Grupos

 

 

 

Pequeno Apontamento Para Rascunho de Micro-ensaio

 

A Linguagem do “Itararé-ês” – Confeitos de Comunicabilidades

 

 

-Itararé é um belo e bucólico município de divisa de estado. Por isso mesmo é de um cênico mirabolante, um circo de sítios descomunais, um portentoso chão de estrelas, verdadeiro palco iluminado por excelência de andorinhas sem breque (quem nasce em Itararé é “Andorinha”). E tem uma espécie de dialeto único, todo próprio da cidade bonita pela própria natureza, entre o São Paulo do sudoeste e o estado sulino do Paraná. Mistura nesse “Itararé-ês” de falações, resquícios do gauchês largado (passagens de tropas, revoluções, inclusões logísticas), o cor-de-rosa polaco catarinense que se canta no falar como se salmasse a palavra, o paranaense que mingua caipirices de um brasileuropeu, alguns fragmentos letrais (que multiplicadores se tornam rueiros) de italianos detravessados (imigrações), entre ciganos, húngaros, alemães, suecos, turcos e outros juncos viajosos de tantas diásporas extracontinentais. Por isso Itararé tem um variado elenco de repertório composto de diálogos errantes, falações de variantes etnografias, em falácias loquazes de dialéticas exuberantes, mais os chamados ditos populares, os tantos cantares poéticos; contações quase que líricas e até expiações letrais risantes. Itararé de divisa (e por isso mesmo também), tem lastro crítico-criativo, entre coivaras de ramos lingüísticos e sapés de linguagens com prosopopéias do chamado “contar palha” mesmo. Além de muitos causos e contentezas de variadas pernas e sulfixos, muito das barulhanças do chamado “ouvir-dizer”. Exemplos como forfé, guaiú, tardiscando, faiaca, de-vereda, conheceu papudo, pelames, ir de bubuia, saltei de fininho. Já pensou? Passei a vida inteira catando as linguagens pegajentas e popularescas de Itararé, com minha bateia de granizos. Um mosaico letral ridente. Acho que o itarareense tem linguagem carregada como quiabo na pedra... A bem dizer, escorregadia como água, diz-que-diz-que; bem prosaica no dia-a-dia, pitoresca e barulhada, quase fala-cantoria, louvação. E também nesse proseio próprio de divisa geocultural (?), separa os confeitos das falas na língua, como se um macadame de conversar em variadas raízes exóticas abrasileiradas, entre moendas e engenhos, feito linguagem líquida. Antes de esmerilhar o sujeito, sapecar o predicado e retumbar o verbo, invertendo com galanteio um e outro, pega a palavra para o varejo. Conhece do oficio. Que serpenteia nas passagens do dizer-se. Aliás, falando sério, o Itarareense é muito bom de bico. Conta papo afiado como garbo, saracoteia diálogos, re-oxigena serelepe as entoações ardidas. Na conversa fiada alumia os parafusos dos verbos e vocábulos, quando não inventa de inventar misturanças que redundam em neologismos, e no palavreio nutriente-cultural sapeca histórias do arco da velha (e do álcool da mais-valia sobrevivencial – ai de ti boemia de Itararé!). O “falar Itararé” é isso: um itararé-ês. Com falas como andar-de-segura-peido, calcanhar-de-frigideira e outras palavras descruzadas, o Itarareense deixa saudades e flores por onde passa, e nesse andarilhar seresteiro (e noiteadeiro) deixa fluir o seu vareio de linguagem própria. E entre mentiranças, claro, barulheiras sonoras, causos hilários, leva e traz o escarcéu líquido do ser de si, empanturrando bares e viagens de entintadas histórias pra boi dormir. O Itarareense deita falatório, e, com releturas palavreiro  de divisa (com suas peculiares especificidades), como é, está, permanece, seduz e registra. Acontece. Traz Itararé dentro de si, como um signo ficante de enluo e orgulho-raiz. Entre a imaginação fértil e as memórias inventadas, entre o linguajar sério-luso e o lusco-fluxo do tabuleiro das linguagens, depura o arame de gramáticas bonitas, alegres, com paginações retumbantes. Aliás, Itararé é berço esplêndido, e, falando sério, a bem dizer, a fala do Itarareense é centopéica.

