Grupos

A vida acontece em grupos.

Quadro de José Fernandes

 

OS CIRCOS DE MINHA INFÂNCIA

 

Auxiliadora Carvalho

 

No mundo dos circos que se armaram nas praças de Ipueiras menina, rodopiavam nossos vários mundos, como furacões galáticos. A alegria era intensa e durava o necessário para satisfação da platéia e do caixa da companhia circense. Era entretenimento de todas as idades. A programação dependia do status da companhia: rica ou pobre.

 

A rica tinha vários números: risonhos palhaços, trapezistas voadores, hábeis equilibristas, corajosos domadores de animais ferozes, dramas e comédias. Contavam com lindos atletas, desenvoltos atores e frenéticas atrizes, sotaques diferentes, cobertas de lonas coloridas, caminhões que serviam como casa de gente e de bichos. A trupe pobre era chamado de mambembe. Faltava tudo menos o riso das palhaçadas. Todos entretanto tinham em comum a abertura - Orrreeespeitável Públicooo!- e a curiosidade das pessoas bisbilhoteiras da cidade sobre aquele estranho modo de vida, entre as quais, me incluo.

 

O universo circense continha a amplidão teatral da vida expressa nas comédias, nos dramas incluindo-se também a tragédia. Nele, a arte imita a vida como a vida imita a arte. Os iniciados interpretam seus papéis impostos e textos decorados. Têm diretor de cenas, “ponto” e improvisação regulada. Há instantes em que os notáveis são os rebeldes que criam novas cenas. Também são meritórios aqueles que recortam e colam cenas dos diferentes espaços e tempo. E assim se vai construindo um viver até o final do último ato. Deriva daí minha fascinação de histórias sobre circos, seus palcos e atores.

 

Quando levantavam suas coloridas lonas, deixavam seus retalhos para serem costurados pelas mãos hábeis da nossa imaginação pueril. Os quintais das nossas casas transformavam-se picadeiros, com trapézios voadores e palcos para apresentação de dramas. Em muitas vezes, valia-se apenas de uma janela, com corpos em remelexos em companhia de palhaçadas e curtos monólogos improvisados e melodramáticos a atrair platéia.

 

Éramos estrelas do nosso planeta circense. Cada um com sua habilidade e brilho. Ali se expressavam com ardor e fé nossos sonhos de correr mundo, viajar, ser independente e alegrar vidas como aquelas trupes que desfilavam pelas nossas ruas e praças.

 

Portanto, dê-me a mão e vamos mergulhar nas águas cristalinas das memórias vivas e voar na dimensão dos sonhos, pelos atos e cenas destas histórias, que podem ser real e ficção.

 

 

 

BALDE D´ÁGUA NELES!

 

Há quantas lembranças pequeninas, mas, solidamente congeladas, das proezas dos palhaços no circo do quintal do Seu Chico Terto e da D. Neném, pais do Zé Almir. Tinha platéia ruidosa. Pra lá acorria quase toda meninada das ruas da Praça da Igreja e da Praça Getúlio Vargas.

 

Famoso pelas apresentações das palhaçadas e números musicais. Os que não pagavam entrada, penduravam-se nos muros vizinhos, do seu Juarez Catunda ou do Seu Cláudio Esmeraldo, e ou nos galhos das árvores próximas, para espiar o que estava a acontecer lá dentro.

 

Nossa! Quando se ouvia o vozeirão de Zé Almir a anunciar:

 

- Orespeitáaaaaavel Púuuuuublico!

 

Nossa adrenalina infantilmente turbinada nos dava forças de escalar aquele muro pra ver as piruetas do palhaço Cavaquinho, Sulerado e outros tantos famosos. Ou então ouvir os números musicais das famosas cantoras Maria do Carmo do Seu Chico Terto e a Marlene do Seu Plínio.

 

Terminado os números, desprendíamos de uma vez da amurada, pelo faltar de forças musculares, mãos avermelhadas e doloridas, mas cheias de emoções, que amorteciam nossas violentas quedas sobre a calçada.

 

Numa das vezes a platéia excluída era tão numerosa que os organizadores jogaram vários baldes d’água, para afugentá-la.

 

AS ASAS FRÁGEIS

 DE UM TRAPEZISTA VOADOR

 

Todos gostavam de circos inclusive nossos pais. Vibravam com nosso “empreendedorismo” e, ao mesmo tempo, nós lhes causávamos muitas aflições. Havia e fazia parte, muita intrepidez dos informais artistas que resultavam em muitas aflições.

 

Certa vez, armou tenda em nossa cidade, um famoso circo com trapezistas voadores. O nome da apresentação era “Vôo da Morte”. Viche!!! Era o seu principal número e sempre ficava como atração final a garantir uma rechonchuda bilheteria.

 

Eram dois fortes trapezistas, auxiliados por uma escultural trapezista, bem vestida de maiô azul com capa brilhante. Sua função era jogar os trapézios e ajustá-los no tempo exato do encontro dos artistas alados que após três piruetas no ar, sobre uma espaçosa rede de proteção, entusiasmavam a platéia.

