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BLOG DO MOVIMENTO PELA REATIVAÇÃO DA COB/AIT

http://www.grupos.com.br/blog/sindicalista.2001/

 

 
Quem é António?

O nosso companheiro, nascido em 1940, num meio familiar economicamente pobre, não conformado com a desigualdade social a que estava submetido, pôs em pratica a sua rebeldia e foi detido pela primeira vez quando tinha 17 anos de idade. Já depois destes acontecimentos foi sequestrado mais três vezes pelo estado fascista (até 1974), e pelo actual estado democrático. No total já passou mais de 43 anos detido. Aproveitou o tempo de reclusão para ler, estudar por si mesmo e tomar maior consciência do mundo à sua volta. António é um libertário e um autodidacta.
A leitura de várias obras e o contacto directo com a realidade prisional fizeram de António um cidadão esclarecido e preocupado socialmente, tornando-se protagonista activo de várias lutas pela justiça e pelos direitos de cidadania dos presos. Ele é hoje uma referência ética e cívica para os que não se deixam degradar pelo sistema, que não se atolam no lodaçal das drogas e dos tráficos, para os que não se vendem.
Ao mesmo tempo que conquistou a admiração dos seus companheiros, António Ferreira foi sendo o alvo preferencial de alguns corruptos que se albergam sob a protecção do sistema prisional do Estado. O seu nome está associado a várias denúncias e é mesmo testemunha de processos judiciais envolvendo mortes suspeitas de detidos e actividades ilícitas de funcionários e directores. Corajosamente, denunciou violações dos direitos humanos e corrupções. A sua permanência dentro da prisão implica um risco eminente à sua vida, porque há já muito tempo que recebe ameaças de morte e sofre terríveis castigos.
               Como pessoa que nunca deixou de reivindicar os seus direitos e convicções, que nunca se deixou amordaçar e que sempre manteve uma atitude combativa dentro da prisão, o António tem sofrido um tratamento muito discriminatório por parte de todo o aparato da “justiça”. No seu caso, não lhe estão a ser feitos os devidos cúmulos jurídicos (acumulação das penas para que o total nunca ultrapasse a pena máxima de 25 anos que a lei prevê), nem somas de penas, e “interpretando” as suas leis de uma outra maneira, há 4 anos que o António já poderia estar em liberdade condicional! Até 2007 já lhe foram atribuídos oficialmente 3 datas de “meio da pena” que correspondem a 3 diferentes “fórmulas matemáticas”, o que é irregular. Já não existem sequer razões para negar-lhe as precárias, mas eles inventam-nas.
               O que não podemos permitir é que, por processos indirectos, o sistema faça pender sobre ele uma pena de prisão perpétua encapotada.
               Actualmente, e após ter passado estes últimos anos pelos Estabelecimentos Prisionais de Caxias, Vale de Judeus e Paços de Ferreira, António encontra-se detido no E.P. de Pinheiro da Cruz, sujeito à classificação por parte da Direcção Geral de Serviços Prisionais (D.G.S.P.) como “preso perigoso”, e sujeito a escolta permanente (G.I.S.P.) em todas as suas deslocações.
O perigo, neste caso, é a dignidade e espírito crítico do António.


PRINCÍPIOS DO ANARKISMO
                            à Erico Malatesta (1903) ß
 
A maior parte dos males que aflige a Humanidade é devida á má organização social. Mas a Humanidade, por sua vontade e saber, pode fazê-los desaparecer.
 
A atual sociedade é o resultado das lutas seculares que os homens travaram entre si. Os homens desconheciam as vantagens que podiam resultar para todos, orientando-se pelas normas da cooperação e da solidariedade. Consideravam cada um de seus semelhantes (excetuados, quando muito, os de sua família), um concorrente e um inimigo. Por isso procuravam monopolizar, cada qual para si, a maior quantidade possível de gozos, sem pensar nos interesses dos outros.
 
Naturalmente, nessa luta, os mais fortes e mais espertos deveriam vencer, e, de diversas maneiras, explorar e oprimir os vencidos.
 
Enquanto o homem não foi capaz de extrair da natureza senão o estritamente necessário à sua manutenção, os vencedores limitavam-se a pôr em fuga e a massacrar os vencidos para se apoderarem dos produtos silvestres, da caça, da pesca num dado território.
 
Em seguida, quando, com a criação do gado e com o aparecimento da agricultura, o homem soube produzir mais do que precisava para viver, os vencedores acharam mais cômodo reduzir os vencidos à escravidão e fazê-los trabalhar para eles.
 
Muito tempo após, tornou-se mais vantajoso, mais eficaz e mais seguro explorar o trabalho alheio por outro sistema: conservar para si a propriedade exclusiva da terra e de todos os instrumentos de trabalho e conceder liberdade aparente aos deserdados. Logo, estes, não tendo maiôs para viver, eram forçados a recorrer aos proprietários e a trabalhar para eles, nas condições que os patrões lhes impunham.
 
Assim, pouco a pouco, a humanidade tem evoluído através de uma rede complicada de lutas de toda espécie – invasões, guerras, rebeliões, repressões, concessões feitas e retomadas, associações dos vencidos unindo-se para a defesa dos vencedores coligados para a ofensiva. O trabalho, porém, não conseguiu ainda sua emancipação. No atual estado da sociedade, alguns grupos monopolizam arbitrariamente a terra e todas as riquezas sociais, enquanto que a grande massa do povo, privada de tudo, é humilhada e oprimida.
 
Conhecemos o estado de miséria em que se acham geralmente os trabalhadores e todos os males derivados dessa miséria: ignorância, crimes, prostituição, fraqueza física, abjeção moral e morte prematura.
 
Constatamos a existência de uma casta especial – o governo – que se acha de posse dos meios materiais de repressão e que se arroga a missão de legalizar e defender os privilégios dos proprietários, contra as reivindicações dos proletários, pela prisão; e do governo contra a pretensão de outros governos, pela guerra. Detentor da força social, esse elemento utiliza-a em proveito próprio, criando privilégios permanentes e submetendo à sua supremacia até mesmo as classes proprietárias.
 
Enquanto isso, outra categoria especial - o clero – por meio de uma pregação mística sobre a vontade de Deus, a vida futura, etc., consegue reduzir os indivíduos a condição de suportar docilmente a opressão. Esse clero, assim como o governo, além dos interesses dos proprietários prossegue na defesa dos privilégios.
 
Ao jugo espiritual do clero ajusta-se o de uma “cultura” oficial, que é em tudo quanto possa servir aos interesses dos dominadores, a negação mesma da ciência e da verdadeira cultura. Tudo isso fomenta o nacionalismo xenófobo, o ódio das raças, a guerra e a paz armadas, por vezes mais desastrosa ainda que a própria guerra. Tudo isso transforma o amor em tormento ou em um mercado vergonhoso. E, no fim das contas, reinarão o ódio mais ou menos disfarçado, a rivalidade, a suspeita entre todos os homens, a incerteza e o medo de cada um em face a todos.
 
Os anarkistas querem mudar radicalmente este estado de coisas. E, já que todos os males derivam da luta entre os homens, da procura do bem-estar de cada um para si e contra todos os outros, querem os anarkistas corrigir semelhante sistema – substituindo o ódio pelo amor, a competição pela solidariedade, a presença exclusiva do bem-estar particular pela cooperação fraternal para o bem de todos, a opressão e o constrangimento pela liberdade, a mentira religiosa e pseudo-científica pela verdade.
 