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Silas Correa Leite (Primeiro Apontamento Para Um Rascunho Literal)

E-mail: poesilas@terra.com.br Site: www.itarare.com.br/silas.htm

Livros: Porta-Lapsos, Poemas, e Campo de Trigo Com Corvos, Contos,

além do e-book de sucesso “O Rinoceronte de Clarice”, free no site www.itarare.com.br

(Texto da Série: “Eram os Deuses Itarareenses?”)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hino ao Itarareense

Composição: Silas Correa Leite (Hino Oficial)

1

Se a batalha te chama na história

Voltarás com verve e augusto

Pra ser forte no amor e na glória

Defender Itararé a todo custo

Levas sempre no peito o encanto

De uma Terra de infinita Sé

Dessa aldeia que adoras tanto

Santuário chamado Itararé

(Refrão)

Se a honra de Ser te pertence (

Deste chão és ternura e fé       (

Pra viver sempre Itarareense (

E morrer por Itararé!             (bis)

2

Sentinela que guarda a fronteira

Um celeiro de pinha e maná

Da legalidade és trincheira

Às barrancas do Paraná

Se te fundas Boêmio que vence

Desde os bosques, planícies até

Te engalanas tão Itarareense

Feito nau ao luar de Itararé

3

Se o Brasil ergue a clava forte

Pra ornar a Carta-Constituição

Lutarás com ardor até a morte

Para valorizar teu rincão

Esse Itarareense-Andorinha

Encantada, do rio verde ao tembé

Sobre a Coronel Jordão se aninha

Chão de Estrelas de Itararé

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Poetinha Silas Correa Leite, do Clã “Fanáticos Por Itararé”

E-mail: poesilas@terra.com.br Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo

Ver Blogue: www.artistasdeitarare.zip.net

 

Estância Boêmia de Itararé, histórica Cidade-Poema, Bonita Pela Própria Natureza, Chão de Estrelas, de Artistas de Talento como:

Aristeu Adão Duarte (Professor, Acadêmico, Cantor Premiado (Mapa Cultural Paulista) Armando Merege (Pintor) Carlos Casagrande (Ator da Rede Globo), Dorothy Janson Moretti (Poeta Premiada), Ed Primo (Pintor que foi destaque na Revista Veja-SP), Edson Marques (Escritor, Prêmio Miguel de Cervantes, Espanha, foi ao Provocações (TV Cultura) do Antonio Abujamra), Gerson Damasceno Gorsky (Doutorado em Música no Exterior), Gustavo Janson (Fotógrafo), Ismael Vaz Cordeiro (Humorista, Palhaço, Radialista), Jannis Vidal (Pintor, Historiador autodidata), Jorge Chuéri (Artista Plástico Premiado, inclusive no exterior e no Banco Real/Talentos da Maioridade), José Maria Silva (Contador de Causos Premiado no Elos Clube/Comunidade Lusíada Internacional, foi ao Programa do Jô Soares/Rede Globo), Lázara Aparecida Fogaça Bandoni (Escritora e Historiadora Premiada), Luiz Antonio Solda (Humorista, Cartunista, Publicitário e Poeta, vários Prêmios), Maestro Gaya (Músico e Arranjador Premiado/Festivais da Record. Descobriu, burilou e produziu (entre outros) Chico Buarque de Hollanda), Maria Aparecida Coquemala (Acadêmica e Escritora Premida, inclusive na Itália), Marina Solda (Pintora), Paulo Rolim (Escritor, Cientista, Ufólogo, Visionário Mediúnico), Paulino Rolim de Moura, Jornalista, Primeiro Ecologista do Brasil, sofreu vários processos, Regina Tatit (Cantora), Rogéria Holtz (Cantora e Compositora), Sebastião Pereira Costa (Escritor), Sérgio Carriel de Lara, Ator, Teatrólogo e Diretor Premiado de Teatro (Mapa Cultural Paulista), Silas Correa Leite (Poeta, Ficcionista e ensaísta, Prêmio Lígia Fagundes Telles Para Professor Escritor; Premiado no Mapa Cultural Paulista (representando Itararé) e também em Portugal, Prêmio Simetria Microcontos/Ficções Fantásticas, acadêmico (FAPESP-USP) foi entrevistado no Programa Momento Cultural, Márcia Peltier, Rede Bandeirantes, e no Programa Metrópolis, TV Cultura, colabora em mais de duzentos sites, Terezinha Iluminada de Mello (Escritora Premiada, Historiadora Premiada), Zunir Pereira de Andrade Filho, Escritor, Pintor.

