Grupos

Poeta Prof. Silas Correa Leite, em sua Residência

Fotografado pela Sobrinha Nathália Halkcsik Leite da Silva

 

 

Dia Letivo de Leitura Generalizada na Escola

 

 

 

Para os Amigos Educadores da Rede Pública de Ensino

 

 

 

 

Ler muito para ter idéias polidas

Ler para dar sentido às palavras da tribo humana

Potencializar a vida lendo muito e assim acabar sendo muito

Leitura é música pro espírito

Ler é instaurar uma nova realidade na pessoalidade

 

 

 

 

Projeto de Leitura Organizada na Escola

 

 

A escola toda vai parar pra LER! – Sim, com planejamento idealizado pela coordenadoria pedagógica, direção e corpo docente, além das naturais trocas de experiências pessoais direcionadas para esse contexto letral, e, o bicho vai pegar; quero dizer: seremos todos pegos pela Leitura, pelas palavras. Já pensou?Todo mundo na unidade escolar vai parar e ler. Do porteiro a Diretora. Que beleza de paralisação para adquirir conhecimento e cultura a partir da literatura. Alunos e professores, principalmente, vão ler por excelência e com enorme prazer de. Cada um lendo – e pensando o “LER” - como exercício laborioso de evolução em todos os sentidos.  Ler e refletir sobre. Ler gostosamente mesmo. Na bucha. Cada pessoa vai ler e ainda vai ter que indicar aos quatro ventos que belo livro está lendo. De preferência romance, clássico, obra-prima. E vai ser tudo devidamente registrado desde o ler, o projeto e o andamento em si, a estrutura funcional dessa idéia encampada por todos, as resultantes até e os finais felizes, claro, avaliando o projeto em curso corrente. Ler pra valer. Vai ter uma incentivada prática pedagógica para esse fito, numa inicial didática de cooptação, encantamento – vivificação da leitura - horizontes provocados para o dia todo especial do Verbo LER. Todos serão contemplados nesse encorajamento generalizado. Ninguém poderá relutar, alegar ignorância nesse propósito. Todos serão rigorosamente cobrados a ler e também a depor documentalmente sobre a leitura proposta. Falando a respeito do livro, do autor, do enredo, personagens, linha da história, isso antes, durante e no fim da empreita. Vai haver uma troca dessa magnífica “encantação” feito contações:

 

-O que você está lendo?

-Por quê?

-Vamos trocar depois?

-Depois que você ler você me empresta?

-Tem uma fila enorme de interessados na sua frente, Mano.

-Vamos ler o quê?

-Gostou? Gostou?

 

Documentando a Leitura Enquanto Projeto-Idéia

 

A escola iluminada e vestindo a camisa dessa idéia, pegando gosto, açodando comunicabilidades no entorno para fazer a coisa (idéia-projeto) funcionar pra valer, pegar andamento fácil. A leitura abrangida por pais e filhos e mestres. NINGUÉM vai ficar fora porque ninguém pode ficar fora. Leitura é isso. O aluno vai ser sondado, supervisionado, incentivado, induzido, facilitado para Ler. Vai ser literalmente desafiado, provocado, cobrado – examinado depois. Vai ser desperto na sua curiosidade e expectativa. Vale a pena. O aluno vai ler e poder levar o livro. Depois ainda vai poder contar palha da sua “leção”. Fazer uma auto-avaliação competidora mas, sempre salutar. Fazer um trabalho, como um rap, um rock, uma balada, uma história em quadrinhos, uma grafitagem, uma foto-mostragem, tudo a partir do Dia de Leitura na Escola. Contar o que viu do que leu, o que gostou do que leu, o que pensou do que gostou, o que tirou disso tudo. Já pensou? Depoimentos registrados em livros, fotos, gravações e outras mídias e infovias, até mesmo um site como fórum pode ser criado. Vai ter que dizer o que tirou desse precioso tempo que ganhou lendo muito e bem um bom livro.

 

-Cara, que livraço.

-O meu tá meio devagar, quer trocar?

-O meu livro eu não empresto, não cedo, não deixo ninguém botar a mão ou o olho. Acabando de ler vou reler.

-Mano, tem cada coisa louca na história.

-Estou assustado. Como é que eu não li esse livro antes, tá ligado?

-Ler é o maior barato.

