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Jorge Chuéri, Eterno Imperador do Carnaval de Itararé

 

“Eu vi muitos cabelos brancos/No rosto do artista/O

                                                             tempo não pára e no entanto ele nunca envelhece...”

(Força Estranha – Caetano Veloso)

 

-Meninos, eu vi: O Jorge Chuéri, meu herói, na livraria e papelaria ali na esquina da Rua São Pedro com a Rua Coronel Crescêncio. Pois foi ali que comprei meus primeiros gibis – Aí Mocinho! - caminhos suaves para tecer rama de palavras e achar ninhos de passarinhos em sovacos de dinossauros encantados. A esquina era ninhal de  fantasias em quadrinhos. A Leila era tão meiga, batalhadora – e linda!

 

-Meninos, eu vi: O Jorge Chuéri carnavalesco, bolando fantasias, fazendo colunas (Cofre da Folia) de Carnaval pro Jornal “O Itararé” do Clã Tatit – ao qual está maravilhosamente está eternamente ligado – compondo marchas belas, trabalhando de sol a sol, mas aproveitando a fauna notívaga de Itararé, até porque ninguém é de ferro e, afinal, a melhor vingança é ser feliz!

 

-Meninos, eu vi: O Jorge Chuéri amigão, solidário, com uma trupe de seres humanos de altíssimo naipe, bancando a construção do Clube Recreativo Primeiro de Maio, paradoxalmente ao mesmo tempo em que era Fronteirano roxo, quero dizer, Fronteirano sanguíneo como é a bandeira vermelha de nosso coração Fronteirano. Ave Chuéri!

 

-Meninos, eu vi: O Jorge Chuéri também literalmente pintando e bordando, porque, eclético, autodidata, altamente sensível, ser humano de primeira grandeza, a maior estrela desse nosso chão de estrelas. Ele sempre foi contador de causos, sempre teve ótimo humor, é piadista hilário, seguramente corretíssimo nos negócios, uma pessoa de fazer você viver em paz com você mesmo. Um anjo?

 

-Meninos, eu vi. E esse homem tem história pra contar. Um romance em pessoa. Um livro aberto. Cada página-luz de seus dias, vive intensamente,  nunca soube que fez alguém chorar, mais, tornou-se nosso mestre e o Poetinha virou bloco (idéia dele), e o estandarte foi ele quem fez. Foi Deus que fez o Jorge Chuéri e o deu de presente para a aldeia Itararé?.

 

-Mais de oitenta anos, e, sabem? Um menino. Pois quando eu vi os cabelos brancos na fronte do artista, notei que aquilo é só um disfarce, pois verdadeiramente o menino Jorge Chuéri corre atrás da arte, da cultura, viça seu talento, ganha prêmios, trabalha muito ainda, com seu Fiat Amarelinho vai vendendo seus papéis, ele mesmo uma página de rosto que, sim, consagra toda uma vida de encanto.

 

-Mestre Jorge Chuéri, na aquarela de sua alma, carrega as tintas de um viver intenso, de um curtir a vida de uma forma toda especial, semeando de amizades sua estrada que vai dar muito além do sol, sendo o seu ateliê o mais mágico pedaço da Terra do Nunca ali na Rua XV de Novembro, paredemeia com o glorioso alvirrubro Clube Atlético Fronteira que amamos tanto, e que o homenageou no Carnaval desse ano – o Bloco do Poetinha o homenageou no Carnaval passado – num verdadeiro tributo de reconhecimento especial. Crianças, jovens, foliões, famílias, todos irradiados de sua existência, param para vê-lo, aplaudem-no, vão tocar seu rosto claro, beijar sua mão de criador, como se o quisessem confirmar verdadeiro, comprovar se ele existe mesmo ou é só uma lenda, um mito, e tocavam contentes o Jorge Chuéri como tocam um Gnomo, um Delfos, um Ogro, um anjo, um personagem de história em quadrinhos, talvez Super-Jorge Chuéri Em Ação, com seu pincel mágico, seu olhar cativador, seu sorriso-árvore, feito um cedro do Líbano plantado em berço esplêndido da Estância Boêmia de Itararé.

