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Foto da Galeria dos Governantes de Ipueiras

 

RAIMUNDO MOURÃO E MELLO (IN MEMORIAM)

 

Artigo escrito por Gonçalo de Barros Carvalho e Mello Mourão, então Ministro da Embaixada do Brasil em Paris, 08 de setembro de 2000, a pedido de seu pai, o jornalista e poeta Gerardo Mello Mourão, em homenagem a Raimundo Mourão e Mello, por ocasião da morte deste.

 

RAZÕES DE MINHA PRESENÇA NESTA HOMENAGEM

Recebi de meu pai, o escritor e poeta Gerardo Mello Mourão, a incumbência de redigir al­gumas palavras em memória de Raimundo Mourão e Melo, em nome de seus parentes au­sentes de nossa terra. E é profundamente comovido que cumpro a ordem de meu pai, e en­vio esta mensagem ao venerando patriarca de nossa família.

 

É de certo modo simbólica minha presença nesta homenagem. Ela significa que a mais nova geração de nossa gente deseja cultivar e manter intacta a herança de tradição dos que nos engrandeceram pelo exemplo e pela honra de uma vida sem mácula. De uma vida que se há de projetar sobre todos os descendentes do velho tronco de fundadores da civilização cearense na Serra da Ibiapaba e nos sertões do Ceará, mesmo dos que partiram desde cedo para mundos distantes como é o meu próprio caso.

 

Pois, nascido em nossa querida Ipueiras, na casa de meus avós, capitão José Ribeiro Mello e Dona Úrsula, tenho vivido habitualmente longe de nossa cidade, e por força de minha con­dição de diplomata, a serviço do  Brasil no exterior, longe também de nosso  Estado e de nossa Pátria.

 

Confiou-me, porém, meu pai, ao cumprir oitenta anos, a guarda dos documentos, das lem­branças e da memória que compõem a história de nossa gente e de nossa terra. Tenho, des­ses altos da Serra da Ibiapaba, cujos nomes meu pai e, antes dele, minha avó, a professora Dona Esther, vem reunindo cuidadosamente e amorosamente em velhos arquivos destina­dos a manter viva a crônica dos que construíram nossos lares e nossa sociedade.

 

SOB O TROM DOS BACAMARTES

 

Raimundo Mourão era nosso último patriarca, filho do Cel. Alexandre da Silva Mourão Quinto – o quinto de seu nome em sua raça – como o imortalizou um poema de Gerardo Mello Mourão – e de sua mulher, Dona Francisca de Barros Mello, era primo legítimo de minha mãe, primo de meu pai em segundo grau e meu primo em terceiro grau. Sua mãe, Dona Francisquinha, era irmã de minha bisavó. Por parte de seu pai, era também primo de minha avó em terceiro grau, pelo tronco dos Mourões. Seu avô materno, o coronel Alexan­dre de Barro Mello era meu trisavô, e descendemos ambos, em linha  direta, de Dona Ana Mourão e do coronel Jose  de Barros Mello, chamado – o cascavel -, meu quarto avô, fa­moso pelas contendas fratricidas que travou contra o segundo Alexandre Mourão, seu primo carnal e seu cunhado.

 

Nossa terra está marcada pela violência das disputas do século 18 e do século 19, em que se envolveram praticamente todas as famílias da região, pois aqui, somos todos ou quase to­dos parentes, pertencentes todos ao mesmo clã parental, os descendentes de Sebastião Ri­beiro Mello, o primeiro deste nome a chegar aos altos da Ibiapaba, com seu primo legítimo Alexandre Mourão, cunhados também pelos dois lados.

 

Os galhos familiares vêm todos, nesta região, dos Albuquerques, dos Cavalcantis, dos Ma­ranhãos e dos Holandas do primeiro século da colonização, do mesmo tronco de que des­cendem os Martins Chaves, os Araújos Chaves, os Feitosas, os Galvãos, os Sampaios, os Araújos Lima, os Ribeiros Melo, os Lopes Teixeira, os Veras e tantos, tantos outros. E mais ainda: brancos, caboclos, mulatos, mestiços, fidalgos e plebeus, somos quase todos aqui do mesmo sangue

 

O venerando Cel Alexandre da Silva Mourão Quinto, do pequizeiro, como seu genro e so­brinho Cel Lauriano, foram contemporâneos dos rudes tempos em que as pendências natu­rais numa comunidade primitiva se resolvia ao trom do bacamarte. Raimundo Mourão lembrava-se ainda dos tempos em que o coronel era obrigado a descer a serra para Ipueiras com uma centena ou duas de bacamartes e suas tropas reunidas que se alojavam na casa de seu primo e cunhado capitão José Ribeiro Mello.