 

Ler Para Ser...Ler Para Ver...Ler Para...

 

Dia de Leitura na Escola. Fazer o aluno prever o ler, sacar os lances, pensar como o autor, pensando o ler, criticando o ler, avaliando o ler. Criar coragem pra ir fundo. Gostar de ler é quase uma sabedoria, uma descoberta, uma viagem. Então é preciso pensar atividades nesse LER: fazer o aluno bolar o seu pessoal e intransferível “marcador de livro”, para nele também anotar em que página parou – para continuar a leitura depois ou mesmo, claro, fazer uma revisão em eventual dúvida de acompanhamento da leitura – anotando também as frases legais, o nome da personagem principal, o cara bom; se há um tipo ruim quais as características dele, o parágrafo marcante, poético, a idéia central e vai por aí o encorpamento pari-passu da leitura. Com final feliz e tudo mais, não necessariamente nessa ordem. Ler e pensando. Então, vamos começar? O inspetor de alunos, a tia da lanchonete, a Coordenadora, a merendeira, o pessoal da secretaria,

 

STOP!

 

Parada pra LEITURA. Como uma agitação lítero-cultural. Um “aleluia” de letras e afins, uma generalização de ler por atacado. Todos vão ter que parar as atividades e simplesmente ficar em silêncio, LENDO.

 

Leitura no Capricho

 

Numa caixa, propositalmente muito bem decorada (para chamar atenção mesmo), caprichadinha para atrair leitores em potencial, em sala de aula, vários títulos de quilate, pré-selecionados por quem é do ramo e adora ensinar, adora trabalhar com texto, adora historiar o conteúdo programático. Isso se o próprio leitor de per-si não escolheu especificamente e de próprio deleite a sua própria obra para literalmente encaixar no dia corporativo de ler. E na caixa os clássicos, os livros sobre mitos, lendas, fábulas, histórias ou causos, poemas, contos, mas, principalmente e acima de tudo romances importantes, novelas acima da média, maravilhosas. Tudo no estilo “ler para aprender a gostar de ler”, para o prazer de ler, um pé na poesia e outro na prosa. Vamos nessa?

 

Leitura individual? O projeto didático-pedagógico nesse processo de ensino-aprendizagem leitural, Como começar? Essa é a idéia-semente. O professor lê um trecho daqui e dali, pega leve, vai e volta, incentiva e cobra, fundamenta uma ótica. Todo dia dá uma dica, valora, promove, congraça, elogia, instrumentaliza o programa geral de ler com qualidade. Ler intensamente. Ler textos com densidade qualitativa. Faz uma pré-aula a respeito, só pra isso. Especial.  Motivação e conteúdo específico.  Obras  e nomes. E aquele mais vendido? E o Prêmio Nobel? E o maior escritor brasileiro, qual é? Será? Faz preparações para facilitar a prática. Horizontes e contentamentos, belezas e resultados, técnicas e satisfações. Sem forçar, mas, cobrando. Direitos e deveres. A sabedoria vem a partir do verbo ler ou isso é só uma teoria? Vamos testar? O que dizem os especialistas do ramo. O interesse, o conhecimento, as habilidades; espaço e tempo alimentados de coragem letral. Tudo a LER?

 

A vida-livro. Páginas de rosto. Páginas abertas de vivências. O livro como suporte motivacional no aprendizado salutar constante. Edificador. Todas as matérias incentivando, cobrando, valendo-se de livros para trabalhar a próxima prova.

 

PARAR PRA LER

 

Botando a Mão na Massa

 

Carta de uma personagem do livro convidando o aluno para sabê-lo inteiro, pleno e edificante. Um herói, de preferência. Todos têm uma história para contar? Carta falando do projeto e convidando os pais a entrarem na dança. Carta do alunaço ao professor comentando uma passagem do livro. Que gostou ou que não entendeu. Trazer o romance para a sala de aula, jogar no ventilador das idéias para serem discutidas. Amou e foi amado? Deveria ter ficado na ilha? Jurou defender a honra? Cem Anos de Solidão? Cravo e Canela? Debates, seminários, a importância do projeto, da leitura, do livro, do escritor; a aquisição de conhecimentos e habilidades que advém da gostosa pratica da leitura como rotina. Fazer algum trabalho (arte, educação artística) que tenha a ver com o livro que adorou ler. Desenhos e imagens.