 

-O Clube Atlético Fronteira inteirinho dançou pra ele, o reverenciá-lo, o Rei Momo foi legitimado nele, ele brincou e sorriu, recebeu mimos tácteis, foi fartamente abraçado, coroado, aplaudido, premiado, mas, também, confesso honrado, nós é que somos premiados por tê-lo como amigo, artista, fiel camarada. Habemus Chuéri!

 

-Agora é ressaca. Depois das cinzas, os guerreiros baixam os estandartes, voltam ao batente, estudam, e, sim, contarão causos no futuro do futuro, e inventarão o inexistente, e ele, o polivalente Jorge Chuéri, depois da gandaia,  estará nesse contexto social, trabalhando sério, visitando amigos leais, tomando cervejas, escrevendo para os jornais, lendo muito, enfim, sendo o que sempre foi com maestria e sabe muito bem ser, sendo humanus, sendo elegante, sendo verdadeiro, sendo a maior estrela desse nosso chão de estrelas chamado Itararé.

 

-Está pintando algum novo quadro, Jorge Chuéri? -Está escrevendo um novo causo engraçado, Jorge Chuéri? -Está viajando muito, Jorge Chuéri? -Está ainda na Diretoria do CAF Jorge Chuéri? Esse é o homem. Esse é o guerreiro lutando contra o dragão do tempo e vencendo-o

 

-Eu vi o Jorge Chuéri feliz pelo magno reconhecimento, pois entre todos os Itarareeenses-Andorinhas sem dúvida é o melhor. E nós, seus discípulos etílicos, musas e boêmios, temos nele um farol, um referencial, como o maior patrimônio artístico-cultural de Itararé. Saravá, Jorge Chuéri! Até o próximo forfé.  Vê se não fica até tarde na gandaia, hein?. Vê se come bem; Vê se toma direitinho os remédios. Vê se não mancha muito o jaleco de tinta, vê se não corre atrás de borboletas da memórias, vê se se cuida certinho que o ano que vem tem mais e você é muito importante para todos nós que te amamos tanto!

 

-0-

 

(Todos Nós - Fanáticos Pelo Jorge Chuéri – SCL/Bloco do Poetinha )

poesilas@terra.com.br

 

 

 

 

 

PRIMEIRO POEMA À MAIORIDADE

       

 

 

Ao Clube da Maioridade de Itararé-SP

 

 

 

 

"A vida é um cheque em branco/Em que você preenche a quantia/De uma grandeza única/Ou de uma existência vazia..." (Silas Corrêa Leite, in, O Marceneiro, A Última Tentativa de Cristo, romance inédito do autor)

      

 

 

 

Admirável mundo novo, sensacional:

Eu estou aprendendo a ficar velho, no  Brasil.

(Não como rejeito ou excluído social

Mas como maravilhoso vinho-verde de barril)

 

Sei meu endereço inteiro; escrevo poesias

Reconheço parentes, companheiros e crias

Até freqüento as Missas (de Sétimos Dias)

 

Sei quando a minha netinha da escolinha atrasa

E ainda hoje eu me peguei

Cantando "As Flores do Jardim de Nossa Casa"

De Roberto Carlos - o Rei.

 

Nunca fui tão tranqüilo, sábio, sereno, gente

Como ao me sentir velho e muito consciente

Até um Curso de Terceira Idade eu comecei

Escrevi poema de amor aos meus ancestrais

Aos que vieram de muito antes de meus pais

E até posei de cara limpa, cara lavada

De amante - dessa minha Pátria Amada

 

 

Ser velho é ser atual; ter paz e saúde

Eu tenho bagagem - eu fiz o que pude

Equilibrei a energia de uma juventude

À pureza da primeira infância, os primeiros ais

(Ah! as acontecências que a Saudade nos traz)

E assim, feliz, dei nisto que a vida hoje me faz:

Eu mesmo - e com muitissíma fé!