 

Meu pai se recorda, ainda de ter visto, ainda menino, um arsenal dessas armas de fogo na sala de seu avô e nas mãos dos bravos mourões serranos. Eram outros tempos, os tempos em que não precisava botar votos em uma urna para ganhar eleição, como dizia um canta­dor de feira partidário dos mourões. Os rudes baronetes sertanejos sabiam que não podia ser de outra forma.

 

A truculência está implantada no poder central., aqui mesmo, os bandos de facínoras do Padre Alencar destruíram os engenhos e os lares de pacatos Melos e Mourões e Araújos, e outros, com a mesma atrocidade com que o infame Marques de Aracati sequestrou os bens e a vida do coronel Manuel Martins Chaves, e se desonrou na miséria das perseguições a seu sobrinho Antônio Ferreira, tio do General Sampaio.

 

O pai de Raimundo Mourão, Cel Alexandre Mourão, figura lendária em todos o norte do Ceará, por sua fortuna em terra e pela integridade de seu caráter, ainda viu os último es­tertores da violência institucional da região e tomou a decisão de empenhar sua vida e  sua honra na defesa da justiça e da lei. Viu seu primo e tio de sua mulher, famoso padre Ignácio Ribeiro Mello, de Crateús, assassinado por sicários políticos. Viu seu próprio irmão, o pa­dre Joaquim, abatido a tiros pela truculência de lutas partidárias que se estendiam do Ce­ará ao Maranhão. Viu seu primo, o Cel. Correia Lima, de Crateús, arrastado a prisão. Reu­niu, então, com seu primo, capitão Jose Ribeiro Mello, com o famoso vigário padre Feitosa, com o coronel Borete Mourão, e com o Lauriano Mourão, um exercito de cerca de mil e quinhentos homens armados. Invadiu Crateús e libertou o parente perseguido pela polí­tica.

 

Sua presença na vida de nossa terra foi uma permanente mensagem de conciliação e de paz. Essa mensagem foi além das fronteiras do Estado como em 1930, quando o governador federal e governador do Piaui ameaçaram a vida e liberdade de seu primo, Cel Domingos Mourão, prestigioso chefe político do município piauiense de Pedro II. Em tele­grama histórico, o altivo senhor do pequizeiro advertiu, com a assinatura de algumas de­zenas de parentes, que se tocassem num fio de cabelo do Cel Domingos Mourão, os velhos bacamartes voltariam a troar. O aviso restaurou a paz na região.

 

 

HERDEIRO DO ESPÍRITO CONCILIADOR DO PAI

  

Raimundo Mourão, que se encontra enterrado no santuário do cemitério familiar da Matriz de São Gonçalo, a igreja e a vila fundada por nossos antepassados, cresceu e viveu à som­bra do exemplo conciliador de seu pai. Herdou-lhe os ensinamentos e o prestigio político. Herdou-lhe a honra e o amor a nossa terra. Ficará sepultado no mesmo jazigo onde descan­sam seus maiores, na boa e querida terra que teve o nome mudado de Matriz para Mororó, creio que por sugestão do historiador Hugo Catunda, em homenagem a um de nossos an­tepassados, o padre Inácio de Albuquerque Mello, que tomou o nome nativista de Mororó, e que foi fuzilado em Fortaleza como um dos cabeças da Confederação do Equador.