 

                                      É tempo de Ler...

 

Uma vez por semana? Vamos colocar em votação, democraticamente. Todo santo dia em cada conteúdo-matéria com diretrizes, técnicas variadas, no correr do ano letivo? Trabalhos e textos – e aulas  (a partir de). Trocar releituras. Provocar curiosidades. Leitura com qualidade, nesse espaço de troca que é sala de aula.

 

-Gostou do que você leu?

-Peguei gosto. Então era isso?

-Pô Mano, o herói morre no final...

 

O Que é LER?

 

Ler não é só isso. Ler não é só ler, é avanço, emoção, construção, técnica de refinamento íntimo, sensibilidade, aprimoramento interior, mental, prismas revisitados, ampliação de visão, colocar a alma para viajar. Tornar a LEITURA um caminho, uma mudança, uma sustentação vernacular, um desejo de crescer, evoluir, pensar melhor, mudar, votar, sacar as coisas. Quem lê mais vale muito mais? O livro aberto na escola, vai ser aberto em casa, no clube, na beira da piscina, no Metro, na praia. O livro vai abrir corações e mentes. A alma cidadã aberta para a leitura do livro espacial, modifica cursos, rumos, alvos e  situações. Já pensou?

 

O Dia Solene da Leitura

 

O Dia de Ler é o dia letivo mais importante da escola. Dia solene. Respeito com o livro, o projeto, a turma que comprou o desafio. Tudo muito bem estruturado e valorado na própria funcionabilidade objetiva de ler. Tornar esse dia importante, fora de série. Pedir um pôster-poema sobre uma acontecência. Sentir com o aluno a data magna da leitura. Esse aluno lê muito, esse aluno vai longe. Saber colocar muito bem o enfoque do Dia da Leitura que começa em sala de aula, na escola, pode e deve incendiar em casa uma sustentação afetiva nesse sentido, passar para a biblioteca, um site de literatura, contos, romances, críticas literárias, depois o primeiro poema, a primeira letra de rock, a primeira carta de amor, o hábito fazendo o ledor voraz.

 

Todos por um. Cada professor ao seu jeito, estilo e método, tem que comprar essa causa, desfraldar essa bandeira. O mestre vendendo o peixe, ler junto e gostando – e dizendo do prazer de estar lendo ou relendo o livraço que adora – fazer sua parte & adorando fazer parte da equipe que bancou esse projeto. Ler alto. Ler com entoação, dando ritmo e claridade ao espírito narrativo. Pontuar bem, criar expectativa, mostrar a que veio. Colocar gás na aula de leitura. Promover o dia de leitura na escola. Fé no livro. Fé na cultura literária. Todos saem ganhando. Fazer acontecer. Dia letivo especial, de leitura de qualidade pra todo mundo.

 

O dia mais importante na escola vai ser quando todo mundo entrar e sair com um livro na mão, naturalmente. Sonhar pode? Leitura caprichada. Leitura incentivada. Leitura feliz e afetuosa, desafiadora que seja. Leitura livre e motivadora se for possível. Leitura com uma prática central, mas também um eixo reflexivo, norteador, no próprio letramento – e apreendências – do ensino como um todo. O que é ler? O que é um bom livro? Vá saber, lendo! Leitura, cabide de idéias? Olhai os lírios no campo! -Quem não gosta de ler é mané? - Abra o olho: LEIA. Viva o Verbo LER! Um LIVRO é um mapa e nenhum mapa tem uma só direção, disse Ricardo Piglia. LEITURA é quando a gente busca um circo dentro da alma da gente.

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Silas Corrêa Leite – Itararé, São Paulo-Brasil

Teórico da Educação, Escritor e Jornalista Comunitário

Pós-graduado em Literatura na Comunicação (ECA), Direitos Humanos e Democracia (USP) – Coordenador de Pesquisa da FAPESP-USP (Culturas Juvenis)

Prêmio Lígia Fagundes Telles Para Professor Escritor, CRE-Centro de Referência em Educação Mário Covas

Autor de Porta-Lapsos, Poemas, 2006, All-Print Editora (SP)

Autor e Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Design Editora (SC) a venda no site www.livrariacultura.com.br

