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INAUGURADO O CENTRO CULTURAL MELCHÍADES CARDOSO
(Página Um - novembro/1997)
Com a presença de Dirceu Cardoso (que "roubou" a festa), de vários outros familiares de Melchíades, do prefeito Gutemberg Damasceno (entre outras personalidades), foi inaugurado o Centro Cultural, e entregue a Marcelo Salim de Martino o "Prêmio Mérito Cultural Dr. Hermes Simões Ferreira", concedido pelo Conselho Municipal de Cultura.
O Centro Cultural Melchíades Cardoso, que reúne um grandioso acervo recolhido aos longos dos anos por Marcelo Salim de Martino, foi inaugurado no dia 8 de novembro pelo prefeito Gutemberg Damasceno.
Uma instituição que já existia como "Casa da Cultura Melchíades Cardoso", e que conseguiu financiamento do Ministério da Cultura (40%), que funcionava no antigo prédio do Tiro de Guerra, em frente a Prefeitura, começou a ser erguida no governo anterior, com os outros 60% bancados pela municipalidade, segundo Marcelo.
No ato da inauguração, Gutemberg ressaltou a importância do Centro Cultural, inclusive citando que obras deste porte independem de quem esteja no poder, pois deu a ela a continuidade devida, incluindo a permanência de Marcelo no mesmo cargo anterior.
Marcelo, além de permanecer no cargo e "tocar" a obra, foi agraciado com o prêmio "Mérito Cultural Dr. Hermes Simões Ferreira", instituído pelo Conselho Municipal de Cultura.
Mas quem roubou a festa foi Dirceu Cardoso, ex-senador, ex-secretário de Estado do Espírito Santo, ex-emancipacionista (juntamente com seu pai) e haja "ex" para qualificar Dirceu.
O Centro Cultural, além de preservar toda a documentação oficial da municipalidade, reúne também um grande acervo histórico/cultural recolhido entre particulares, em Miracema.
Na oportunidade foi aberta uma sala denominada Ururahy de Mattos Macedo, onde, doados pela família, se reuniu todo o seu ambiente de trabalho, desde móveis, utensílios até sua grandiosa biblioteca.
 
UMA CRIANÇA QUE GOSTAVA DO PASSADO
(Chicralina de Martino - Página Um - novembro de 1997)
 
Uma surpresa para Marcelo durante a inauguração do Centro Cultural Melchíades Cardoso. Sua mãe, a "Tia Chica", preparou este texto sobre ele. Ao ser lido por Nedi (primeira-dama e secretária de Educação), a emoção foi tamanha que Marcelo não conseguiu conter as lágrimas.
 