Em resumo, querem os anarkistas:
 
1_ Abolição da propriedade (privada ou estatal) da terra, das matérias-primas e dos instrumentos de trabalho, para que ninguém tenha os meios de explorar o trabalho dos outros e para que todos, assegurados os meios de produzir e de viver, sejam verdadeiramente independentes e possam associar-se livremente uns com os outros, no interesse comum e conforme suas afinidades e simpatias pessoais;
 
2_ Abolição do estado e de qualquer poder que faça leis para impô-las aos outros. Portanto, abolição de todos os órgãos governamentais e todos os elementos que lhe são próprios, bem como de toda e qualquer instituição dotada dos meios de constranger e de punir;
 
3_ Organização da vida social por meio das associações livres e das livres federações de produtores e consumidores, criadas e modificadas conforme a vontade de seus componentes, guiados pela ciência e pela experiência, e libertos de toda obrigação que não se origine da necessidade natural, à qual todos, de bom grado, se submeterão quando lhe reconheçam o caráter inelutável;
 
4_ A todos serão garantidos os meios de vida, de desenvolvimento, de bem-estar, particularmente às crianças e a todos os que sejam incapazes de prover a própria subsistência;
 
5_ Guerra a todos os preconceitos religiosos e a todas as mentiras, mesmo as que se ocultam sob o manto da ciência. Instrução completa para todos, até os graus mais elevados;
 
6_ Guerra às rivalidades e aos preconceitos patrióticos. Abolição das fronteiras, confraternização de todos os povos;
 
7_ Libertação da família de todas as sujeições, de tal modo que ela resulte na prática do amor, livre de toda influência estatal ou religiosa e da opressão econômica ou física.
 
Erico Malatesta – 1853/1932
 

Saudações.
 
Estamos reenviando esse Texto Para Discussão Virtual como forma de aprofundar a discussão dentro, queremos dizer INTERNAMENTE, do MLB. O pessoal da FORGS tomou a inicativa de envia-lo para a lista quando ainda estavamos coletando opiniões e sugestões, quer dizer: aprofundando a discussão dentro do CL e amigos. Então esse texto já carrega algumas pequenas modificações em relaço ao anterior, passado pela FORGS.
 
O texto base utilizado foi uma falsa 'polemica' entre a FAG/CONLUTAS e o PSTU, que nos foi repassada pelo Sassa. Esperamos que a discussão flua sem sectarismos.
 
Saudações libertarias!
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ACERCA DE FALSAS POLÊMICAS E VERDADEIRAS QUESTÕES CANDENTES
 
Saudações.
 
Passaram-nos uma discussão entre Paulo Aguena/PSTU-CONLUTAS e Evandro Couto/FAG-CUT-CONLUTAS sobre a qual gostaríamos de tecer alguns comentários. Entendemos ser essa uma discussão entre partidos políticos e entre trotskistas. Isso se pode perceber por diversos fatos: disputam a direção do mesmo movimento, centralizado, hierarquizado e burocratizado. É a essência do texto, uma disputa de posição. Por esse motivo tenderíamos a permanecer a parte dessa discussão, mas como tem gente que acredita que a FAG-FAO-UNIPA-OSL sejam de fato, de alguma forma, realmente anarkistas. Por isso, apenas, nos damos ao trabalho de enviar essa para as listas libertárias.
 
1-      Por que manter uma discussão com o PSTU, com trotskistas, marxistas, autoritários, sobre o anarquismo?
Primeiramente, se a Revolução Francesa de 1789 dividiu o mundo político entre ‘direita’ e ‘esquerda’, a experiência soviética dividiu a esquerda entre os ‘reformistas ou gradualistas’ e os ‘revolucionários’. Até então, aqueles que reivindicavam o socialismo geralmente habitavam as mesmas organizações políticas. O modelo soviético, eternizado na consolidação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), seria referência para boa parte da esquerda durante o século XX assim como a perspectiva do poder popular e a expressão conselhista de democracia exercida diretamente influenciou até mesmo regimes liberais na atualidade.’(http://www.duplipensar.net/artigos/2007s2/revolucao-russa-de-1917-balanco-legado.html)
 
Ao nosso ver isso só serve para dar alguma credibilidade ao discurso trosko-morenista, berço comum de todos eles. Sim, pois por mais que o PSTU mantenha uma página em seu site para difundir mentiras sobre o anarquismo, como de resto todos os partidos, para puxar para o seu lado uma plêiade de novos ativistas que a cada dia surgem, buscando informações sobre o anarkismo, de fato ele s nunca se predispuseram a atuar no campo libertário, sempre nos tratando por inimigos, e, recentemente, agredindo um grupo de punks anarquistas que participavam de uma ‘manifestação unitária contra a guerra-ocupação do Iraque”. Mas a FAG-CONLUTAS se vê obrigada a responder, pois participa das mesmas organizações que o PSTU – em frentes, algumas vezes de oposição às diretorias de sindicatos atrelados ao Estado, em outros sendo a própria direção. Para nós nunca passaram de braços do sistema, aristocracia operária já domesticada e adaptada. Estão no campo da burguesia, por isso admitem o uso do Estado, que já os sustenta economicamente.
Mas, vamos lá.
 
2-      Logo na 1ª questão levantada pelo PSTU, sobre a definição e o papel do Estado, a FAG não hesita em fazer uma defesa do Estado, ao afirmar:
o anarquismo corretamente vê que não há nenhuma possibilidade de aproveitar o aparato opressor do Estado capitalista para a emancipação dos trabalhadores e defende sua destruição; por outro, erroneamente acaba por negar toda forma de Estado.”
 
Ora, para TODOS OS TEÓRICOS ANARKISTAS A QUESTÃO É CLARA, e em torno dela o próprio Bakunin fez com que Marx se retratasse sobre a questão do Estado e assumisse que a luta ‘finalista’ era pela eliminação do Estado, visto como ‘aparato opressor’, até a completa eliminação das classes sociais, depois da fase de transição da ditadura do proletariado (marxismo básico!). Só que para Bakunin e para os anarkistas a luta social é, em si, integral: a destruição do Capital deve, obrigatoriamente, ser imediatamente acompanhada pela destruição do Estado, sem o que se retro-alimentava a sociedade de privilégio e se restaurariam as classes. A observação que fazem, através de uma citação de Luigi Fabre, no qual buscam legitimar seu discurso, é diversionista e não tem vinculação direta com o tema, senão com a questão do uso da violência, tema sempre retomado pelos teóricos do anarquismo. Para os anarkistas não se pode comparar a violência legal e o monopólio da violência pelo Estado, da violência que se justifica como Auto-Defesa na luta de libertação contra o Estado. E como já foi dito, esse não foi um ‘erro’ dos anarkistas, foi um acerto que a Comuna de Paris obrigou Marx a reconhecer a razão de Bakunin.
 
         3- Depois de defender o Estado que mais restava aos fagistas? Defender a ditadura do proletariado:
na peleia não se reconhece ao inimigo nenhuma liberdade , nem sequer a de viver. (...)
 
Deixamos como resposta a isso a definição de liberdade de Bakunin (“A minha liberdade é a liberdade para aquele que pensa diferente de mim, já que não se dá liberdade a quem pensa de forma semelhante”) e uma declaração de Durruti, de quem os plataformistas insistem se dizer seguidores, durante a Revolução Espanhola, que os mesmos plataformistas não se cansam de atacar: “A revolução não se faz na servidão, mas sim na liberdade”. E como lembrança histórica, tanto na Comuna de Paris de 1871, quanto na Revolução Espanhola de 1936 a grande acusação dos marxistas aos anarkistas foi de não terem instaurado uma ditadura.
E para que não se esqueça, lembramos, foi pensando assim que Lênin eliminou a imprensa libertária, massacrou a revolta de Krontadt e traiu à Makhnovitchina na Revolução Russa. Depois, com a mesma desculpa, Stálin prosseguiu a carnificina.
 
