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Dicionário Itarareense

20:13 @ 14/10/2010

 


DICIONARIO ITARAREENSE – De Santa Itararé das Artes Por Atacado


Dicionário do POVO DE iTARARÉ

Deusolivre - Termo utilizado largamente um todo tipo de conversa , expressa afirmação negativa categórica. (Ex.: Deusolivre que eu vou no cemitério a noite !)
Xééé - Nem pensar , de jeito nenhum , de forma alguma . (Ex.: Você vai trabalhar Domingo ?? - Xééé !!!!!)
Óia - Olhar algo , veja , preste atenção. (Ex.: Óia só que coisa !!!)

Úia - Olhar coisa ou pessoa interessante , chamar atenção para algo especial . (Ex.: Úia que belezura !!!!)
Cornetear - Falar alguma coisa de outra pessoa , algo parecido com "fofoca". (Ex.: O Walter estava Corneteando o Primo ontem )
Ataque de bicha - Expressão que representa um momento de nervosismo .. (Ex.: Ele me deixou tão atarantada que me deu um ataque de bicha !!!)
Póde Erguê - Não vou fazer , nem pensar de jeito nenhum. (Ex.: Preciso que você vá à pé até a cidade. - Póde Erguê que eu vô !!!!!)
Gorfá - Vomitar . (Ex.: Acho que bebi demais , vou Gorfá !!!!)
Quaiá o Bico - Dar muita risada . (Ex.: O pião tomou um Capote e eu Quaiei o bico !!!)
Vô chegando - Ao contrario do que parece é utilizado quando você vai embora , esta saindo (Ex.: Bom pessoal a festa tá boa , mas Vô chegando !! )
Reganhera - Estado letárgico que geralmente ocorre logo após o almoço, moleza , soneira.(Ex.: Comi 3 pratos de feijoada e me deu uma Reganhera daquelas)
Furdunço - Confusão , normalmente relacionada a festas (Ex.: Tava lá na festa e de repente começou uma briga...foi o maior Furdunço !)
Isgueio - Palavra utilizada para identificar uma ação que não ficou aprumada em linha reta. (Ex.: Ela foi estacionar o carro e ficou de isgueio .)

Fianco - A mesma coisa que Isgueio .

Farfanho- entrou meio na lateral (Ex. estacionei de farafnho na rua)

Vai rendê - Vai dar certo , algo que vai funcionar. (Ex.: Hoje eu vou no baile , vai rendê !!)
Carçá - Palavra que indica comer alguma coisa para matar a fome. (Ex.: Vô carçá o estomago , antes de sair prá balada !!)

Erguida - Levar uma bronca . (Ex.: Quebrei o prato e tomei a maior erguida da mãe !!!)
Pial - O mesmo que Erguida , uma bronca , chamar a atenção de alguém . (Ex.: O Zé chegou as 3:00 hs de pé melado e tomou o maior pial da patroa.)
Dormiu - tudo aquilo que se encaixa perfeitamente .(Ex.: O guarda-roupa que ganhei dormiu na parede do quarto .)

Posá - Dormir em algum lugar .(Ex.: Posso posá hoje aqui ??)
Espeloteada(o) - Pessoa elétrica que tem temperamento forte , birrenta . (Ex.: Essa menina é muito Espeloteada !!!!)
Capote - Cair , escorregar , tombo , queda . (Ex.: O Cara fez a curva e tomou o maior Capote !!!)

Trincar o côco - Tomar todas , beber até cair . (Ex.: Hoje eu vou no bar e só saio quando trincar o côco !!!)

Melá o pé - O mesmo que trincar o côco. (Ex.: O marido da Mariquinha Méla o pé todo dia no Bar !!!)

Bissurdo - Absurdo , inaceitável , incrível . (Ex.: Essa coisa de seqüestro é um bissurdo !!!!)

Fiótão - Pessoa menos preparada , sem experiência , meio bobo . (Ex.: Olha lá a besteira que ele fez !!! Só podia ser Fiótão mesmo .. )
Muquiado - Ficar escondido no canto , na espreita .(Ex.: O João fico Muquiado a noite toda prá pegá a mulher dele no flagrante !)

Orná - Que combina , fica bom com algo mais . (Ex.: Vou comprá essas roda aro 17" !! Vai orná na pick-up )

Chovendinho - Dia ou noite com chuva fraca , quase uma garoa ..(Ex.: O cara tomou o capote porque tava Chovendinho !!!)

Pior que é - É isso mesmo , concordar plenamente .(Ex.: Eu acho que o João é frutinha . Pior que é !!!!)

Frutinha - Rapaz delicado que não demonstra sua masculinidade (Ex.: Olha só !!! Andando desse jeito só pode ser Frutinha !!!)

Euem - Não vai fazer , participar ou falar algo . (Ex.: Você foi no velório ontem !!! - Euem tá loco !!!)

Bico ¹ - Cara meio atrapalhado , pessoa que faz besteiras freqüentemente. (Ex.: Aí o Bico foi lá e tomou o maior fora da garota !!!!)

Bico ² - Olhar, avaliar. (Ex.: Dá um bico se essa peça tá ok. )
Bicão - aquele que não foi convidado (Ex.: Quem é aquele cara de camisa laranja e rosa, boné verde e vermelho? Acho que veio de bicão na festa)
Forfé - Bagunça , agitação . (Ex.: Fui no baile e tava o maior Forfé !!!)

Namorandinho - Estar com alguém , namorar firme . (Ex.: O Fábio está namorandinho a Joana !!!!)

Sartei de Banda - Deixar de fazer algo (Ex.: Você foi ajudar a encher a laje na casa do João ? - Euem Sartei de banda !!)

Virô um Rebosteio - Termo utilizado quando tudo dá errado. (Ex.: Eu tava na marginal e a agua do rio começou a subir eu tentei sair e não deu, Virô um Rebosteio!)

Fervo - Local agitado , festança legal . (Ex.: E aí , vamos no Fervo hoje na casa do Manezinho ??!!)

Oreia Sêca - Utilizado para designar uma pessoa ignorante , simplório .. (Ex.: Esse é um Oreia Sêca mesmo , não tem jeito !!!!)

Samiá - O mesmo que semear , espalhar algo . (Ex.: O Zé foi no quintal Samiá o milho .)

Revertério - Define mal estar , estar passando mal . (Ex.: Comi aquela maionese e me deu o maior Revertério !!!)

Morgá - Não fazer nada , ficar paradão como um lagarto no sol .. (Ex.: Hoje não tô afin de fazer nada , vou Morgá o dia todo .)

Lagartear - O mesmo que Morgá .

Zé Ruela - Pessoa que só faz besteira . (Ex.: Esse cara é um Zé ruela mesmo , dá uma olhada na besteria que ele fez!!!)

Pórva - Pessoa ou coisa que não presta , que não tem qualidade . (Ex.: Comprei uma calça jeans marca Pórva mesmo .)

Páia - Tem duplo significado , pode ser o mesmo que Pórva e também pode ser mentida . (Ex.: Esse cara só conta Páia , não acredite nele !!)
Páiero - É o mentiroso .

Tropinha - O mesmo que gangue , bando , galera .(Ex.: Vamos reuniar a Tropinha prá pegar ele depois da aula !!!)

Dar uns Péga - O mesmo que ficar ou tirar um sarro com alguem . (Ex.: Hoje vou Dar uns pega na Maria depois da missa !!!)

Paroqueada - Conversa mole , papo-furado , conversa sem interesse.(Ex.: Ah !! o Mané fica no bar a tarde toda só na Paroqueada com os outros.)

Castelá - Dar em cima de uma garota. (Ex.: Vô Castelá aquela loirinha ali !! )

Estorvo - Tudo que atrapalha , inclusive pessoas que atrapalham. (Ex.: Aquele Bico é um Estorvo !!!!!)

Manguaça Véia - Expressão utilizada normalmente quando um indivíduo sofre uma queda uu um tropeção por qualquer motivo . (Ex.: Eh!!! Caiu de novo Manguaça Véia !!!!)

Saír vazado - Atitude de todo bundão que apronta alguma e depois dá cagada. (Ex.: O dono do carro tá vindo aí, sai vazado !!!)

Treta - Expressão usada quando o indivíduo arruma confusão.(Ex.: Passei uma conversa naquela menina e namorado dela ficou sabendo , deu a maior treta.)

Furar o Zóio - Enganar, tirar vantagem (Ex.: O Túlio vai me vender um módulo por 300 reais, será que está furando meu zóio?)

Migué - Às vezes substitui a palavra "xaveco". (Ex.: Aquela tava difícil, tive que jogar a maior migué nela pra conseguir o que queria.)

Azesquerda ou Asdereita - Termos utilizados normalmente para definir direções a serem tomadas em algum caminho. (Ex.: Você então vira Azesquerda e depois Asdereita e segue em frente.)

Catando Coquinho - Termo utilizado em uma situação em que a pessoa quase cai e consegue se levantar . (Ex.: Aquele carinha , tomou em tranco do Tonhão e saiu catando coquinho .)

Nervo - Termo utilizado quando a pessoa está irritada ou nervosa com algo ou alguem.(Ex.: Aquele Oreia sêca que trabalha comigo só faz besteira e eu tenho que consertar , isso me dá um Nervo !!!!!)

Vaidalá - Termo utilizado para informar que um caminho te levará onde você quer ir.(Ex.: E se eu pegar a Rua Mascaranhas Camelo , vaidalá ??? - Ahh vaidalá tambem !!!)

Pare com isso - Termo utilizado largamente um todo tipo de conversa, expressa solicitação veemente. (Ex.: Você é um gato sabia !?? Não fale isso, pare com isso !!!)

MÓ - Expressão designativa de grandeza/intensidade. = Muito. (Ex.: O clube que nóis fumo ontem é "mó" legal !!)

Subir lá em cima / Descer lá em baixo - Reforço de afirmação. Pra garantir que a pessoa realmente suba pra cima e não para baixo, ou desça pra baixo e não para cima. (Ex.: Eu subi lá em cima prá pegar as caixas e depois eu tive de descer tudo lá em baixo !!!)

Putaquelamerda - Expressão de espanto. Susto.(Ex.: Putaquelamerda, que susto ! )

Viela - Expressão comum usada em afirmações. (Ex.: Eu viela hoje .)

Ceroto - Sujeira do nariz. (Ex.: Menino !!! pare de tirar ceroto do nariz !!!!)

Piririca - Aquela sujeira escura que fica nas dobras da pele dos seus filhos, depois de brincarem o dia todo na rua. O mais famoso é o cordão do
pescoço. (Ex.: Vá tomar banho menino !! Olhe só , você está cheio de piririca !!!!)

Atarantado(a) - Estar ou deixar alguém nervoso . (Ex.: Aquele moleque deixa a mãe dele atarantada !!!)

Arriá uma massa - ir ao banheiro para fazer suas necessidades fisiológicas. (Ex.: Cadê o André ? Ele tá no banheiro , deve tá arriando uma massa !!)

