Os circos de minha infância (Auxiliadora Carvalho)
17:59 @ 21/05/2006
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Quadro de José Fernandes
OS CIRCOS DE MINHA INFÂNCIA
No mundo dos circos que se armaram nas praças de
A rica tinha vários números: risonhos palhaços, trapezistas voadores, hábeis equilibristas, corajosos domadores de animais ferozes, dramas e comédias. Contavam com lindos atletas, desenvoltos atores e frenéticas atrizes, sotaques diferentes, cobertas de lonas coloridas, caminhões que serviam como casa de gente e de bichos. A trupe pobre era chamado de mambembe. Faltava tudo menos o riso das palhaçadas. Todos entretanto tinham em comum a abertura - Orrreeespeitável Públicooo!- e a curiosidade das pessoas bisbilhoteiras da cidade sobre aquele estranho modo de vida, entre as quais, me incluo.
O universo circense continha a amplidão teatral da vida expressa nas comédias, nos dramas incluindo-se também a tragédia. Nele, a arte imita a vida como a vida imita a arte. Os iniciados interpretam seus papéis impostos e textos decorados. Têm diretor de cenas, “ponto” e improvisação regulada. Há instantes em que os notáveis são os rebeldes que criam novas cenas. Também são meritórios aqueles que recortam e colam cenas dos diferentes espaços e tempo. E assim se vai construindo um viver até o final do último ato. Deriva daí minha fascinação de histórias sobre circos, seus palcos e atores.
Quando levantavam suas coloridas lonas, deixavam seus retalhos para serem costurados pelas mãos hábeis da nossa imaginação pueril. Os quintais das nossas casas transformavam-se picadeiros, com trapézios voadores e palcos para apresentação de dramas. Em muitas vezes, valia-se apenas de uma janela, com corpos em remelexos em companhia de palhaçadas e curtos monólogos improvisados e melodramáticos a atrair platéia.
Éramos estrelas do nosso planeta circense. Cada um com sua habilidade e brilho. Ali se expressavam com ardor e fé nossos sonhos de correr mundo, viajar, ser independente e alegrar vidas como aquelas trupes que desfilavam pelas nossas ruas e praças.
Portanto, dê-me a mão e vamos mergulhar nas águas cristalinas das memórias vivas e voar na dimensão dos sonhos, pelos atos e cenas destas histórias, que podem ser real e ficção.
BALDE D´ÁGUA NELES!
Há quantas lembranças pequeninas, mas, solidamente congeladas, das proezas dos palhaços no circo do quintal do Seu Chico Terto e da D. Neném, pais do Zé Almir. Tinha platéia ruidosa. Pra lá acorria quase toda meninada das ruas da Praça da Igreja e da Praça Getúlio Vargas.

Famoso pelas apresentações das palhaçadas e números musicais. Os que não pagavam entrada, penduravam-se nos muros vizinhos, do seu Juarez Catunda ou do Seu Cláudio Esmeraldo, e ou nos galhos das árvores próximas, para espiar o que estava a acontecer lá dentro.
Nossa! Quando se ouvia o vozeirão de Zé Almir a anunciar:
- Orespeitáaaaaavel Púuuuuublico!
Nossa adrenalina infantilmente turbinada nos dava forças de escalar aquele muro pra ver as piruetas do palhaço Cavaquinho, Sulerado e outros tantos famosos. Ou então ouvir os números musicais das famosas cantoras
Terminado os números, desprendíamos de uma vez da amurada, pelo faltar de forças musculares, mãos avermelhadas e doloridas, mas cheias de emoções, que amorteciam nossas violentas quedas sobre a calçada.
Numa das vezes a platéia excluída era tão numerosa que os organizadores jogaram vários baldes d’água, para afugentá-la.
AS ASAS FRÁGEIS
DE UM TRAPEZISTA VOADOR
Todos gostavam de circos inclusive nossos pais. Vibravam com nosso “empreendedorismo” e, ao mesmo tempo, nós lhes causávamos muitas aflições. Havia e fazia parte, muita intrepidez dos informais artistas que resultavam em muitas aflições.
Certa vez, armou tenda em nossa cidade, um famoso circo com trapezistas voadores. O nome da apresentação era “Vôo da Morte”. Viche!!! Era o seu principal número e sempre ficava como atração final a garantir uma rechonchuda bilheteria.
Eram dois fortes trapezistas, auxiliados por uma escultural trapezista, bem vestida de maiô azul com capa brilhante. Sua função era jogar os trapézios e ajustá-los no tempo exato do encontro dos artistas alados que após três piruetas no ar, sobre uma espaçosa rede de proteção, entusiasmavam a platéia.
