Enfoque sobre a CNT, FAI e JJLL por Diego Giménez Moreno
11:14 @ 25/02/2009
Velho militante do Movimento Anarkista Diego Giménez participou da Revolução Espanhola, tomando parte na Coluna de ferro, a Coluna Durruti, da CNT/AIT. Depois foi exilado e mantido nos Campos de Refugiados na França. Posteriomente invadida pelos nazistas a França não podia oferecer segurança aos exilados anarkistas que fugiram dos 'campos' e inicaram o que veio a ser conhecido como a "Resistência Francesa", que serviu de modelo a todos os grupos de resistência na Europa ocupada pelo fascismo. Foi preso pelos nazistas e mantido em Campo de Concentração, sendo llibertado no final da guerra, sendo testemhunha, na carne, dos horrores nazi-fascistas. Chegou ao Brasil no final da década de 50, rapidamente se unindo ao Movimento Libertário Brasileiro. Hoje com mais de 90 anos, mantém sua lucidêz e espírito de luta. @@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@ Enfoque sobre a CNT, FAI e JJLL por Diego Giménez Moreno 1)FAI e JJLL: Precedentes históricos (até junho de 1936). FAI – Federación Anarquista Ibérica – Foi constituída no ano de 1927, num encontro de um grupo de anarquistas espanhóis e portugueses em Valencia, Espanha, com a finalidade de reunir o Anarquismo Ibérico e era formada por grupos de afinidade. Na Espanha considerava-se que esse movimento também reforçava o Anarco-sindicalismo. JJLL – Federación Nacional de Juventudes Libertárias – Foram organizadas durante a 2
República Espanhola de 14 de abril de 1931, reforçando junto com a FAI e CNT, a luta contra o
sistema.
CNT – Conferación Nacional Del Trabajo – Tanto a FAI quanto a JJLL, militavam na CNT:
como trabalhadores eram filiados. Militavam nos sindicatos como trabalhadores ou como
produtores.
Os Ateneus Libertários que se formaram na época, eram os Centros de Cultura ativados na
sua maioria pelos jovens, que mantinham viva essa cultura. Havia vários Ateneus Libertários em
cada cidade. Dentro deles aconteciam palestras cotidianamente. Em alguns foram criadas Escolas
Racionalistas. Era um movimento amplo: tinha vida própria. Cotidianamente realizava-se Teatro
Amador.
Organizavam-se “Ciras” (Pic-nic). Às vezes juntavam-se grupos de uma e de outra cidade.
Como Barcelona estava cercado de montanhas, bosques e existiam mananciais de água pura,
sempre fazia-se parada num dos mananciais para saciar a sede. Os jovens na maioria não
fumavam e nem bebiam. A vida vegetariana tinha campo neste meio. Aproveitava-se o tempo.
Além da troca de idéias entre pequenos grupos, sempre se usava um livro que alguns tinham lido
e outros não e faziam-se comentários sobre o livro. Falava-se também sobre momentos que
estávamos vivendo: o problema social. Havia debates.
Nas Juventudes Libertárias não se descriminava a mulher. Havia uma grande parte de
mulheres que participavam.
Concluindo, os debates, o livro comentado, a discussão dos jornais que se publicavam na
época, a colaboração que todos davam para manter esses jornais, trazia como conseqüência que
sempre estávamos informados sobre os problemas políticos e sociais.
Participei de uma “Cira” no dia 10 de maio de 1932. Reuniram-se 5000 pessoas. Naquele
tempo eu já namorava e levei a namorada que só podia vir desde que acompanhada pelo irmão
menor. