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Artigo-Homenagem

"Cantagonias" da Cantora Maysa

A Mais Triste Voz da Boêmia MPB

Para Everi Carrara

Ela cantava como quem punha tudo em pratos limpos, isto é, ela mesma no contrapeso da balança existencial. Maysa cantava suas dolentes sombras e escuridões, entre pausas e semifusas, pondo a sua insana dor de cotovê-lo pra fora do ser angustiado que era. Maysa cantava com sua voz diferenciada, sua alma triste, a mais triste voz da MPB boêmia por atacado. Maysa era a voz-lamento, numa espécie de banzo-tropical-latino contra muros e cincerros, ela mesma, alma em arrebentação íntima. Mulher bonita, livre, independente, tinha opiniões saradas, remando contra as marés bravas de uma carioca e burguesa sociedade hipócrita, assim, destilou veneno, sangrou-se, lavando a alma, dos porões do inconsciente trazendo revoltas, iras, mais a suprema determinação de ser sempre ela mesma, apesar de tudo que se lhe vinha ou entornava o caldo. Existindo arrastava suas correntes? E cantava como se escorrendo as lágrimas-letrais em música, harmonia e ritmo. Nunca houve nenhuma outra sequer parecida com ela. Maysa era seu próprio repertório datado. Já pensou que dilema? Nos bastidores, na solidão do camarim, um copo de uísque na mão, ninguém sabe a dor de quem se coloca pra fora naquilo que faz, por isso mesmo arrebentava como cantora, artista, mãe, mulher, humagente, e ainda um mundo caído no sensível coração arrebentado.

Num país sem memória para com seus ídolos portentosos, em que a absurda máquina televisiva arrebenta as poucas memórias artístico-culturais ou cria infames núcleos estrambólicos de "nadas e ninguéns" (e algumas oxige-Nadas) batizados com a fama sazonal em vernizes fúteis e luzes falsas, finalmente a Rede Globo vai trazer um levante de sua vida-livro, certamente que um novelo envelopado pra consumo, porque Maysa não era pop, muito menos favorita, talvez até fosse uma louca desvairada que colocava os pingos nos dáblios, se reportando como sobrevivente social nas canções em que extravasava o espírito com tantas inquietações. Cantar era seu remanso.

Porque quando Maysa cantava, todas as rotações transcendentais da vida paravam para ouvi-la. Porque ela punha o exato tom certo, a perfeita respiração certa, o silêncio encorpado, o timbre que rebrilhava na interpretação de humanismo-dor, de ternura-dor, de romantismo-dor. E o ser humano é construído e refeito na dor. Maysa sabia sobreviver cantando. Pedir socorro cantando. Tinha uma tragédia ao veicular a composição com sua personificação lítero-musical-existencial. A ostra não canta a dor em som, mas em estética pérola. Maysa perolizava a música com sua dor quando soava. Porque Maysa cantando se livrava dos fantasmas. 

Quem mal a amou, armando-a? Foi isso? Maysa tinha sim, uma cantoria cheia de lágrimas. Era da natureza dela ser a coxia no palco de si. Se fosse escritora, seria Clarice Lispector. Tinha sua cantação lispectoriana. Clarice com sua ficção-angústia, Maysa sua interpretação-angústia como marca, estilo todo próprio de ser e de se defender. E assim compunha a música-composição como se destilasse o labirinto-absinto de suas cantagonias. O que Lupiscínio etilicamente fazia com suas brilhantes composições marcantes, mas cantando, soando, era uma moça, manteiga derretida, voz fina, Maysa cantando era a ferro e fogo e paixão, não impostando a voz-veludo, mas dando a tristice certa no caldo da própria exposição cênica-sonora.