Frases Sobre Itararé:

-Itararé, Nosso Amor Já Tem cem Anos (Zunir)

-Morro pelo Brasil, Mato por Itararé (Solda)

-Ita(ar)(ar)é (Poetinha Silas)

-Prefiro ficar preso em Itararé do que solto em Itapeva (Boêmio Nelson Corvo)

-Itararé, se colocar grade verde é cadeia, se colocar lona azul é circo, se colocar cortininha cor de carne é zona (Biriteiro e Dono do Bar Fecha-Nunca, Miro Vaca)

 

(OBS: Ajude a divulgar Itararé. Se você souber de algum outro louco criador ou artista de Itararé de talento, contate a promotora do Blogue “Artistas de Itararé” pelo e-mail: artistasdeitarare@bol.com.br Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo )

 

Sempre Haverá Itararé

 

 

JESUS MORA COMIGO EM MINHA ALDEIA

 

Tanto falam Dele, dizem que O adoram
Mentem tanto pra Ele - Já mataram muito em falso nome Dele
Imitam-NO de forma errada e rasa
E até, acreditem meus irmãos queridos
Criaram lojas, supermercados, muros, museus, rituais
E mentiras de fanatismos e idolatrias em nome Dele.

 

Dizem que Ele está no céu a direita do Criador-Pai
Dizem que Ele está pendido por cravos numa cruz milenar
Mas Ele está mais perto de nós do que pensamos
E o céu pode ser o que criamos com nossas ações de caridades
Com nossas energias, ninhais e encantários
Nossos atos, mãos estendidas como lírios laranja
Amando o próximo como se a nós mesmos.

 

Só que eu descobri um milagre infinital
Ele não está em nenhum baú de ossos ou com relíquias fantasmas
Nem é ícone derrotado por pregos pagões
Sequer fundou religião - ou inquisições medievais com vãs filosofias
Confesso de cara lavada: descobri um segredo mágico Dele:
Ele Está No Meio de Nós
Ele está exatamente aqui em nossa abençoada
ESTÂNCIA BOÊMIA DE ITARARÉ.

 

Jesus mora comigo em minha aldeia amada
Tem várias cores, várias faces e muitos símbolos vivenciais
Às vezes é de um lilás vitreo, tez de quartzo ou arco-íris
E O chamamos de irmão, pai, filho, amigo, compadre
Ou de tio, camarada, companheiro, anjo-da-guarda
Quando não O chamamos de Aurora, de Losango cor-de-abóbora
Ou de Prelúdio, Ternura, Magnitude, Espiritual, Ultrapássaro
E, principalmente Ele é mesmo sem tirar nem pôr
Pobre, humilde, operário, simples, carente, bóia-fria
Quando não sem terra, sem teto e muito peregrino
E eu reconheço esse Jesus Cristo na minha gente humilde
Pois me pareço com ele, porque sou de mãe mameluca e pai judeu
E sou muito triste, sensível, sentidor, sozinho...

 

Jesus anda pelo cacau quebrado da nossa Rua São Pedro
Tem asas no calcanhar e alpargatas de recolhedor de centeio
Pendura-se em asas invisíveis de pré-aurorais andorinhas bentas
Chupa picolé de limão-rosa fiado no Bar do Preto
Toma Tubaína Tutti-Frutti na Praça Coronel Jordão
E de vez em quando vai ouvir um baile no Clube Atlético Fronteira
Serrar um abraço da Rosana Milcores (ou um sorriso xadrez do Mário da Banda Marionetes)
Ou nadar saradinho como mandioca nas espumas do rio da vaca
E até já foi no Biribas Blues Bar ouvir causos do Zé Maria do Ponto
Quando não faz poesia escondido ou chora com seus lábios quadrados
Por causa dos lazarentos marginalizados pelos podres poderes.

