A Cabra Preta (José Bento Neto - Zequinha)
10:39 @ 17/05/2006

A CABRA PRETA
Ele morava lá p’ras bandas do Lamarão. Raramente ia à cidade, que ficava próxima. Passava o dia tangendo cabras, colhendo saborosas mangas daquele lugarejo, tomava banho no açude e, no inverno, no rio Jatobá, que passava perto. Preenchia o tempo caçando, pegando preá nas gangorras, e pássaros nas arapucas que ele armava. Assim levava a vida.
À tardinha, ao ouvir o sino da Matriz de
Uma cabra preta, de estimação, só dormia no pé de uma forquilha, fincada no terreiro. Ela não cedia aquele lugar para mais ninguém. Era como uma sentinela a vigiar algum tesouro escondido.
O João de Deus − assim é que ele era chamado − tinha seus sonhos e acreditava neles. Ultimamente, vinha se repetindo um sonho que estava a lhe varrer a paciência. Uma pessoa lhe mostrava uma praça, que dizia ser na cidade de Pedro II, no Piauí. Nesta praça. trabalhava um sapateiro, já de idade avançada, com a visão bastante fraca e que recorria à claridade do sol, para conseguir consertar e colocar meia-sola nos sapatos velhos.
Numa dessas noites, a pessoa que aparecia nos sonhos, disse ao João que se ele fosse àquela cidade e se postasse, naquela praça, às 4 horas da tarde, em frente à tenda do sapateiro, ele encontraria uma botija, no momento em que a sua sombra atrapalhasse a visão daquele senhor.
Como iria o pobre do João até Pedro II? Não poderia contar o sonho para ninguém, pois sabia que, se contasse o que tivesse na botija, tudo viraria carvão. Resolveu vender as criações. Só não venderia a cabra preta. A família não entendeu o por que daquela venda, nem tampouco da viagem. Juntou mais alguns trocados que pedia emprestado, procurou saber onde era esta tal de Pedro II e botou o pé na estrada. Pedia arrancho e explicava aos moradores que lhe davam abrigo, que estava indo ao Piauí, para concretizar um sonho.
Passou pelo Engenho do Seu Otacílio, pela Oiticica do Zé
Reconheceu a praça que vira no sonho. Viu a tenda do sapateiro. Esperou que desse as 4 horas da tarde. Com o coração batendo forte, parou em frente ao sapateiro, tendo o sol poente às suas costas. Não deu outra. O mestre, um tipo ranzinza, levantou a vista por cima dos óculos, reclamou para que o João não lhe fizesse sombra, pois tinha muito serviço ainda para fazer. O João pediu-lhe desculpas e contou o por que da sua presença alí. Contou-lhe de todos os sofrimentos da viagem e lhe falou da botija que existia naquele local. O velho olhou para ele, balançou a cabeça e lhe disse: “Meu filho, você é mais um égua que acredita em sonhos. Veio lá do Ceará, de uma tal de
O João sorriu, pediu mais uma vez desculpas ao velho. Todos os sofrimentos da volta ele tirou de letra. Voltou radiante, com a certeza de que a Pretinha continuava a guardar o seu tesouro.
Chegou ao Lamarão. Esperou que anoitecesse. Depois da meia noite, pegou uma enxada, desenterrou a forquilha, tendo com companheira a cabra preta, a vigiar tudo, não permitindo que nenhum lobisomem se aproximasse, para impedir que o nosso homem desenterrasse o seu tesouro. E como tinha moedas e jóias nas panelas de barro que ele desenterrou!...
Quem sabe se ainda não existem outras botijas, à espera de pessoas que acreditem em sonhos? Que tal a gente procurar lá em
José Bento Neto (
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