Aqui e ali, na casa de um amigo de grosso quilate, está o long-play da Maysa, a fita-cassete, valendo ouro, como um som-documento de uma voz que se calou a partir de uma tragédia. Uma ponte enorme, ligando continente ao mar, a tirou de nós, como uma metáfora de travessia, desembarque, ilha. Sim, ela bebia, fumava, brigava, amava, odiava, existia, tentando achar seu fio terra, decompor-se muito além das arrebentações da pilha cósmica do universo. Cantar era como se clamasse no deserto. Sua vida-documento testemunha fermentos e purgações de uma mulher fora de seu tempo, moderna e além de tudo ferida para ser livre, incomodar, despertar consciências.

Maysa foi única e foi tantas, múltiplas. Meio Elis, Meio Celly Campello, meio Aracy de Almeida, meio Dolores Duran, meio Nana Caymi, meio Clementina de Jesus, inteiramente personagem de si mesma, alma aberta. Mas seu mundo caiu. E quando mais fina a flor, mais depressa é recolhida. As flores mais bonitas são colhidas primeiro. Você, de alguma maneira, literalmente VIA a agonia naquilo que Maysa cantava, destilando seu vinho-verso-verbo. Há mitos, lendas, verdades, mentiras, invencionices. Mas para saber exatamente quem foi (quem é) Maysa, à beira mar, um chopinho e um luar, arrue uma vitrola de garagem, com aquela bolachão como se tivesse riscado - a agulha do tempo? - e deixe rodar o disco de Maysa. Ouvir Maysa é credenciá-la com testemunho de um tempo e as amarguras femininas desse tempo. Ouça, sinta, capte, depois, diga lá coração, diga pra mim, se a flor-fêmea Maysa não foi muito mais do que as memórias lhe dão crédito? Maysa cantava, como quem cortava os pulsos. Intrépida, louca varrida, poeta, sensível, feminina e romântica, livre com sua solidão-albatroz, num mar de sargaços.

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O ultimo a chorar, por favor, por favor

Apague a luz do abajur cor de carne

Enquanto Maysa canta toda a inesgotável dor

De não amar. E de não viver em paz.

-0-

 

Silas Correa Leite - Poeta, Compositor, Boêmio, Inventariante de Cenários

Santa Itararé das Letras-SP

Terra do Maestro Gaya, Rogéria Holtz, Regina Gonçalves, Regina Tatit, Carlos Casagrande, Jorge Chuéri, Luiz Antonio Solda, e tantos outros artistas

E-mail: poesilas@terra.com.br

Blogues: www.portas-lapsos.zip.net

OU: www.campodetrigocomcorvos.zip.net

Texto da Série: "Se Você Não Está Lembrado"

(Crônicas Musicais e Memórias de Bastidores)

 

 

 

Neusa - Primeiro Encontro

01:01 @ 31/01/2009

N E U S A  - A PRIMEIRA VEZ

 

Para Que as Ausências Não nos Matem no Encontro

 

“Na Casa do Pai

Há muitas moradas”

 

 

Para Minha Irmã Neusa Correa de Morais

 

 

Não é todo dia que se conhece uma Irmã

Uma irmã que sempre existiu

Que você sabia que estava em algum lugar, como uma lenda

Uma irmã como parte da herança que o Pai deixou

Uma irmã de nome NEUSA.

 

Não é todo dia que se está preparado para morrer

Ou para chorar o suporte doloroso do primeiro Encontro

Para receber a irmã e, em alguns minutos e transbordando lágrimas

Abraçar toda uma existência enorme de mais de meio século

Tudo ali num minuto como um pertencimento final de ausências revisitadas.

 

Não é todo dia que você encontra uma irmã mais sábia que sobreviveu

E também quase morre cinqüenta e seis anos em apenas alguns minutos

E quer que o abraço de encontro dure 56 anos como se a compensar ausências

Porque o abraço de almas gêmeas do mesmo DNA têm sangue, lágrimas, e, ainda mais

Dias, semanas, meses, anos - que se foram; e agora tudo ali se juntando numa fusão

Leite e mel na condutividade espiritual como ouro, incenso e mirra...

 

Não é todo dia que se vira 56 páginas de abraços, rostos colados num único encontro físico

Com potes de lágrimas em louca emoção, coração, alma; e o choque

Pois é o espírito que ama o espírito

Antes do abraço demorado tentando construir e conter 56 anos num só instante.

