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O MILAGRE DO MEDO

 

 

Jean Kleber Mattos

 

Quando meu pai me contou essa história eu fiquei desconfiado. Algo me dizia que ela não pertencia ao repertório dele. Eu sentia naquela narrativa o toque de seu Wencery, o histórico tabelião de Ipueiras. Marcondes Rosa, filho dele, escreveu, em março de 2006, no “Blog Ipueiras”, uma crônica intitulada “Estórias do Seu Wencery”. Nela descreveu a habilidade do pai em conferir um toque mágico, até sobrenatural, aos causos que contava. Seu Wencery era capaz de transformar um causo numa lenda.

 

Mas enfim, a história é esta:

 

***

 

Na área rural do município de Ipueiras, um sujeito resolveu criar carneiros deslanados. O negócio prosperou tanto que despertou a cobiça de um casal de ladrões. Marido e mulher bolaram uma estratégia quase sempre eficaz, para roubar os carneiros: a  assombração.

 

Uma vez por mês, em noite enluarada e à meia noite, escondiam as montarias num mato perto da curva de estrada mais próxima do criatório. A mulher então vestia um camisolão branco e postava-se em posição de cruz ao lado da estrada. Quem a viu por primeiro encheu-se de medo e espalhou a notícia. O povo passou a ter medo de andar naquele trecho da estrada em altas horas, quando era lua cheia. A colheita era farta porquanto mais de um carneiro era surrupiado por vez e as montarias eram um meio de transporte eficiente.

 

Certo dia, num bar da cidade, alguns homens comentavam sobre a aparição, quando um viajante recém-chegado entrou na conversa.

 

- Besteira! Assombração não existe!- Falou.

- Hoje é o dia - comentou um popular. O senhor tem coragem de ir lá?

- Claro que tenho! Basta que me levem!

 

Um aleijado que, acocorado, escutava a conversa, falou:

- Eu também não tenho medo. Não vou lá porque não posso. Sou aleijado.

- Por isso, não!- retorquiu o viajante - Eu posso carregar você!

- Pois então vamos! - finalizou o aleijado, resignado.

 

Ele andava acocorado, pois o aleijão impedia a flexão das pernas. Era como se a panturrilha fosse colada à coxa. Um carroceiro dispôs-se a levá-los, desde que a uma distância segura do local da aparição. Ele também tinha medo. Chegados ao local combinado, desembarcaram.

 

A distância a vencer a pé, carregando o aleijado, não era grande. Com o andar vacilante o viajante caminhou devagar, já divisando ao longe a temida figura. A mulher, pensando que era o marido trazendo um carneiro, perguntou:

 

- É magro ou é gordo?

Arrepiado de medo, o viajante respondeu:

-Sei lá se é magro ou é gordo...Lá vai!

 

E atirou o aleijado na direção da “coisa”, fugindo dali em desabalada carreira, somente parando ao irromper no bar, onde, esbaforido, literalmente “desabou” sobre uma pobre cadeira.

 

Foi quando viu o aleijado, que chegara antes dele!    

 

 

Comentários

(21:40 @ 14/11/2006) Dalinha disse:
Jean Kleber, A história de autoria duvidosa é simplesmente maravilhosa e voce soube dar o tom certo a narrativa. Adoooro esses "causos".