A título de reflexão, viver nos dias atuais no entendimento de muitos brasileiros é um grande desafio. Mas o que diria a geração que nasceu em 1906, há um século, como a senhora Idalina Antônia de Jesus: suas declarações sempre são feitas com gentileza, educação, admiração, com simplicidade desprezando a importância que representa para a história do lugar ao completar cem anos de vida, mas sem esquecer de narrar as dificuldades, principalmente para quem teve que sofrer os reflexos da Cabanagem, de duas guerras mundiais, da Depressão de 1929 e da Ditadura Militar. Além disso, fazer coleta de cumaru, jutaicica, extrair o concorrido leite de seringa, somado ao desafio de se alimentar dos raros produtos extrativos colhidos da natureza que já não apresentava tanta fartura, mesmo a cem anos atrás. O meio de transporte para Santarém era de conoa à vela, com a duração de 10 horas de viagem. Esse meio de transporte foi utilizado nesse trecho até 1951, quando foi aberta a estrada para a passagem de carros.
Idalina Antônia de Jesus nasceu no dia 20 de dezembro de 1906, na comunidade de Redenção, próximo da Vila de Alter do Chão, de acordo com o seu registro de nascimento, Carteira de Identidade e outros documentos complementares; filha de Manuel Antônio de Sousa e Virgulina de Jesus, dona Dada, como ficou conhecida em toda a região do Eixo Forte, tinha como esposo Alcides Pedroso Garcia com quem teve cinco filhos. Hoje tem 22 netos, 52 bisnetos e 10 tataranetos. Por isso, é considerada matriarca da família Pedroso. A árvore genealógica dessa família já se mantém na região por mais de dois séculos.
O segredo para uma longa vida
Quando se pergunta qual o segredo para viver tanto, mesmo que tenha sofrido tantas dificuldades, e a lembrança dos fatos que viveu já sejam distantes e muitas vezes já esquecidos, comenta que teve uma vida simples, trabalhando na roça com o plantio de cana, banana, mandioca e fazendo coleta de drogas do sertão. Mas Idalina também não esquece que a vida era bastante divertida e uma de suas maiores paixões eram as danças: Falsa, Puladinha, Entrudo e Carnaval, cujos bailes aconteciam na Sede do Luso Brasil e na casa de amigos. Ao se lembrar dos pedaços da história que viveu, fala satisfeita e feliz como se fosse uma criança e sente muita saudade de muitos momentos da vida simples que viveu, das danças e dos puxiruns – as pessoas se reuniam para trabalhar na propriedade de um morador da comunidade, em seguida o evento se repetia no terreno de cada um dos trabalhadores que participavam daquele puxirum. Muitas vezes esses eventos reuniam até 80 trabalhadores – Idalina lembra que durante o trabalho era uma festa, havia muita comida e bebida. Muitas vezes os homens ficavam porre de tanto beber Tarubá. A metodologia do trabalho era conhecida por todos: as mulheres derrubavam as árvores menores e o mato fino e os homens, seguiam atrás, derrubando as grandes árvores.
Apesar da insistência em descobrir uma receita para tanta longevidade, a alimentação da nossa personagem, no passado, também era muito simples com base no tradicional assado e o cozido, tendo como base o peixe - o charuto - carne de tatu, de cotia e de caititu que ainda se encontrava nas matas do Eixo Forte naquela época. Idalina sempre morou no Sítio Redenção, uma localidade que se situava entre a comunidade de Caranazal e a Vila de Alter do Chão, um local tranqüilo e pacato.
O Sairé naquela época
A história também registra que o Sairé acontece na Vila de Alter do Chão há mais de três séculos, mas segundo ela o evento nem sempre ocorreu com regularidade. Idalina conta que nessa nova versão teve o privilégio de participar do primeiro Sairé e....rá..rá..rá... solta a gargalhada com a satisfação de uma pessoa feliz e diz que por muitos anos dançou o Corimbo, Lundum, Marambiré e a Desfeiteira. Embora já demonstre cansaço, mas os lapsos da memória ainda trazem algumas lembranças do passado tenta cantar alguma música da época, mas não consegue lembrar da letra e da melodia. No entanto, lembra de dois versos da Desfeiteira: “...Atirei com limão verde por cima do lampião, deu no padre, deu na pia, deu na moça que eu queria... e....rá..rá..rá...”. Solta a gargalhada e manda outro. ...”Tirei meu coração e o deixei em cima da calçada, você não fez nada, só me fez apaixonada.... e....rá..rá..rá..”. Ri novamente. Dos tantos parceiros na dança da Desfeiteira lembra apenas de Antônio Araújo e Luis Vieira.