 

Pois é isso, meus adoráveis irmãos conterrâneos alumbrados
Jesus mora conosco aqui mesmo
em Itararé
Freqüenta
todas as igrejas de abraços limpos como nuvens
Coça berebas de vaidades sociais com especulatos
Sofre com poses, grifes, butins de riquezas injustas e impunes
Adora rueiras crianças ranhentas e velhos sábios com lastro ético.

 

Dia desses eu O vi com o nosso pintor premiado Jorge Chueri
E até pensei que nosso amigo artista plástico O tinha pintado
(Com cor de orquídea impressionista - E Lhe dera cara caseira)
Mas descobri que Jesus é fã do Jorge a quem deu sua tez avelã
Assim como colhe caldas de lágrimas da Professora Lázara Bandoni
Ou sinais de véus e sândalos da Tere Iluminada com sua asa terreal
E sei que se o tratarmos muito carinhosamente e bem
(Como às suas pequeninas e humildes criaturas também)

 

ELE FICARÁ CONOSCO PARA SEMPRE, AMÉM.

 

Silas Corrêa Leite - de Itararé-SP

 

Conto de Natal de Itararé

12:36 @ 08/12/2008

Conto de Natal 2008

O Piá que Entregava Trouxas de Roupas Lavadas


“As lágrimas são as palavras da alma”
Joaquin Setanti


Acharam o piá quase morto de frio. Estava com uma grave pneumonia. Olhos castanhos, murchos, fundos, tristes. Chorava, copiosamente, de ressentimento, talvez. E as lágrimas em sua face com amarelão, como se estavam - por um anjo! por um anjo! - de alguma estranha forma congeladas; dando ao seu rosto pueril a sofrência de uma paleta de amargura e dor terminal. O policial Dito Lima, num fusca que mais parecia uma imagem de garrafa de crush itinerante, tinha subido a rua 24 de Outubro, ali, na altura do Clube Atlético Fronteira, perto da hora do inicio Missa do Galo, e vira o menino com um vazio saco de farinha de trigo usado na mão direita, como se segurasse uma roseira de tristices. Vira, em passant, por acaso, de vereda mesmo. Depois, precisando atender a um chamado do Vereador Chico Preto para um forfé suspeito nas imediações da malha férrea da Estação Sorocabana de Itararé, passou novamente na esquina ali pertinho, e, de través, com o rabo do olho captou de novo o guri e talvez já passasse da meia noite. Encafifou. Será o impossível? Um alarme divinal tocou em seu instinto. Só por Deus. Parou o fusca da policia e foi ver o que estava acontecendo. Sacou o desboque: o menino pobrezinho ardia em febre, murcho, trêmulo, se não fosse socorrido a tempo certamente que iria morrer. Era Natal em Itararé, Cidade Poema. Dezembro de um tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça.

O piá era filho da Dona Lena. Levava e trazia rotineiramente as trouxas de roupas que a mãe lavava pra fora, precocemente ajudando como podia em casa. Trazia as pesadas trouxas de roupas sujas dos ricos, depois levava tudo de novo, roupa limpinha, fervida em água de bica (o chafariz do Bairro Velho), sabão de cinzas e anil, passada com os vincos certinhos, e que entregava direitinho, trazendo os minguados tostões pra suprir a familia grande e pobre, da carente periferia sociedade anônima de Itararé, pois o pai estava doente, os irmãos menores padecendo, por meses, mal-e-mal e sempre uma rotineira e rala sopa de fubá com couve rasgada. Havia carestia no Brasil, anos sessenta, os clientes ricos minguando, o já parco pagamento dos afazeres da mãe dedicada, entre o tanque e o quarador, entre o fogão de lenha e os filhos com amarelão. A Dona Lena confiava naquele primogênito, era o maior, dizia até que o bendito era abençoado por Deus. Gastava um minuto de prece com os outros filhos, nas demoradas orações, mas, com aquele seu protegido era meia hora, precisava investir no menino, tinha fé nele.