 

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Quase morri esse dia

(Acho que na verdade de alguma maneira nasci de novo esse dia)

Mas, se eu morresse esse dia, janeiro em Itararé

Eu certamente depositaria no céu

Aos pés do meu Pai Antenor

O meu despedaçado coração

E depois do abraço em pranto, muito além do vale da sombra da morte

Eu ainda teria as cores, sons e tintas dos olhos da minha irmã Neusa

E então, finalmente recomposto, diria ao Pai:

-Eis aqui o teu filho. Eis as minhas mãos molhadas com as lágrimas de tua filha Neusa

Eu trouxe o coração dela, Pai

Dentro do meu coração arrebentado, Pai

Para deixar aos teus pés, Pai

Porque agora, finalmente, o Clã Corrêa Leite está completo

 

TEM A LUZ QUE FALTAVA

 

UMA LUZ CHAMADA NEUSA

 

-0-

 

(Itararé, Janeiro, 2009, Chuvas e Lágrimas)

 

Silas Correa Leite, Primeiro Rascunho

E-mail: poesilas@terra.com.br Site: www.itarare.com.br/silas.htm

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(Na Casa do Pai Há Muitas Moradas) – Familia Correa Leite em Sépia

A Força Que nos Alerta

21:42 @ 31/01/2009

 

Crônica:

 

A Força Que Nos Alerta

 

 

Para o Professor Alexandre Silva, meu amigo-irmão

 

“A verdade é aquilo

que diz a nossa voz

interior...”

 

(Mahatma Gandhi)

 

 

 

De onde vem...o que é exatamente... aquela bendita “força” que nos alerta? De que “desmundo” é esse tal lado sentidor tão tácito nosso, de captar, decodificar e, no sensorial nosso, traduzir para nós mesmos, dentro do nosso compreensível imediato um legado importante, quando estamos em risco emergencial, e precisamos mesmo compreender tudo e bem depressa, sim, para nos salvarmos de nós?

 

A força que nos alerta.

 

Você está para viajar, tudo prontinho, numa boa, um lugar novo, praia, longe a viagem, conhecida estrada, férias de verão com sol, eis que de repente, um telefonema; uma coisa que cai de algum lugar para lugar nenhum (e sem aparente motivo algum) e, sem querer, sabe-se lá por qual ou algum motivo ulterior, superior que seja, você não sai, não vai; o carro refuga o improvável, o elevador empaca sem motivo, a ração do gato que falta, um telefonema por engano, quando resolve bobamente então pensar melhor, vai ver um filme que já viu, fica sozinha reclamando sem entender, sem saber porque, e então lá bem a bomba depois : todos que foram perderam a vida, houve um desastre, a pista, o sinal, a chuva, e você foi salva nem sabe direito porque.

 

Quem livrou você? A força além do incompreensível salvou você.

 

Você está muito a fim de alguém. Aquelas coisas. Um baile de fantasias, um espaço de entretenimento, você saca a pessoa chique, pomposa – pode ser ela a ideal, a para sempre, o amor de sua vida de lutas e sonhos, de erranças e eternos recomeços – então você vê que há outros interessados de passagem, você ali, imaginando coisas, carente, querendo se soltar, chegar, dar telefone, nome, endereço, muito prazer, essas coisas próprias do primeiro encontro. Súbito, uma brecada brusca num não-lugar (que só você ouve e sente), uma estrela cadente as onze da manhã, um psicológico disparo no coração, e você vira para outro lado se distrai, um quadro abstrato, uma música de um tempo, um lugar, e você sai fora do foco, sabe que alguém pipocou por ali, o lance foi com outra pessoa, meses depois você fica sabendo a dor, o trauma, a traição, a contaminação, a morte, e você escapou por pouco – nem sabe bem direito  como e porque – você se safou, você não foi a vitima da vez, não foi predada, só por Deus.

 

Essas coisas acontecem mais do que você imagina.

