"V é de liberdade", diz Lloyd, quadrinista de V de Vingança


Lloyd comenta protesto de centenas com máscara da personagem em Washington - Adriano Marangoni

SÃO PAULO - V é uma expressão da liberdade, explica David Lloyd, co-autor de um dos mais revolucionários personagens dos quadrinhos. V é o codinome do protagonista da revista V de Vingança.

O desenhista inglês, em São Paulo há duas semanas, deu uma breve entrevista na tarde deste sábado comentando os protestos realizados em Washington no mês de novembro. Lá, centenas de pessoas vestidas como o mascarado herói visitaram alguns dos principais marcos do governo, como o Departamento de Justiça e o Congresso americano.

Na série de protestos organizada pela Fundação Nós o Povo (http://www.givemeliberty.org/), os integrantes poderiam ter escolhido qualquer tipo de disfarce, mas preferiram usar o de V. "Sim, porque V representa uma compreensível afirmação de resistência. Algo ótimo na história de V é que ele prega a liberdade - os filmes especificamente - liberdade sem qualquer implicação de qualquer conotação especifica" - afirmou Lloyd.

Bob Schulz, um dos líderes da Fundação, explicou os objetivos da organização. "A Primeira Emenda da nossa Constituição federal garante o direito do povo de pedir uma reparação, especialmente no que for relacionado a questões constitucionais. Isso significa que se o povo tem evidências de que o governo tem violado a Constituição ele pode fazer uma petição de retratação ao governo e o governo deve respondê-la", afirmou Schulz em e-mail ao Estado de S. Paulo.

Segundo Schulz, tudo que a Fundação queria era que o governo respondesse questões específicas e de conhecimento público, como o uso de força militar fora do país sem uma declaração de guerra do Congresso e sobre a quebra de sigilo imposta à população através do Patriot Act, medidas antiterrorismo tomadas pelo governo de George W. Bush.

Para além de uma postura radical, à esquerda ou à direita, para Lloyd, a utilização da figura de V neste caso parece ser algo que segue o espírito de seu personagem. "Não é sobre libertar-se de uma ditadura e se tornar socialista ou um comunista ou um democrata ou qualquer outro matiz de opinião política. V fala sobre libertar-se. E o filme mostra isso mais do que qualquer outra forma de arte."

O filme aliás, é algo que o desenhista particularmente disse ter gostado. Não é uma transposição, mas uma versão de sua obra original. Ao contrário de David Lloyd, o escritor da HQ, Alan Moore, fez questão de tirar seu nome dos créditos do filme dirigido por James McTeigue e roteirizado pelos irmãos Wachowski

Para quem não viu o filme ou leu os quadrinhos, V de Vingança é uma das mais notáveis expressões artísticas aliada à uma clara opinião política. Contudo, no quesito ideologia, a HQ ganha terreno sobre a versão do cinema.

Numa das mais emocionantes passagens da história, V tem um diálogo com a silenciosa estátua da justiça, dama cega, foco do seu amor na juventude e confessa que a traiu. "Seu nome é anarquia. E ela me ensinou mais como amante do que você supõe. [...] Com ela, aprendi que não há sentido na justiça sem liberdade. É honesta. Não faz promessas e nem deixa de cumpri-las como você."

O que pode soar um tanto radical, especialmente quando são cidadãos americanos se inspirando nessas histórias. Mas não se pode esquecer que radicalismo "heróico" é parte da própria identidade americana. Foi de radicalismo que se fundou o país quando os patriotas americanos - radicais pró-independência - jogaram ao mar um carregamento de chá inglês no porto de Boston em 1773. O episódio, sacralizado na historiografia americana, foi um dos estopins da guerra de independência de 1776 a 1812.

O disfarce usado por esses patriotas, à época, era tão bizarro quanto dos sujeitos vestidos de V: pintados e adornados com penas indígenas procuraram esconder sua identidade para escapar das punições da metrópole inglesa.

Aparentemente, anonimato pareceu uma boa idéia para manifestar insatisfação com o governo. Notável é que este anonimato se dê sob a máscara de uma personagem da ficção. V, para seu público, virou um símbolo da busca de algo perdido.

Há de se haver heróis para o reencontrar. Se a arte pode tocar as pessoas para além do entretenimento, David Lloyd não podia estar mais satisfeito: "Que mais eu poderia pedir?", diz orgulhoso.

Centenas protestam em Washington usando a máscara de V.

Há muito cinza e verde em São Paulo ´, diz David Lloyd


Desenhista de V de Vingança está no Brasil desde sexta-feira

Adriano Marangoni

 

SÃO PAULO - "São Paulo é muito cinza e muito verde", afirmou neste sábado o desenhista inglês David Lloyd, em tarde de autógrafos na Fnac Pinheiros. No Brasil para pesquisar as imagens da cidade de São Paulo e dar continuidade à série de livros Cidades Ilustradas da editora Casa XXI, o co-autor da história em quadrinhos V de Vingança declarou suas primeiras impressões sobre a metrópole.

"Apesar de muitos paulistas não acharem, há muito verde em São Paulo. Tenho recebido muitas informações sobre a cidade, algumas boas, outras ruins. Mesmo assim, percebo enormes quantidades de otimismo" descreveu Lloyd sobre a cidade, pela qual passeou desde que chegou na sexta-feira, dia 18.

Lembrando seu trabalho na DC Comics, disse que jamais teve problemas parecidos com os de seu ex-parceiro Alan Moore, escritor original de V de Vingança. Moore é seguramente um dos maiores nomes na indústria de quadrinhos e conhecido por sua equivalente excentricidade. "Eu acho que Alan tentava fazer com que houvesse algo no contrato [de trabalho] que não havia antes, mas que ele achava que deveria estar" - disse Lloyd.

"Tudo que você tem que fazer em um trabalho tem que estar no contrato feito com a editora", declarou. Perguntado se iria mostrar as cores de São Paulo, Lloyd disse que dependia dos editores, uma vez que inicialmente a idéia inicial era a produção de um livro em branco e preto.

Um dos editores da Casa XXI, respondeu: "Sempre escolhemos a liberdade do autor. Temos uma aversão a qualquer tipo de censura". Assim, cores, tão visíveis aos olhos de um estranho à cidade, certamente aparecerão na obra. Seu lançamento está previsto para o segundo semestre de 2007.

O desenhista ficou mundialmente famoso com a obra de sóbrio teor anarquista V de Vingança, lançado em 1988. Antes disso, no início da década de 1980, desenhou personagens como Night Raven, Hulk e Dr. Who. Mais tarde, na década de 90 fez participações especiais desenhando a revista Hellblazer junto de Grant Morrison, escritor que tornou famoso o soturno personagem John Constantine.

David Lloyd ainda fará uma palestra nesta segunda-feira, 27, na Universidade Mackenzie, voltada para os alunos de Arquitetura e Urbanismo. Aberta também ao público, a palestra será a partir das 20h no auditório do prédio 9.

http://www.estadao.com.br/ext/especial/extraonline/infograficos/vinganca/index.htm

 

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