Algo doente, Dona Lena, mesmo assim batalhou até de madrugada, fervendo as roupas no latão velho de óleo de algodão, sobre uma lajota com fogo no quintal de laranjeira pesteada. Depois, passou a ferro que era de brasas, com sacrifício, mas ela contava com mais aquele serviço, tinha planejado, ternura de mãe. A despensa estava vazia fazia tempo. Sopa de fubá com couve rasgada, polenta maleixa, aqui e ali, banana frita, uns ovos que mal davam prum bolo mixuruca de banana-caturra e olhe lá. O céu por testemunha. Se o Dr Aderaldo mandasse mais uma quantia de roupa, se apressaria em entregar depressinha o serviço, pra ter mais uns cobres que melhorassem a bóia de natal, talvez desse até para comprar algumas tubainas de limão do Vilela, ou mesmo algum doce de cidra pros filhos queridos, tão precisados. Instruiu o piá Thiago que, entregando as trouxas de roupas limpas, recebesse e passasse no Seu Vitorino, fizesse algumas compras, deu uma listinha, feijão-jalo, tomate, óleo, açúcar cristal. E também trouxesse a nova renca de roupas sujas pra ela poder adiantar bem o serviço, varando a noite preciso fosse, talvez entregando no dia seguinte, mesmo tendo que ferver as roupas de madrugada, mas, ao final do dia de natal entregaria tudo pronto e receberia a paga costumeira para melhorar a bóia em casa. Coração de mãe. Capricharia nos torresmos, cuques, tortas de lágrimas. Confiava no guri. Bem instruído, ele foi levar as pesadas trouxas, como se carregasse o mundão sem porteiras sobre os ombros miúdos. Entregou, recebeu, viu que era pouco o que pagavam pelo trabalho, mas atenderia à solicitação da querida Mãe. Mas, quando perguntou da nova porção de roupa suja da casa do Dr Aderaldo, foi informado de que não estavam mais interessados no serviço, contratariam empregada barata a preço melhor e que ainda faria tudo, depois, estavam para entrar de férias, iriam pra Iguape, litoral. O menino ficou estacado. Mal deram um tiau seco e sem graça que fosse, fecharam a porta da casa rica na cara azeda dele, e Thiago ficou ali, encostado na enorme porta de cedro e imbuia cheirosa, chorando suas lágrimas, quase beijando a parede, quase mesmo batendo de novo e pedindo pelo amor de Deus, mais uma leva de roupa suja, mais uma porção de serviço, a casa precisava, a mãe contava com aquilo, que fizessem uma caridade. Era Natal e ele estava detravessado. Sensível. Cismou. Reinou. Não voltaria pra casa. Não voltaria nunca mais. Não com as mãos vazias. Não ele. Não daquele jeito.

Ficaria ali. Estava mesmo com tosse de cachorro, a mãe disse, o peito chiara na madrugada fria do dia anterior, um dezembro chuvoso e friorento em Itararé. Se morresse ali, não daria desgosto de dizer pra mãe que não teria mais roupa pra lavar daquela ultima casa freguesa, ou que iria apertar mais a pobreza em sua casa humilde. Sim, ficaria ali, achariam o corpo, dariam o dinheiro pra mãe, ela o abençoaria, “vá com Deus meu curumim, vá morar no céu, piá”. Ele não tinha coragem. A mãe pedira. A mãe contava com mais uma lavada pelo menos, naqueles tempos de carestia. Pelo menos morrendo, no jantar daquela noite sobraria mais da rala sopa de fubá com couve rasgada pros irmãos, para as adoradas irmãs, para a mãe adorável que andava dodói da angina, pro pai que estava de cama com úlcera varicosa e assim era impedido de trabalhar. Ali Thiago ficou entrevado, coração transido, alma aflita, mordido de dor. Só por Deus. Entardeceu, anoiteceu. Sobre a beirada da porta da frente da mansão do Dr Aderaldo Martins Mello, na Rua 24 de Outubro, um pacote de renúncias. Foi quando o policial Dito Lima o achou sem querer e salvou a sua vida, pois a morte já fora avisada que uma alma pura de Itararé estava para ser levada para muito além do vale da sombra da morte... Na Santa Casa de Misericórdia de Itararé foi uma correria danada, um forfé sem igual, o menino coitadinho para morrer; cobraram doações de sangue, labutaram, uma enfermeira conhecia a familia, foram avisar Dona Lena, o filho achado em petição de desconsolo estava morrendo em frente a casa do doutor rico, a mãe preocupada pensava mesmo em chamar a policia, ia dar parte na cadeia, perguntaram então do porque o menino que entregava roupa não quisera mais voltar pra casa, como ele ainda em tratamento emergencial, talvez entre o pesadelo e o sonho, falara, repetira, suando, descorçoado, determinado, em febre-terçã, preferindo morrer do que não ter como ajudar a mãe prover o lar.

