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Estórias bestiais (vários)

17:29 @ 02/10/2006

 

ESTÓRIAS BESTIAIS

 

a) Deixe em paz as jumentinhas

 

            Com esta que vou contar, ressurgem as lembranças do Seu Zeca Bento, meu pai, do Professor Dario Catunda, meu tio e do Professor Antonio Simão.

 

            Nosso professor de matemática do Colégio Estadual Otacílio Mota, Antonio Simão, vez por outra tirava uma folga das suas aulas e não ficava repousando no seu sítio à beira do Açude do Solon. Sua folga era curtida tomando umas pingas. Dos estímulos etílicos surgia o orador, que falava de tudo e de todos, a percorrer as calçadas e ruas próximas ao mercado de Ipueiras, com passos firmes e largos, lembrando, talvez, seu tempo de cadete na Escola Militar das Agulhas Negras, onde estudara.

 

            Os discursos, geralmente com citações filosóficas, eram interrompidos com abordagens que ele fazia aos transeuntes, ora com uma saudação, ora com críticas sutis, ora com referências a atos praticados pela pessoa abordada, que a identificavam na cidade.

 

            Numa dessas ocasiões, ele estava em cena justamente em frente ao Cartório Bento Filho.  Lá dentro, o Tabelião Zeca Bento e o mentor intelectual do cartório, Tio Dario. Estava eu andando na calçada e ao dobrar a esquina para dirigir-me ao cartório, notando a presença do nosso orador, apressei o passo no intuito de evitá-lo, mas ele percebeu minha intenção e gritou: "Hei, você aí. Deixe em paz minhas jumentinhas ou mande milho pra elas".

 

            Tendo aí apressado mais o passo, alcancei o Tio Dario com as mãos na cabeça, entrando nos aposentos, como que escandalizado. Aí, reação de meu pai, encarando-me. Não disse nada, mas me pareceu ter rido por dentro. (Tadeu Fontenele)

 

 

b) Caí do jumento

 

Gostei da história, o que me fez lembrar de quando garoto, após o início de um namorico com a Fatima de Dona Brígida. Fui passar o dia na Barriguda, perto do distrito de Livramento. E, durante o dia, levei uma queda de um jumento. Fiquei todo arranhado.

 

Qual não foi minha decepção quando, ao chegar a Ipueiras. Todo pintado com mercúrio cromo, procurei a Fátima, que, ao me receber, foi logo dizendo: “Essinho aí não dá mais. Vamos terminar”. Além do tombo, a queda...

 

Foi mais uma daquelas noites de decepção, perante os companheiros e as meninas (Edson do Zé Morais) 

c) Besteira também é cultura 

Sem querer botar fogo na fogueira, e já botando, lhe digo: Nós mulheres de Ipueiras, somos traumatizadas com essas histórias "bestiais". Vou acreditar na sua versão para não perder um amigo... Mas também, perdi um namorado por causa de um jumento.

 

O caso se deu mais perto, nas c’roas. Era ali que os meninos amantes da fauna e da flora, se exercitavam. As c’roas do Matim, as c’roas do seu Esmeraldo, e a competição injusta e sem rédeas das "Rochinhas", "girons" ou coisa do gênero.

 

As meninas resistiam aos coiós, mas os jumentos não resistiam aos sucessivos beijinhos, senha que os levariam até o barranco mais próximo, para alegria dos meninos.

 

Talvez a Fátima não tenha acreditado na sua versão. No meu caso, o rapaz me apareceu com o dedão do pé num estado deplorável. Perguntei o que havia acontecido. Antes que ele respondesse, Tadeu Aragão, meu primo, filho do Luiz Aragão, me contou com detalhes o acontecido. Final de romance sem direito a volta. Até hoje não consigo olhar pra cara dele, sem me lembrar da cena. Besteira também é ... cultura (Dalinha)

 

 

d) A vida a brotar do árido chão...

 

Leio as histórias de vocês. E me lembro de cena, no dia em que recebi o título de Cidadão Honorário de Quixeramobim. Na delegação ipueirense ali,  estavam as irmãs Auxiliadora (mais nova) e Adelaide (irmã mais velha). No jantar, ouvi de Auxiliadora o que encarei como elogio: “Puxa! Jamais pensei que você fosse tão grande!”. E, sardônica, ouvi a espetada de Adelaide? “ Pois é! O problema dele sempre foi esse. Ele nunca foi pequeno, criança. Sempre foi ... grande!” 

 

Vejo agora vocês a falar de suas infâncias e adolescentes, em Ipueiras, a penetrar nas metáfora das “histórias bestiais”, “mulheres traumatizadas” disputando os  namorados com as jumentos”. Da vida “nas c’roas”, amantes do mundo da fauna e da flora. E das meninas “resistindo aos coiós”, os jumentos levando os meninos aos barrancos mais próximos...

 

Sim, Dalinha, “besteira também é cultura”.  A naturalística cultura, onde as bestas se fazem professores na iniciação sexual (e sensual) de crianças, adolescentes e jovens...

 

 Em minha adolescência, a natureza, em Petrópolis, foi-me o frio, a névoa, os dedos gelados, o queixo a tremer.  A montanha, a contemplação. No máximo, o escapar para um roubo, no pomar, de um caqui, uma jabuticaba, ou um abricó. E o banho nas águas quase sempre cobertas de névoas.

 

 Sim, parece que, em terra árida, a vida sôfrega brota do chão e do calor dos animais... (Marcondes Rosa)

 

 

 

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