3-      No parágrafo seguinte a FAG-CUT-CONLUTAS faz um comentário, em princípio deslocado do tema:
A violência organizada está fora de questão, haveria que discuti-la e perguntar por sua ausência mais bem nas idéias deixadas pelo velho Engels tomadas na conformação teórica da Segunda Internacional. Onde o marxismo organiza sua variante reformista e por efeito produz a social democracia tal como a conhecemos
 
A frase em si não tem pé nem cabeça, mas sua justificativa é denunciadora: o fagista busca transferir a responsabilidade pela concepção reformista da social-democracia para Engels, isentando Marx!!! Essa é uma tentativa histórica feita por setores crescentes do marxismo a medida que as críticas anarksitas ao marxismo não podia ser respondidas ou eras desnudadas pela história, ‘se está errado é culpa de Engels’.
 
Isso é uma injustiça para com Engels que foi o primeiro grande discípulo e o 1º marxista, aponto de que os bolcheviques sempre se referiram ao ‘materialismo histórico de Marx e Engels’, tendo sustentado Marx com polpudas mesadas, desde que esse chegou a Londres, após a fracassada tentativa de revolução alemã de 1848 – quando ele redigiu o seu programa político, o Manifesto Comunista.
 
Isso é uma injustiça para com Engels que, como pau-mandado de Marx, escreveu textos para enfrentar os anarquistas em temas aos quais Marx não dava maior prioridade, como a questão da origem do Estado, a questão da natureza, a questão do indivíduo, da alienação e da liberdade. São os referenciais marxistas sobre diversos pontos, ainda que hoje poucos marxistas saibam.
 
Isso é uma injustiça para com Engels, pois ele foi o primeiro a combater os ‘desvios revisionistas’. Na sua “Crítica ao Programa de Gotha” ele censurou o programa do Partido Social-Democrata Alemão (fundado em 1875) que reivindicava o ‘Estado Popular Livre’, defendendido por Bernstein e Kautski. Esse último, um reformista contumaz, foi o propositor original da tese que definiria, 10 anos depois, a tendência bolchevique no Partido Social-Democrata Russo, no exílio, defendida por Lênin e inicialmente criticada por Trotski, que ficou do lado dos mencheviques. É por esse motivo que Engels é acusado de revisionista pelo neo-marxismo, que tenta salvar Marx, falando do jovem Marx e pondo a culpa pelo erros em Engels.
 
4-      Mas o que querem os plataformistas da FAG-CUT-CONLUTAS? Eles deixam claro;
O poder coletivo das classes trabalhadoras só pode ter calço em instituições que dão participação real nas decisões fundamentais...
 
Querem se institucionalizar! Como crentes na democracia, e não anarkistas, defendem a criação de instituições realmente democráticas, que configurem a criação desse novo Estado, desse novo poder, que chama de popular. E nessa estrutura do novo Estado, do poder popular, os trabalhadores terão uma participação real. Não falam em auto-gestão, nem em gestão operária, nem mesmo em gestão direta! Enfim, não são anarkistas, são plataformistas, no máximo maximalistas.
 
5-      Na questão seguinte, em que o PSTU fala do papel do Estado no socialismo (Fase de Transição-ditadura do proletariado) eles respaldam sua resposta em Camilo Berneri. Se perguntarmos quem foi Berneri pouquíssimos saberiam responder. Mas quem foi Berneri?
Na segunda e na terceira décadas do século 20 o movimento anarco-sindicalista e anarquista chegou ao seu ponto mais alto. Além, dos jornais libertários, alguns militantes dispunham de espaços diários na imprensa comercial. Um deles nascido em Portugal, José Marques da Costa, tinha uma coluna diária no jornal A Pátria, do Rio de Janeiro, e publicou a seguinte nota: "Camilo Berneri na reunião do grupo Os Emancipados. Sexta-feira próxima, na sua sede à rua Buenos Aires, 265, às 20 horas em ponto, os anarquistas, simpatizantes e trabalhadores em geral terão oportunidade de ouvir uma brilhante Conferência de Camilo Berneri, sobre Giordano Bruno na Philosofia e na Renascença-Vida e Pensamento do grande filósofo da liberdade.” – Citado por Edgar Rodrigues.
O cadáver de Camilo Berneri será o estandarte de um dos crimes mais evidentes do antifascismo. Os operários espanhóis foram massacrados sob a bandeira do antifascismo e, definitivamente, lutaram (sem o desejarem) pelo triunfo do capitalismo. O proletariado internacional, sob a mesma bandeira antifascista, mal ensaiou os gestos de uma solidariedade mediatizada. Este só podia respaldar @s operári@s espanhóis mediante ações de classe dirigidas contra o aparato econômico e político do capital. Por isso, a ajuda efetiva à Espanha revolucionária residia unicamente na mudança radical, em escala mundial, das relações de classe. (3) A guerra espanhola exemplifica o nocivo papel do antifascismo. O fracasso da revolução deve ser buscado em múltiplas causas e não somente no antifascismo, mas esta não é a missão do presente artigo.” – Citado pelos autonomistas-marxistas do ‘Projeto Periferia’, no texto sobre o “Antifascismo Como Forma de Adesão ao Sistema”, argumento sustentado por aqueles que se recusam a assumir uma linha de unidade antifascista, proposta pela COB-AIT! Leiam no sítio deles: (http://www.geocities.com/autonomiabvr/antifa.html)
Giovanna Caleffi (1897-1962). Militante anarquista italiana, companheira de Camilo Berneri, assassinado pelos estalinistas em Barcelona.” – Citado pelos plataformistas do site Insurgentes.
São importantes fontes para este debate, tanto a própria Plataforma, quanto as respostas e discussões que aconteceram posteriormente como a Síntese e a ?Resposta? de 1927 à Plataforma,(...) a resposta de Piotr Arshinov a Malatesta, chamada de O Velho e o Novo no Anarquismo, além de vários artigos deste período. Podemos citar
importantes textos como La Response aux Confusionistes de l?Anarchisme [A Resposta aos Confusionistas do Anarquismo] de Piotr Arshinov, a série de (...) artigos publicados em Solidariedad Obrera por pensadores como Luigi Fabbri e Camilo Berneri.
” – Citado pelos plataformistas da FARJ.
As diversas entidades sociais, políticas e culturais, assim como as pessoas que dão o seu apoio a este acto que pretende recordar ainda que seja tardiamente o patético significado dos assassinatos de Andreu Nin y Camillo Berneri, os mais conhecidos de entre os muitos que acompanharam as jornadas de Maio de 1937 em Barcelona e outras cidades da Catalunha, assassinados todos eles en nome da República e inclusivamente do socialismo.” – Citado pelo neo-POUM (Promovido pela Fundació Andreu Nin da Catalunha-poum@fundanin.org)
Um pouco mais jovem, Camillo Berneri (Lodi, Italia, 1897-1937) provinha de uma família de intelectuais de esquerda. O seu avô foi companheiro de Garibaldi, sua mãe uma notável escritora feminista (Camillo escreverá também um livro sobre a emancipação da mulher). Sua filha Maria Luisa será a autora de El futuro: viaje a través de la utopía. Camillo militou nas Juventudes Socialistas até à Grande Guerra. Depois tornar-se-á um anarquista "revisionista" muito aberto (Salvemini dirá a seu respeito: "...interessava-se por tudo com uma avidez insaciável. Enquanto que muitos anarquistas são como uma casa cujas janelas para a rua estão tapadas... ele tinha abertas todas as janelas"). Discípulo de Luigi Fabbri, Camillo sacrificará a sua vocação de vida intelectual pela más urgente da acção directa. No exílio, Berneri tornou-se num dos inimigos más activos do fascismo e o ditador nunca lhe perdoou o seu labor de denúncia.(...) A sua morte insere-se no mesmo episódio da velha guarda bolchevique e foi em boa parte obra dos mesmos que assassinaram Trotsky.” - Citado pelo neo-POUM (Promovido pela Fundació Andreu Nin da Catalunha-poum@fundanin.org)
Agora sabemos quem foi Berneri e podemos fazer julgamentos sobre as suas citações, sobre as quais eles baseiam seus argumentos nesse ponto. Logo de cara podemos notar que ele foi crítico com relação a ação da CNT na revolução espanhola. Como italiano, exilado em função do fascismo italiano, ele participou da Coluna de Ferro e como libertário colocava suas posições na discussão dentro do movimento libertário e assim como a AIT foi crítico em relação a política de alianças definida pela Frente Anti-Fascista. Da mesma forma, sabemos, que a própria AIT – que realizou Congresso durante a Guerra Civil Espanhola (36-39) - tinha críticas e propostas de luta que não foram implementadas devido a dura conjuntura e ao cerco a que estava submetida a Espanha na época (fascismo salazarento a oeste, Frente Popular dominada pelo PCF a leste, Marrocos comandada por Franco a sudoeste, Itália fascista a sudeste, e a velha Grã-Bretanha ao norte; ao norte, a sudoeste e sudeste e sul o Canal da Mancha e o Mediterrâneo). Por isso ele está sendo usado pelos plataformistas, como outros autoritários buscam crescer sobre as divergências existentes entre os libertários, tentando se colocar como uma opinião acima da história, apontando erros como se na vida você pudesse escolher e determinar todas as situações. Afirmamos que as divergências entre os libertários era resolvida dentro de seus plenos e dentro de seus princípios, e as decisões foram coletivas. Não havia esse negócio de dirigentes da CNT como afirmam os plataformistas, eles simplesmente não entendem o sistema de funcionamento do movimento libertário em que se valoriza o indivíduo e a espontaneidade, se trabalha com a autonomia e o federalismo. Não agimos como eles: definindo tudo a partir do centro diretor.
 