"Marcelo estava com seis anos de idade quando o pai faleceu. Daí em diante ele começou a se interessar pelas coisas de um modo geral, se detendo principalmente pelas coisas do passado, como pessoas, móveis, louças, cristais, casas etc..
Aos sete anos começou a cobrança sobre a família: avós, tios, primos... queria saber tudo de todos. Como viviam, de onde vieram, o que faziam. Queria saber tudo detalhadamente, não só dos que estavam entre nós, como dos que haviam falecido (avô paterno - italiano; avô materno - libanês).
A Maria Alice Barroso e a Florinha contam uma passagem muito engraçada do Marcelo aos sete anos de idade. Um belo dia o Marcelo saiu de casa à procura daquilo que ele já sabia muito bem apreciar e amar. Conta a Maria Alice que estava em Miracema na casa da Florinha, quando bateram na porta. A própria Maria Alice foi atender e perguntou: Oi garoto o que você quer? E ele respondeu. A senhora não tem umas coisas antigas para vender? Qualquer coisa, me disseram que a senhora tem! Ela então gritou a Florinha e disse: olha só, quem é esse menino que quer comprar coisas antigas, qualquer coisa: louças, copos, cadeiras, móveis. Quem é você menino com tão pouca idade e já se interessando pelas coisas antigas? Você é filho de quem? Eu sou filho do Miguel, que já morreu, e a minha mãe é a Dona Chica. A Maria Alice deu uma boa gargalhada e disse que era muito amiga da família, mas não sabia que a Chica tinha um filho tão interessado nas coisas do passado. Depois dessa não faltaram outras.
Diariamente ele saia pela cidade a procura de coisas antigas. Ele conhecia todas as casas que preservavam as coisas do passado. Uma certa vez o Miguel me disse: Chica, esse menino nunca vai passar aperto na vida. Na hora que a coisa apertar ele bate numa das casas conhecidas e se arranja. Nós, eu e o Miguel, já sentíamos que o Marcelo tinha uma vocação definida, um desejo, e que ia lutar com todas as forças para conseguir realizar os seus sonhos.
Sempre batiam na porta da minha casa pessoas com cadeiras velhas, camas quebradas, objetos que as vezes a gente nem sabia o que era de tão velho e quebrado, e perguntavam pelo menino que gostava de comprar as coisas. Então eu dizia que ele queria comprar sim, coisas antigas, mas não velhas e quebradas. O pai do Marcelo sempre gostou de antiguidades, mas infelizmente, enquanto viveu, não conseguiu adquirir nada, pois a nossa situação financeira não permitia, estávamos construindo a nossa casa.
O miguel faleceu quando o Marcelo era ainda bem pequeno, mas mesmo assim, com pouca idade, ele acompanhava o pai nas compras de jornais e revistas e estava sempre atento aos comentários que o Miguel fazia, quando lia os jornais.
O Marcelo sempre se identificou com as pessoas idosas, exatamente por causa do passado e da experiência de vida que elas passavam para ele. Com o Sr. Melchíades Cardoso, ele ficava horas, dias após dias, conversando, trocando idéias, aprendendo e aumentando o seu conhecimento.
Desde pequeno sempre freqüentou as casas das amigas: D. Nair Ventura, D. Micuta Moreira, depois continuou com a Lurdete e a Solange, D. Glória Pires, as irmãs Barros (irmãs do Paulo Barros) as Lopes, D. Jamel, Nazira filha da D. Jamel, D. Dulce Damasceno, tia Afife, Inês e Filhinho de Martino, Tita de Martino, Maria Gaudous, irmã Marta do Hospital, D. Helena Caputi, Santa (Maria Nolasco Tostes), Carmem e Vera Esteves, D. Avany, D. Odália Aversa, Madrinha Miúda e muitas outra.
Ele também frequentava o Asilo são Vicente de Paula, onde tinha suas amigas: como a Isabel dos Cachorros, tia Lourdes, avó Olinda e outras. Com a minha mãe ele tinha um carinho muito grande, gostava de pentear os cabelos brancos, acariciar a sua pele.
Ele tirava um dia da semana para arrumar a cristaleira das amigas; eu ficava muito preocupada com medo que ele quebrasse alguma coisa, então ele me respondia: não se preocupe, mamãe, a gente quando gosta não quebra. Quando falecia uma das amigas ele sofria muito. Hoje, eu entendo o porquê de tanto sofrimento, não só porque perdia uma pessoa amiga, era como parte do passado que se ia.
O Miguel sempre teve um cômodo no quintal onde ele guardava as papeladas e os objetos. Quando ele faleceu, eu tentei por várias vezes arrumar o cômodo e desfazer de alguma coisa sem valor, mas sempre encontrava resistência por parte do Marcelo. Foi preciso mandá-lo para o Rio, para eu poder arrumar, pois ele não queria que jogasse nada fora.
Nessa mesma ocasião em que o Marcelo estava no Rio, a Marcia e o Emilinho levaram num domingo o Marcelo para conhecer a Quinta da Boa Vista e o Museu. Como a Marcia morava perto, foram a pé e assim o Marcelo ficou observando e guardando as ruas em que iam passando até chegar na Quinta. Ele ficou encantado mas não deu para ver tudo e fazer as perguntas, então no dia seguinte, ele esperou que a Marcia e a Lisette saíssem de casa e não fez outra coisa, senão percorrer as mesmas ruas até chegar na Quinta. Chegando na Quinta ele nem lembrou do tempo que ia passando e quando elas chegaram em casa e não o encontraram, ficaram preocupadas e começaram a busca, daqui, dali, até que escurecendo ele procurou o caminho de volta.
Assim o Marcelo foi crescendo sempre com o mesmo objetivo, a mesma vontade e com muito amor pelas coisas que ele gostava: estudar, colecionar, adquirir e preservar tudo do passado. Com o decorrer do tempo, eu fui adquirindo (porque eu também gosto) algumas peças, alguns móveis e ele sempre me orientando: essa é do século XVII - ou XVIII ou XIX, e quando ele não conseguia identificar, tirava uma foto e mandava para o museu nacional classificar.
Com 13 anos começou a trabalhar na Prefeitura, contratado para organizar o pavilhão cultural (Biblioteca) e depois foi trabalhar na Prefeitura na organização do arquivo e daí foi exercendo outras funções, ajudando em várias seções como contabilidade, tesouraria etc. A curiosidade do Marcelo era tão grande e a vontade de aprender, que ele passou a registrar num livro tudo que ia aprendendo, até ser convidado para assumir de vez a Diretoria de Cultura, onde está há 15 anos.
Tem outra passagem na vida do Marcelo também curiosa. Quando ele ingressou na faculdade de Museologia, no Rio de Janeiro, ele devia estar com 17 ou 18 anos, os professores e os colegas viviam perguntando: o que você está fazendo aqui? Isso porque a colega mais nova tinha 40 anos. Eles não acreditavam que o Marcelo tivesse mesmo vocação ideal para cursar a faculdade.
Numa dessas andanças do Marcelo pela cidade, sempre a procura de alguma coisa, passando pelo Hotel Braga, onde funcionava uma marcenaria, ele viu uns móveis antigos e perguntou ao rapaz de quem eram e o que estavam fazendo ali. "O dono mora numa fazenda, é da família barros e os móveis que vieram para concertar já estão prontos e eu estou esperando o carroceiro para levá-los". O Marcelo ficou esperando o carroceiro e depois que colocaram os móveis na carroça ele disse que ia também, porque precisava falar com o dono dos móveis. E lá se foi o Marcelo acompanhando o carroceiro. Muitas horas se passaram e nada de o Marcelo aparecer. Lá pelas tantas eu já estava ficando desesperada, quando, já bem de tardinha, ele chegou dizendo que foi junto porque precisava acompanhar o carroceiro senão ele ia estragar os móveis.
Muitas famílias, muitas pessoas, ajudaram o Marcelo nas suas pesquisas como: Roberto Ventura, Cap. Altivo Linhares, Maurício de Martino, Doninha de Martino, Ernestina Tostes Barroso, a família do Dr. Ururahy, Maria das Graças Ferreira Tostes, Hospital de Miracema, Igreja Matriz, Dalva Damasceno Bastos, Marília Damasceno, Carlos Alberto Damasceno Moliterno e muitos outros."
 
