A possibilidade de despejo de milhares de famílias dos bairros do Maicá, Uruará, Pérola do Maicá e Área Verde passou a ser motivo de constantes encontros entre os presidentes das associações de moradores das áreas, seus associados e advogados que se prontificaram em resolver a questão na justiça. Uma ação de usucapião coletivo vai ser enviada ao Fórum de Santarém.
Sérios problemas surgiram após a notícia ser divulgada em alguns meios de comunicação de que os herdeiros, Francisco José Pinheiro e João Vasco Pinheiro estariam pedindo a reintegração de posse dos 5 milhões 654 mil e 100 metros quadrados que compreendem os quatro bairros.
A divulgação feita por uma emissora de rádio de uma ação, que ainda não existe na justiça, poderia comprometer o patrimônio que os moradores construíram nos últimos 25 anos. Embora tenha sido esclarecida a impossibilidade de os herdeiros de João da Silva Marques Pinto, hoje falecido, não solicitarem o despejo das famílias, ainda tem muita gente com medo de perder as terras.
Muitos moradores não tiveram oportunidade de saber o que realmente está ocorrendo e aguardam com preocupação a chegada de policiais para fazerem a retirada das famílias. O número de moradores é desconhecido e por não ser área pública do município nenhum dos prefeitos anteriores solicitou ao IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística- dado populacional dos bairros.
Desconforto

A doméstica Amélia Luzia Lopes de Freitas, 33, foi uma das vítimas das informações desencontradas e passou mal assim que soube, por uma emissora de rádio, que o comandante da Polícia Militar, Coronel Porto, estaria com uma ação de despejo em mãos, apenas esperando reforço da PM de Belém para executá-la. “Passei mal porque comprei as terras de outro morador e gastei mais de R$ 10 mil para construir, e de repente, perder tudo é inaceitável, é muito difícil”, frisa a moradora que está há quatro anos no bairro do Maicá.
Ao contrário de Luzia, a aposentada Rubenir Machado do Amaral informa que não ficou surpresa com a notícia. Ela mora há 20 anos no Maicá, em um terreno medindo 20 X 30, e sabe que dificilmente pode ser retirada do local. “Me informei a respeito do assunto e por isso a notícia não me abalou, mas teve gente que entrou em desespero assim que ficou sabendo que os herdeiros haviam entrado com ação na justiça requerendo a área”, lembra.
Na primeira reunião que ocorreu no bairro do Maicá, no dia 20 passado, mais de 200 moradores participaram. “Nunca tivemos a presença tão grande de pessoas. Alguns, em total desespero”, diz o presidente da Associação do Bairro Pérola do Maicá, Raimundo Rodrigues. Ele assegura não ter informações sobre a existência de alguma ação dos herdeiros de João Marques Pinto no Fórum local. Mesmo assim, a idéia de defender o direito de permanecer nas terras continua.
Ele acrescenta que na manhã de quarta-feira, 24, outro encontro foi realizado entre presidentes dos bairros com um dos advogados (Dilton Tapajós) interessados no processo de usucapeão coletivo que vai envolver moradores das quatro áreas.
Outra ação com a mesma finalidade está sendo enviada ao Fórum de Santarém pelo advogado Edson Siqueira Vieira, que vai defender os interesses dos quilombolas que residem no Maicá. Ao todo, são 39 famílias que terão os serviços gratuitos do advogado.
Raimundo Rodrigues enfatiza que Dilton Tapajós propôs cobrar R$ 5,00 por família para fazer o processo. “Estamos negociando, só sabemos que há interesse de movermos uma ação para não perdermos as áreas. Cabe, inclusive, uma negociação entre os representantes de bairros e a prefeita Maria do Carmo para sabermos qual será a ajuda do poder público nesse caso”, informa o presidente.
A ação dos moradores só vai para a justiça após um levantamento de quantas pessoas existem nos quatro bairros e qual o tamanho das áreas ocupadas por elas. Esse trabalho será feito por técnicos da Coordenadoria de Desenvolvimento Urbano (CDU), mas não tem data para começar.