 

Você vai jantar fora, baita apetite, noite alta, céu risonho, você com a corda toda, alto astral, crédito espiritual, alta estima, entra num lugar badalado, pronto pra balada notívaga. Fica ali numa boa, pede um drinque, sacando a hora de pedir o cardápio, o manjar de leite de coco com ameixa. Súbito, dá-se alguma coisa no seu íntimo, no ser de si, você paga e nem consome direito o que foi pago, levanta-se e sai depressinha pela rua assoviando uma balada do Erasmo. Em segundos você então, fora da área de risco, escuta gritaria, um estrondo, o lugar explode, pessoas desesperadas, você escapou por pouco.

 

Há um Deus!

 

A força que nos alerta. Que força é essa, quem livra você de você passar por necessidades, de viver momentos traumáticos, de sofrer problemas graves? São tantos os percalços que compõem a ária da vida. Esse é um milagre indizível. Que força provê alguém, quem manda você voltar pra casa, quem dirige sua vida, quem manda você pegar ônibus num outro ponto, quem às vezes livra você de você mesma.

 

Mistério? Ou todos os dias somos repaginados em nosso endereço epidérmico?

 

A força que nos alerta, dá uma dica sem dizer, dá um toque sem falar, mas você saca rapidinho, lê o indizível, olha o que não existe, capta, percebe, intuição apurada, faro fino. Que mundo é o mundo? Quem abençoa você, protege você, ama você e tem um plano pra você? Você tem um problema, tropeça na resposta, você fica desempregado, lê num pedaço de jornal a dica do próximo trampo, você tem um difícil trabalho de escola, acha um texto na Internet ou um desconhecido por engano lhe envia sem querer. Sem querer? Quem mandou?

 

Essas coisas acontecem mais do que você pode imaginar.

 

Nada é por acaso? Nada acontece de graça. Já tivemos tudo isso, outras vezes, não podemos refugar nosso destino? De um modo ou de outro viveremos sempre o que temos que viver? Já estivemos aqui um dia  e não fizemos a lição de casa, o óbvio ululante? Estamos só reprisando capítulos rotineiros de um trauma para aprendermos melhor um novo rumo, uma nova chance, uma vitória que não queremos e nem sabemos que não fizemos por merecer? O que podemos evitar? Tudo é possível. Cuide-se bem.

 

Vigie além de orar. E saiba lidar consigo mesmo, ser feliz com o que você é, traduzir-se para compreender melhor o seu interior... Aceite-se. Permita-se assim.Corra riscos se preciso for, ventile essa alma-avelã.

 

Mas, afinal, isso acontece e, acredite se quiser, alguém lá em cima gosta de nós. Mesmo que não saibamos, ou às vezes não compreendamos inteiros e redondos, estamos de alguma forma direita ou indireta, sujeitos a esta força. Deus? Godot? God? O anjo-da-guarda?

 

Leia o poema:

 

“Ouvir não dói/Ouvir não é ceder/Ouça mais(...)/Ouça, pense, compreenda/Reflita/Permita-se na relação profunda do diálogo(...)/Ouvir é pra essas coisas:/Permitir, trocar, evoluir/(Ouvir não é só isso/Tem essência na filosofia do verbo ouvir(...)/Ouça mais/E seja mais/nesse mudar(...)/Talvez só falando você não se encontre/E nem saia do mesmo lugar(...)”

 

Tudo é possível. Fique esperto, fique alerta, leia os sinais, capte as sugestões implícitas, seja um radar, esteja ligado. O imponderável é bem provável. A ciência não explica a ciência. Se dinossauros não ficaram pra semente, as baratas sobreviverão até a uma guerra nuclear.

 

Conecte-se. O grande milagre é compreender a informação, sermos receptivos às mensagens!.

 

Faça por merecer.

 

A Força esteve com você.

 

 

 

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Silas Corrêa Leite – Poeta, Educador, Sonhador de um Humanismo de Resultados –E-mail:

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Site pessoal:

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