O Dr. Jonas de Alencar chorou muito depois que o pensou com presteza, mandou trazerem capado do sitio e que doassem pra familia junto com farnel de milho verde e manta de charque, entre grãos e tulhas de frutas como laranja-pêra, abacate-manteiga, manga-sapatinho, alguns lambaris salgados também. O enfermeiro Nicanor correu no Armazém do Vereador Tico comprar fiado uma boa cesta básica pra doar como se fosse o seu abençoado presente de natal pra familia. Todos no hospital, doadores, serviçais, visitantes, curiosos, gente de coração de ouro de Itararé, cavalheiros como os reis magos, foram acudir aquela familia humilde em petição de miséria. Muito além de ouro, incenso e mirra, há o amor, pois o amor é a mão que balança o berço da humanidade, e a esperança é a inteligência da vida. Nunca tiveram um mês tão farto naquela casa de tabuinhas, com todos finalmente comendo do bom e do melhor, até que a mãe arrumou freguesia nove e farta, o pai arrumou emprego de acendedor de lampiões de gás de Itararé, o menino Thiago ficou sendo respeitado pelos seus colegas do primário no Grupo Escolar Tomé Teixeira, e quando algum piá maroteiro de rua, com quem joga bola de capotão agora, de ki-chute encardido no pé, pergunta porque ele não quis voltar pra casa, ele enche os olhos de lágrimas, abaixa a cabeça, se assunta e não diz nada. Fica encruado.

Não, não se apruma numa conversa fiada que seja. Sabe só pra ele que dentro do seu coração, de alguma maneira que inventou de inventar, sentiu uma estrela amarela de Natal alumiando, e ele queria aquela bendita luz, aquele dourado celeste de esperança, para enfeitar a choupana humilde de sua morada na descalça periferia cor-de-rosa de Itararé. Sentiu que, talvez porque fosse Natal, mesmo morrendo de frio, de alguma maneira seus familiares não morreriam de fome, pois, algum anjo de pertinho do Menino Jesus do presépio, em sua fé e defesa, operaria o que o Pastor João Vera ou o Padre Natalle Moretti chamariam de um “Milagre”.
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Silas Correa Leite, Itararé, Cidade Poema, São Paulo, Brasil
E-mail: poesilas@terra.com.br Blogues: www.portas-lapsos.zip.net
Ou: www.campodetrigocomcorvos.zip.net ou
www.itarare.com.br/silas.htm