Informação distorcida

O advogado da empresa Granell Armazéns Gerais Ltda, Célio Figueira da Silva, diz que o desespero das famílias que moram nas áreas de propriedade de João Marques Pinto pode ter iniciado por uma entrevista que ele deu a um canal de televisão, mas garante que as informações foram distorcidas e acabaram confundindo os moradores.
Diz que abordou a existência de uma ação de usucapião de uma área medindo 33 hectares no bairro da Área Verde e que foi movida pela Granell em 2003. “Essa empresa é da família Quincó, que resolveu investir na construção de um porto no local e que precisa da documentação definitiva da área. Esse foi o objetivo de ter levado a Granell a entrar com ação na justiça, mas não estamos requerendo as terras para afastar moradores, como foi divulgado”, esclarece.
Ele não acredita na possibilidade de um juiz aceitar uma ação de usucapião coletivo. “É muito complicado, certamente o juiz vai devolver o processo para o advogado e solicitar que cada morador entre separadamente com o pedido, afinal, cada caso é um caso e fica humanamente impossível analisar um processo envolvendo milhares de moradores que tomaram posse de áreas desordenadas”, explica.
Herdeiros
O procurador dos herdeiros de João Marques, Edivaldo Pinto, garante que qualquer ação que possa requerer a posse definitiva da área vai ser contestada pelo advogado da família, João Mendonça. Ele declara que, ao contrário do que foi divulgado na imprensa, ainda não existe nenhuma ação pedindo a reintegração de posse da área.
Ele alerta que um processo de usucapião coletivo vai acarretar muitas despesas aos requerentes, enquanto negociar diretamente com os representantes de João Vasco e Francisco José seria mais viável. “Lógico que podem julgar que temos nossos interesses, mas não tem para onde os moradores correrem porque a documentação das terras está em nossas mãos e assim que seja feita, pela justiça em Santarém, a conclusão do inventário do falecido, será possível o desmembramento das áreas, e cada morador poderá pedir o aforamento de seu terreno, uma vez que atualmente existe um único título definitivo em nome de João Marques Pinto”, explica Edivaldo.
Ele esclarece ainda que se a prefeitura também entrar com ação pedindo indenização de tudo que construiu nos bairros, como escolas e outros patrimônios, outra ação será movida pela família questionando o porquê do investimento já que os prefeitos anteriores sabiam que as áreas não eram públicas.
Apoio- O procurador jurídico do município, Isaac Lisboa garante apoio aos moradores dos quatro bairros. Ele diz que ainda não tem nada definido sobre o posicionamento da prefeita Maria do Carmo, mas assegura que a idéia é contratar o advogado Edson Siqueira Vieira para trabalhar no processo e entrar com ação de usucapião coletivo. “Possivelmente a prefeitura possa ajudar nas custas judiciais e colocar à disposição topógrafos da CDU para fazer levantamento dos terrenos”, diz.
Mesmo sendo uma ação múltipla, é necessária a documentação comprovando o tamanho de cada área ocupada”, diz, ao tranqüilizar as famílias de que não terão nenhuma despesa com o processo.
Enquanto não se resolve o problema, reuniões continuam acontecendo para o fechamento da ação. Na quinta-feira, 26, mais uma foi realizada no escritório do advogado Edson Siqueira, na rua Professor Carvalho, bairro de Fátima.
Na ocasião, a forma como deverá ser montado o processo foi a principal pauta. Nos últimos seis dias, oito reuniões já ocorreram nas associações dos quatro bairros e outras estão agendadas.
O procurador jurídico Isaac Lisboa assegura que trata-se de um processo demorado e que vai necessitar da junção de vários documentos para ser enviado à justiça.
Reportagem, texto e fotos: Albanira Coelho, Meiry Fróis, Meiry Rejane, Ronilma Santos, Cristiane Sales e Rafaela Susana.