Mas eles citam de Berneri: “Os anarquistas admitem o uso de um poder político pelol proletariado, mas tal poder político é entendido como o conjunto dos sistemas de gestão comunista, dos organismos corporativos, das instituições comunais, regionais e nacionais livremente constituídas fora e contra o monopólio político de um partido...
 
Ora, Berneri é claro, ao rechaçar a via partidária e o uso do Estado, reafirmando a necessidade de sua imediata destruição. Berneri ainda complementa, afirmando: “(...)instituições comunais, regionais e nacionais livremente constituídas fora e contra o monopólio político de um partido, e tendendo à mínima centralização administrativa. ”. Mas mesmo nesse ponto não se toca na questão essencial para o anarkismo: o federalismo – no que pode ter sido um problema de tradução, ou de intenção própria, afinal ele estava próximo do POUM, lembrem. Mas então, qual a intenção dos cafagistas em reafirmar um ponto obscuro de uma discussão sobre uma revolução em andamento, como era o caso da Revolução Espanhola? Para que estabelecer como base para a discussão do tema uma afirmação contida num debate, do qual nós ficamos sem saber qual era o teor, só restando a afirmação “”, que soa como uma corroboração do marxismo, preparando caminho para definir esse sistema como a “ditadura do proletariado”. Ora, mas isso não é original: o próprio Marx já fez isso e a história cuidou de desmascará-lo, para quem quiser ver. Falamos da própria Comuna de Paris, traída pelo pai do “socialismo científico”, que via nela a oportunidade de suplantar o anarquismo e expulsar Bakunin – e todos que se atrevessem a discordar dele. Isso já está documentado e nos ‘Cadernos de Textos Para Discussão d’O COLETIVO LIBERTÁRIO – Volume 3 e 4” , pode-se ver a descrição deste processo. Pois bem, essa traição não impediu Marx de escrever o famoso “A Guerra Civil em França”, onde ele busca capitalizar a simpatia pela Comuna e pelo comunardos – já então mortos, presos, desterrados e perseguidos. Nesse livro ele já afirma categoricamente que a “Comuna é a forma enfim encontrada da Ditadura do Proletariado...” Mas, ao mesmo tempo, ele expulsa os anarquistas – que realizaram a Comuna(!), e muda a tática da AIT, priorizando a luta política e a organização partidária e pouco depois levando a dissolução do que restou do aparelho da Internacional em suas mãos – transferindo o Secretariado da AIT para os U$A.
 
Então fica clara a intenção de sugerir alguma aproximação entre aspectos do anarkismo e do marxismo, de resto irreconciliáveis. Se usam Beneri – no futuro o usarão mais, já que encontraram nele críticas a certas posições tomadas durante a Revolução Espanhola e o usam como fonte para atacar o sindicalismo revolucionário/anarcosindicalismo – conduzem a conclusão para o próprio Malatesta – a quem citam como “”, quando Malatesta foi um opositor ferrenho à Plataforma, porquanto apoiava a Reativação da AIT-IWA, deliberada em Berlim em 1922. Errico deve estar se tremendo no túmulo, ao ser citado assim:
(...) a ?ditadura do proletariado?seria o poder efetivo de todos os trabalhadores dirigido à destruição da sociedade capitalista, e se converteria na anarquia apenas cessasse a resistência reacionária e ninguém mas pretendesse obrigar as massas a obedecer e trabalhar para outros. E então nosso dissentimento não seria mais que uma questão de palavras. Ditadura do proletariado significaria ditadura de todos, isto é, não seria mais ditadura...
 
Completamente fora do contexto. No mesmo momento em que Malatesta falava isso ele estava empenhado em apoiar a Reativação da AIT, contra a participação da USI (União Sindical Italiana – que ele ajudara a fundar!) na Intersindical Vermelha, controlada pelo PCUS. Lembremos também que Malatesta participou do Congresso de Saint-Imier, que definiu a afirmação da continuação da AIT – que passaria a ser conhecida como a Internacional Anti-Autoritária -, selando a cisão entre o anarkismo e o marxismo. Mas se eles insistem que não passa de “uma questão de palavras” por que eles não abrem mão de sua defesa da ditadura? Por que somos nós que temos que abrir mão da liberdade, da autonomia, da auto-gestão?
 
         6- Sobre a questão da utilidade ou não do aparelho de Estado pelo proletariado e do atentado contra          
         Lênin, cometido por anarkistas em 1922, e que levou a sua morte em 1923.
 
