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Súplica de um rio

 

         Quando nasci já faz tanto tempo, que nem lembro mais. Tudo às minhas márgens era verde. Cheias de matas altas e árvores troncosas que arriavam os braços para molhar-se na minha água barrenta e rápida. Enquanto seus outros galhos mais altos balançavam-se ao sabor do vento constante.

 

         Descia eu orgulhoso refletindo a luz do sol ou da lua quando esta aparecia. Serpenteando naquela terra só minha, fazendo várias coroas e redemoinhos, levando troncos.

 

         Tudo era meu, tudo era eu.

 

         Quando caía a chuva, e milhões de pingos desciam no meu leito, eu levantava meu nível e entrava no canavial fazendo ser uma parte verde de meu leito. Deixando quando saía uma lodosa terra.

 

         Então vieram os homens, e lá na parte mais alta, construíram uma ponte que de tanto tentar, demorei mas acabei por levar.

 

         Deram-me como punição duas novas pontes, altas, fortes e de muita base.

 

         Mostraram sua força tirando terra e mais terra do meu leito. Cavando inúmeras cacimbas que mais pareciam crateras.

 

         Jogaram nas minhas margens lixo, desviaram para mim esgotos, e finalmente de tanto me açorearem mudei, e com isso modifiquei todo o terreno próximo.

 

         Perdi as árvores companheiras de margem e o pouco da vegetação nativa quer havia sobrado.

 

        Já seco e desesperado eu, um rio, peço cá meu último pedido.

 

        Permitam-me uma fonte perene de água, criem nas minhas nascentes açudes que me garantam água o ano todo, deixem que ela corra livre novamente pelo meu caminho, essa foi a única coisa que sempre desejei.

 

        De um rio que agoniza.

        Assina Jatobá,

                                                                                              Ipueiras-CE

          

                                                                                            Bérgson Frota

 

 

                                  Publicado no O Povo em 30.01.2010

Comentários

(23:46 @ 01/03/2010) Lurdinha disse:
Eita Bérgson só mesmo rezando muito é que eles constrem este açude. Beijos.

(08:37 @ 02/03/2010) Semog kid disse:
Saudade do nosso velho rio cheio e eu ainda adolescente pulando da ponte velha, oh coisa boa se o jatobá ficasse cheio o ano todo. Vamos sonhar.

(18:40 @ 02/03/2010) Anônimo disse:
É mais fácil os políticos que mandam em Ipueiras hoje desmembrarem a Matriz, tendo em mãos a culpa de ter diminuído o município do que encher o rio permanentemente. Quem sabe mandem asfaltá-lo.

(17:31 @ 05/03/2010) Leandro disse:
Parabéns pelo artigo Bérgson.

(14:53 @ 18/03/2010) Anônimo disse:
a culpa também é de vocês filhos ilustre que diz seres,e ficam parados esperando que o velho jatobá morra.quem atira a primeira pedra para salvar o jatobá?