Bufa - Palavra que identifica o ato de exalar gazes . (Ex.: Hummmm que cheiro é esse ? Alguém soltou uma Bufa aqui !!!)

Gaitiá - Palavra utilizada para definir quando alguém muda de voz durante uma conversa (Ex.: Xééé , o Ronaldo tava falando no telefone e deu umas gaitiadas)

Diapé - Palavra que identifica uma forma de se locomover. (Ex.: Você vai de carro ou Diapé ?)

Dordeperna - Expressão utilizada para identificar dores nas pernas. (Ex.: Ontem fui trabalhar Diapé e hoje tô com muita Dordeperna )

Embruião - Designa aquele que não é confiável , também aquele que não gosta de trabalhar. (Ex.: O Chico tá desempregado de novo ! Também é um baita Embruião ! )
Gambé ou Os home - Pseudônimo dado aos policiais. (Ex.: Ihhhh sujou, os gambés! ou "Olha a barcona, os home...os home")
Barcona - Viatura da polícia. (Ex.: Acima)
Guéla - Duas situações, fofoqueiro ou falastrão. (Ex.: OLha rapaz, você fica falando pra todo mundo, pare de dar guéla)
Truta forte - Amigo, parceiro . ( Ae, esse aí é truta forte)
6V - Ato de fazer a devolução de algo emprestado. ( Raimundinho, esse gaguhio é 6V...vai, volta, voando, viu...viado, véio)
Baguhio - objeto (Ex.: acima)
Castelá - olhar (Ex.: Castele, castele aquela mina; é uma petequinha)
Petequinha - garota bonita (Ex.: acima)
Desacorçoado - enjoado, desanimado (Ex.: Pô meu, tou desacorçoado com esse cara, ele é o maior por fora)
Por fora - chato, inconveniente (Ex.: acima)
Carcada, chamada, pito - chingo, chamar a atenção. (Ex.: Nossa, tomei um pito da professora - Tomei uma chamada do guarda)
Piabada, chacoalhada, vareio - perdeu feio ( haha, seu time tomou uma piabada ontem)
Ceva - dois sentidos: cerveja (Ex.: E aí, vamos no boteco tomar uma ceva?
Mio - mancada, pisou na bola ( O marquinho foi na lanchonete, ficou bêbado e deu o maior mio )
Bichera- má qualidade, ruim (O que você está pagando com essa bike Michelzinho? Essa bicheira!)
Pagando - se mostrando, se aparecendo (Ex.: acima)
Nervoso - potente (Ex.: O Jabá colocou um motor novo no carro dele, o carro ficou nervoso )
Serrote ou segueta- pidonho, aproveitador (Ex.: Tava na boa na padaria comendo um lanche, daí chegou o Carlão e me pediu um pedaço, o cara é serrote)
Bandeira - vacilar, desatento (Ex.: O Raimundinho tá lá na esquina, fica dando bandeira)
Fio - se dirigindo a pessoa com certo nervosismo (Ex.: Já coloquei meu fio!)
Miuda - quieto, no lugar (Ex.: O Pardal já tá começando ficar puto, vou ficar na miúda)
Puto - bravo (Ex.: acima)
Pegou de brabo - firme, pesado (Ex.: O Maicon precisava terminar aquele trampo logo, pegou de brabo)
Trampo - trabalho, serviço
Dois palito - rapido (Ex.: Vou buscar o violão, é dois palito)
Lagartão - aquele que faz serviço pesado, puxa saco. (Ex.: OLha o Juarez, desde cedo carregando aqueles fardos de 50Kg, é um lagartão mesmo)
Bicão - aquele que não foi convidado (Ex.: Quem é aquele cara de camisa laranja e rosa, boné verde e vermelho? Acho que veio de bicão na festa)
É o bicho - ótimo, de qualidade ( Cara...veja o celular novo com câmera que comprei, é o ultimo lançamento, é o bicho)
Roça - encrencado (Puts! Cobrei o Xandinho perto dos camaradas, agora ele quer tirar satisfações; tou na roça)
Nhaca - ressaca, mal disposto (Ex.: Tomei todas ontem, hoje eu tou uma nhaca)
Tiozinho - pessoa mais velha, idoso, coroa (Ex.: Não sei quem foi, eu vi aquele tiozinho mexendo no baguhio)
Vaza - dois sentidos: mancada, vacilo ou vai embora, retire-se rapidamente(Ex.: 1 - Dei uma cantada na mina do Marião, dei vaza, será que vou apanhar?
2 - Não sou macaco gordo, mas vou quebrar o galho de vocês, não vou lhes aplicar a multa, mas vaza daqui, sai vazado... vai....vaza, vaza...seus vagabundos!)

 

Lá No Bar das Putas

(Letra de Blues)

Eles não me deram o céu, meu bem

Por isso eu fui morar na rua

E ali eu dormia abandonado como um cão sarnento rejeitado pela sociedade

Comendo do lixo e já surfando

As minhas bitucas de cigarro e de restos de drogas.

Eles não me deram o céu, baby

Por isso eu resolvi roubar

E assim me tornei poeta rueiro com cheiro de ser humano ferido até as tripas

Bebendo das águas das poças

Com o remédio de minha afiada navalha na alma.

Eles não me deram o céu, mãe

Por isso cresci me desafiando

E fui posto no mundo com um louco condenado a vegetar e ainda assim ser afinado

Amando as putas que me davam

As migalhas de lágrimas que tinham no coração.

(Refrão)

Mas eu sobrevivi, meu bem                                                               (

Mas eu sobrevivi baby                                                                       (

Mas eu sobrevivi, mãe                                                                       (

Lá no Bar das Putas, Lá no Bar das Putas, Lá no Bar das Putas (bis)

(Para acabar)

Você não vai acreditar, baby/Mas eu estou ficando cego

E ainda assim estou vendo Deus/Ele toca saxofone e guitarra elétrica

Ele vai me dar o primeiro café com pão de crepúsculo cor de abóbora

Deus mora atrás do arco-iris/Tem ouro, incenso e mirra nas mãos

Ele é o dono de todas as partituras – Ele conhece todas as letras

Eu sou uma letra de blues de Deus/Uma letra de blues de Deus, baby

Eu, um cafetão que fugiu de Itararé e sobreviveu no Bar das Putas em São Paulo...

-0-

 

Letra: Silas Correa Leite – E-mail: poesilas@terra.com.br

Música: (Quem se habilita?)

 

 

Pequena Resenha Crítica

 

 

 

 

Livro ‘DEUS DE CAIM” - Estágios Escuros de Vivências Romanceadas com Estilo e Furor

Ricardo Guilherme Dicke, Prêmio Walmap, Magnífica Literatura Arrojada em seu Esplendor Literário

 

 

As batalhas nunca se ganham. Nem

sequer são travadas. O campo de

batalha só revela ao homem a sua

própria loucura e desespero, e a vitória

não é mais do que uma ilusão de

filósofos e loucos.

 

Wiliam Faulkner, O Som e a Fúria

 

 

 

O cavernoso romance (novel?...) “DEUS DE CAIM” do surpreendentemente estupendo escritor Ricardo Guilherme Dicke, agora muito apropriadamente relançado em alto nível pela LetraSelvagem, na coleção Gente Pobre, sob a organização do escritor-editor Nicodemos Sena, bem faukneriano e contemporâneo ainda, destila verbos, venenos, e inventaria brumas da relação ser/sociedade, vida/morte, amor/dor, fantasia/frustração, carne/espírito, dilemas/sentido e percepção, moendas (interiores)/engenhos (de almas atribuladas), tormentas pertinentes/insanidades comportamentais arrazoadas, Deus e o diabo no húmus entre Pasmoso e a profunda cauda narrativa que flui com densa liquidez expressionista/existencialista, e os cárceres das tentativas. A prosa do espaço, a dialética do exterior e do interior “as geografias solenes dos limites humanos”(Paul Éluard) e a porção carbono-C rusoé de cada ser. E Nelly Novaes Coelho (crítica literária, USP) já no início do livro ricamente editado já muito bem levanta panos e tintas:

“O homem interrogante; aquele que sonda o vazio existencial (...); em Dicke predomina  a sondagem dos escuros do homem (...); Deus de Caim escava fundo um dos interditos que alicerça a civilização cristã ocidental (...); tempo de caos; romance labiríntico (...)”.

Toda arte de alto nível é cheia de pontos de interrogações como se propositalmente desinterligados. A arte de escrever nos leva a afirmação da vida em nós. Lágrimas não ficam para sementes, senão na arte? É melhor ser triste do que arrogante. Quatrocentas páginas de puro deleite que, explorando o fluxo narrativo (em júbilo?) do autor, vai de casa a casa, de ambientes a embustes, de fachadas a desfrutes, do historial ao fabuloso, entre o espanhol ao francês, nacos de poesia propositalmente semeadas, levantando lebres, apontando sítios letrais e escavando horrores quase que impossíveis de serem silenciados. Escrever é teatro de ocupação?

Artista plástico e filósofo, de pai alemão, Ricardo Guilherme Dicke pintou sua literatura de tintas brilhantes, novíssimas para a época em que foi inventada, um épico com cargas humanas, demasiado humana, como diz, fragmento de ensaio a respeito do livro (Ronaldo Cagiano):

“Nos 21 capítulos da obra a história da família Amarante vai se desdobrando numa colcha de retalhos de situações conflituosas e metaforizam a própria historia do Brasil (...)” (In, Carlos Herculano Lopes, Caderno Pensar, Estado de Minas, 06/02/10).

Aliás, Hilda Hist o considerava “um gigante”. Caim, Abel, Lázaro; personagens desbiblificados entre sombreados com querelas, acontecências, traições, taras; a vida nua e crua revelando sinais de pânicos e disfarçando conflitos, neuras. A par disso, bem pintados, filosofados, livros bons acabam joias preciosas. O medo nos delimita? Existe mais insanidade do que sensatez na vida, nas cargas dos ombros dos homens, no mundo. Somos todos espécies transfiguradas de paisagens com passagens de agonias, sonhadores ao extremo, não moscas-de-frutas. O Deus de Caim soma tantos pontos de interrogações até sobre palavras não ditas; dadas a entender.

“Romance capaz de abalar a nossa ficção” - (Guimarães Rosa). O âmago das crueldades destrinchadas em núcleos cênicos e traços existenciais carregados de ferramentas de crueldade e características psicológicas. Os arquétipos da fantasia e de uma loucura surda, enviesada, tudo em DEUS DE CAIM, a partir do mote de um irmão atentando contra o outro. A realidade é mais embaixo.

A consciência, a inconsciência, o que afinal resta dos refinamentos de uma ótima ótica para ver/sentir/; escrever com domínio da pena. Dicke naturalmente arrasa quarteirões, expõe as vísceras de momentos retratados, mas, ainda assim, com a ótica apurada de um pintor, desqualifica e expressa  o horror (de viver?); teatro de ocupação reinando o tempo todo, num vareio de linguagem. Você só acredita porque está lendo. Como é que pode? No mundo da fantasia os monstros engordam parágrafos; na verdade, sangue/suor da dura e inominável vida real. Real?

