Obamamania
10:36 @ 05/11/2008
Confesso que jamais imaginei ver, no meu tempo de vida, os EUA elegerem um presidente negro. Muito menos antes dos meus 30 anos. Esta é só mais uma prova da estupenda capacidade democrática dos EUA.
Talvez o mais impressionante nesta vitória seja a superação do revanchismo racial. Obama conseguiu se eleger pairando acima do discurso do “nós contra eles”. Foi uma campanha de união, e não de confronto. No único episódio revanchista, o pastor da igreja que Obama freqüenta, um negro, quis colocar o tema racial na eleição. Foi imediatamente desautorizado por Obama. Revanchismo político é, sempre, um fracasso. O Oriente Médio está aí para não me deixar mentir.
Rápido parêntesis sobre o Brasil:
1 – Aqui a eleição de Lula foi calcada no “nós contra eles”, só que não do ponto de vista racial, mas sim social. O povo contra as “zelite”. E continua sendo. O Brasil tem muito que remar para chegar perto dos EUA em termos de democracia.
2 – O imbecil do nosso ministro da justiça devia aprender que revanchismo político não leva a nada. O idiota está querendo reinterpretar a lei da anistia para excluir dela alguns militares. Revanchismo político barato que pode desestabilizar uma relação que ficou bem estabilizada após a ditadura. O Brasil já é complicado sem conflitos deste tipo. O duro é que sempre tem um idiota para aplaudir esse tipo de idéia também idiota.
Voltando ao Obama.
Se a eleição do Obama é um marco democrático sem precedentes na história e na euforia popular (inclusive em outros países), suspeito que o seu governo será muito menos bem sucedido. Seu grande mote político é a mudança. A questão é: mudar como?
Antes de qualquer coisa, o desafio será mudar a economia, tirá-la da atual crise. A economia tem um papel gigantesco na política americana (É a economia, estúpido!). Isso vai demandar tempo, vai demandar medidas impopulares e vai esfriar a chamada “lua-de-mel” das urnas, que dura aproximadamente 100 dias. Os EUA não vão sair da recessão em 100 dias, vai demorar um pouco mais.
Não estão muito claras as idéias de Obama para a economia. Uma coisa é certa: sua proposta de seguro-saúde é ruim, muito ruim. Já foi bastante criticada por diversos economistas e vai gerar, na melhor das hipóteses, desemprego. O problema do seguro-saúde lá é grave, muitos americanos não têm acesso aos serviços de saúde.
Obama também já disse que quer diminuir a dependência dos EUA do petróleo importado, e elegeu o etanol do milho como salvador da pátria (o estado de Illinois, por onde se elegeu senador, é um grande produtor de milho). Isto nós sabemos que é pura estupidez, porque o etanol do milho gasta mais energia do que disponibiliza, e vai aumentar o consumo de combustíveis fósseis.
Finalmente, Obama tem uma tendência protecionista em relação ao mercado interno. Esse é um problema grave não só para os EUA, mas para todo o mundo. Se os EUA fecharem mais o seu mercado, a economia vai demorar muito mais para se recuperar, e o mundo pode ver uma era de crescimento baixo e de pouco dinamismo. As chances da Rodada de Doha das negociações multilaterais de comércio serão praticamente sepultadas.
Pelo que disse até aqui, as mudanças de Obama, no ponto de vista econômico, são para pior.
Outra grande mudança que os EUA precisam é em sua política externa, um fracasso colossal da era Bush. Mas fazer o quê?
Tirar as tropas do Iraque, de uma hora para outra, levará o país ao caos, mergulhando na guerra civil. O Iraque melhorou muito (ninguém comenta esse relativo sucesso), mas ainda é instável. Não retirar as tropas representa uma “falta de mudança”. O mesmo pode ser dito do Afeganistão.
O que os EUA podem fazer para estabilizar o Oriente Médio? Retirar seu apoio militar e financeiro a Israel (e deixar o país, cercado de inimigos, a ponto de detonar uma guerra a qualquer hora)? Reduzir o consumo de petróleo e prejudicar seu maior aliado árabe, a Arábia Saudita? Não fazer nada e deixar “o pau cantar”, como fez com os países dos Bálcãs, até ser tarde demais para impedir a guerra?
Os EUA, na administração Bush, praticamente esqueceram da América Latina. Somente criaram um muro vergonhoso na fronteira com o México. Obama já disse que vai manter o muro. Ele disse também que vai dialogar com Chávez. Ótimo, mas não vai chegar a lugar nenhum com isso. Chávez quer aparecer (como faz com o Lula). A proposta de Obama é proselitismo para agradar a “esquerda” norte-americana. Chega a ser ingênuo.
Talvez a única mudança importante que Obama quer implementar, e que ele pode fazer isso, é mudar a política ambiental dos EUA, que é desastrosa também. Mas me parece muito pouco diante da enorme expectativa global.
Comentários
(16:50 @ 05/11/2008) Luiz disse:
É interessante perguntar o porquê da evolução democrática dos EUA. Quem sabe é porque nenhum outro país financiou um golpe militar por lá, com mais de 20 anos de duração....
(17:49 @ 05/11/2008) Lois disse:
Eis quem aparece: "Le président vénézuélien Hugo Chavez a félicité M. Obama pour son "élection historique". Il a souhaité établir de "nouvelles relations" avec les Etats-Unis et relancer "un agenda bilatéral constructif.'" (O presidente venezuelano Hugo Chavez felicitou Obama por sua "eleição histórica". Ele queria estabelecer "novas relações" com os Estados Unidos e relançar "uma agenda bilateral construtiva") Fonte: Le Monde
(14:41 @ 06/11/2008) Bruno disse:
Em absolutamente todos os regimes ditatoriais-militares que contaram com cooperação norte-americana na América Latina, havia uma parcela imensa da população (inclusive no Brasil) apoiando o regime. Outro ponto: o regime ditatorial não impede a construção, a posteriori, de regimes democráticos sólidos. Espanha e Portugal (que tiveram longas ditaduras no sec. XX), por exemplo, tem instituições democráticas mais encorpadas que o México (que realiza eleições sem interrupções desde 1934).