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Itararé Que Amamos Tanto

19:21 @ 19/12/2008

Tela Pintada Por Zunir Pereira de Andrade Filho

Catedral de Lírios de Itararé, Igreja Nossa Senhora da Conceição

Praça Coronel Jordão, Centro, Itararé, Cidade Poema

Livro do Zé Maria do Ponto, O Maior Contador de Causos de Itararé

Foi contar Causos ao Jô Soares, no Programa do Jô, Rede Globo

Poster-Poema Silas Correa Leite

19:46 @ 21/12/2008

Poema do Silas, Foto e Poesia

19:51 @ 21/12/2008

Poeminho Silas Correa Leite, Poster Artesanal

Além dos Sentidos - Contos e Crônicas
Maria A. S. Coquemala



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“... partiram em direção ao fundo da gruta, dois vultos se esgarçando, desaparecendo do nosso olhar atônito, rumo certamente ao infinito de um amor que o ligava para sempre. Nossa perplexidade comovida nos paralisava, nenhuma palavra dizíamos, mudos de espanto. Até que desapareceram...” (A Gruta Azul)
“O mesmo pão-oferenda todo dia, uma espera sem limites, um olhar fixo e esquisito, no qual uma pessoa mais atenta poderia ver vestígios de sonhos de uma mulher perdida em seu próprio desvario esquizofrênico...” (À Espera)
“Aquele velho homem, Seu Minári, com quem jamais tinha conversado, amigo de meu pai, tornara-se de repente a expressão do meu mundo, das pessoas e coisas que eu amava, o mensageiro da alegria... Chorei quando ele se foi...” (Infância)
“Acordei ouvindo vozes dolorosas trazidas pelo vento, como se as mágoas todas do mundo se condensassem naqueles lamentos. Era de arrepiar. Senti compaixão, senti muito medo. Diego me chamou... As vozes vinham do sítio arqueológico.” (O Enigma dos Rupestres)
“O caso transcendia qualquer explicação, já que não só mergulhava no passado dos mortos, como por vezes o fazia com precisão assustadora, revelando fatos sombrios perante a família e a sociedade estupefatas.” (A Face dos Mortos)
“E nos decidimos por Sócrates, pela dignidade com que conduziu a vida e a morte. E, identificadas na poeira do tempo as partículas que o tinham constituído, as clonamos, reconstituindo a identidade somática, mental e psíquica do filósofo.” (Sócrates: a busca)
“Ah, então a engraçadinha ainda brincava com ele, plagiando a fala do Fico de Dom Pedro? A atrevida culpava o pobre Gaspar pelas desordens? Pois haveria de saber com quem estava lidando, a bandida, desgraçada, ela e seu cão vira-lata.” (A Guerra dos Vizinhos)

 

 

Causo do Zé Maria Silva, O Maior Contador de Causos de Itararé, São Paulo, Cidade Poema

 

'O Azulão' - Causo narrado por José Carlos Nogueira, que ouviu de seu pai, o saudoso Farmacêutico José Nogueira, de Itararé-SP.

 

'' Este causo aconteceu em Itararé, SP, nos idos de 30. Nhô Quinzinho tinha a fama de ser o maior comprador de suínos do sul paulista. Baixinho, usava sapato de salto pra compensar. Vaidoso, tingia o cabelo e o bigode. Sentia orgulho de ser chamado de garanhão, labioso. Mas seu orgulho mesmo se chamava Cigana, uma mula de passo picado. Num 25 de março agourento, ele resolveu fazer uma viagem no lombo da mula sertão acima. Em qualquer das paradas, dizia:

- Animal tal qual não tive notícia!

Dias depois, chegou ao destino, a Fazenda Santa Genoveva, do compadre Propício Assunção.

Ao passar a porteira, encontrou a comadre Zefa Polaca, loura, olhos azuis, que lhe disse pra aguardar o marido, que tinha saído. Tomaram café, depois licor, Dona Zefa começou a sorrir maliciosa até que o inevitável aconteceu: o compadre passou-lhe uma cantada. Ela não disse que sim nem que não. Seu Propício chegou finalmente e foram jantar. A comadre, sempre solícita, ofereceu inclusive uma moela para o visitante. Mas, de repente, o mundo caiu com a fala de Dona Zefa:

- Propício! O cumpadre me fez uma proposta quando nóis tava sozinho!

Pronto, a moela entalou na garganta do coitado.

- Qual foi muié?

- O cumpadre qué trocar a Cigana pelo cavalinho Revortoso.

Nhô Quinzinho sentiu alegria e tristeza ao mesmo tempo, mas achou melhor não discutir e dar a mula. No caminho de volta, vendeu o Revortoso e pegou um trem. No mesmo vagão que ele, um violeiro dedilhava uma moda: 'Eu tenho uma mula preta...'. Quinzinho não se conteve e disse:

- Pelo leite que você mamô na tua mãe, não toque mais isso. E chorou que nem criança.'

 

 

'O Garanhão, a Mula e o Petiço' - causo adaptado do livro As Batalhas de Itararé, de José Maria Silva, o do Ponto, primo de Bocca