Contundente, impoluto, altamente criativo, perspicaz, denso, e ao mesmo tempo de uma fineza extraordinária. É difícil ler Dicke e ficar indiferente. Não há neutralidade na sua leção. A atônita realidade captada em parágrafos que vão embora... Realidades sentenciadas com estilo e alto pendor estético, num talento literário surpreendente, agora reconhecido. Quem sairá do labirinto do livro sem se impressionar com as virtudes?

A história fala de nós, segundo Horácio, em sua sabedoria latina. Às vezes temos demônios e anjos à flor da pele. Nas dissonâncias há mais pureza do que no estojo linear das ideias. A arte de buscar o incompreensível nos leva à afirmação da vida. É o paradoxo de sobreviver além da sentição, e campear o lado pensador do humanus. A meditação não é escrachante quando aponta o humano vagando em suas erranças existenciais e sublógicas. Pode isso?

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“(...) Lembremos que toda pessoa tem o direito à vida, não é? Mas de onde lhe advém esse direito? Da Bíblia. E tirá-la, é claro, equivale a tirar um direito fundamental que constitui, desde o tempo de Moisés, violação à lei (...). O problema é este – chegar-se a um plano utópico em que não haja necessidade de leis e necessariamente todos os preconceitos se tornarão cinza inútil, relegada aos museus da morte e das coisas extintas. Imagine o que é não existir nem poeira desses preconceitos de agora que tanto nos martirizam, imagine uma cidade futura e ideal, em que todas as aspirações e inibições que jazem em nós sufocados, reprimidos e inexprimidos, aliadas à técnica elevada à perfeição, o que não seria! Por enquanto só algo mui longínquo disto se delineia em algumas obras de artes. Aliás, toda obra de arte é utópica” (Pg 135). 

Você lê se palpitando no entressombreado do livro Deus de Caim e as cinzas aqui e ali soturnas das horas, relações e desmontes de significâncias, e reserva para a sua surpresa seduzida, um lugar para uma nova releitura ainda mais significante a seguir, e quiçá compreenda melhor, inteiro, se isso for possível, como a obra que vale o peso, a fama, a própria paixão de ler e de escrever. Obra única, feito um Cem Anos de Solidão, O Perfume, Baudolino, Invenção de Onira, A Espera do Nunca Mais, Vidas Secas, Grandes Sertões: Veredas. A narração é a redenção?

“Lidando com uma simbologia a que ele dá um sopro vital, fora do comum, Dicke não deixa coisa alguma de fora (...). O homem de fora está cercado de outra mundologia, as realidades violentas e subversivas da narração de Dicke envolvem com rapidez. Sexo e morte são evidentes (...). (Antonio Olinto, da Academia Brasileira de Letras).  O ser humano precisa sentir sua exata sensação de estar e ser no mundo. Dicke tira pertencimentos das trompas da cólera, do desamor, da vida fugaz em sua saciadade de aproximação com estados calamitosos. Nada é impossível para ele. Desde Caim e Abel, a história nos fez acorrentados a culpas e sentimentos de medo e opressão.

A  irrazão humana. A emoção humana tão desnaturada. Surpreende-nos Dicke em cada parágrafo, mesmo quando a narração ou enfoque vara páginas de limbos.  A invisível esquizofrenia costumizada da apática sociedade decadente e falsificada para consumo. O biscoito da vida não é da sorte, não é de vida plena. Lágrimas não são guloseimas. Sentir dói. Em que lugar ficamos livres de tantos nós, senão nas asas da literatura? Bruce Hood dizia: “Nascemos com o cérebro desenhado para encontrar sentido no mundo. Esse desenho às vezes nos leva a acreditar em coisas que vão além de qualquer explicação natural.”

Uma obra clássica como Deus de Caim não se explica, mas se justifica pela excelência do autor. Em esmerada edição agora pela LetraSelvagem, Ricardo Guilherme Dicke é resgatado no auge do que a sua historicidade criativa congrega e vem-nos assim reeditado em sua maior obra-prima. Os porões da alma clarificados. Os subterrâneos da vida distinguidos com sua pena distinta, singular. Os sótãos de cabeças e sentenças nominados. É incrível a “lógica” funcional do escritor extremamente crítico, irônico, criativo e, claro, agora mais do que nunca, cult.

Literatura pura, de primeiríssima qualidade. Não há babel, bezerro de ouro ou cepo de Abrahão que esconda o sortilégio e o trágico fruto de Caim que vem enlutando a história da humanidade desde os primórdios. Escrever é pagar um preço? Escrever não é apenas cutucar onça com vara curta, é soltar todos os bichos. E Dicke faz isso muitíssimo bem, assustadoramente muito bem, liberta os seus (os nossos?), abre as comportas de seus próprios diques criativos interiores. Ah os escuros recônditos das almas embrutecidas com a fúria de ter que comparar, sobreviver, parecer que é o que não é.

E o Deus de Caim - que paira sobre todos nós – acode para uma leitura a altura, exige atenção pontuada, ao mesmo tempo olhar de remanso, para deguste e assim se poder sacar o esconderijo das ideias que ventila, ramifica, aponta e crava com o crivo de uma criação única. E quem sai ganhando é o leitor que se envolve dele, surpreso com a qualidade que custa assentar. Não é fácil. A vergonha, o incesto, a mentira, a dissimulação, o que pode parecer bizarro ou sexista. Quer mais humano do que tudo isso?

O estado decrépito do ser enclausurado em suas mesmices, masmorras e memórias cênicas, filosofando sobre conjecturas ou o que poderia ser e não foi, muito além das fronteiras das almas e seus estágios vivenciais estarrecedores. Ou seja, a humanagente no seu viveiro de contrastes. Vejamos a pintura literária:

“(Considerações, entretexto) O vermelho é a paixão e a força telúrica do Sol Matrogrossense, o azul são as paixões da noite e o negro a melancolia do sangue remotamente flamengo. O amarelo é a ânsia, o ouro, o desejo e as outras coisas nunca alcançadas. As formas que lembram labirintos e meandros ora são vegetações, ora caminhos, ora nervos em expansão, ora o ideal de um laboratório em que busco as equações de um mistério, de um nepentes ou de um descobrimento perfeito. Quero que quem os veja sinta uma contração pulsar e repulsar. E ao mesmo tempo, indague o que é o mundo – com múltiplos e infinitos signos estranhos – o que é o mundo, estas linhas, estas cores, esta massa, este movimento, este ser. Rilke disse que uma obra de arte é de uma solidão infinita. Quero pois que quanto mais solitário melhor. Cada qual encontre um pouco de seu eco que se perd e. É a natureza que recrio – e se fosse Deus – assim a recriaria – e é a relembrança dos países que não fui, no tempo das harmonias. É minha alma e a sua capacidade de entender alguma coisa que em mim não se perde para sempre, como as outras coisas que se perdem para jamais. É a poesia que não fui. As cores que eu amo e minha intenção de buscar entender o efêmero (...)”. Pg 251.

A extravagante literatura caudalosa (e por isso mesmo ocasionada de parágrafos em narrativas angustiantes) de Dicke; uma pintura extravagante de situações sociais em ermos e fugas, estados espúrios, de decomposições da efêmera vida social e sócio-familiar, quase árido, ou, como diz João Ximenes Braga (In, Dicke: o vôo da eternidade): “Dicke realiza uma estranha alquimia de política com metafísica na temática, e de realismo social como barroco no estilo (...) E ainda há intervenções de personagens místicos que o aproximam do realismo mágico (...)”. Pois Deus de Caim é uma soma disso tudo, e surpreende nos entremeios, na narrativa, nos belíssimos enfoques que o autor destaca e desenvolve com a paleta da escrita que mistura tintas de situações e aparências entre cores de convergências sociais apontando embustes; tirando etiquetas do armário, uma espécie as sim de romance-ensaio se reportando a conflitos, traumas e sequelas  da natureza humana em decadência.

Um dos maiores romances escritos no Brasil, e mesmo tendo sido inicialmente  lançado e premiado há cerca de quarenta anos atrás (Prêmio Walmap 1967), permanece muito atual, como toda obra de arte que se supera superando o tempo real, indo além de sua época como consagração de vanguarda e reconhecimento de talento e estilo próprio. Ricardo Guilherme Dicke, assim, escreveu um épico num estilo raro, único, onde concilia fluência e domínio absoluto da linguagem e da criação em seu esplendor, a verdadeira arte romancesca. Bravo!

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Silas Correa Leite

E-mail: poesilas@terra.com.br

www.portas-lapsos.zip.net

 

 

Pequena Resenha Crítica

 

“Ideias Noturnas - Sobre a Grandeza dos Dias”, Livro de Contos de Eduardo Sabino

 

“O dia-a-dia não precisa ser extraordinário para

ser interessante. O cotidiano é riquíssimo de assuntos

e acontecências de toda espécie – fora e dentro da gente.

É só ficar com as antenas ligadas – as antenas da

curiosidade dos sentidos e dos sentimentos, de

senso critico, de senso poético, sem

esquecer do importantíssimo e

indispensável senso de humor”

 

Tatiana Belinsky

 

Você não consegue ler o livro de Contos “Idéias Noturnas” (Editora Novo Século, SP, 2009, 120 páginas, Série Novos Talentos da Literatura Brasileira) de uma só levada, a um só termo. Você é inesperadamente surpreendido na pegada de lê-lo e saber que tem que respirar a leitura, de alguma forma por si mesmo e de per-si, pontuando-a. Parar. Stop. Voltar a tomar pé e pulso no verbo ler. Reler. Porque cada vez que sondando antevê, “pensa” que é, que sonda o arremedo narrativo do devir, o tema e o andamento, mas tudo o que sentia parecer na verdade não é. Contos incomuns, algo (raros) estranhos, por assim dizer como elogio. Tiram você da lerdeza do ler puro e simples para uma sentição do que lê e admira. Grandeza dos Dias? Dos escritos também.

 

Os contos de Eduardo Sabino são claramente (literalmente)  diferenciados. Escreve com uma boniteza que reveste a surpresa da contação em agradável prazer de leitura. Já ganhador de Concurso, participante de antologias, colaborando com veículos de comunicação, inclusive sites, é também editor da revista eletrônica “Caosletras.blogspot.com”. Nasceu em 1986, e, sendo tão novo e tão bom, denso, contundente que seja, é encanto gratificante sabê-lo e conhecer desenhos da escrita dele nesse novo livro de contos.

 

Otimamente bem Prefaciado por Rinaldo de Fernandes, que dele aponta com conhecimento de causa: “O protagonista do conto (Purgatório, pg 25) está entre o sonho e a realidade de um cotidiano desbotado(...). A vida eterna não nos resolve a angústia de viver (Eternas Angústias de um Imortal, pg 29)(...). Os contos de Eduardo Sabino, irônicos e intensos, com personagens angustiados, alguns à borda do desespero, não raro flagrados em situação de pobreza(...)”.  Pois é, ironias, seres (quase-seres/sub-seres), animais, máscaras, monstros, vírus, loucuras... baratas. Doce Lar? Não há nexo na vida real.