– E-mail: poesilas@terra.com.br

Autor de O Rinoceronte de Clarice, e-book de sucesso no site

www.itarare.com.br - Obra indicada como leitura obrigatória na matéria Linguagem Virtual do Mestrado de Ciência da Linguagem, da Universidade do Sul de Santa Catarina e Tese de Doutorado na UFAL

Blogue premiado do UOL
www.portas-lapsos.zip.net

 

 

 

 

Foto de Mauro Vieira, Rua XV de Novembro, Itararé-SP

 

 

 


 

 

Causo de Itararé (Inédito)

 

O Último Causo do Zé Beleza, o Maior Contador de Palha de Santa Itararé das Letras

 

Quem conta um causo ou um conto

Aumenta um tanto feito um tonto...

 

Romero, filho da Dona Santa coberta de ouro e prata

(In Memóriam)

 

- ...é bem perigoso sim sor... o Getúlio Vargas viria alarmado feito uma paca obesa montado num alazão azul-biscate, o Hitler vestindo farda amarelo-ovo-choco, mais falador do que o Tó do Zuza em velório (querendo aparecer mais do que o morto), o Nero, todo maricóm pitando alguma coisa com um Cusarruim de uma perna só e ainda vermelhona; com os olhos esfumaçados e com um baita cheiro-de-fedô de quem queimou o cabo do facão, todos querendo invadir Itararé, bombardear nossa cidade, já pensou, hein, Zé Maria dos Causos? Sartei de banda. Onde já se viu isso. Tem cabimento...tem cabimento...

 

-A marota piazada peidorreira e com amarelão, com faniquitos, rueira, já tava toda prontinha da silva, cetras prontas, estilingues reforçados, com os bolsos cheios de mamonas assassinas, mandorovás elétricos de goiabeiras com bichos, e mesmo bolinhas de gude das pintadas com olho de anjo, só esperando os três tranqueiras chegarem com o tropé das tropas revolucionárias para começarem além das marotices, a fuzarca do tiroteio por atacado. Vão ouvindo, vão ouvindo... Bota outra pinga fiado aí, Tunico Bitencourt, não rateie, vá...

 

-Fui falar com o cumpadre Wiederin que arrumou uma maquininha de quebrar e lançar pedra de britadeira; falei com o Willes Gorsky que me emprestou o primeiro avião que ele tinha inventado no mundo (o do Santos Dumont que não era santo nem nada, era malemal uma cópia maleixa com craca, pois errou 13 vezes e ainda teve 14 bis).  Fui depressinha sondar o cumpadre João Feijão que, fanático por Itararé, claro, me emprestou machados, guilhotinas, cadeiras elétricas, arapucas, armadilhas, facas, bicicletas, arpões, espadas, ratoeiras, lampiões Aladim, guaritas, bombas de “defeito” moral, bazucas, granadas de urtigas, metralhadoras giratórias de bolso, garruchas e até alguns cantis de alumínio. Sim, cantil, claro, né, Fernando Milcores, onde é que a gente ia caprichar de esconder a pinga do Fritz?. Nos cartuchos de “pólva”  que não era... sabei-me lá... entojado...

 

-Eu tava com o encardido “figo” meio maleixo mesmo, urinando azul-salubre, mas pedi pro Maestro Ataliba do Acordeão, vir tocar Saudades do Matão, do Paschoal Melilo (que vendou a música depois prum cara estranja de fora por altos tostões e comprou casa em Paris com a bufunfa), assim, enquanto isso o sargento Fuinha do Tiro de Guerra e seus mais de um milhão de recos mandavam bala nos invasores feição do dianho, nós, entre umas mazurcas e umas polcas, metíamos coisarada com estrumes de tordilhos nos três tranqueiras e suas tropas e canhões. O Getulio, o Hitler e o Nero iriam ver o circo pegar fogo no fiofó deles... enquanto eu muito sabido e “estratégio” pedi prum piazote manquitola bem tranqueira e cara de bosta seca, que fosse escondido (disfarçado de vendedor de dolé de groselha preta) até Sengés, com um prego enorme furtado da casa do Velho Zarpelão, e lá furasse os pneus dos trens da Caravana do Getulio que vinha mesmo era cheia de biscates fronteiriças dos pagos do sul,  daquelas pedaçudas pintas brabas mesmo, ele ia é montar num porco, o caipora lazarento chupador de  charutos paraguaios. Tão me ouvindo?