As lembranças do passado
A entrevista com a senhora Idalina aconteceu por volta das 17h00, em Ponta de Pedras. A lembrança do passado, as tardes de dezembro de há 85 anos, trazem lembranças, muitas emoções, de vez em quando, as lagrimas escorriam pelo rosto de nossa personagem, principalmente ao lembrar de sua mãe... Lembrava que naquele horário a rotina da família era tomar banho, cuidar da casa e fazer comida para o jantar. O dia de Natal também traz grandes recordações, pois de acordo com suas declarações, a tradição era a reza na Igreja Nossa Senhora da Saúde, no barracão do Sairé.
Atualmente mora em Ponta de Pedras entre os familiares e em sua casa mora com o filho mais velho, Raimundo de Jesus Pedroso, 74 anos.
A matriarca dos Pedroso, além das dificuldades peculiares de quem viveu em locais isolados da Amazônia, passou por momentos de grandes desafios. Em sua distante recordação destacou seis momentos conturbados da história que provocaram profundos reflexos em todos os lugares, inclusive no pacato Sítio Redenção. Destacou o final do movimento dos Cabanos, a Primeira e a Segunda Guerras Mundial, a Depressão de 1929, a Revolta de Jacareacanga e a Ditadura Militar.
Reflexos da Cabanagem
Sobre a Cabanagem, um movimento conhecido dos paraenses, que veio do interior para a capital. Segundo a história por três vezes, os rebeldes tomaram o poder central no Estado do Pará, tendo como um dos maiores líderes, Eduardo Nogueira Angelim, que no dia 14 de agosto de 1881, deixou para a história a seguinte reflexão: “Os monstros da tirania cortaram cabeças e alimentaram-se de sangue! Tiveram forças para matar o corpo, mas... com suas baionetas e torturas não puderam matar a idéia, porque esta é sagrada e tão grande como o mundo! ... A idéia não morre”.
Dessa resistência cultural e da miscigenação de vários povos com o invasor originou-se o caboclo, palavra de origem tupi que significa “mestiço”. E esse mestiço, sobretudo depois da Cabanagem, apresentava-se como um povo que havia renegado suas raízes indígenas e perdido sua própria identidade. As recordações que vem na memória de Idalina são relatos contados pelos seus pais, uma vez que o movimento da Cabanagem aconteceu no século XVIII.
Efeitos da Primeira Guerra Mundial
Vale ressaltar que outros fatos da história coincidem com seus relatos, como a Primeira Guerra Mundial, cujo estopim para o seu início foi o assassinato de Francisco Ferdinando, príncipe do império austro-húngaro, durante sua visita a Saravejo (Bósnia-Herzegovina). As investigações levaram ao criminoso, um jovem integrante de um grupo Sérvio chamado mão-negra, contrário a influência da Áustria-Hungria na região dos Balcãs. O império austro-húngaro não aceitou as medidas tomadas pela Sérvia com relação ao crime e, no dia 28 de julho de 1914, declarou guerra à Servia, que apesar de não envolver diretamente o Brasil no conflito, mas os reflexos econômicos causaram transtornos e medo, principalmente em homens e mulheres que vivam totalmente desprotegidos na região Oeste do Pará, entre tantos, a família da senhora Idalina;
A Grande Depressão no Sítio Redenção
A crise econômica desencadeada a partir de 1929, quando da quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, reflete a crise mais geral do capitalismo liberal e da democracia liberal. No período entre guerras (1919/39), a economia procurou encontrar caminhos para sua recuperação, a partir do liberalismo de Estado, ao mesmo tempo em que consolidava-se o capitalismo monopolista. Mesmo nos EUA, as leis anti-trustes perdiam o efeito e grandes empresas -- industriais e bancárias -- tomavam conta do cenário econômico, protegidas pela política não intervencionista adotada principalmente a partir de 1921. Os efeitos da Grande Depressão provocaram reflexos negativos e contribui com o aprofundamento das dificuldades até das pessoas mais simples, que viviam em comunidades distantes dos centros de decisões.