 

Purgatório é sim, um conto sobre um “ser” urbanóide no entre-subsolo de um elevador; sobe, desce, lamurias, contemplações, martírios; reinando. O ser que incabe em si. Desconexões. Vazios. Impertinências (e um olhar ferino) do escritor retratando o ser de si no que vê, sente, repagina; em páginas de restos até porventura rotos que assim sejam. O olhar aproximando da trajetória alheia. “Todos abençoados porque estão vivos. Abençoados porque morrerão” (pg 31). Santo Deus!

 

Abismo (pg 33) uma das melhores criações do livro. Linda ficção. O abismo é viver; que é ser feliz, que é (talvez?) a própria estupidez de tentar ser Ser... A retina do escritor reformatando aspectos invisíveis, risíveis, verossímeis... criados, imaginários; resgatados também da rudeza dos dias...  Sim, diz Eduardo Sabino, é preciso estar muito próximo para conversar a língua do olhar. (Céu Aberto, pg 49). Um roteador de sombras, como um eu-endereço-de-mim, em mim e no outro. “La Sombra”, belo conto, pg. 53, especifica o norte (mote?), o estilo: “La Sombra, a essas alturas um vulto com olhos amarelos e fiapos de cabelo, sugeriu que poderia haver uma esperança se os outros enxergassem melhor o que achavam tratar de meros contornos desprovidos de luz(...).

 

Eduardo Sabino joga luzes letrais em contornos que redescobre, pincela, amalgamado capta nuances, enlivra desafetos afins, defeitos de fabricação do humanus. De heróis a anônimos, povoando a criação (O Herói e o Escuro, pg 57) a situações-conflitos, rostos e trevas, ideias verbais (aqui noturnizadas). Seres?. Retratando tristezas que nascem e morrem a cada dia. What a Wonderful World?

 

Banzo (pg 75) emociona, cala fundo. Dói no literal. O melhor dos trabalhos. E por aí vai, O Inquilino, O Jardim Encantado, e outros tantos do mesmo gabarito. Eduardo Sabino relata aspectos (de condições humanas) entre espectros sub-existenciais até. De se ler com prazer, mais, entrar na alma da contação, satisfazer-se, sendo a leitura de “Idéias Noturnas” um imenso (muito) prazer. É o autor com talento dando voz aos desvalidos, aos tantos instantes-trevas da vida, inclusive a fragmentos de vidas retorcidas. Senti-las é isso. Escrever sobre elas, dando peso e fermento; purgações, coisa de quem está fazendo muito bem o que se propõe. In/purezas no pântano da condição humana? O criador se encontra no(a) self?

 

Nesses tenebrosos dias em que ando muito triste sozinho, escrevendo na pele do espírito a dor de um momento difícil, nervos frágeis à flor da pele, a leitura circunstancial do livro colocou um (algum) certo sentir novo (e revisitado no íntimo) em mim, como se tudo fosse mesmo só isso, cara pálida, nascer, sobreviver, morrer, no durante contorcer-se com a nossa dor, a dor dos outros, e, ainda assim e por isso mesmo  captar a grandeza dos dias. Será o impossível? Tudo a Ser.

 

Entrar no mundo criacional de Eduardo Sabino é ter a sensação de que se lê uma história que nasceu por si mesma, em si mesma, como referendou Julio Cortazar. E assim Eduardo Sabino acertou em cheio, acertou a mão. É do ramo e muito bem conhece do oficio e da linguagem de. Contos para se ler com o olhar, afinando-se na riqueza de quem sabe dar vazão a querelas talvez corriqueiras que parecem sair da esquina do olhar; de  um beiço de vida, num clarear de tardes e pertencimentos de seres que também são a nossa cara, pois a existêncialização não é nem uma herança e nem uma evolução apenas, mas, um certo modo de nos envolvermos com o sentido social-comunitário de nos fazermos em cada natureza de criadores e criaturas, feito espécies assim de “antenas” (parabolizadas) de nosso tempo, registrando tudo, doa a quem doer, custe o que custar. E dói muito mais em nós, sentidores, entre prismas e colchas de retalhos com sabenças sensíveis de foro íntimo. Goethe diz que “qualquer coisa que formos capaz de fazermos ou que sonhamos que somos capazes, devemos começar a fazer, pois a coragem traz consigo gênio, poder e magia”.

 

“Idéias Noturnas” é a magnitude de tudo isso e um rebite a mais. Sintam-se humanóides. Bem-vindos ao mundo literário de Eduardo Sabino e suas fragrâncias de dias cheio de ideias literariamente clarificadas.

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Silas Correa Leite – Santa Itararé das Artes, SP, Brasil

E-mail: poesilas@terra.com.br

www.portas-lapsos.zip.net

Autor de CAMPO DE TRIGO COM CORVOS, Contos, Editora Design, SC

 

 

 

Monólogo do Eu de Mim

11:25 @ 24/02/2010

Monólogo do “Eu” de Mim

 

 

“Não podemos conhecer nem ser conhecidos”

 

Samuel Beckett

 

 

“... Os vícios todos da existencialização

Estão impregnados em mim; ai de mim!”

 

 

A degradação da civilização humana até o caos contemporâneo. A solidão do homem dentro de si como um verme no abismo. O peso da memória como a busca de algum lugar no passado. O difícil relacionamento com o esgoto da vida fútil e efêmera. E o pântano da condição humana com os seus tantos subcretinos. A percepção do absurdo existencial que é a horrenda vidamorte. Os remédios para dormir e que fazem você acordar frustrado. everia ter apagado enquanto sonhava feito um javali no estrume. E vê que tudo continua a mesma koisa na podridão da espécie. O aparador de grama, o comital,  a vassoura elétrica encardida. O aparelho para exercícios abdominais e as rações com nódoas de gente. A corda no pescoço do avestruz com a cabeça enfiada no inferno, entre a lepra da vida na mente entrevada e as artes como chorumes; máscaras sociais como despertencimentos da desvairada e torpe existencialização.

 

 

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Silas Correa Leite – E-mail: poesilas@terra.com.br

www.portas-lapsos.zip.net

 

 

 

QUEM SOU EU?

 

 (Improviso para um solo de Jazz dodecafônico)

 

-Sou o que escreve porque não sabe se matar. Sou o que lê muito sempre fugindo do exato e doloroso verbo Viver. Sou o que respira auras e halos pelo fio de navalha da poesia-canga. Sou o que aprendeu cantar mentalmente porque não podia soar. Sou o que fugiu de viver e descobriu a Terra do Nunca num encantário de luz e poesia. Sou, a bem da verdade, uma bananeira que já deu goiaba em lata. Que acredita em Deus mas não vê Deus nos humanos. Sou o que foi criança e gostava de estar com os sábios mais velhos. Que foi jovem brucutu fora de seu tempo e com poucos amigos de verdade. Sou o que envelhece filosofias e enluos lidando com crianças. E reaprende sinais e conhecenças com elas... Sou o que foi humilhado e usou isso como dínamo para sobreviver como uma groselheira seca. Sou o que quebraram as pernas e aprendeu a voar sem muletas. Sou o que chora no escuro para não assustar quem ama e assim passar uma imagem de forte e bravo. Sou quem é sozinho pela própria natureza, e escreve muito para ter companhia. Como um eco no abismo. Sou um rapaz que amou Os Beatles & Tonico e Tinoco, mas Lennon morreu, George também, e ainda resta um caipira cantando mundos e campos de lavandas entre lírios laranjas. E ainda sola silêncios em alto relevo... Sou o que se esconde na cerveja, pois o vício predileto é querer ser árvore secular, ser nuvem além da fonte sagrada de todas as águas-mães, rio acima de todas as marés e ilhas, nunca mais um pobre e vil bicho-ser. Sou o que acredita na arte como libertação, na poesia como fermento, em Deus como um cartão de crédito antes do cianureto e atrás dos campos de trigo com corvos. Sou aquele que tem uma lenda pessoal para cumprir, vive e morre por isso, mas, coitado, coió e capiau ainda briga por arroz com feijão e couve rasgada na rala sopa de pedras dos inválidos. Sei que é o espírito que ama o espírito, antes do corpo amar o corpo, mas infelizmente sei também que uma andorinha só não faz outra andorinha. Sou o poeta que foi marceneiro entre cedros e borboletas, o professor que já foi bóia-fria e lanhou as mãos de manteiga derretida, o doutor engravatado que tem ficha nos podres porões da ditadura militar incompetente e corrupta, o jornalista de oficinas que cutuca onças com vara curta, um pobre aprendiz de feiticeiro que busca a mágica de ser feliz cem por cento blues. Tive inimigos e eles me fizeram bem, pois por eles auditei minha vida como páginas de rostos, meu caminho, minha busca pela estrada que vai dar no sol, além do pote cheio de árco-íris. Fui traído e aprendi a amar direito, como uma asa precisa amar outra asa para ter alce de mira. Passei fome e valorei o pão nosso de cada dia, fiquei desempregado muito tempo e passei a adorar levantar cedo na fralda da aurora para ir conseguir o ouro de tolo em terra de muito ouro e pouco pão. Sou o ferido zangão que põe o dedo na ferida da consciência humana. Sou alguém que nasceu em dimensão-travessa-placenta errada. Sou o que a mãe não quis e foi pai da mãe. Sou o que o pai não quis e foi mãe do pai. Sou o irmão que não dá lucro, não é boa companhia, escreve errado por línguas estranhas. Sou o que sonha o leão e o cordeiro no mesmo pasto. Isso: sou um semeador de estrelas no reino da fantasia dos despossuídos... Se perguntarem meu nome de batismo, digam: Prelúdio. Se quiserem saber meu filho, digam o Ausente. É no silêncio quase ninhal que escrevo isso que me ocorre agora, de improviso, quase um crepúsculo íntimo, porque uma amiga virtual me perguntou sabiamente quem sou. QUEM SOU? Ser ou não ser? Eis a questão-toleima. Na verdade, confesso (perdoem!) não sei quem sou. Mal-e-mal simplesmente só sei o que não sou. Aliás, se eu soubesse o que sou, não seria poeta, seria de fritar bolinhos. Estaria rico, feito na vida, morando em Londres. O último a sair, pague a conta. Poetas e grávidas primeiro... Há um Deus? Do jazz nasce a luz? Habemos ícaros. (Silas Corrêa Leite)

O Céu, Um Paraíso de Livros?

02:33 @ 26/09/2009

 

Artigo/Opinião:

 

O Céu: Um Paraíso de Todos os Livros

 

 

“Mais eis que a palavra

Cantoflorvivência

Re-nascendo perpétua

Obriga o fluxo

 

Cavalga o fluxo num milagre

De vida...”