A questão foi colocada colocando no mesmo saco os atentados cometidos desde 1918, levados a cabo pelos socialistas-revolucionários – ao serem retirados do poder pelo golpe bolchevique, com a tomada do Palácio de Inverno -, apesar de setores socialistas-revolucionários também compor o governo bolchevique em seu início, devido a falta de apoio e de programa bolchevique para os camponeses. Mas em sua resposta eles não só não destacam essa manobra trotskista, como também não citam os acontecimentos que efetivamente levaram os libertários a partirem para os atos individuais de ação direta.
Não falam nem mesmo da traição bolchevique contra a Makhnovitchina, que dizem defender!
Entretanto, a classe operária urbana não respondeu ao movimento Makhnovista com o mesmo entusiasmo dos camponeses, e ao final de 1919, as relações com o governo comunista voltaram a azedar. Ao negar-se a abandonar o território ucraniano por ordem de Trotsky, o movimento Makhnovista foi novamente declarado ilegal. O Exército Vermelho então voltou a combatê-los, e durante os oito meses que se seguiram ambos os lados sofreram pesadas baixas. Então, em Outubro de 1920, o barão Wrangel, sucessor de Denikin no Sul, lançou uma importante ofensiva, partindo da Criméia rumo ao Norte. Novamente o Exército Vermelho solicitou a ajuda dos Makhnovistas, e novamente a frágil aliança se refez. Menos de um mês mais tarde, já com a guerra civil ganha, a aliança foi desfeita. Em 25 de Novembro, os líderes do exército de Makhno, reunidos na Criméia por ocasião da vitória sobre Wrangel, foram presos e executados sumariamente. No dia seguinte, por ordem de Trotsky, Gulai-Polé foi atacada e os Makhnovistas presos ou executados. Makhno conseguiu fugir e se exilar na França.
Não falam do Massacre dos marinheiros revolucionários de Kronstad em 1921.
Os trabalhadores de Petrogrado estavam sob lei marcial e impossibilitados de oferecer apoio a Kronstadt. O governo bolchevique começou seu ataque em 7 de Março. Depois de 10 dias de ataque contínuo, durante o qual muitas unidades do Exército Vermelho foram forçadas a recuar sob fogo, e onde algumas até se juntaram à rebelião, a revolta de Kronstadt foi esmagada. O Exército Vermelho utilizou por volta de 50 mil soldados sob o comando de Mikhail Tukhachevsky, dos quais mais de 10 mil morreram antes da queda de Kronstadt em 17 de Março. Embora não hajam estimativas precisas para as baixas rebeldes durante a batalha, historiadores estimam que milhares foram executados nos dias que se seguiram à rendição, e um número semelhante foi enviado a campos de trabalho forçado siberianos. Um grande número de rebeldes mais afortunados conseguiram fugir para a Finlândia. Ironicamente, no dia seguinte à rendição de Kronstadt, os bolcheviques celebraram o 50 aniversário da Comuna de Paris.”
Não falam da censura e do empastelamento da imprensa libertária e da prisão de seus ativistas em massa, ocorrida entre 1919 e 1922.
O contexto pós-revolucionário obrigou os bolcheviques a medidas que podem ser interpretadas como de cunho autoritário, mas que obedeciam a determinadas obrigações de sobrevivência (como a censura à imprensa e à organização política) num contexto de Guerra Civil e invasão do país. No início dos anos 1920 formou-se a URSS (União das Repúblicas Socialistas soviéticas) junção da antiga Rússia com várias pequenas nações muitas das quais sofreram o domínio do império czarista, mas aceitaram manter a união formal a partir de um “Estado Soviético”. (...) Curiosamente, a União Soviética, que eternizou a importância dos soviets na revolução russa no próprio nome, surgiu já em um período de redução das atividades independentes dos soviets em relação ao Estado e ao Partido bolchevique. Este aspecto é fundamental para discutir os principais legados desta revolução para o século XX.
 
Mas se nada falam desses aspecto, que impediram os libertários de atuar na organização do proletariado para uma ação coletiva pela 3ª Revolução, enaltecem o aspecto que tem sido a boia salva-vidas de parte dos bolches:
- O anarquismo deu peleia nesse processo, avançou com os trabalhadores sobre os limites burgueses daquele fevereiro de 1917 com a decisão resoluta de levar a cabo um genuíno socialismo de conselhos...
 
Ora, se querem e admiram que se assumam e se decalrem calramente conselhistas, oposição de esquerda, ou até essa anomalia que é o tal ‘marxismo-libertário’, mas que deixem de se afirmar anarquistas. Quem defende ‘se organizar como partido’, ‘tomada do poder político’, ‘necessidade de fase de transição’ e ‘ditadura’ nunca foram os anarkistas, sempre criticados justamente por essas recusas. Esse é o programa autoritário marxista que gerou o stalinismo ditretamente. Os próprios marxistas tem que fazer uma auto-crítica e uma revisão dos seus aspectos autoritários, centralsitas, burocráticos e vanguardistas.
 
          7- Sobre a reorganização da economia pós-revolucionária o PSTU acusa os anarkistas de defenderem um “...anarquismo resultará num capitalismo sem capitalistas...” ao que, de acordo com o PSTU “Enquanto o marxismo revolucionário defende a propriedade coletiva dos meios de produção e de troca (nacionalização de fábricas, terras, transportes, etc), por intermédio de um Estado operário”. Isso tudo não passa de falácia! É a velhíssima acusação marxista de que o anarquismo é uma ideologia pequeno-burguesa. Quem são eles para falar isso? Historicamente, são os criadores do Capitalismo de Estado!
 
Os plataformo-fagista-conlutistas usam Leval e Bakunin em suas citações e ‘avisos’. Mas começam a sua própria resposta com:
Nosso programa finalista é o da expropriação da classe capitalista e a propriedade coletiva pela gestão operária dos meios de produção, bem como a extensão das medidas socialistas também para o poder político...
 
Do ponto de vista anarkista a questão do ‘finalismo’ é vista dentro da questão tática, não estratégica. Entendemos que vivemos num sistema capitalista e que isso nos coloca em choque contra o sistema de exploração e opressão dentro de uma dupla dinâmica: a defensiva, de resistência ao avanço da sanha capitalista – que se cristalizou como a prática histórica do sindicalismo revolucionário, anarkista; e a ofensiva, em que o proletariado toma a iniciativa em suas mãos e se avança para a insurreição e a revolução, e nesse processo jogamos todo o nosso programa de ação: a destruição do Estado e da propriedade privada dos meios de produção, com a instauração do socialismo libertário (a um só tempo: o comunismo e a anarkia!).
 
Da maneira como foi respondida a questão se deixa pairar uma dúvida sobre a questão “Nosso programa finalista”, em que se abre brecha para etapismos e fases de transições. Não aceitamos dúvidas sobre isso, afinal, de certa forma, o próprio marxismo é ‘anarquista’ em seu ‘programa finalista’, já que após a transição socialista, que seria marcada pela ‘ditadura do proletariado’ e com a suposta destruição das classes sociais, “o Estado se extinguiria naturalmente, chegando-se assim ao Comunismo futuramente...”, como está escrito no Manifesto Comunista – que não passou de um estelionato político de Marx contra o proletariado alemão na Revolução Alemã de 1848, em que Marx entregou para a policia Wetling, que defendia posições libertárias de autonomia operária enquanto Marx e Engels defendiam alianças com a burguesia, visando instaurar a democracia burguesa e desenvolver o capitalismo – como forma de fortalecer o operariado.
 
          CONCLUINDO gostaríamos de dizer que não entendemos validade em discussões públicas entre libertários sobre suas diferenças táticas e de opiniões conjunturais. Entendemos que essas discussões devem se dar internamente ao movimento libertário, sem a participação de autoritários. Muito menos vemos interesse em debater com os autoritários. Devemos nos concentrar em levar nossas posições diretamente para o proletariado. E para aqueles que têm vergonha de ser proletas devemos fazer o que antes de nós fizeram outros libertários: enaltecer a capacidade política do proletariado, estimular seu espontaneísmo e sua ação direta consciente e auto-determinada. Lembremos: proletariado é todo aquele que não tendo meios de produção a sua disposição para poder ex0lorar outrem e sustentar assim sua sobrevivência, só tem a sua própria força-de-trabalho, manual e/ou intelectual, sendo por isso submetido a exploração pelo jugo da competição capitalista.
 