(Como é bom ser o que a gente é

Nada mais.)

 

 

Não tenho medo de:

Vaidade - fascinação

Escuro (ou Solidão)

Comunista, Injeção

Obesidade - pensão

-Ternura - Com uma nova amiga

Eu sou um amante à moda antiga

Mando flores, danço até bolero.

 

(Ser Velho é ser vero!)

 

Por quê, Deus do céu, não fui velho já nos meus quinze anos?

Ou com quarenta e tanto, na flor da juventude ainda não extinta?

(Se eu soubesse que velhice era tão bela assim, faria planos

E eu o seria feliz, ainda nos idos dos meus vinte anos, ou trinta...)

 

Não ter compromisso - ou ter alegria, diversão

Não respeitar sinais de pânico - ou decantação

Vaiar a depressão e não conferir bilhete de regressão

(E ainda chamar os brotos de brotos. Ai meu coração!)

 

Na outra vida - Vida Eterna muito além dessa ciranda

Quero ouvir Taiguara, Francisco Buarque de Holanda

Ler Sócrates, Neruda, Drumond - e tocar numa banda

Chamar a querida esposa-musa-vítima de "meu talismã"

E fazer sucesso nos rituais da família, toda santa manhã.

 

Não acreditar em inverdades - esteriótipos, ou matutas lendas sem valor

Deus é coisa séria, caridade e orações aos simples - eis o eixo do Amor

Não precisar ser bobo, mentir, votar em político corrupto, falso ou ladrão

E nem precisar deixar de ser eu mesmo para agradar a parente ou patrão.

(Ser velho é realmente o maior barato. E ainda assim a maior "curtição".)

 

(Os incautos adolescentes às vezes não me respeitam)

Mas os jovens também nunca respeitam os jovens não

(Algumas crianças às vezes também não me entendem)

Mas as crianças são felizes e não sabem dessa estação

 

 

(Universitários às vezes fingem que são o que não são

E muitos até pensam que pensam um acabado saber

Enquanto ser velho é só pagar candidamente em dia

A existência - como soma de maravilhosa mais valia

E a gostosa prestação de uma pura integridade de Ser)

 

 

Ser criança para mim hoje já não é assim tão divertido

Ser adolescente pode ser trivial, ou de verbo rude, sem estudo

Ser jovem é ter muita grife só que com pouco conteúdo

SER VELHO É GANHAR A HONRA DE TER SIDO

 

 

 

Quem nunca chegar a ser um velho como deveria

E morrer muito antes por ter se exaurido

Talvez terá sido medíocre e vai descobrir um dia

Que fingiu um curtume, não terá existido.

 

 

Eu era um menino com faniquito que via anjos num jardim caboclo

Eu era um guri que amava  Itararé, Pixinguinha e Tonico & Tinoco

Cheguei a ser triste e amargo - Como choro e ranger de dentro

 

 

Mas ser velho é o melhor exercício como se um sólido templo

E viver completo é mais verdadeiro - E um grande documento.

 

 

O Brasil não respeita os seus velhos

(Mas o Brasil não respeita o Brasil)

As crianças são idiotizadas desde o próprio berço familiar

(Os velhos permanecem íntegros, de vivência e de sonhar)

 

 

 

Os jovens dopam-se e ostentam rótulos em vão

(Mas os lutadores vencedores a terra herdarão)

 

 

Afinal, qual é o defeito de ser velho da Terceira Feliz Idade, então?

Dormir de pijama? Escovar os sonhos sábios de uma errança?

Comer espinafre? Torcer pro Timão? Ter céus na esperança?

Ter siricotico ao ouvir Castro Alves ou samba verdadeiro  com Jamelão?

 

 

Ser velho, na verdade, é ser de novo, criança outra vez.