 

                        Orides Fontela

 

 

...O Céu deve ser na verdade uma biblioteca... e-n-o-r-m-e – onde repousam todos os personagens, anjos, heróis, narradores implícitos e explícitos, tipos de capa e espada (e de asa nos pés, antenas ligadíssimas e luz nos olhos), esperando não Godot, Ben-Hur, Lewis Carroll, que já estão assentados por lá, mas Um VISITADOR. Esperando serem visitados (na imaginação? no sonho?) pelos benditos Escritores de Livros! Deus, claro, é o supremo Maior Bibliotecário-Comandante-em-Chefe do Universo. E ali também edita suas (nossas) Vidas-Livros, que sonham finais felizes no palco iluminado da Nave Terra-mãe, sob chão de estrelas. Já pensou que demais, diria o Snoopy?

 

...O Céu, como uma literária e infinita barriga gestora, guarda, assim, todos os livros que foram escritos; os livraços que serão escritos; os imemoráveis e inimagináveis que ainda estão sendo escritos, entre sonhos, sofrências, blues etílicos, alumbramentos e lágrimas, entre pontos de interrogações, tópicos frasais, nexos causais e reticências em braile... Um e outro santo escriba abençoa uma orelha de livro, um arquivista maroteiro com olhos de lince tira os pós das mesmices entre a água e o açúcar do proseio celeste, e Mestre José Carpinteiro ilustra – na mente dos criadores – capas, prefácios, releituras e citações. Um anjo de asas de papel-arroz amanteigado (com reflexos da Via Láctea), com todas as letras de todos os alfabetos do mundo visível e invisível, no sensorial do escritor a cismar alhures, poetas, romancistas, Sentidores (para citar Clarice Lispector), delicadamente com voz de palha em sonata íntimo-espiritual “sopra” o bendito nome da obra-prima, com subtítulo, modus operandi e tudo. Já imaginou?

 

...O Céu de todas as Honras e Glórias inimagináveis, claro, tem um arquivo cósmico de todos os historiais. Do gênese supragalaxial, ao salmo cor de rubi, passando pelos mantras-banzos-blues-fados dos apocalipes de mil idéias com signos ficantes. Robinson Crusoé é agora uma abençoada janela-arquivo de lá, num cantinho com pintura xadrez que dá, nos horizontes e crepúsculos, para um ninhal escarlate de suntuosidades binárias, feito rancho de meteoros-metáforas esplendentes.

 

...O Céu também pode ser só um pouquinho aqui, amostra grátis no DNA metafísico de cada criador e criação. O Escritor que gera livros-árvores, livros-nuvens, livros-circos, livros e pertencimentos enlivrados. Como Hilda Hist, Olga Savary, Clarice Lispector, Proust, Tolstói, Neruda, Saramago, Brecht, Rilke, Cortázar. O escritor ins-pirado, ensimesmado, tocando por uma fagulha de amparo infinital, imagina, desmancha a seco, arrruma, cria, pesquisa e, eureka!. Surgem pedacinhos do céu como Cem Anos de Solidão, O Vermelho e o Negro, Incidentes em Antares, Grandes Sertões Veredas, Sentimentos do Mundo, O Nome da Rosa. A alma de cada um, recolhedor na curva do tempo, no imaginário ou da bateia de memórias, escrevendo uma vida-livro, um clássico. Só por Deus. Fico só sondando o devir, depoimento, rascunho, testemunho letral de um tempo, um povo, um local, uma mente brilhante atiçando implicações que cativarão olhares maviosos.

 

-No Céu não existe pecado e nem sanção de percurso-viagem-visita (todos serão perdoados?), nós todos, em capa dura ou com colagens de trilhas, temos a nossa vida inteirinha para escrever essa existencialização, tentarmos por uma bela vida e bela obra, com um final feliz. Bem-aventurado aquele que acerta na primeira edição sem cortes. Pois será Céu e na Terra um livro aberto de Deus, Livreiro-mor. No mais, vidas-livros são auferidas, recompostas, registradas, acrescentadas de aforismos, citações célebres, tragédias ou mesmo ilustrações maravilhosas. Que Paraíso de Livros é o Céu, cheios de zilhões de escrivaninhas, estantes, caixas de pandora com suas páginas atemporais...   

-No Céu, existir mesmo é conjugar o verbo Escre/Viver; existir é ler (oxigênio matrix), pois não existe Morte ao ler; no ler, por ler. Dormimos o sonho da viagem para dentro de nós, uma vida, um causo, uma croniqueta, uma historiazinha pro Menino Jesus dormir seu sonho de trombetas. Ler é uma busca para a nossa Cura.  Cada livro um historial, uma sentição, um rocambole geral a revelar-se em páginas de lágrimas e luzes se misturando, o vermelho e o negro, o azul e o amarelo, a loucura e a lucidez, sob o percurso de um altíssimo balão encantado segurando pontos de interrogações com baunilha num céu de chocolate...

...No Céu, pássaros-marcadores de livros, árvores-papéis de pão, borboletas-vaga-lumes-ideias, pirilampos de tons e nuances, rinocerontes de enlevos, rios de inspirações, nuvens e chuvas de vírgulas, relâmpagos de pensamentos-chaves, tudo o que depois serão versos, estrofes, parágrafos, apresentações, músicas pra alma procurando calma pra se coçar... Cada um lê-se a si mesmo, acrescenta o que se lhe vem a cabeça (consultem sempre o coração), invade pontuações, pondo pingos nos is ou, de relance, quem o sabe um dia, com tantas placas mães e placas de captura, no futural, colocando até pingos em dáblios... Nada é impossível ao que lê.

-Ah “Terra do Era Uma Vez”, o Céu pode ser dentro de cada um de nós aqui. Shangri-lá, Jerusalém, Pasárgada, Santa Itararé das Letras, São Petesburgo, São Paulo, Curitiba, Brasília. A cidade-livro. O herói sempre vence no final, pois a esperança é a inteligência da vida. Vivendo e aprendendo a escrever-se. Lendo e se refazendo, cortando exageros, pois o espírito não tem peça de reposição e nem inventaram bisturi ou silicone para a alma. A re-existencialização-pagina-aberta de cada um ser ou não Ser; cada clã, núcleo de abandono, ilha, adubo, enciclopédia, dicionário, clássico, coleção, gibi, quadrinho, palavra cruzada, cartun, jornais, revistas, livros... almanaques...

...Corra e olhe o céu, diz a balada de Cartola. Traga um céu para si e em si, em todos os recomeços vibracionais. Um Livro, pedaço de seu rio interior. Faça de sua vida-livro um belo romance com realizações e incompletudes que sejam. Sempre fica uma dúvida no ar mesmo, com o que queremos dizer ou soa no diferencial do implícito. Você sempre volta ao local de seu livro de existir. Você é o seu próprio capital de peso. Você é em si mesmo a própria impressão digital, a melhor e a pior prova testemunhal presencial contra e a favor do que você se escrever existindo. Já pensou que risco?. Capriche na narrativa-documento. O leitor-vida-livro sempre vence no final. Na casa do pai já muitas coleções. Escolha o seu cantinho, o seu estilo, a sua ilha-edição. Uma visão ético-plural comunitária ajuda muito nessas horas. Sarar o mundo. Sentir a dor do outro. Corações e mentes enlivrados, já pensou? A sua cara e a sua coragem colorida. Vidas capítulos. Acertos de contas na hora de passar-se a limpo. Refinamentos.  Perdendo lastros. Ser feliz é a melhor resposta, a melhor vingança, a melhor solução. EscreViver, evoluir, correr atrás dos sonhos com as mãos limpas e uma lupa magna procurando erros atrás das ilusões perdidas, como se tudo fosse só uma ilha da fantasia em que você de si mesmo e para todos que o rodeiam escreve o roteiro... Silêncio, gravando!

...Seja feliz enquanto escreve nas luzes da ribalta. Seja você seu próprio acervo. Eu fui muito feliz. Eu tinha um pai que contava historias de Itararé e do mundo pra mim. Quer maior riqueza do que isso? Vivendo e aprendendo a viver. Lendo e aprendendo a ser. Cada um de si próprio o capítulo que precede o clímax. Será o impossível? Muitos são chamados e poucos escrevem certos por linhas tortas. Há um céu. Na dúvida, largue tudo e vá ler um livro. Está estressado? Leia um livro de poemas. Está azedo? Leia um romance com capricho e conteúdo denso. Fique encucado, pense e reflita. Pode ser que ainda esteja em tempo, e você desperte a chance de pegar a chave da imaginação e então poder registrar-se numa ala da Biblioteca do Céu, estar como um verbete na enciclopédia artística de Deus, o seu nome-vida-livro nos pilares sagraciais de todas as sagas. O seu nome arrolado lá, no historial perene do livro da vida, pois o que você se escreve na terra, Deus escreve no Céu. No Céu de todas as vivências-históricas, O Paraíso dos LIVROS!.

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Silas Correa Leite, Santa Itararé das Artes, São Paulo, Brasil

Primavera de Livros, 2009 – E-mail: poesilas@terra.com.br

Autor de Porta-Lapsos, Poemas, e Campo de Trigo Com Corvos, Contos, a venda no site www.livrariacultura.com.br

Prêmio Lygia Fagundes Telles Para Professor Escritor

 

 

 

 

 

Vou-me Embora para o Passado

 

Para o Amigo Basilio Verga

 

Vou-me embora para o passado

Lá está a minha Itararé alada, inteirinha

(Éramos felizes e ninguém estava morto)

Os vizinhos, os irmãos, a Vila São Vicente

E na pobreza sopa de fubá com couve rasgada

 

Vou-me embora para o passado

Toda a Rua 24 de Outubro cor-de-rosa

Minh´alma descalça “cerrindo”

Bola de capotão, calipiá, forfé

Eu era uma andorinha sem breque de Itararé

 

Vou-me embora para o passado

Bolo de piruá – o pessegueiro florido

Eu lia gibis do Capitão Márvel

Sonhava ser herói, poeta, e estou aqui

Saudade de Itararé em floração de lágrimas

 

Vou-me embora para o passado

Jeronça, Nelson, Tadeu, Ademar, Basilio

A mãe no fogão vermelho fazendo cequilhos

A aldeia natal tinha frondosos pinheirais

Belas sabiás de peito amarelo no lar and jazz

 

Vou-me embora para o passado

Banda Furiosa, Grupo Escolar Tomé Teixeira

O guri ranhento que vendia jornal O Guarani

Baile com o Nenê Som Seis no Clube Fronteira

Eu era um piá inocente e com amarelão ali

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Agora no futuro com a minha sozinhez

Quero minha Itararé antiga de novo – Chorei!

Em algum lugar do passado eu me fiquei

Tristices na alma – saudade rósea tez:

Quero de novo históriais do Tempo do “Era Uma vez”!