O circo partiu. Arnóbio do Seu Abdul resolveu então montar o número num improvisado picadeiro, no quintal da sua casa. À época éramos vizinhos. A lide doméstica da D. Mocinha foi alterada com aquele vai-e-vem da meninada pelo corredor da sua casa, ansiosa pelo replay do famoso “Vôo da Morte” a ser apresentado pelo Arnóbio com a ajuda do irmão Batéia, dos amigos Raimundo Frota do Seu Idálio, meu irmão Melquizedec e outros mais.
Dividiram-se as tarefas. Uns varriam o quintal, outros montavam picadeiro. Uns corriam às suas casas em busca de cadeiras para montar os assentos da seleta platéia. E, Arnóbio, com seus auxiliares, escalava as tamarindeiras a escolher os mais nobres galhos para sua tal proeza. Amarraram as cordas dos dois trapézios nos galhos mais altos de duas das mais frondosas do seu quintal.
Ensaiaram o vôo. Enquanto um auxiliar jogava um trapézio para o Arnóbio, o outro aguardava parado e preso por uma corda. Só lançado na hora exato do final do vôo.
Tudo estava pronto para o espetáculo.
Ouviu-se o refrão:
- Orespeitáaavel Púuuuublico! Apresentamos ... o trapezista Arnóbio! Com sua coragem e bravura realizará o Vôo da Morte! Número ansiosamente esperado por nossa platéia e pra quem pedimos os aplausos!
Palmas, ovações, gritos de “bravo”...
Surge Arnóbio, vestido à caráter, sob nossos olhares ansiosos. Sobe no trapézio e começa o forte balançar conforme o já ensaiado número.
Seu Abdul e D. Mocinha assistiam com olhar aflição, o aprovado desafio do filho à tal lei da gravidade. E finalmente Arnóbio despregou-se do trapézio e ....voou! Como um Ícaro, suas asas frágeis não conseguiram pousar suavemente no outro trapézio e caiu!
Oh! Meu Deus! Fez-se um coro. Correram todos em seu socorro. Lágrimas no lugar de aplausos. Levaram o intrépido Arnóbio, desacordado, desfalecido para um leito em sua casa.
Notícia ruim corre depressa naquele mundo nosso tão grande e tão pequeno. E lá se anunciavam em todas as bocas: “O Arnóbio do Seu Abdul foi fazer o Vôo da Morte e pois num é que fez mesmo!...” Ele ficou
Sabedora sou de que seus vôos continuam até hoje, mas com asas fortalecidas a encantar, com certeza, o colorido circo da sua vida.
BENEDITA BACURAU
Um circo estava na cidade. Ouvia-se pelas ruas o grito do palhaço convocando todos para a estréia. Seguiam-lhe um bando de meninos que corriam para acompanhar os passos largos de suas pernas de pau.
- Hoje tem espetáculo?
E o coro de moleques respondia:
- Tem, sim senhor!
E anunciava.
- Oito horas da noite?
- É, sim senhor! Gritava a negrada...
E ia se alternando os refrões:
- E o benedito bacurau?
- Ta no ôco do pau!
- Tua mãe é uma coruja!
- E teu pai é bacurau.

Recordo-me que ao percorrer a Rua Padre Angelim, onde morávamos, Benedita, filha do Sr Neton Mourão, neta do nosso vizinho Sr. Josué Mourão, esbravejava e chorava muito, pois ouvia “benedita bacurau” e achava que era com ela. Pela ingênua e pouca idade não percebia que era o nome “bendito”, gritado “benedito”, de forma errada...
Comentários
(20:27 @ 21/05/2006) Tadeu Fontenele disse:
Marcondes, com mais este trabalho o blog está caminhando para condensar o tão sonhado livro da Dalinha feito por ipueirenses ?
(21:35 @ 21/05/2006) Dalinha Aragão disse:
Pois é Tadeu, tudo tem seu tempo. Bento Auxiliadora abrem um leque de ótimos trabalhos, que cairiam como uma luva, para o tão sonhado projeto do livro
(22:29 @ 21/05/2006) Teresinha disse:
Parabens Cili, vc está se revelando uma excelente escritora, sem contar que ainda nos transporta a uma época onde éramos feliz e não sabíamos. Nota 10.
(10:11 @ 23/05/2006) Jean Kleber disse:
Auxiliadora se encanta com o circo e nós nos encantamos com a sua narrtiva. Eu havia tentado por duas vezes dar meu depoimento, mas deu "erro". Por isso há um registro extra de comentários. Parabéns Auxiliadora!