiras. Zacarias então tocou o pé na estrada rumando para a cidade.

   

Pensava no amor que deixou, e não foi corres­pondido, no carinho que nunca lhe retornou e quando ele partiu Marilisa sequer chorou, ficou da janela olhando, como costumava fazer quando o vento forte soprava balançando ritmado a copa das carnaúbas.

       

Antes que a jornada findasse, o anoitecer chegou. Era noite de lua cheia, a ladra de sanidade. Enfra­quecido com a dor, rejeitado no amor, foi fácil perder a razão.

 

        Chegou já quase amanhecendo na cidade que vi­sou. Tendo como teto o céu já empalidecendo de estre­las e agasalho o vento frio da madrugada que se des­pedia aos poucos.

   

Virou o louco Zacarias. Um bom doido chamado. Recusava quarto, dormida e rede, como se negasse para si qualquer bem, pois o bem maior já lhe havia sido negado.

 

        Do que falava nada se aproveitava. Suas palavras não tinham sentido.

 

       Misturava os assuntos e muitas vezes cruzava histó­rias verdadeiras às loucuras momentâneas, jun­tando tudo num crescente desconexo que nada mais se entendia.     

                                                                     

        Tinha uma única mania, esta com ela morreu.  Juntava onde encontrava qualquer tipo de anel, assim ostentava aonde ia os dedos cheios das “jóias”.

   

 Na cidade a  poucas pessoas chamava pelo nome, e muitas dessas variações pegaram como apelido.

  

Ingênuo como sempre viveu, vagava nas madru­gadas, percorrendo um mundo desconhecido, que nele se perdeu-se.

 

        Mas sentia sempre uma companhia, dela acu­sava a presença e chamava a atenção quando via seu vulto. Corria ao cemitério, corria para a igreja. Escon­dia nos matos e ficava longo tempo sem ser visto. Quando de novo aparecia, parecia mais um bicho que homem.

 

        Assim Zacarias vivia sua vida, tinha um ca­chorro, amigo inseparável que de cão de rua virou o cachorro do doido. Chamava de Piloto, o pulguenti­nho preto, e com a afeição que os da raça devotam aos donos, pulguentinho era fiel, seguindo-o por onde fosse.       

   

Mas até os loucos amam, e nos sonhos repetia o nome da amada. Acordava e como se nada tivesse acontecido saía procurando anéis pelas ruas seguido do cão que com certa moral acompanhava todo empi­nado o dono maltrapilho.

 

        Uma vez tentaram levá-lo à força para um asilo na capital, mas o cão ajudou-o avisando através dos latidos e ele pôs-se a correr socando-se nos matos, só aparecendo quase duas semanas depois.

   

Nas festas da padroeira, olhava de longe a roma­ria. Gostava de ouvir a música das novenas e sempre que a procissão começava, lá estava ele, acompa­nhando a imagem no meio da multidão.

   

Quem perto estava, dele se arredava, passava portanto num corredor artificial que suas vestimentas e cheiro se encarregavam de dar-lhe. Mas sem que houvesse agressão e os apupos que eram os menores possíveis, mesmo porque do mal  que sofria interior­mente, o que lhe tinha roubado a razão era superior a qualquer ferimento que lhe fizessem as provocações.

   

Mas Zacarias como todo mortal envelheceu. E no envelhecimento passou a ver com mais freqüência a Negra Dama, não via o rosto, mas a roupa preta a co­brir-lhe o corpo e o vento forte a levar para trás o ex­cesso de tecido. Parecia não pisar o chão, quase voli­tando nos mais variados lugares que ele passava.

   

 O louco falava da mulher, da mulher que lhe perseguia, queria que lhe deixasse em paz, queria que a Negra Dama lhe esquecesse. Mas nada de lhe darem crédito, era louco coitado, finalizavam di­zendo.                                                                                                               

        Com o peso dos anos, Zacarias não mais fugia da presença cada vez maior daquele espectro, quando via, corria em direção, então a visão sumia.

   

Certa noite deitado num banco da praça, as ho­ras iam altas, acordou e percebeu que sua cabeça re­pousava no colo da dama. Não se assustou, levantou lentamente a mão e afastou delicadamente o véu que cobria a face do espectro.

  

Era o rosto de Marilisa que lhe sorria, ele devol­veu o sorriso e aninhou-se naquele colo quente.

  

Quando o dia chegou seu corpo jazia, enrijecido pela morte serena, vinda como um presente na fria madrugada do sertão. Ao seu lado Piloto gemia bai­xinho, como se soubesse que seu dono já não mais vi­via. 

 

 

Comentários

(21:31 @ 19/04/2006) Marcondes Rosa disse:
Curioso. Ele chamava minha mãe, Adaísa, de Rufina. E a mim, "Chico da Rufina". Vejam, no conto quem é a real Rufina.

(12:30 @ 30/04/2006) Jean Kleber disse:
Inquietante a narrativa de Bergson Frota, de tão boa. Grande tratamento ao tema Zacarias! Lí várias vezes.O comentário de Marcondes reforça a confusão reinante na mente do personagem. O delírio e a realidade. Parabéns, Bergson!

(15:20 @ 02/05/2006) Anônimo disse:
Gostei da forma, como a vida de um célebre mendigo foi abordada neste trabalho. Parabéns ao autor.

(06:33 @ 31/03/2007) Kosta disse:
Nice! [URL=http://car-detailng.finestcardirect.info/gecko-car-rental-puerto-vallarta.html#] gecko car rental puerto vallarta [/URL] <a href=" http://car-detailng.finestcardirect.info/gecko-car-rental-puerto-vallarta.html "> gecko car rental puerto vallarta </a> http://car-detailng.finestcardirect.info/gecko-car-rental-puerto-vallarta.html gecko car rental puerto vallarta [URL=http://2003-acura.finestcardirect.info/renting-a-car-in-mexico.html#] renting a car in mexico [/URL] <a href=" http://2003-acura.finestcardirect.info/renting-a-car-in-mexico.html "> renting a car in mexico </a> http://2003-acura.finestcardirect.info/renting-a-car-in-mexico.html renting a car in mexico [URL=http://volkswagen-tiguan.finestcardirect.info/audi-engine-power-control-failure.html#] audi engine power control failure [/URL] <a href=" http://volkswagen-tiguan.finestcardirect.info/audi-engine-power-control-failure.html "> audi engine power control failure </a> http://volkswagen-tiguan.finestcardirect.info/audi-engine-power-control-failure.html audi engine power control failure [URL=http://guam-car.finestcardirect.info/tuneup-for-1999-dodge-van.html#] tuneup for 1999 dodge van [/URL] <a href=" http://guam-car.finestcardirect.info/tuneup-for-1999-dodge-van.html "> tuneup for 1999 dodge van </a> http://guam-car.finestcardirect.info/tuneup-for-1999-dodge-van.html tuneup for 1999 dodge van [URL=http://yark-bmw.finestcardirect.info/ford-commercial-more-fun-song.html#] ford commercial more fun song [/URL] <a href=" http://yark-bmw.finestcardirect.info/ford-commercial-more-fun-song.html "> ford commercial more fun song </a> http://yark-bmw.finestcardirect.info/ford-commercial-more-fun-song.html ford commercial more fun song