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Silas Correa Leite, Santa Itararé das Letras, Cidade Poema

E-mail: poesilas@terra;com.br

www.portas-lapsos.zip.net

 

 

Escritor Premiado é Entrevistado no Programa “Imprensa Em Debate”

 

 

Alguns dias após ser entrevistado pelo Antonio Abujamra, no Programa Provocações, da TV Cultura de São Paulo, cuja edição irá ao ar no próximo dia 11 de setembro às 22 horas, o escritor premiado em verso e prosa, Silas Correa Leite, jornalista comunitário, teórico da educação e conselheiro em Direitos Humanos (com especialização em Literatura e Arte na Comunicação pela USP), tachado pelo site Capitu de “O Neomaldito da Web” – publicado atualmente em quase 500 sites - foi agora entrevistado dia 28 de agosto passado, pelo Programa Imprensa em Debate, Canal Universitário de São Paulo. A gravação ocorreu nos estúdios do Curso de Jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, na Mooca, zona leste de capital paulista, cuja temática foi Jornalismo Cultural. O programa do escritor de Itararé-SP ainda não tem data para ir ao ar. Silas, que já tinha sido entrevistado pela Márcia Peltier, no Jornal da Noite, Rede Bandeirantes de Televisão, pelo Metrópolis da TV Cultura de São Paulo, e pelo Programa Na Berlinda, Rede 21, tv a cabo, mais uma vez é chamado para opinar, falar de seu trabalho lítero-cultural, que ganha rumo, vulto e nome na chamada literatura brasileira contemporânea, principalmente depois do sucesso de seu livro de Contos CAMPO DE TRIGO COM CORVOS, finalista do Prêmio Telecom, Portugal, e do e-book de sucesso, O RINOCERONTE DE CLARICE, que recentemente foi tese de doutorado pela UFAL, primeiro livro interativo da rede mundial de computadores.

 

(Da Redação)

Delmiro T. Latz - boalmanews

Delmirot@bol.com.br

Sonhos de Uma Criança em Itararé


Eu era o menino
Que sonhava incendiar barcos de papel de pão
Assumir a bússola, o sextante, o timão
E com a nave louca desgovernada
Ganhar o corrimão da enxurrada...

Eu era o guri
Que olhando o céu de Itararé tão infinito
Ainda assim fazia pito-carito
Pois eu tinha um sonho altaneiro, bonito
De ser poeta, vencer, ter floração
Muito além daquela constelação

Eu era um piá
Em Itararé – a beira do Paraná
Que tinha loucas ilusões, fantasias...
Em deixar a terra-mãe onde canta a sabiá
E todas as minhas conquistas e vitórias teria
Vivendo de cervejas, de serestas e de poesia...

Mas veio a baldeação da florada da vida
O curumim sentindo fome e a alma dividida
Garrou o mundo em busca de diploma, arco-íris, anel
Mas sofrido descobriu-se um dia de luta descabida
Que ainda é só aquele pobre menino do barco de papel
E o incêndio é a saudade de uma distante Itararé querida!


Silas Correa Leite – E-mail: poesilas@terra.com.br
Blogue: www.porta-lapsos.zip.net

 

Pé de Anjo Basílio

 

Ser Corinthiano é um estado de espírito

 

Juca Kfouri

 

 

 

Não era para qualquer um ser o escolhido

Vinte três anos sem títulos e a cruz no jogo final

A raça de Vladimir... o sangue de Zé Maria

Mas havia um pé de anjo chamado Basílio

 

Vinte e três anos em sete segundos; o gol

Um chute na bola que virou grito da nação fiel

Vaguinho, Sócrates, Rivelino, quem era...

Senão o Basílio de alma que se alçou em vôo?

 

Campeão Paulista de 1977, o glorioso Corinthians

Viu o anjo Basilio acertar aquele chute-gol

E o estádio todo num congraçamento em brilho

Porque o time finalmente se tornara campeão

 

E ainda hoje o historial do lance, do gol; o amor

Do pé de anjo Basílio assinalando a sua luz

 

Num lampejo o chute. E o fim de um jejum

 

Depois de vinte e três anos virou título e glória

 

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Silas Correa Leite, Santa Itararé das Artes, São Paulo

E-mail: poesilas@terra.com.br - Site www.itarare.com.br/silas.htm

Blogue premiado do UOL: www.portas-lapsos.zip.net

Autor de “O HOMEM QUE VIROU CERVEJA”

Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio

Giz Editorial, SP, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus

Salvador, Bahia, 2009

 

 

Conto:

GARRAFAS

 

"O senhor mire, veja: o mais importante e

bonito do mundo é isto: que as pessoas não

estão sempre iguais, ainda não foram

terminadas... ”

                       (Guimarães Rosa)

 

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-Sabe porque mandei chamá-lo, Seu Cirineu!

-Sei não doutor, sei não Seu Delegado...

-O sr sabe o que é isso?

-Depende, doutor. Depende muito...

-O sr não me enrole, está vendo, Seu Cirineu? Não me maroteie.

-É só uma ideaiazinha minha, doutor.

-O sr todo santo dia, sem tirar nem pôr, sem parar, faz uma mensagem de pedido de socorro curta e grossa, envia numa garrafa de cerveja que entorna de vereda feito um viciado de miolo mole, e atira numa vazão do Rio Itararé?

-Pois é, Seu Dr. Não pensei que um bendito dia iriam descobrir esse meu segredinho de mala e cuia, esse meu defeito de fabricação por assim dizer, esse meu probleminha...

-O sr bate bem da cachola, Seu Cirineu?

-Foi só uma mera tentativa, Seu Dr, não quis importunar ninguém...nem fazer feio, sequer quis chatear o sr...

-Sabe quantas garrafas dessas, com seus inusitados pedidos, foram recolhidos nesses mais de 365 dias, Seu Cirineu?

-Sei não, dr, sei não...

-Parece que já pegaram outras, aos montes, semeadas aqui e ali... Aliás, falando sério, diga-me lá, o sr nunca teve um retorno qualquer, desses seus pedidos, de alguma maneira, por algum motivo ou situação de resposta incrível?

-É a primeira vez que me acham... quero dizer, que sou inoportuno,  e ainda acabo assim sendo um baita empecilho para o sr, não é Dr. Feijão?

-Bem, é o seguinte, Seu Cirineu: nada pessoal, sabe, mas o sr precisa fazer um, ponhamos, tratamento. Compreende? O sr deveria procurar o Dr Jonas de Alencar na Santa Casa. Sabe, talvez de morar ali pertico da Gruta da Barreira, do Parque Ecológico das Andorinhas Bentas, o sr esteja influenciado, talvez sofra alguma radiação, sabei-me lá... Além do sr deixar de poluir o Rio Itararé com uma bendita garrafa todo santo dia, ainda iria melhorar muito do juízo, ter companhia, tomar uns remédios, viver melhor. O sr me entende; entende o que eu estou tentando dizer?

-O sr por acauso leu a mensagem que vai sempre dentro da garrafa, Dr Feijão?

-Sempre a mesma...sempre a mesma...disseram...

-Quem disseram, dr?

-Não importa, sei que é sempre a mesma mensagem de pedido de socorro que o sr enfia dentro da garrafa vazia de cerveja...

-Então o sr por certo, leu direitinho...

-Digamos que li sim, Seu Cirineu. Li sim.

-E então, dr, falando francamente, o que o sr acha? Eu estou pirando? O meu grito de agonia tem cabimento, faz sentido, há alguma saída pro meu causo?

-Sabe, seu Cirineu, cá entre nós, que ninguém nos ouça, falando do fundo do meu coração, se eu pudesse, se eu não fosse normal, comum, se eu não fosse autoridade constituída por lei, eu, sinceramente, faria a mesma coisa, a mesma mensagem, até num rio maior, quem sabe...

-Então o sr não vai me prender, abrir inquérito, coisa de-assim?

-Não vou não, Seu Cirineu. Chamei o sr aqui mais por obrigação, desencargo formal de consciência, sabe, foi o pessoal da seccional do IBAM que trouxe o problema...

-Devem de achar que eu sou um purgante, cabeça de vento, da pá virada, miolo mole...

-Não sr, até respeitaram a sua mensagem, o seu objetivo. Acho que me trouxeram uma das garrafas mais por obrigação de oficio, só isso.

-O sr vai fazer o que, então, Dr Feijão?

-Nada, só um termo de circunstancia, carimbo, papel oficial, assinar e mandar pro arquivo morto...

-E depois vai me liberar sem qualquer sanção?

-Claro, Seu Cirineu. O sr está livre. Sabe, este mundo do jeito que vai, precisa de mais gente sensível como o sr. Foi um prazer enorme conhecê-lo,  uma grande honra pra mim, sabe. Fiquei até comovido. Aprendi muito com o seu gesto, a sua alma de pássaro, a sua sensibilidade fora do comum. Falando francamente, sinceramente espero que um dia alguém certo acabe achando a sua mensagem, alguém desse ou de outro mundo,  sabe, o recebedor certo, a dimensão certa... e então o sr seja atendido, resgatado...liberto...

-Então vou indo, Seu Delegado. Tenho que passar no Armazém do Antonio Pelissari ainda, comprar a bóia do mês.

-Vá com Deus, Seu Cirineu. O sr se cuide direitinho, hein?

-Obrigado dr. Prometo que quando tomar a próxima cerveja preta de novo, ao escrever a mesma mensagem de sempre, vou pensar muito no sr. Com esperança de que nalgum lugar eu seja finalmente identificado, e venham me levar de volta pra minha casa que é do outro lado...que venham me levar para o meu verdadeiro lar... pois minha alma não é desse mundo, e deve certamente que haver uma Itararé Celeste...

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Silas Correa Leite – Santa Itararé das Letras (República Etílico-Rural de Itararé)

E-mail: poesilas@terra.com.br – blogue: www.portas-lapsos.zip.net - Autor de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio, Giz Editorial, SP, no prelo, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia.

 

 

 

Foto de Mauro Vieira, Rua XV de Novembro, Itararé-SP

 

 

 


 

 

Causo de Itararé (Inédito)

 

O Último Causo do Zé Beleza, o Maior Contador de Palha de Santa Itararé das Letras

 

Quem conta um causo ou um conto

Aumenta um tanto feito um tonto...

 

Romero, filho da Dona Santa coberta de ouro e prata

(In Memóriam)

 

- ...é bem perigoso sim sor... o Getúlio Vargas viria alarmado feito uma paca obesa montado num alazão azul-biscate, o Hitler vestindo farda amarelo-ovo-choco, mais falador do que o Tó do Zuza em velório (querendo aparecer mais do que o morto), o Nero, todo maricóm pitando alguma coisa com um Cusarruim de uma perna só e ainda vermelhona; com os olhos esfumaçados e com um baita cheiro-de-fedô de quem queimou o cabo do facão, todos querendo invadir Itararé, bombardear nossa cidade, já pensou, hein, Zé Maria dos Causos? Sartei de banda. Onde já se viu isso. Tem cabimento...tem cabimento...

 

-A marota piazada peidorreira e com amarelão, com faniquitos, rueira, já tava toda prontinha da silva, cetras prontas, estilingues reforçados, com os bolsos cheios de mamonas assassinas, mandorovás elétricos de goiabeiras com bichos, e mesmo bolinhas de gude das pintadas com olho de anjo, só esperando os três tranqueiras chegarem com o tropé das tropas revolucionárias para começarem além das marotices, a fuzarca do tiroteio por atacado. Vão ouvindo, vão ouvindo... Bota outra pinga fiado aí, Tunico Bitencourt, não rateie, vá...

