Mãos Paternas (Bergson Frota)
15:23 @ 21/12/2009
Mãos Paternas
No começo ainda distante vêm-me a lembrança. E lá estava ele, a chamar-me, estirando o braço e dando-me a mão para que juntos, de calção de banho, fôssemos ver a cheia na ponte do rio que naquela manhã chuvosa inundava parte da cidade, e eu medroso apertei-a como um porto seguro e criando coragem fui.
Depois suas mãos guiavam-me na já antiga máquina de datilografia, corrigia-me, mostrava-me os acentos, como marcar e separar parágrafos, por fim a colocar a fita bicolor vermelha e preta, coisa que não demorei a aprender.
Corria o tempo e nos quinze anos, seu aperto de mão a parabenizar-me, e um relógio que sonhava ganhar. Suas mãos a conformar-me batendo nas costas de forma branda ensinando paciência quando eu muito precisava.
Suas mãos levantadas ao alto, agitadas a orgulhar-me, quando discursava nos palanques eleitorais, festivos ou para alguém homenagear. Suas mãos generosas no que sempre precisei, a cuidar para que nada me faltasse.
Suas mãos agora necessitadas das minhas no seu já frágil e incerto andar. Suas mãos meu Pai, inertes e frias deitadas a descansar para sempre, e só no meu coração sentia sem poder chorar, frias, sem movimento.
Não as toquei, olhava doído na alma seu partido, e vezes sem conta naquela noite triste e mais longa até agora na minha vida, muito mais que seu rosto eu as fitei.
Mãos tão queridas, instrumentos abençoados do seu coração.
Bergson Frota
Publicado no O Povo em 19.12.2009
Comentários
(18:27 @ 21/12/2009) Dalinha Catunda disse:
Olá Bérgson, É muito bonito ver o sentimento brotando do seu coração e sendo tão bem traduzido em palavras. Quando falamos com o coração inevitavelmente emocionamos a nós mesmos e aos outros. Meu abraço carinhoso, Dalinha
(23:15 @ 21/12/2009) Bérgson Frota disse:
Agradeço suas palavras Dalinha, sempre de incentivo, pena que a postagem não respeitou parágrafos, li não como um texto e sim uma oração.
(13:32 @ 23/12/2009) Lurdinha disse:
Amei sua homenagem ao pai, seu Jeremias nos deixou saudades.