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Dona Ester por trás dos noivos (Lisboa e Marinês)

 

 

O RETRATO QUE DÓI

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo, Fortaleza, 26/09/1998

 

 

Nos jornais cearenses, uma matéria nos chama a atenção, sobretudo por quem a assina: Gerardo Melo Mourão, um mito nacional. Em verdade, em criança, já lhe ouvia os feitos, nos sertões das Ipueiras, decantados em prosa (pelos adultos) e verso (por violeiros). Na escola, o desenho que me fazia a professora primária, Dona Ester, sua mãe, agigantava-me sua figura.

 

Cearense "longe da terra", Gerardo revisita agora o Ceará, que, no relato de "velhos companheiros de infância, hoje octogenários", lhe dói muito. É que lhe descreveram o mesmo Ceará dos "bacamartes dos mourões", do tacão dos coronéis ou da vontade dos príncipes, supostos carros-chefes da história. Tivesse menos pressa, maior acuidade e melhor ouvisse o povo, perceberia que, a partir dos anos 80, o Ceará rompeu com seu passado, abandonou seu crônico solipsismo e começou a se articular sob a feição coletiva de povo. Nisso, refez o aparelho estatal e o colocou a serviço de um pactuado projeto: sair do secular cativeiro egípcio em busca de uma prometida terra onde, no mínimo, hão de correr dignidade e justiça social. Descobriria que os fantasmas do passado agora cedem lugar a valores como honradez, zelo com a coisa pública, compromisso com o coletivo. E que personalidades como Tasso Jereissati, longe dos adamastores que nos infelicitaram a vida, são, muito ao contrário, a expressão de novos tempos e caminhada.

 

Em sua crônica, o escritor decerto que foi traído pela amizade. É que ela, de repente, desce de plano, assumindo o tom de manifesto eleitoral em favor de candidatos amigos seus. Um documento que, na semiologia jornalística, carrega notórios indícios de "matéria paga". Compreensível até que se queira tributar honras a personagens que, durante a "longa noite do arbítrio", brandiram sua flamejante retórica contra as "baionetas da intolerância". Mas a história avança em vários capítulos, e os cargos públicos não são condecorações do após-guerra nem o senado é, por exemplo, uma trivial galeria de ex-combatentes. O que está em jogo agora é que a representação da sociedade e do Estado se faça guardando fidedignidade com o projeto coletivo tocado por todos nós. Que se devote tributo a quem fez a história, mas que se escalem os atores que hão de tocar essa história para a frente!

 

Para mim, entristece-me o fato de um mito meu desde a infância apequenar-se. Mas tenho a certeza de que, Dona Ester, se viva estivesse, chamaria o aluno e filho, e faria como, certa feita, comigo fez. Pedir-Ihe-ia a mão estirada e, palmatória em punho, por sobre ela lhe despejaria uma dúzia de "bolos", com a lição: Amizade alguma tem mais peso do que a honradez ferida de outrem. Sobretudo quando esse "outrem" é ícone do sentimento coletivo de um povo: dos cearenses!

 

(Transcrito da obra Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza (1995 a 2001).

 

Observação: Dias após o artigo, o professor Antônio Mourão Cavalcante, do clã dos “Mourões”, telefona-me. Gerardo teria dado boas risadas com a inteligência da crônica, admitindo a mágoa contida de laureado no Pais e no mundo e reconhecimento algum pelas instituições do Ceará. Os “bolos de Dona Ester”, nossa professora comum, ele os adorou.  Tempos depois, num lançamento de livro, ele me brindaria com afetivo autógrafo, de um aluno para outro de nossa professora comum. E em Brasília, um dia, em reunião dos conselhos de educação, elegeria Dona Ester símbolo das professoras a nos marcar a todos.

 

Hoje, nossas instituições e entidades governamentais, independentemente da esquerda e da direita tecem merecidas loas a Gerardo Mello Mourão.

Comentários

(13:52 @ 12/11/2006) Jean Kleber disse:
Marcondes, uma crônica magistral, essa. Embora, como V. mesmo declara, não inédita, não a conhecia. Estava perdendo uma preciosa peça de literatura e um testemunho de bom caráter. Parabéns.