 

-Fui falar com o cumpadre Wiederin que arrumou uma maquininha de quebrar e lançar pedra de britadeira; falei com o Willes Gorsky que me emprestou o primeiro avião que ele tinha inventado no mundo (o do Santos Dumont que não era santo nem nada, era malemal uma cópia maleixa com craca, pois errou 13 vezes e ainda teve 14 bis).  Fui depressinha sondar o cumpadre João Feijão que, fanático por Itararé, claro, me emprestou machados, guilhotinas, cadeiras elétricas, arapucas, armadilhas, facas, bicicletas, arpões, espadas, ratoeiras, lampiões Aladim, guaritas, bombas de “defeito” moral, bazucas, granadas de urtigas, metralhadoras giratórias de bolso, garruchas e até alguns cantis de alumínio. Sim, cantil, claro, né, Fernando Milcores, onde é que a gente ia caprichar de esconder a pinga do Fritz?. Nos cartuchos de “pólva”  que não era... sabei-me lá... entojado...

 

-Eu tava com o encardido “figo” meio maleixo mesmo, urinando azul-salubre, mas pedi pro Maestro Ataliba do Acordeão, vir tocar Saudades do Matão, do Paschoal Melilo (que vendou a música depois prum cara estranja de fora por altos tostões e comprou casa em Paris com a bufunfa), assim, enquanto isso o sargento Fuinha do Tiro de Guerra e seus mais de um milhão de recos mandavam bala nos invasores feição do dianho, nós, entre umas mazurcas e umas polcas, metíamos coisarada com estrumes de tordilhos nos três tranqueiras e suas tropas e canhões. O Getulio, o Hitler e o Nero iriam ver o circo pegar fogo no fiofó deles... enquanto eu muito sabido e “estratégio” pedi prum piazote manquitola bem tranqueira e cara de bosta seca, que fosse escondido (disfarçado de vendedor de dolé de groselha preta) até Sengés, com um prego enorme furtado da casa do Velho Zarpelão, e lá furasse os pneus dos trens da Caravana do Getulio que vinha mesmo era cheia de biscates fronteiriças dos pagos do sul,  daquelas pedaçudas pintas brabas mesmo, ele ia é montar num porco, o caipora lazarento chupador de  charutos paraguaios. Tão me ouvindo?

 

O Prefeito pediu pra ligarem pra Nasa, que tinha um parente do Angelo Ghizzi lá, e iria fornecer alguma bomba “tônica” pra gente sumir com os gaúchos bombachudos, e assim Itararé ficou emperiquitada até porque ia ter baile no Fronteira, baile na zona da Vila Osório, e a gente ainda tinha a peleja com os filhotes de cruz credo, o Vargas, o Nero e o Hitler. “Liás”, a bem da verdade, o Vargas era buchudo e de bombacha parecia um barril de petróleo “verde-olivia”. O Hitler, todo janota e frajola, com aquele andar-de-segura-peido e sempre com a mão espalmada pro alto (devia ter “furunco” no sovaco vencido), mas pior mesmo era o Nero, um “donzelo”, com a cara de polaco lazarento, com um isqueiro na mão direita bem mole e cheia de pó de arroz, e ainda rebolando mais do que o Zé Muié com calcanhar de frigideira...

 

Pois Itararé inteirinha, com quase dois milhões e meio de gente de fio a pavio, bem contado, prontinha pro forfé que iria ser um embate daqueles, de causar furor, ganhar estampa no mundo sem porteira inteiro, mesmo que muita gente de ambos os dois lados fosse pro saco. Ia ser uma barbaridade, mas eu já tava pronto, com meu canivete suíço cabritado e traiçoeiro, com minha espingarda de socar chumbinhos pela boca, um penico vermelho-bereba e, sabendo que iria dar no couro, botar os intrusos pra correr, que fossem peidar nágua os jaguaras, Itararé não iria aceitar aquela revolução dos quintos, assim sem mais nem menos.

 

Tava assim tudo arranjado pra gente ganhar a batalha de Itararé, aí apareceu uma festa que era meio que uma "oliúde" de califórnia de carteado em Itapeva, no Clube Operário, um concorrido bailão com os Marionetes em Ribeirão Vermelho do Sul, um supimpa jogo entre a Associação e um time de oitava divisão de Itaberá, um exótico circo gringo em Itaporanga, um rodeio de boi guzerá em Fartura, e, depois, era época de colheita de marolos em Apiaí e a tranqueirada dos bóias-frias precisava faturar porque estavam latindo no quintal pra economizar cachorro. Ainda tinha mais, aguentem só: a Sarita Montiel, a Raquel Velch e a Sandra Bréa iam fazer um nu artístico por atacado numa boate em Itapetininga. Já pensou que desboque? Fomos na Fiúza. Piorou: o Tiro de Guerra foi chamado prum desfile emperiquitado com a fanfarra do Instituto Epaminondas Lobo em Avaré, quando já se viu, Itararé estava mais vazia do que a cabeça do tongo do Laércio Amado que naqueles tempos da água beber onça era um caipira polaco brucutu domador de éguas xucras e molenga de raciocínio que só vendo, um saranga feição de mandioca vassourinha descascada.

 

Daí a coisa deu diferente do que eu bolei, né, não? Tudo deu errado, eu, maleixo, mal cismei o guaiú todo. Só por Deus. Os homens foram chegando sem bondiar, caras de tacho, uns daqui, outros dali, a cavalo, a pé, em tanques, outros em canhões com rodinhas, em carroças cobertas com lona e cheia de charque, em “helicóperos” com lança-chamas, se assomaram, todos se arvorando, e sem mais nem menos foram se aprumando entre nós, sentando, deitando falatório, dormindo em vagões da estação rodoviária, ares de importantes os tranqueiras, depois saqueando o armazém dos Pelissaris, empastelando o Jornal O Itararé, tomando tubaina do Vilela no Bar do Calixtrato, comendo encapotado de frango no bar do Dico, tirando uma e outra donzela pra dançar uma Valsa Vienense que o Aneor tinha inventado no acordeão desafinado e roufenho, quando se viu, fomos levados no bico, que peleja que nada, Itararé tava toda tomada, tinha ido de bubuia, Getúlio arrotando pose, todo trancham, o pai do Gustavo Janson todo pimpão fotografando tudo pra mandar pra Revista Manchete e pra BBC em Londres, e assim, caiporas, a batalha de Itararé deu em nada, os gaúchos passaram, o Vargas todo topetudo, o Hitler todo arreganhado falando em língua do dianho ranhento, o Nero cheio de frisson de conversa fiada com o Zé Muié, e assim, caras pálidas, entramos pra história com causos contados de maneira errada; mentiram pra todo mundo, não ganhamos e nem perdemos, zero a zero foi goleada, houve um empate técnico; que Batalha de Itararé que nada, foi tudo uma xingação com cerveja porter, truco no muque, e, flatulências sonoras de lado a lado, no fim, ninguém perdeu ou ganhou, Itararé ficou frustrada que não teve uma baita briga daquelas mesmo que a gente ia mesmo dar uma sova nos invasores.

 

Que “largura rinso” a sorte do Vargas, ou ele iria encher a bombacha. Que esperasse pra ver. Vocês não acreditam? Depois, devem ter misturado a tal da Batalha de Itararé com alguma Batalha de Itariri, Itororó, Riachuelo, Pernambucanas, Casas Bahia, Monte Castelo, Walterlu, Iraquenistão, Correa do Norte, essas coisas de mentirosos e inventadores do inexistente... Perguntem pro Nequinha, pro Chico Preto, ou pro Mário Padial Chaves, ou ainda pro Véio Biscoiteiro, pro Miro Vaca ou pro Foguetão da Banda, que eles contam com detalhes ainda mais confirmatórios do que eu disse. Vocês queriam o quê, seus estrupícios, que Itararé fosse varrida do mapa, que nós deixássemos os gaúchos encherem o bucho, encherem o picuá e depois fossem deitar falatório noutra freguesia perto do Rio de Janeiro? Eu, hein, Vica? O meu amigo filósofo João da Égua já dizia: “Quem pode, pode, quem não pode desocupa a moite”. Aliás, a bem da verdade, dizem que o GetúlioVargas com a consciência pesada com a fama ruim que como maldição teria causado com a tal batalha de Itararé que não houve, depois se matou, cheio de remorso, o tranqueira espeloteado. Eu conto o que vi. E quem quiser que conte outra. Cada quá com seu picuá... E, quer saber? Já me encheu o pacová.

 

Acho que alguma coisa não me caiu bem, me desarranjou o intestino grosso, fino e “delegado”. A pamonha azeda que comi? As pingas que tomei? Tô com uns fuzilos labiriscando na tripas. Uma azeitona de pastel de feira?... acho que tô com algum desarranjo daqueles na “flora e fauna” intestinal...  E agora, com licencinha, que tô com o estômago carecido e vou ali na casinha do bar do Orozimbo Ruivo “passar um telegrama”.

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Silas Correa Leite – República Etílico-Rural de Itararé, Santa Itararé das Letras-SP,Brasil

Causo da Série “Sempre Haverá Itararé” –  Livro de memórias inventadas do autor

E-mail: poesilas@terra.com.br  - Blog premiado do UOL; www.portas-lapsos.zip.net

Autor de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia, no prelo, Giz Editorial-SP.

Poeta Prof. Silas Correa Leite, em sua Residência

Fotografado pela Sobrinha Nathália Halkcsik Leite da Silva

 

 

Dia Letivo de Leitura Generalizada na Escola

 

 

 

Para os Amigos Educadores da Rede Pública de Ensino

 

 

 

 

Ler muito para ter idéias polidas

Ler para dar sentido às palavras da tribo humana

Potencializar a vida lendo muito e assim acabar sendo muito

Leitura é música pro espírito

Ler é instaurar uma nova realidade na pessoalidade

 

 

 

 

Projeto de Leitura Organizada na Escola

 

 

A escola toda vai parar pra LER! – Sim, com planejamento idealizado pela coordenadoria pedagógica, direção e corpo docente, além das naturais trocas de experiências pessoais direcionadas para esse contexto letral, e, o bicho vai pegar; quero dizer: seremos todos pegos pela Leitura, pelas palavras. Já pensou?Todo mundo na unidade escolar vai parar e ler. Do porteiro a Diretora. Que beleza de paralisação para adquirir conhecimento e cultura a partir da literatura. Alunos e professores, principalmente, vão ler por excelência e com enorme prazer de. Cada um lendo – e pensando o “LER” - como exercício laborioso de evolução em todos os sentidos.  Ler e refletir sobre. Ler gostosamente mesmo. Na bucha. Cada pessoa vai ler e ainda vai ter que indicar aos quatro ventos que belo livro está lendo. De preferência romance, clássico, obra-prima. E vai ser tudo devidamente registrado desde o ler, o projeto e o andamento em si, a estrutura funcional dessa idéia encampada por todos, as resultantes até e os finais felizes, claro, avaliando o projeto em curso corrente. Ler pra valer. Vai ter uma incentivada prática pedagógica para esse fito, numa inicial didática de cooptação, encantamento – vivificação da leitura - horizontes provocados para o dia todo especial do Verbo LER. Todos serão contemplados nesse encorajamento generalizado. Ninguém poderá relutar, alegar ignorância nesse propósito. Todos serão rigorosamente cobrados a ler e também a depor documentalmente sobre a leitura proposta. Falando a respeito do livro, do autor, do enredo, personagens, linha da história, isso antes, durante e no fim da empreita. Vai haver uma troca dessa magnífica “encantação” feito contações:

 

-O que você está lendo?