 

O Prefeito pediu pra ligarem pra Nasa, que tinha um parente do Angelo Ghizzi lá, e iria fornecer alguma bomba “tônica” pra gente sumir com os gaúchos bombachudos, e assim Itararé ficou emperiquitada até porque ia ter baile no Fronteira, baile na zona da Vila Osório, e a gente ainda tinha a peleja com os filhotes de cruz credo, o Vargas, o Nero e o Hitler. “Liás”, a bem da verdade, o Vargas era buchudo e de bombacha parecia um barril de petróleo “verde-olivia”. O Hitler, todo janota e frajola, com aquele andar-de-segura-peido e sempre com a mão espalmada pro alto (devia ter “furunco” no sovaco vencido), mas pior mesmo era o Nero, um “donzelo”, com a cara de polaco lazarento, com um isqueiro na mão direita bem mole e cheia de pó de arroz, e ainda rebolando mais do que o Zé Muié com calcanhar de frigideira...

 

Pois Itararé inteirinha, com quase dois milhões e meio de gente de fio a pavio, bem contado, prontinha pro forfé que iria ser um embate daqueles, de causar furor, ganhar estampa no mundo sem porteira inteiro, mesmo que muita gente de ambos os dois lados fosse pro saco. Ia ser uma barbaridade, mas eu já tava pronto, com meu canivete suíço cabritado e traiçoeiro, com minha espingarda de socar chumbinhos pela boca, um penico vermelho-bereba e, sabendo que iria dar no couro, botar os intrusos pra correr, que fossem peidar nágua os jaguaras, Itararé não iria aceitar aquela revolução dos quintos, assim sem mais nem menos.

 

Tava assim tudo arranjado pra gente ganhar a batalha de Itararé, aí apareceu uma festa que era meio que uma "oliúde" de califórnia de carteado em Itapeva, no Clube Operário, um concorrido bailão com os Marionetes em Ribeirão Vermelho do Sul, um supimpa jogo entre a Associação e um time de oitava divisão de Itaberá, um exótico circo gringo em Itaporanga, um rodeio de boi guzerá em Fartura, e, depois, era época de colheita de marolos em Apiaí e a tranqueirada dos bóias-frias precisava faturar porque estavam latindo no quintal pra economizar cachorro. Ainda tinha mais, aguentem só: a Sarita Montiel, a Raquel Velch e a Sandra Bréa iam fazer um nu artístico por atacado numa boate em Itapetininga. Já pensou que desboque? Fomos na Fiúza. Piorou: o Tiro de Guerra foi chamado prum desfile emperiquitado com a fanfarra do Instituto Epaminondas Lobo em Avaré, quando já se viu, Itararé estava mais vazia do que a cabeça do tongo do Laércio Amado que naqueles tempos da água beber onça era um caipira polaco brucutu domador de éguas xucras e molenga de raciocínio que só vendo, um saranga feição de mandioca vassourinha descascada.

 

Daí a coisa deu diferente do que eu bolei, né, não? Tudo deu errado, eu, maleixo, mal cismei o guaiú todo. Só por Deus. Os homens foram chegando sem bondiar, caras de tacho, uns daqui, outros dali, a cavalo, a pé, em tanques, outros em canhões com rodinhas, em carroças cobertas com lona e cheia de charque, em “helicóperos” com lança-chamas, se assomaram, todos se arvorando, e sem mais nem menos foram se aprumando entre nós, sentando, deitando falatório, dormindo em vagões da estação rodoviária, ares de importantes os tranqueiras, depois saqueando o armazém dos Pelissaris, empastelando o Jornal O Itararé, tomando tubaina do Vilela no Bar do Calixtrato, comendo encapotado de frango no bar do Dico, tirando uma e outra donzela pra dançar uma Valsa Vienense que o Aneor tinha inventado no acordeão desafinado e roufenho, quando se viu, fomos levados no bico, que peleja que nada, Itararé tava toda tomada, tinha ido de bubuia, Getúlio arrotando pose, todo trancham, o pai do Gustavo Janson todo pimpão fotografando tudo pra mandar pra Revista Manchete e pra BBC em Londres, e assim, caiporas, a batalha de Itararé deu em nada, os gaúchos passaram, o Vargas todo topetudo, o Hitler todo arreganhado falando em língua do dianho ranhento, o Nero cheio de frisson de conversa fiada com o Zé Muié, e assim, caras pálidas, entramos pra história com causos contados de maneira errada; mentiram pra todo mundo, não ganhamos e nem perdemos, zero a zero foi goleada, houve um empate técnico; que Batalha de Itararé que nada, foi tudo uma xingação com cerveja porter, truco no muque, e, flatulências sonoras de lado a lado, no fim, ninguém perdeu ou ganhou, Itararé ficou frustrada que não teve uma baita briga daquelas mesmo que a gente ia mesmo dar uma sova nos invasores.