 

O circo partiu. Arnóbio do Seu Abdul resolveu então montar o número num improvisado picadeiro, no quintal da sua casa. À época éramos vizinhos. A lide doméstica da D. Mocinha foi alterada com aquele vai-e-vem da meninada pelo corredor da sua casa, ansiosa pelo replay do famoso “Vôo da Morte” a ser apresentado pelo Arnóbio com a ajuda do irmão Batéia, dos amigos Raimundo Frota do Seu Idálio, meu irmão Melquizedec e outros mais.

 

Dividiram-se as tarefas. Uns varriam o quintal, outros montavam picadeiro. Uns corriam às suas casas em busca de cadeiras para montar os assentos da seleta platéia. E, Arnóbio, com seus auxiliares, escalava as tamarindeiras a escolher os mais nobres galhos para sua tal proeza. Amarraram as cordas dos dois  trapézios nos galhos mais altos de duas das mais frondosas do seu quintal.

 

Ensaiaram o vôo. Enquanto um auxiliar jogava um trapézio para o Arnóbio, o outro aguardava parado e preso por uma corda. Só lançado na hora exato do final do vôo.

 

Tudo estava pronto para o espetáculo.

 

Ouviu-se o refrão:

 

- Orespeitáaavel Púuuuublico! Apresentamos ... o trapezista Arnóbio! Com sua coragem e bravura realizará o Vôo da Morte! Número ansiosamente esperado por nossa platéia e pra quem pedimos os aplausos!

 

Palmas, ovações, gritos de “bravo”...

 

Surge Arnóbio, vestido à caráter, sob nossos olhares ansiosos. Sobe no trapézio e começa o forte balançar conforme o já ensaiado número.

 

Seu Abdul e D. Mocinha assistiam com olhar aflição, o aprovado desafio do filho à tal lei da gravidade. E finalmente Arnóbio despregou-se do trapézio e ....voou! Como um Ícaro, suas asas frágeis não conseguiram pousar suavemente no outro trapézio e caiu!

 

Oh! Meu Deus! Fez-se um coro. Correram todos em seu socorro. Lágrimas no lugar de aplausos. Levaram o intrépido Arnóbio, desacordado, desfalecido para um leito em sua casa.

 

Notícia ruim corre depressa naquele mundo nosso tão grande e tão pequeno. E lá se anunciavam em todas as bocas: “O Arnóbio do Seu Abdul foi fazer o Vôo da Morte e pois num é que fez mesmo!...” Ele ficou em coma. Agonias, tristezas e esperanças de sua recuperação sobrevoaram o leito daquele venturoso trapezista, sob os cuidados de Dr. Melquíades, Seu Idálio, sua família e as orações dos amigos. Veio acordar, após algumas semanas, para alegria de todos.

 

Sabedora sou de que seus vôos continuam até hoje, mas com asas fortalecidas a encantar, com certeza, o colorido circo da sua vida.

 

BENEDITA BACURAU

 

Um circo estava na cidade. Ouvia-se pelas ruas o grito do palhaço convocando todos para a estréia. Seguiam-lhe um bando de meninos que corriam para acompanhar os passos largos de suas pernas de pau.

 

- Hoje tem espetáculo?

E o coro de moleques respondia:

-     Tem, sim senhor!

E anunciava.

-     Oito horas da noite?

-     É, sim senhor! Gritava a negrada...

E ia se alternando os refrões:

-        E o benedito bacurau?

-        Ta no ôco do pau!

-        Tua mãe é uma coruja!

-        E teu pai é bacurau.

 

 

Recordo-me que ao percorrer a Rua Padre Angelim, onde morávamos, Benedita, filha do Sr Neton Mourão, neta do nosso vizinho Sr. Josué Mourão, esbravejava e chorava muito, pois ouvia “benedita bacurau” e achava que era com ela. Pela ingênua e pouca idade não percebia que era o nome “bendito”, gritado “benedito”, de forma errada...

 

 

Comentários

(20:27 @ 21/05/2006) Tadeu Fontenele disse:
Marcondes, com mais este trabalho o blog está caminhando para condensar o tão sonhado livro da Dalinha feito por ipueirenses ?

(21:35 @ 21/05/2006) Dalinha Aragão disse:
Pois é Tadeu, tudo tem seu tempo. Bento Auxiliadora abrem um leque de ótimos trabalhos, que cairiam como uma luva, para o tão sonhado projeto do livro

(22:29 @ 21/05/2006) Teresinha disse:
Parabens Cili, vc está se revelando uma excelente escritora, sem contar que ainda nos transporta a uma época onde éramos feliz e não sabíamos. Nota 10.

(10:11 @ 23/05/2006) Jean Kleber disse:
Auxiliadora se encanta com o circo e nós nos encantamos com a sua narrtiva. Eu havia tentado por duas vezes dar meu depoimento, mas deu "erro". Por isso há um registro extra de comentários. Parabéns Auxiliadora!