QUEM FOI MELCHÍADES CARDOSO
(Página Um - novembro/1997)
Melchíades Cardoso nasceu em Miracema no dia 10 de dezembro de 1890. Filho de Francisco Cardoso e Amélia Cardoso. Com dezesseis anos de idade, escreveu um "jornalzinho" editado em Miracema por um grupo de rapazes, onde lançou pela primeira vez a semente do movimento emancipacionista, originando em 1926 o Partido Separatista de Miracema.
Constituiu família, casando-se com Adalgiza Leite Cardoso, com quem teve sete filhos: Dirceu, Nadege, Evelyn, Liege, Danilo, Brissac e Expedito. Educou os filhos na mesma escola de amor à terra-livre.
Jornalista, poeta e industrial, criou em 1925 o "Libertas", jornal de apoiou à então Campanha Separatista.
Amante da música, tornou-se incansável colaborador da Sociedade Musical XV de Novembro.
Foi o grande comandante da Campanha Separatista. Iniciou-a com bravura e com igual ardor, levou-a ao fim, enfrentando todos os obstáculos que se lhe antepuseram.
Prefeito nomeado, dirigiu o município de 19 de fevereiro a 24 de outubro de 1946. Em 1950, foi eleito deputado estadual.
Toda sua vida sempre esteve dedicada às lutas e aos empreendimentos pela grandeza de Miracema.
Faleceu em 27 de fevereiro de 1987, ocasião em que recebeu sua última homenagem da Secretaria Municipal de Cultura com a decoração da Rua Marechal Floriano para o Carnaval. - "De bicudos se faz a estória", - tema extraído de um conto seu.
(Fonte: Dos escritos de Joffre Salim, adptados por Marcelo de Martino.)
 

Comentários

(14:47 @ 18/06/2007) Detamar disse:
Passei boa parte da minha infância em Miracema, e para minha tristeza vi muitos casarões em total estado de abandono. Vamos resgatar nossas origens!!!