 

Que “largura rinso” a sorte do Vargas, ou ele iria encher a bombacha. Que esperasse pra ver. Vocês não acreditam? Depois, devem ter misturado a tal da Batalha de Itararé com alguma Batalha de Itariri, Itororó, Riachuelo, Pernambucanas, Casas Bahia, Monte Castelo, Walterlu, Iraquenistão, Correa do Norte, essas coisas de mentirosos e inventadores do inexistente... Perguntem pro Nequinha, pro Chico Preto, ou pro Mário Padial Chaves, ou ainda pro Véio Biscoiteiro, pro Miro Vaca ou pro Foguetão da Banda, que eles contam com detalhes ainda mais confirmatórios do que eu disse. Vocês queriam o quê, seus estrupícios, que Itararé fosse varrida do mapa, que nós deixássemos os gaúchos encherem o bucho, encherem o picuá e depois fossem deitar falatório noutra freguesia perto do Rio de Janeiro? Eu, hein, Vica? O meu amigo filósofo João da Égua já dizia: “Quem pode, pode, quem não pode desocupa a moite”. Aliás, a bem da verdade, dizem que o GetúlioVargas com a consciência pesada com a fama ruim que como maldição teria causado com a tal batalha de Itararé que não houve, depois se matou, cheio de remorso, o tranqueira espeloteado. Eu conto o que vi. E quem quiser que conte outra. Cada quá com seu picuá... E, quer saber? Já me encheu o pacová.

 

Acho que alguma coisa não me caiu bem, me desarranjou o intestino grosso, fino e “delegado”. A pamonha azeda que comi? As pingas que tomei? Tô com uns fuzilos labiriscando na tripas. Uma azeitona de pastel de feira?... acho que tô com algum desarranjo daqueles na “flora e fauna” intestinal...  E agora, com licencinha, que tô com o estômago carecido e vou ali na casinha do bar do Orozimbo Ruivo “passar um telegrama”.

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Silas Correa Leite – República Etílico-Rural de Itararé, Santa Itararé das Letras-SP,Brasil

Causo da Série “Sempre Haverá Itararé” –  Livro de memórias inventadas do autor

E-mail: poesilas@terra.com.br  - Blog premiado do UOL; www.portas-lapsos.zip.net

Autor de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia, no prelo, Giz Editorial-SP.

 

 

Conto:

GARRAFAS

 

"O senhor mire, veja: o mais importante e

bonito do mundo é isto: que as pessoas não

estão sempre iguais, ainda não foram

terminadas... ”

                       (Guimarães Rosa)

 

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-Sabe porque mandei chamá-lo, Seu Cirineu!

-Sei não doutor, sei não Seu Delegado...

-O sr sabe o que é isso?

-Depende, doutor. Depende muito...

-O sr não me enrole, está vendo, Seu Cirineu? Não me maroteie.

-É só uma ideaiazinha minha, doutor.

-O sr todo santo dia, sem tirar nem pôr, sem parar, faz uma mensagem de pedido de socorro curta e grossa, envia numa garrafa de cerveja que entorna de vereda feito um viciado de miolo mole, e atira numa vazão do Rio Itararé?

-Pois é, Seu Dr. Não pensei que um bendito dia iriam descobrir esse meu segredinho de mala e cuia, esse meu defeito de fabricação por assim dizer, esse meu probleminha...

-O sr bate bem da cachola, Seu Cirineu?

-Foi só uma mera tentativa, Seu Dr, não quis importunar ninguém...nem fazer feio, sequer quis chatear o sr...

-Sabe quantas garrafas dessas, com seus inusitados pedidos, foram recolhidos nesses mais de 365 dias, Seu Cirineu?