Com mais competência, lisura, calma e forja de lucidez

 

Deus dá aos velhos o sentido real de vida e da decência

Moisés, Miguelângelo, Picasso, Ziraldo - tudo que se fez

Aprenderam a ternura do amor dessa linda acontecência

Sem perder o ritmo e um dínamo da mais pura existência.

 

A hérnia? - E o equilíbrio racional?

 

A careca?  - E a sapiência moral?

 

A aposentadoria? - E a nova releitura de Platão?

 

Ser velho é olhar para trás e dizer com emoção:

 

 

Vim, vi, Venci e Amei

 

 

E quem quiser que tenha competência, tesão

 

-Para um dia chegar nessa terceira infância até onde eu cheguei!

-0-

 

Poeta Prof. Silas Corrêa Leite – De Itararé-SP - Membro da UBE-União Brasileira de Escritores. Trabalho que consta no Livro “O AMOR É O MELHOR REMÉDIO” (Inédito) -Poema lido na Universidade de Sorocaba, por ocasião de encerramento de um Curso de Extensão para a Maioridade – Autor de Porta-Lapsos, Poemas

Outros trabalhos no site www.itarare.com.br/silas.htm

Contatos: poesilas@terra.com.br

Blogues:

www.portas-lapsos.zip.net

www.campodetrigocomcorvos.zip.net

 

 

ÿ

 

 

POEMA - Literatura Brasileira Contemporânea

Poema de Um Amor Transcendental

Por Silas Corrêa Leite -

Você não sabe que espécie sou eu.
Você só pode ir até aqui.
Daqui pra frente tenho que ir sozinho.
É meu destino, minha sina, minha lei, meu dever.
Você de um lado – Eu de outro.
Como um muro de desapontamentos entre nós.
Você só me teve por um tempo.
Eu fui enriquecendo de seus defeitos para ficar mais forte e eterno, e fiquei mais forte e eterno.
Você ficou com as minhas ótimas qualidades e isso é um estimável perigo.
Não poderíamos mais ser Um e ser Outro.
Venceu o meu e o seu prazo nessa combinação de ciclos.
Agora você fica e eu retorno ao meu esconderijo sideral.
Sem adeus. Não chore. Sem perdão. Não sofra. Sem ressentimentos. Seja você mesma como sempre foi até agora.
Nós nunca lembraremos mais um do outro
Nem nas próximas vidas, nem mesmo no dia do julgamento.
Procure apenas sobreviver com os motivos e instrumentos que eu especializei você.
Eu estou rio.
Eu estou árvore.
Eu estou livre e sozinho como uma coifa.
Vencemos a nós mesmos.
Perdas e traumas. Lucros e danos. Pensagens e bravatas.
Não há céu, não há inferno, só as duas faces de uma mesma moeda falsa.
Nunca gostei de ver você se parecendo muito comigo.
Você nunca se lembrará de nada.
Eu nunca mais serei eu mesmo.
Você ficou mais louca vivendo por muito tempo esse triste inverno pessoal meu.
O encanto acabou.
O amor é uma mentira.
Os faróis estão quebrados.
Garrafas com mensagens de pedidos de socorro se perdem num mar de sargaços.
Vou ter que atravessar agora para o outro lado da vida.
Nunca existimos.
Isso é o amor depois que acaba.
Isso é uma gravação.
Tudo se destruirá depois que você aceitar sem seqüelas que tudo acabou e que errou na hora que jamais podia errar.
Está consumado: pagamos o nosso preço bilateralmente.
O sonho perdeu o prazo de validade.
Não há peças de reposição.
O sétimo elemento está chegando com o meu sétimo selo de verificação para passaporte de entrada num desjardim muito além dessa minha pobre invisibilidade mórbida.

 

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VERBETE BIOGRÁFICO
Silas Corrêa Leite - Educador, Jornalista, Poeta.

Crônica da Série “Amigos Para Sempre São Anjos de Luz”.

Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm

 Romance ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS

no site www.itarare.com.br-mail: poesilas@terra.com.br

Itarareense Ganha Prêmio e Lançará Livro de Crônicas

 

-Participando do Prêmio “Valdeck Almeida de Jesus”, Salvador Bahia, 2009, tendo como desafio lítero-cultural fazer uma resenha crítica sobre a obra de sucesso do escritor Valdeck Almeida de Jesus, o popular Romance “Memorial do Inferno, A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden”, Giz Editorial, São Paulo-SP”, o Itarareense Silas Correa Leite faturou o primeiro lugar, sendo que o prêmio será o lançamento de um livro de Crônicas, denominado “O Homem Que Virou Cerveja – Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio”, no prelo, pela Giz Editorial de São Paulo. No prefácio do livro o promotor cultural do evento literário assim escreve do escritor Silas Correa Leite, à guisa de prefácio:

 

Por ocasião da divulgação de meu livro “Memorial do Inferno – A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden”, tive a feliz ideia de organizar um concurso para a resenha crítico-literária da obra. Tal iniciativa, não nego, foi também uma forma de estabelecer contato imediato com eventuais tripulantes da “Nave das Palavras”, já que insisto em explorar a órbita da Literatura. O prêmio oferecido ao autor da melhor resenha seria, obviamente, o direito à edição e publicação de um livro. E eis que me vi diante de textos fantásticos, que chegavam de toda parte do país. Já antes da avaliação final, uma resenha, em especial, saltou-me aos olhos. Muito mais que uma resenha, era uma demonstração autenticada do perfeito domínio de palavras e ideias. Estava diante de um ‘artífice das palavras’, não tive dúvidas. Seu autor: Silas Correa Leite. Muito merecidamente, o vencedor do concurso. Era inevitável.

       Como é possível constatar, no breve resumo biográfico que acompanha a obra, Silas Correa Leite, entre suas múltiplas atividades, é escritor premiado e reconhecido, nacional e internacionalmente, com poemas e contos que abrilhantam diversas antologias, jornais, revistas e espaços literários importantes, sobretudo na Internet.

       Tão logo chegou até mim o ensaio de Silas sobre o “Memorial”, tratei de sair à caça de suas obras, de seus poemas, seus textos. E a cada um que descobria, mais fascinado ficava com a força semântica de sua escrita. Uma forma moralmente fecunda e bela de fazer do verbo a representação da vida, em todos os seus vértices e estertores. Silas Correa Leite parecia já ter nascido pronto para o vertiginoso universo das letras. Não há leitor que passe indiferente por suas palavras, posso apostar.

       Silas é autor dos livros “Porta-Lapsos”, “Ruínas e Iluminuras”, “Trilhas & Iluminuras”, “Os Picaretas do Brasil Real” (todos de poemas), “Campo de Trigo Com Corvos” (contos), e “Ele Está No Meio de Nós”, romance Místico, e-book, e do livro virtual de sucesso “O Rinoceronte de Clarice”, tese de mestrado e de doutorado, destaque na mídia, inclusive televisiva, por ser o primeiro livro interativo da rede mundial de computadores. Além de escritor, Silas é também um operário da vida, engajado em projetos e atividades de toda ordem - sempre tendo a ética e a responsabilidade por vertentes, registre-se. É o tempo que escapa. É o correr da vida, como bem assinala Guimarães Rosa: "O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem." E coragem é o que parece não faltar a Silas Correa Leite, ainda que falte o tempo.

       Quis o acaso, porém, que o tempo fosse aqui abreviado e que, por meio de um concurso que promovi, este livro tomasse forma. Não preciso dizer do orgulho que sinto em ter sido, de certo modo, o agente viabilizador desse ‘parto’, que traz ao mundo “O Homem que Virou Cerveja”, uma coletânea de quinze crônicas com o poder de encantar e absorver, seja com o humor inteligente levado a sério - e, muitas vezes, extraído da dor, tal como leite extraído das pedras -, seja com a riqueza semântica e a propriedade de retratar cenas do cotidiano com a ‘profunda leveza’ das palavras precisas, seja com a capacidade de roubar um riso, tocar a emoção ou despertar a consciência crítica do leitor. E isto, face à pressa e aridez de nossos dias, já é, no mínimo, uma pequena vitória. 