Por esses motivos defendemos a criação de espaços de discussão livre entre indivíduos e organizações que se advoguem do anarkismo, até a constituição de uma VERDADEIRA Federação Anarkista do Pau-Brasil, para que possamos construir coletivamente um novo jornal de alcance nacional, como foi a vitoriosa experiência do O INIMIGO DO REI, difundindo nosso ideário, em toda a sua extensão e abrindo um espaço para discussão nacional libertário. Entendemos que o caminho para a constituição dessa Federação @ seria o fortalecimento dos plenos que temos construído historicamente, que tenham algum caráter deliberatório, e não meramente para ‘troca de experiências’, como tem sido as Jornadas Libertárias de Protesto. De sua generalização e fortalecimento, com a maior afinação dos diversos coletivos libertários em todo o território abrangido pela organização, poderíamos organizar um Congresso Anarkista Brasileiro – o último foi em 1986, nos 100 anos do 1º de Maio. Mas desde já defendemos os princípios históricos do anarkismo como a base de acordo para esse processo, e como ponto definitivo assinalamos a necessidade e importância de apoio intransigente a Associação Internacional dos Trabalhadores e a todas as suas Seções, como depositárias de nossas propostas para o movimento dos trabalhadores/operário.
 
Esperando contribuir para o avanço da discussão dentro do Movimento Libertário Brasileiro (MLB) deixamos essas anotações e análise, sem sectarismo nem pretensões de grandeza e divindade, pois ninguém é dono da verdade absoluta. Ao contrário do que fizeram os cafagistas nós não descolamos os seus texto do contexto para criticá-lo, o apresentamos na íntegra para a apreciação geral e para que se entendam os contextos – em torno dos quais nos posicionamos.
 
SAÚDE E ANARKIA!
 
O COLETIVO LIBERTÁRIO
Lembre Sempre:
ANARKIA NÃO É BAGUNÇA!
 
 
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Pôlemica com a visão do PSTU sobre o anarquismo
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O artigo de Paulo Aguena da Direção Nacional do PSTU sobre o anarquismo emitido faz algumas semanas nos convida aqui para uma boa polêmica. Não é do nosso estilo como organização política anarquista o debate pueril e mesquinho o que nos faz, nos termos francos do dirigente desse partido, posicionar devidamente nossas idéias dentro dos temas propostos.
Polêmica com a visão do PSTU sobre o anarquismo.

PSTU Do ponto de vista político, os anarquistas se declaram inimigos de todo poder governamental e estatal. Sobre o Estado, Piotr A. Kropotkin (1824-1921) afirma em sua obra ?O Estado e seu Papel Histórico?: ?Nós vemos nele uma instituição que no transcurso de toda história de toda sociedade humana serviu para impedir a união das pessoas entre si, serviu para obstaculizar o desenvolvimento, a iniciativa local, para afogar as liberdades já existentes e estorvar o surgimento de novas liberdades. E nós sabemos que a instituição que já existiu há vários séculos e que se consolidou firmemente adotando uma forma determinada com o objetivo de cumprir determinado papel na história, não pode ser adaptada para um papel contrário?.
Assim, por um lado, o anarquismo corretamente vê que não há nenhuma possibilidade de aproveitar o aparato opressor do Estado capitalista para a emancipação dos trabalhadores e defende sua destruição; por outro, erroneamente acaba por negar toda forma de Estado. Não consegue compreender que nem toda violência organizada, nem todo Estado, constituem um dano em si mesmo.

- Aqui teríamos que separar analiticamente, para começar, o conceito Estado e violência organizada. Ainda que todo Estado supõe violência organizada nem toda violência organizada supõe Estado. Sobre o problema da violência aplicada contra os inimigos da revolução já respondia Luigi Fabbri em Dictadura y Revolución sem deixar dúvidas:

Uma coisa é a violência e outra a autoridade governamental, seja essa ditatorial ou não. Ainda que seja verdade, em efeito, que todas as autoridades governamentais se baseiam na violência, seria inexato e errôneo dizer que toda ?violência? é um ato de autoridade, deduzindo disso que se é necessária a primeira se faz indispensável a segunda.

(...) É um ato de autoridade quando se adota para impor aos demais uma conduta ao gosto de quem manda, quando é emanação governamental ou patronal e serve para manter na escravidão os povos e classes (...). É, ao contrário, violência libertária, isto é, ato de liberdade e de libertação, quando é empregada contra o que manda por quem já não quer obedecer. (...) Tal violência é a revolução em ação. Mas cessa de ser libertária e por conseguinte revolucionária quando, apenas vencido o velho poder, quer ela mesma converter-se em poder e se cristaliza em uma forma qualquer de governo.

E para as caricaturas que imputam transigência com o inimigo por culpa de um discurso principista de liberdade (fora de condições históricas concretas):

Liberdade também para nossos inimigos? Nos perguntam. Com os inimigos estamos em luta, e na peleia não se reconhece ao inimigo nenhuma liberdade , nem sequer a de viver. (...) Mas nos preocupar com a liberdade de nossos inimigos quando nós temos algum pobre diário e uns poucos semanários, enquanto eles possuem centenas de diários de grande tiragem; quando eles estão armados e nós desarmados; enquanto eles estão no poder e nós somos os súditos; enquanto eles são ricos e nós pobre, seria ridículo... seria o mesmo que reconhecer a um assassino a liberdade nos matar!

A violência organizada está fora de questão, haveria que discuti-la e perguntar por sua ausência mais bem nas idéias deixadas pelo velho Engels tomadas na conformação teórica da Segunda Internacional. Onde o marxismo organiza sua variante reformista e por efeito produz a social democracia tal como a conhecemos.

O Estado certamente é o elemento que nos opõe. É uma contestação teórica e a sua vez estratégica que nos faz impugná-lo como ferramenta para chegar ao socialismo. Nossa teoria indica que o Estado não é um conjunto institucional ?vazio?, que seus aparelhos estão cheios do que produz e reproduz o poder burguês, constituídos por estas relações de dominação que são uma estrutura fundamental para a conservação do sistema. O uso do Estado é dentro deste enfoque a inserção estratégica em relações de poder caríssimas a sociedade de classes, que tem mecanismos que não dão trânsito para uma revolução, que a burocratiza e a impede de realizar-se. O poder coletivo das classes trabalhadoras só pode ter calço em instituições que dão participação real nas decisões fundamentais do processo revolucionário. O poder popular está em antagonismo latente ou manifesto com o Estado, disputa seu monopólio da violência para tornar-se povo em armas contra a reação, reapropria-se da política como função coletiva contra a concentração do poder nos mandos estatais, seus técnicos e sua burocracia.

PSTU Por isso, defende a destruição do Estado capitalista e a passagem direta ao comunismo, como se fosse possível a imediata supressão das classes sociais. Não reconhece a necessidade do socialismo ? fase transitória do capitalismo ao comunismo ? em que a classe operária, por meio da ditadura do proletariado, deverá ainda lutar pela extinção definitiva das classes exploradoras e, por decorrência, de toda classe social.