-Sei não, dr, sei não...

-Parece que já pegaram outras, aos montes, semeadas aqui e ali... Aliás, falando sério, diga-me lá, o sr nunca teve um retorno qualquer, desses seus pedidos, de alguma maneira, por algum motivo ou situação de resposta incrível?

-É a primeira vez que me acham... quero dizer, que sou inoportuno,  e ainda acabo assim sendo um baita empecilho para o sr, não é Dr. Feijão?

-Bem, é o seguinte, Seu Cirineu: nada pessoal, sabe, mas o sr precisa fazer um, ponhamos, tratamento. Compreende? O sr deveria procurar o Dr Jonas de Alencar na Santa Casa. Sabe, talvez de morar ali pertico da Gruta da Barreira, do Parque Ecológico das Andorinhas Bentas, o sr esteja influenciado, talvez sofra alguma radiação, sabei-me lá... Além do sr deixar de poluir o Rio Itararé com uma bendita garrafa todo santo dia, ainda iria melhorar muito do juízo, ter companhia, tomar uns remédios, viver melhor. O sr me entende; entende o que eu estou tentando dizer?

-O sr por acauso leu a mensagem que vai sempre dentro da garrafa, Dr Feijão?

-Sempre a mesma...sempre a mesma...disseram...

-Quem disseram, dr?

-Não importa, sei que é sempre a mesma mensagem de pedido de socorro que o sr enfia dentro da garrafa vazia de cerveja...

-Então o sr por certo, leu direitinho...

-Digamos que li sim, Seu Cirineu. Li sim.

-E então, dr, falando francamente, o que o sr acha? Eu estou pirando? O meu grito de agonia tem cabimento, faz sentido, há alguma saída pro meu causo?

-Sabe, seu Cirineu, cá entre nós, que ninguém nos ouça, falando do fundo do meu coração, se eu pudesse, se eu não fosse normal, comum, se eu não fosse autoridade constituída por lei, eu, sinceramente, faria a mesma coisa, a mesma mensagem, até num rio maior, quem sabe...

-Então o sr não vai me prender, abrir inquérito, coisa de-assim?

-Não vou não, Seu Cirineu. Chamei o sr aqui mais por obrigação, desencargo formal de consciência, sabe, foi o pessoal da seccional do IBAM que trouxe o problema...

-Devem de achar que eu sou um purgante, cabeça de vento, da pá virada, miolo mole...

-Não sr, até respeitaram a sua mensagem, o seu objetivo. Acho que me trouxeram uma das garrafas mais por obrigação de oficio, só isso.

-O sr vai fazer o que, então, Dr Feijão?

-Nada, só um termo de circunstancia, carimbo, papel oficial, assinar e mandar pro arquivo morto...

-E depois vai me liberar sem qualquer sanção?

-Claro, Seu Cirineu. O sr está livre. Sabe, este mundo do jeito que vai, precisa de mais gente sensível como o sr. Foi um prazer enorme conhecê-lo,  uma grande honra pra mim, sabe. Fiquei até comovido. Aprendi muito com o seu gesto, a sua alma de pássaro, a sua sensibilidade fora do comum. Falando francamente, sinceramente espero que um dia alguém certo acabe achando a sua mensagem, alguém desse ou de outro mundo,  sabe, o recebedor certo, a dimensão certa... e então o sr seja atendido, resgatado...liberto...

-Então vou indo, Seu Delegado. Tenho que passar no Armazém do Antonio Pelissari ainda, comprar a bóia do mês.

-Vá com Deus, Seu Cirineu. O sr se cuide direitinho, hein?

-Obrigado dr. Prometo que quando tomar a próxima cerveja preta de novo, ao escrever a mesma mensagem de sempre, vou pensar muito no sr. Com esperança de que nalgum lugar eu seja finalmente identificado, e venham me levar de volta pra minha casa que é do outro lado...que venham me levar para o meu verdadeiro lar... pois minha alma não é desse mundo, e deve certamente que haver uma Itararé Celeste...

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Silas Correa Leite – Santa Itararé das Letras (República Etílico-Rural de Itararé)

E-mail: poesilas@terra.com.br – blogue: www.portas-lapsos.zip.net - Autor de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio, Giz Editorial, SP, no prelo, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia.