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Livro autografado a Zequinha pelo "Véio Macho"

 

"Mas não tem outra mais bonita no lugar"

 

José Bento Neto (Zequinha)

 

O maior representante da música nordestina, Luis Gonzaga, em uma tarde de domingo, dia em que o trem vinha de Fortaleza para Crateús, como sempre atrasado, para não fugir à tradição da Rede de Viação Cearense (R.V.C.), mais conhecida com “Rapariga Velha e Cansada”, permitiu-me a oportunidade de ver o Rei do Baião transitando por Ipueiras. Foi no dia 19.06.66.

 

  Eu trabalhava, na época, no Banco do Nordeste, na vizinha cidade de Nova Russas. Infalivelmente, aos sábados, eu, a Miraugusta e minha filha Dalvinha, ainda com menos de l ano, passávamos o fim de semana na nossa querida terra, Ipueiras. Voltávamos no domingo, sempre de trem, já que era o único transporte "confortável". De jeep, nem pensar, já que a duração da viagem de Ipueiras para Nova Russas era de 3 horas. Isto quando não chovia. (Os não muito recentes se lembram da PASSAGEM DAS COBRAS, depois do Charito? Depois de uma chuva forte, não passava ninguém). 

 

  Fomos avisados pelo Rodolfo, agente da estação, de que o trem atrasara, mais uma vez. Logo em seguida (coisa rara), vimos uma Rural Wills se aproximando da Estação, vindo das bandas do Ipu. Pela quase inexistência da estrada, diríamos que era um RALLY. O carro parou em frente à banca da Dona Maria Capoeira. Desceu Luis Gonzaga com seus acompanhantes. Vinham com fome. O Rei foi logo pedindo que a Dona Maria preparasse bastante "orelha de porco" (era assim que ele chamava aquele gostoso bolo de milho feito pela Dona Maria. Walmir, sei que você ainda não esqueceu do sabor daquele bolo). Tinha pressa, já que deveriam, ainda naquela noite, se apresentar em Crateús.

 

Comeram bastante. Eu me antecipei e paguei a despesa. Quando ele pediu a conta, a Dona Maria lhe informou que eu já havia pagado. Fazendo-se de surpreso, ele perguntou por que eu pagara, se eu nem sabia quem era ele e o que era que eu estava querendo. Respondi que eu sabia quem era ele e pediria que ele cantasse um pouco para nós. Recebi uma proposta: ele cantaria, mas eu teria de conseguir vender 10 exemplares do livro "O Sanfoneiro do Riacho da Brígida”, de autoria de Sinval Sá, que relata a sua vida. Comprei logo um, que tem a seguinte dedicatória: "Para José Bento Neto, com um abraço do "Veio Macho". Luis Gonzaga. Ipueiras, 19.6.66”.

 

 A duras penas, consegui cinco compradores. Lembro-me de que um deles foi o Cláudio Catunda, hoje falecido. Vendo que eu não conseguiria vender mais, ele convocou a turma que o acompanhava (fazia parte o Meio Quilo), subiram em um banco de madeira que existia na Estação e cantou: O Xote das Meninas, Asa Branca, A Volta da Asa Branca, Ô Veio Macho. Finalizou, aproveitando o fato de eu estar com a minha filha nos braços e, apontando para ela, cantou: “Vai boiadeiro que a noite já vem (...) MAS NÃO TEM OUTRA MAIS BONITA NO LUGAR”...

 

Na despedida, ele perguntou qual a minha profissão. “Bancário” - respondi-lhe. Então ele, com toda aquela simpatia, brincou: “Bento Bancário, coitado, nasceu p’ra BB”!

 

 

 

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