-Por quê?

-Vamos trocar depois?

-Depois que você ler você me empresta?

-Tem uma fila enorme de interessados na sua frente, Mano.

-Vamos ler o quê?

-Gostou? Gostou?

 

Documentando a Leitura Enquanto Projeto-Idéia

 

A escola iluminada e vestindo a camisa dessa idéia, pegando gosto, açodando comunicabilidades no entorno para fazer a coisa (idéia-projeto) funcionar pra valer, pegar andamento fácil. A leitura abrangida por pais e filhos e mestres. NINGUÉM vai ficar fora porque ninguém pode ficar fora. Leitura é isso. O aluno vai ser sondado, supervisionado, incentivado, induzido, facilitado para Ler. Vai ser literalmente desafiado, provocado, cobrado – examinado depois. Vai ser desperto na sua curiosidade e expectativa. Vale a pena. O aluno vai ler e poder levar o livro. Depois ainda vai poder contar palha da sua “leção”. Fazer uma auto-avaliação competidora mas, sempre salutar. Fazer um trabalho, como um rap, um rock, uma balada, uma história em quadrinhos, uma grafitagem, uma foto-mostragem, tudo a partir do Dia de Leitura na Escola. Contar o que viu do que leu, o que gostou do que leu, o que pensou do que gostou, o que tirou disso tudo. Já pensou? Depoimentos registrados em livros, fotos, gravações e outras mídias e infovias, até mesmo um site como fórum pode ser criado. Vai ter que dizer o que tirou desse precioso tempo que ganhou lendo muito e bem um bom livro.

 

-Cara, que livraço.

-O meu tá meio devagar, quer trocar?

-O meu livro eu não empresto, não cedo, não deixo ninguém botar a mão ou o olho. Acabando de ler vou reler.

-Mano, tem cada coisa louca na história.

-Estou assustado. Como é que eu não li esse livro antes, tá ligado?

-Ler é o maior barato.

 

Ler Para Ser...Ler Para Ver...Ler Para...

 

Dia de Leitura na Escola. Fazer o aluno prever o ler, sacar os lances, pensar como o autor, pensando o ler, criticando o ler, avaliando o ler. Criar coragem pra ir fundo. Gostar de ler é quase uma sabedoria, uma descoberta, uma viagem. Então é preciso pensar atividades nesse LER: fazer o aluno bolar o seu pessoal e intransferível “marcador de livro”, para nele também anotar em que página parou – para continuar a leitura depois ou mesmo, claro, fazer uma revisão em eventual dúvida de acompanhamento da leitura – anotando também as frases legais, o nome da personagem principal, o cara bom; se há um tipo ruim quais as características dele, o parágrafo marcante, poético, a idéia central e vai por aí o encorpamento pari-passu da leitura. Com final feliz e tudo mais, não necessariamente nessa ordem. Ler e pensando. Então, vamos começar? O inspetor de alunos, a tia da lanchonete, a Coordenadora, a merendeira, o pessoal da secretaria,

 

STOP!

 

Parada pra LEITURA. Como uma agitação lítero-cultural. Um “aleluia” de letras e afins, uma generalização de ler por atacado. Todos vão ter que parar as atividades e simplesmente ficar em silêncio, LENDO.

 

Leitura no Capricho

 

Numa caixa, propositalmente muito bem decorada (para chamar atenção mesmo), caprichadinha para atrair leitores em potencial, em sala de aula, vários títulos de quilate, pré-selecionados por quem é do ramo e adora ensinar, adora trabalhar com texto, adora historiar o conteúdo programático. Isso se o próprio leitor de per-si não escolheu especificamente e de próprio deleite a sua própria obra para literalmente encaixar no dia corporativo de ler. E na caixa os clássicos, os livros sobre mitos, lendas, fábulas, histórias ou causos, poemas, contos, mas, principalmente e acima de tudo romances importantes, novelas acima da média, maravilhosas. Tudo no estilo “ler para aprender a gostar de ler”, para o prazer de ler, um pé na poesia e outro na prosa. Vamos nessa?

 

Leitura individual? O projeto didático-pedagógico nesse processo de ensino-aprendizagem leitural, Como começar? Essa é a idéia-semente. O professor lê um trecho daqui e dali, pega leve, vai e volta, incentiva e cobra, fundamenta uma ótica. Todo dia dá uma dica, valora, promove, congraça, elogia, instrumentaliza o programa geral de ler com qualidade. Ler intensamente. Ler textos com densidade qualitativa. Faz uma pré-aula a respeito, só pra isso. Especial.  Motivação e conteúdo específico.  Obras  e nomes. E aquele mais vendido? E o Prêmio Nobel? E o maior escritor brasileiro, qual é? Será? Faz preparações para facilitar a prática. Horizontes e contentamentos, belezas e resultados, técnicas e satisfações. Sem forçar, mas, cobrando. Direitos e deveres. A sabedoria vem a partir do verbo ler ou isso é só uma teoria? Vamos testar? O que dizem os especialistas do ramo. O interesse, o conhecimento, as habilidades; espaço e tempo alimentados de coragem letral. Tudo a LER?

 

A vida-livro. Páginas de rosto. Páginas abertas de vivências. O livro como suporte motivacional no aprendizado salutar constante. Edificador. Todas as matérias incentivando, cobrando, valendo-se de livros para trabalhar a próxima prova.

 

PARAR PRA LER

 

Botando a Mão na Massa

 

Carta de uma personagem do livro convidando o aluno para sabê-lo inteiro, pleno e edificante. Um herói, de preferência. Todos têm uma história para contar? Carta falando do projeto e convidando os pais a entrarem na dança. Carta do alunaço ao professor comentando uma passagem do livro. Que gostou ou que não entendeu. Trazer o romance para a sala de aula, jogar no ventilador das idéias para serem discutidas. Amou e foi amado? Deveria ter ficado na ilha? Jurou defender a honra? Cem Anos de Solidão? Cravo e Canela? Debates, seminários, a importância do projeto, da leitura, do livro, do escritor; a aquisição de conhecimentos e habilidades que advém da gostosa pratica da leitura como rotina. Fazer algum trabalho (arte, educação artística) que tenha a ver com o livro que adorou ler. Desenhos e imagens.

 

                                      É tempo de Ler...

 

Uma vez por semana? Vamos colocar em votação, democraticamente. Todo santo dia em cada conteúdo-matéria com diretrizes, técnicas variadas, no correr do ano letivo? Trabalhos e textos – e aulas  (a partir de). Trocar releituras. Provocar curiosidades. Leitura com qualidade, nesse espaço de troca que é sala de aula.

 

-Gostou do que você leu?

-Peguei gosto. Então era isso?

-Pô Mano, o herói morre no final...

 

O Que é LER?

 

Ler não é só isso. Ler não é só ler, é avanço, emoção, construção, técnica de refinamento íntimo, sensibilidade, aprimoramento interior, mental, prismas revisitados, ampliação de visão, colocar a alma para viajar. Tornar a LEITURA um caminho, uma mudança, uma sustentação vernacular, um desejo de crescer, evoluir, pensar melhor, mudar, votar, sacar as coisas. Quem lê mais vale muito mais? O livro aberto na escola, vai ser aberto em casa, no clube, na beira da piscina, no Metro, na praia. O livro vai abrir corações e mentes. A alma cidadã aberta para a leitura do livro espacial, modifica cursos, rumos, alvos e  situações. Já pensou?

 

O Dia Solene da Leitura

 

O Dia de Ler é o dia letivo mais importante da escola. Dia solene. Respeito com o livro, o projeto, a turma que comprou o desafio. Tudo muito bem estruturado e valorado na própria funcionabilidade objetiva de ler. Tornar esse dia importante, fora de série. Pedir um pôster-poema sobre uma acontecência. Sentir com o aluno a data magna da leitura. Esse aluno lê muito, esse aluno vai longe. Saber colocar muito bem o enfoque do Dia da Leitura que começa em sala de aula, na escola, pode e deve incendiar em casa uma sustentação afetiva nesse sentido, passar para a biblioteca, um site de literatura, contos, romances, críticas literárias, depois o primeiro poema, a primeira letra de rock, a primeira carta de amor, o hábito fazendo o ledor voraz.

 

Todos por um. Cada professor ao seu jeito, estilo e método, tem que comprar essa causa, desfraldar essa bandeira. O mestre vendendo o peixe, ler junto e gostando – e dizendo do prazer de estar lendo ou relendo o livraço que adora – fazer sua parte & adorando fazer parte da equipe que bancou esse projeto. Ler alto. Ler com entoação, dando ritmo e claridade ao espírito narrativo. Pontuar bem, criar expectativa, mostrar a que veio. Colocar gás na aula de leitura. Promover o dia de leitura na escola. Fé no livro. Fé na cultura literária. Todos saem ganhando. Fazer acontecer. Dia letivo especial, de leitura de qualidade pra todo mundo.

 

O dia mais importante na escola vai ser quando todo mundo entrar e sair com um livro na mão, naturalmente. Sonhar pode? Leitura caprichada. Leitura incentivada. Leitura feliz e afetuosa, desafiadora que seja. Leitura livre e motivadora se for possível. Leitura com uma prática central, mas também um eixo reflexivo, norteador, no próprio letramento – e apreendências – do ensino como um todo. O que é ler? O que é um bom livro? Vá saber, lendo! Leitura, cabide de idéias? Olhai os lírios no campo! -Quem não gosta de ler é mané? - Abra o olho: LEIA. Viva o Verbo LER! Um LIVRO é um mapa e nenhum mapa tem uma só direção, disse Ricardo Piglia. LEITURA é quando a gente busca um circo dentro da alma da gente.

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Silas Corrêa Leite – Itararé, São Paulo-Brasil

Teórico da Educação, Escritor e Jornalista Comunitário

Pós-graduado em Literatura na Comunicação (ECA), Direitos Humanos e Democracia (USP) – Coordenador de Pesquisa da FAPESP-USP (Culturas Juvenis)

Prêmio Lígia Fagundes Telles Para Professor Escritor, CRE-Centro de Referência em Educação Mário Covas

Autor de Porta-Lapsos, Poemas, 2006, All-Print Editora (SP)

Autor e Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Design Editora (SC) a venda no site www.livrariacultura.com.br

– E-mail: poesilas@terra.com.br

Autor de O Rinoceronte de Clarice, e-book de sucesso no site

www.itarare.com.br - Obra indicada como leitura obrigatória na matéria Linguagem Virtual do Mestrado de Ciência da Linguagem, da Universidade do Sul de Santa Catarina e Tese de Doutorado na UFAL

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