A todos, resta-me desejar uma boa leitura!

Valdeck Almeida de Jesus - Escritor, Promotor Cultural

 

 

Extravio


Eu tento não odiar este mundo que me deram
Mas ninguém colabora
Eu tento ser feliz – a maior vingança é ser feliz
Mas, há os seres...humanos

Eu tento tirar de letra as porradas, fingir
Como se não fosse comigo o próprio existir
Mas há o inimigo íntimo, o dezelo, o falso, o doente
E os que nem de longe se parecem com seres

Eu tento deixar melhor o que vivi
Do que recebi
Tento fazer a minha parte; a arte como libertação
Desatando no meu escrever os chorumes que ferem minha
sensibilidade exaurida

Será que vou chegar ao fim, sem um fim em si mesmo?
Será que a lepra pseudo-humana continuará varrendo a terra?
Até quando o falso, o hipócrita, o cínico, o degelo, o degredo,
O esquizofrêmito de mulas, engodos e satélites?

Ah meu Deus, tende piedade da minha não tão santa paciência
Mas eu não agüento mais!

Eu tento não odiar, eu tento não sofrer, casca grossa que me firo
Mas no fundo da alma sou quartzo róseo sim
E a minha alma ferida anda cansada de ser rochedo
E eu tenho medo, muito medo, um eterno medo
De continuar perdoando, amando, escrevendo esses meus íntimos blues dolorosos sem fim
Sem que isso mude nada; nem me mude para sempre de mim...

Silas Correa Leite
E-mail: poesilas@terra.com.br
Blogue: www.portas-lapsos.zip.net
Fim de Março 2009

Prelúdio em Si Maior



Para Célio Eli Corrêa Leite, Meu Querido Irmão Caçula



Éramos todos grãos de areia

A vida dura nos edificou

(A pior surra foi a de lágrimas

E os licores de ausências.)

Éramos todos filhos do Seu Antenor

Dona Eugênia era apenas uma sombra

(Dia e noite no tanque, no fogão de serragem e cepilho

Dividindo-se para multiplicar cebolas que não haviam.)

Éramos todos crentes ortodoxos

Afinados até o último cantar de galo

(Atrás de casa havia um monturo de tijolos vermelhos

Com o qual construímos nossos barcos a seco.)

Éramos todos pobres com amarelão

Mas na mão direita tínhamos uma roseira

(Erzita era a energia espiritual de Irmãe

E Sueli já tinha uma janela para dentro.)

Éramos a Família Corrêa Leite

O sinal de Deus em forma de estrela na testa

O medo de apanhar de vara de marmelo

Ou a surra de lágrimas da mãe.

Éramos todos mestiços cordeiros de Deus

Filhos de Dona Eugênia, mameluca

Que com lágrimas nos fazia suculentos omeletes

No seu jeito de ser carinhosa prestando serviços e orações.

Éramos todos nervosos e tristes

E traumatizados com santos e um enorme medo do inferno

Eu e Paulo tínhamos a briga no sangue

E assim amarramos carruagens de abóboras no íntimo.

Éramos todos fãs de Clarice Encantada

Com sua voz de pelica na alma enluada

E vimos tentando erguê-la, tirá-la de dentro do sonho

Mas não há sensações no esquecimento.

Célio nos foi dado como uma dádiva, um refil

No seu aprendizado de perdas

E nele nos firmamos, espelho quebrado

Cujo caco ainda nos dói, no tear com vestígios de ausências

..........................................................................

Thiago, Lucas, Frederico, Otávio, Pola, Francisco, Claudia

Todos com erros e acertos - Herdados do Patriarca Antenor Corrêa leite

Vencemos à nós mesmos – (Estamos livros e limpos?)

E a saudade do acordeom preto sola prelúdios.

-0-

Silas Corrêa Leite