A Segunda Guerra Mundial
A Segunda Guerra Mundial, iniciada setembro de 1939, foi a maior catástrofe provocada pelo homem em toda a sua longa história. Envolveu setenta e duas nações e foi travada em todos os continentes (direta ou indiretamente). O número de mortos superou os cinqüenta milhões havendo ainda uns vinte e oito milhões de mutilados. A Segunda Guerra Mundial terminou, no dia 8 de maio de 1945, quando os exércitos de Hitler invadiram a Polônia. Durante o período a senhora Idalina e seus irmão trabalhavam na coleta do leite de seringa para vender o látex. Segundo ela, caminhavam quilômetros de distância para encontrar uma seringueira e extrair o produto.
A revolta do Major Veloso
Conhecida historicamente, como a Revolta de Jacarecanga, o evento ocorreu em 11 de fevereiro de 1956, duas semanas após a posse do Presidente Juscelino Kubischeck, em decorrência dos descontentamentos entre os setores militares derrotados nas eleições de 11 de novembro. Desse ressentimento nasceu a revolta iniciada pelo major-aviador Haroldo Veloso e o capitão-aviador José Chaves Lameirão. Estes acreditavam que os antigetulistas da Marinha e do Exército só esperavam uma ocasião para pegar em armas contra o Governo. No entanto, a própria Aeronáutica, em nota oficial, reagiu com energia, apontando o movimento rebelde como uma "ação indisciplinada" de dois oficiais. Os revoltosos dedicam sua insurreição à memória do major Vaz e voam para Santarém, no Pará, onde recebem a adesão de outro oficial, o major Paulo Victor. Os militares, com considerada aparato bélico, dominam Jacarecanga, Santarém, Belterra, Itaituba e Cachimbo, com o auxílio de uns poucos caboclos e índios da região. A revolta de Jacareacanga foi debelada no dia 23 de fevereiro de 1956, com a prisão dos revoltosos, pelas tropas legais.
Ditadura Militar
Podemos definir a Ditadura Militar como sendo o período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil. Esta época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar. A crise política se arrastava desde a renúncia de Jânio Quadros em 1961. O vice de Jânio era João Goulart, que assumiu a presidência num clima político adverso. O governo de João Goulart (1961-1964) foi marcado pela abertura às organizações sociais. Estudantes, organização populares e trabalhadores ganharam espaço, causando a preocupação das classes conservadoras como, por exemplo, os empresários, banqueiros, Igreja Católica, militares e classe média. Todos temiam uma guinada do Brasil para o lado socialista. Vale lembrar, que neste período, o mundo vivia o auge da Guerra Fria.
Este estilo populista e de esquerda, chegou a gerar até mesmo preocupação nos EUA, que junto com as classes conservadoras brasileiras, temiam um golpe comunista. Teoricamente esse momento da história não afetou a comunidade onde morava família da senhora Idalina, mas os reflexos foram profundos a atingiram indiretamente toda a sociedade, principalmente os menos favorecidos.
A matriarca dos Pedroso sempre viveu na Vila de Alter do Chão, mas com o tempo os filhos e netos se mudaram para a comunidade de Ponta de Pedras, transformando o local novamente em um concentrado grande de pessoas da mesma família, um local aprazível, tranqüilo e aconchegante para o dia-a-dia de uma pessoa de cem anos de idade. Mesmo com tantas vantagens Idalina resistiu a mudança, mas há oito anos, por insistência da família passou a morar na comunidade de Ponta de Pedras e hoje já está adaptada novamente. Aos cem anos diz que ainda está em plena atividade e não deixa dos afazeres domésticos como lavar pratos, arruma a cama, toma banho sozinho seja no banheiro ou na praia.