- Com a palavra Camilo Berneri pelo periódico Guerra di Classe de 36:

Os marxistas ?no se propõem a destruição completa do Estado?, mais bem prevêem a extinção natural do Estado como consequência da destruição das classes realizada pela ?ditadura do proletariado? ou então pelo socialismo de Estado, enquanto os anarquistas querem a destruição das classes, mediante uma revolução social que suprima o Estado junto com as classes. Os marxistas, além do mais, não propugnam a conquista armada da Comuna por parte de todo o proletariado, senão a conquista do Estado por parte do partido que presume representar o proletariado. Os anarquistas admitem o uso de um poder político pelol proletariado, mas tal poder político é entendido como o conjunto dos sistemas de gestão comunista, dos organismos corporativos, das instituições comunais, regionais e nacionais livremente constituídas fora e contra o monopólio político de um partido, e tendendo à mínima centralização administrativa.

A experiência que reconhecemos é a que joga os órgãos de poder popular com intransigência contra as classes dominantes e o imperialismo e os seus ensejos de reação armada. Como força anarquista organizada a oposição a todo e qualquer aparelhamento burocrático ou ditatorial que usurpa o poder popular em nome dos seus interesses de grupo particular. As classes sociais serão suprimidas na mesma medida em que é liquidada a reação e o poder popular prefigurar nas suas relações sociais e políticas - como regime revolucionário - a desestruturação da sociedade de classes e o poder dominante que lhe constitui hierarquicamente.

Sobre a ditadura proletária, recorrendo a nosso teórico E. Malatesta quando discutia a revolução russa em 1922 diríamos:

(...) a ?ditadura do proletariado?seria o poder efetivo de todos os trabalhadores dirigido à destruição da sociedade capitalista, e se converteria na anarquia apenas cessasse a resistência reacionária e ninguém mas pretendesse obrigar as massas a obedecer e trabalhar para outros. E então nosso dissentimento não seria mais que uma questão de palavras. Ditadura do proletariado significaria ditadura de todos, isto é, não seria mais ditadura, como governo de todos não mais governo, no sentido autoritário, histórico e prático da palavra...

Mas os partidários verdadeiros da ?ditadura do proletariado? não entendem assim e isto nos fazem ver perfeitamente na Rússia. O proletariado, naturalmente, entre nela como entra o povo nos regimes democráticos, isto é, simplesmente para esconder a essência real das coisas. Na realidade se trata da ditadura de um partido, ou melhor dos chefes de um partido; e é uma verdadeira ditadura, com seus decretos, com suas sanções penais, com seus agentes executivos e sobretudo sua força armada, que hoje serve também para defender a revolução de seus inimigos externos mas que servirá amanhã para impor aos trabalhadores a vontade dos ditadores, deter a revolução, consolidar os novos interesses que tem se constituído e defender contra as massas uma nova classe privilegiada.

PSTU Ao não compreender a utilidade do Estado nas mãos do proletariado, ao se contrapor a qualquer forma de estado, os anarquistas chegaram a pegar em armas contra o governo dos sovietes durante a guerra civil na Rússia e, inclusive, organizaram um atentado contra Lênin.

- O anarquismo deu peleia nesse processo, avançou com os trabalhadores sobre os limites burgueses daquele fevereiro de 1917 com a decisão resoluta de levar a cabo um genuíno socialismo de conselhos. Desde que consumado o assalto ao palácio de inverno em outubro esteve implicado em polêmicas e sofrido retaliações. Seguramente defendia intransigente as conquistas revolucionárias mas não se filiava ao projeto político que acabara de colocar o partido bolchevique no poder. A ?ditadura do proletariado? se revelou ditadura sobre o proletariado, o poder dos soviets foi tomado pela burocracia de um partido de estado. Stalin não foi um acidente de percurso, uma degeneração como preferem outros, o secretário-geral do partido comunista russo durante o governo Lênin foi o produto fiel de um regime que se permitiu uma brutal concentração de poderes por fora e separado dos trabalhadores. As fábricas e os campo mudaram de dono mas não mudaram as relações de poder. Não era a classe trabalhadora que estava no poder, era o partido.

O autor de Dez dias que abalaram o mundo John Reed, que esteve na Rússia durante a revolução narrava que:

É inegável que os anarquistas tem promovido e feito a Revolução (...)

Agregando Luigi Fabbri:

Que o certo é que os anarquistas estiveram ao lado dos bolcheviques enquanto estes não se assentaram no poder, e que juntos lutaram e venceram o czarismo primeiro e a burguesia democrática depois(...).

Quando Petrogrado tinha a suas portas a reação armada em outubro e novembro de 1919, reconhece o bolchevique Victor Serge que os militantes da Federação Anarquista já estavam na primeira linha de combate defendendo a revolução. Durante a guerra civil não pode ser omitida a guerrilha macknovista que tanta peleia deu para repelir e vencer os generais czaristas na Ucrânia e na Criméia.



PSTU Do ponto de vista econômico, de uma forma geral os anarquistas defendem a pequena propriedade. É uma concepção pequeno-burguesa da economia mercantil e constitui de fato um passo atrás em relação ao capitalismo industrial.

Enquanto o marxismo revolucionário defende a propriedade coletiva dos meios de produção e de troca (nacionalização de fábricas, terras, transportes, etc), por intermédio de um Estado operário que organize toda a economia, os anarquistas defendem a passagem direta dos meios de produção para as mãos dos trabalhadores organizados em grupos (autogestão, associações, coletividades, comunas, etc). Estes, por sua vez, deverão estabelecer relações de troca entre si. Cada empresa, no lugar de um proprietário, possuirá cem ou milhares de proprietários, mas não pertencerá à classe trabalhadora como um todo. Dessa forma, sem o Estado a economia funcionará sem direção, tal como uma economia de mercado. O anarquismo resultará num capitalismo sem capitalistas.

- Nosso programa finalista é o da expropriação da classe capitalista e a propriedade coletiva pela gestão operária dos meios de produção, bem como a extensão das medidas socialistas também para o poder político. Isso não exclui em absoluto a construção de planos para a economia, uma política de produção para atender as necessidades mais urgentes e remediar desigualdades do processo, a centralização indispensável para viabilização de certas demandas de serviços. A diferença é que propomos isso com outro critério, com dinâmicas de participação real dos trabalhadores, uma articulação de autogestão, federalismo e planificação que não guarda nenhuma semelhança com o poder da tecnocracia e da burocracia de estado vistos em ?socialismo real?.

Gaston Leval concluía que:

É necessária uma certa centralização que preferimos denominar ?coordenação?(...). Sobretudo a planificação que supõe a prática da concepção necessidade-produção, a única que pode responder a uma economia verdadeiramente socialista, socializada e humanista.

A ruptura socialista não é a mudança da propriedade privada para a propriedade estatal, já está tarde para reconhecer que para a classe trabalhadora o que pertence ao Estado, ainda que identificado como a coisa pública, nunca pertenceu de fato ou nunca foi administrado de fato pelos interesses dos trabalhadores. O marxismo faz do estado o único patrão, que explora como capitalista e administra o produto social nas esferas do seu domínio político-burocrático. O socialismo que defendemos no programa é a gestão direta dos trabalhadores sobre os meios de produção, na federação dos seus organismos de trabalho e na planificação democrática da economia.

Nos avisa Bakunin já nas polêmicas da Primeira Internacional sobre este programa que faz o Estado proprietário de toda economia:

Esta revolução consistirá na expropriação quer progressiva, quer violenta, dos proprietários e dos capitalistas atuais, e na apropriação de todas as terras e de todo o capital pelo Estado, que, para poder desempenhar a sua grande missão econômica tão bem como a política, deverá ser necessariamente muito forte e muitíssimo concentrado. O Estado administrará e dirigirá a cultura da terra por meio dos seus engenheiros, escolhidos, e comandado um exército de trabalhadores rurais, organizados e disciplinados para esta cultura.

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- Raul Seixas - Ser Governado é...

http://br.youtube.com/watch?v=I1Elc7MiS 6U

 
O Anarquista Raul Seixas e a Rede Globo de Televisão
Toninho Buda

Quando Raul Seixas gravou Carimbador Maluco em 1983 e participou do especial infantil Plunct-Plact-Zummm na Tv Globo , muita gente caiu de pau em cima dele. Principalmente quando ele ganhou o seu segundo disco de ouro, com o sucesso da música. Afinal de contas , o grande anarquista , o inimigo do Monstro Sist tinha finalmente se vendido ao Sistema! Lá estava ele , dançando fantasiado entre as criancinhas na Rede Globo . Ora , realmente , ninguém poderia associar aquilo ao que ele faria, por exemplo, dois anos depois na gravação Mixto Quente ( com x mesmo ) , dia 22 de dezembro de 1985, na praia do Pepino, no Rio. No Mixto ele voltou a ser o Raul tradicional: entrou bêbado, esculhambou com todo mundo, cantou somente trechos inaproveitáveis de suas músicas mais censuradas (como Mamãe Eu não Queria) e impossibilitou sua participação no especial de Natal que a Globo havia preparado para aquele ano! ( Ninguém ficou sabendo porque Raul não apareceu , apesar da Globo ter anunciado o programa durante todo o mês de apareceram bonitinhos. Mas ele , não... Nós estávamos no palco, durante a gravação: Paulo Coelho, Sylvio Passos , Edgar Oliveira e eu).

No entanto , em 1983 acompanhamentos calados a polêmica do Carimbador Maluco. Calados e emocionados . Simplesmente porque havíamos sacado a grande jogada dele! Um fantástico recado prá criançada! Um recado anarquista , do maior dos anarquistas , o chamado Pai de todos nós : Proudhon - o mesmo que disputava com Karl Marx nos debates da I Internacional. Transcrevemos o texto de Proudhon, de onde Raul retirou a idéia da música. Observem o Ritmo do texto. Observem a Força da revolta de um ser oprimido, violentado e explorado. Observem uma das fontes de onde vem o sucesso e o segundo disco de ouro do Carimbador Maluco .
Ser governado é...

Ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, parqueado, endoutrinado, predicado, controlado, calculado, apreciado, censurado, comandado, por seres que não têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude (...). Ser governado é ser, a cada operação, a cada transação, a cada movimento, notado, registrado, recenseado, tarifado, selado, medido, cotado, avaliado, patenteado, licenciado, autorizado, rotulado, admoestado, impedido, reformado, reenviado, corrigido.

É, sob o pretexto da utilidade pública e em nome do interesse geral, ser submetido à contribuição, utilizado, resgatado, explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado; e depois, à menor resistência, à primeira palavra de queixa, reprimido, multado, vilipendiado, vexado, acossado, maltratado, espancado, desarmado, garroteado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, no máximo grau, jogado, ridicularizado, ultrajado, desonrado.

Eis o governo, eis sua justiça, eis a sua moral!

Proudhon
 
Fonte: Livro "Raul Seixas, Uma Antologia"

O BLOG DO CALAZANS

11:36 @ 21/01/2008

A Ilusão do Sufrágio Universal
Michael Bakunin

Os homens acreditavam que o estabelecimento do sufrágio universal garantia a liberdade dos povos. Mas infelizmente esta era uma grande ilusão e a compreensão da ilusão, em muitos lugares, levou à queda e à desmoralização do partido radical. Os radicais não queriam enganar o povo, pelo menos assim asseguram as obras liberais, mas neste caso eles próprios foram enganados. Eles estavam firmemente convencidos quando prometeram ao povo a liberdade através do sufrágio universal. Inspirados por essa convicção, eles puderam sublevar as massas e derrubar os governos aristocráticos estabelecidos. Hoje depois de aprender com a experiência, e com a política do poder, os radicais perderam a fé em si mesmos e em seus princípios derrotados e corruptos.

Mas tudo parecia tão natural e tão simples: uma vez que os poderes legislativo e executivo emanavam diretamente de uma eleição popular, não se tornariam a pura expressão da vontade popular e não produziriam a liberdade e o bem estar entre a população?

Toda decepção com o sistema representativo está na ilusão de que um governo e uma legislação surgidos de uma eleição popular deve e pode representar a verdadeira vontade do povo. Instintiva e inevitavelmente, o povo espera duas coisas: a maior prosperidade possível combinada com a maior liberdade de movimento e de ação. Isto significa a melhor organização dos interesses econômicos populares, e a completa ausência de qualquer organização política ou de poder, já que toda organização política se destina à negação da liberdade. Estes são os desejos básicos do povo.
Os instintos dos governantes, sejam legisladores ou executores das leis, são diametricamente opostos por estarem numa posição excepcional.

Por mais democráticos que sejam seus sentimentos e suas intenções, atingida uma certa elevação de posto, vêem a sociedade da mesma forma que um professor vê seus alunos, e entre o professor e os alunos não há igualdade. De um lado, há o sentimento de superioridade, inevitavelmente provocado pela posição de superioridade que decorre da superioridade do professor, exercite ele o poder legislativo ou executivo. Quem fala de poder político, fala de dominação. Quando existe dominação, uma grande parcela da sociedade é dominada e os que são dominados geralmente detestam os que dominam, enquanto estes não têm outra escolha, a não ser subjugar e oprimir aqueles que dominam.
Esta é a eterna história do saber, desde que o poder surgiu no mundo. Isto é, o que também explica como e porque os democratas mais radicais, os rebeldes mais violentos se tornam os conservadores mais cautelosos assim que obtêm o poder. Tais retratações são geralmente consideradas atos de traição, mas isto é um erro. A causa principal é apenas a mudança de posição e, portanto, de perspectiva.

Na suíça, assim como em outros lugares, a classe governante é completamente diferente e separada da massa dos governados. Aqui, apesar da constituição política ser igualitária, é a burguesia que governa, e é o povo, operários e camponeses, que obedecem suas leis. O povo não tem tempo livre ou educação necessária para se ocupar do governo. Já que a burguesia tem ambos, ela tem de ato, se não por direito, privilégio exclusivo. Portanto, na Suíça, como em outros países a igualdade política é apenas uma ficção pueril, uma mentira.
Separada como está do povo, por circunstâncias sociais e econômicas, como pode a burguesia expressar, nas leis e no governo, os sentimentos, as idéias, e a vontade do povo? É possível, e a experiência diária prova isto. Na legislação e no governo, a burguesia é dirigida principalmente por seus próprios interesses e preconceitos, sem levar em conta os interesses do povo.
É verdade que todos os nossos legisladores, assim como todos os membros dos governos cantonais são eleitos, direta ou indiretamente, pelo povo.

É verdade que, em dia de eleição, mesmo a burguesia mais orgulhosa, se tiver ambição política, deve curvar-se diante de sua Majestade, a Soberania Popular. Mas, terminada a eleição, o povo volta ao trabalho, e a burguesia, a seus lucrativos negócios e às intrigas políticas. Não se encontram e não se reconhecem mais. Como se pode esperar que o povo, oprimido pelo trabalho e ignorante da maioria dos problemas, supervisione as ações de seus representantes? Na realidade, o controle exercido pelos eleitores aos seus representantes eleitos é pura ficção, já que no sistema representativo, o controle popular é apenas uma garantia da liberdade do povo, é evidente que tal liberdade não é mais do que ficção.
 
VOTE NULO,
NÃO SUSTENTE PARASITAS!
SE ORGANIZE E LUTE!