 

Raimundo Mourão foi chefe de partido, foi prefeito de ipueiras, foi, por 16 anos, represen­tante da câmara municipal, assumindo por quase todo esse tempo a presidência da casa. Ninguém apontará um crime, uma violência, um arranhão na lei e na convivência civili­zada com os que com ele trataram, ao longo de 92 anos. Morre cercado pelo mesmo res­peito que cercou sempre o nome de seu pai. Só tinha um orgulho: o de manter as tradições familiares de sua gente e transmiti-la aos filhos, que soube criar e educar ao lado da com­panheira da vida inteira, sua admirável mulher, Adélia Mourão.

 

A VAIDADE ÚNICA

 

Só tinha uma vaidade: a de dedicar-se ao cultivo das terras que foram de seu pai e conti­nuar a qualidade da fidalguia do mesmo trato rural em seu trabalho de senhor de engenho, onde sabia produzir, com esmero e a honradez do tempo antigo, a dourada aguardente de suas dornas e de seus alambiques. Era apenas uma pequena produção. Mas era um símbolo e um modelo. Eu mesmo guardo aqui no coração de Paris, às margens do Sena, uma pe­quena garra dela, que trouxe meu pai há algum tempo, com o rótulo em que aparece sua saudável estampa de serrano e a marca comemorativa da safra: 90.

 

É uma edição comemorativa de seus 90 anos com uma reserva nobre de cachaça egrégia, destilada por seu pai, há 90 anos, no dia do seu nascimento. Não a abri, guardo-a entre os champanhes, os conhaques, os bordeaux de minha pequena adega de vinhos conspícuos das vinhas francesas. Mas talvez hoje à noite, para saudar sua partida para a eternidade, eu chame o único cidadão de Ipueiras que mora em Paris, alem de mim, o jornalista Frota Neto. E abramos a caninha amarela do engenho dos grossos, em memória do grande e que­rido morto, patriarca de minha terra e de minha tribo. E ao bebermos à memória do grande morto, estaremos honrando e saudando, diante de Deus, em cuja casa ele agora se encon­tra, diante de São Gonçalo e de seus descendentes, e dos descendentes de seus descendentes, a memória e o nome do último príncipe do glorioso País da Ibiapaba, suas Ipueiras, sua Serra dos Cocos e sua  Serra Grande”

 

 

 

Texto enviado por Everardo Mourão,

filho do ora homenageado post mortem:

 

Pousada Nossa Casa
Fortaleza-Ceará
Fone: (55 85) 3267-4440
Site: http://www.pousadanossacasa.tur.br/
E-mail: adm@pousadanossacasa.tur.br

Comentários

(12:56 @ 06/03/2009) Aldo Mourão disse:
Sou descendente direto do Cel.Manoel Borete Mourão e fiquei interessado no seu artigo.Meu e-mail é aldoximenes@hotmail.com entre em contato comigo.

(22:30 @ 13/05/2009) Ivna Mourão disse:
Estou organizando a árvore genealógica da família mourão e preciso de algumas informações a respeito da descendência do Poeta Gerardo de Mello Mourão. Não encontrei o nome dos pais, avós e bisavós. Por gentileza se alguém tiver esta informação, peço que entre em contato por através do email ivnamourao@yahoo.com.br Muito obrigada.

(18:06 @ 15/09/2010) Rafael Mourao Magalhaes disse:
Olá... familia de minha mae e de Ipueiras...E da familia Rodigues Mourão...Tenho muita vontade de conhecer esta terra de guerreiros....

(17:05 @ 12/12/2010) Anônimo disse:
Sou neta de Gonçalo da Silva Mourão de Ararendá, preciso de informaçoes dos seus descendentes.

(21:49 @ 11/03/2011) anny disse:
alguns dizem que sou filha dos mouraos mas nunca ninguem me procurou nao entendo muito bem que enrolada e essa ;queria saber a verdade. anny fortaleza ce

(21:54 @ 11/03/2011) anny de novo disse:
queria saber o restante da familia de raimundo mourao e se ele tem filhos gostaria de conhecer (085) 3478.0284.

(13:52 @ 04/04/2011) Anônimo disse:
Olá, sou bisneta de uma irmã do Gonçalo (Salu), mas realmente fica difícil identificar quem é quem. Se puderes deixar uma forma de entrar em contato... Em relação à pergunta da Anny: Os Mourões somos bem numerosos e se você foi adotada por uma outra família o caso é bastante excepcional.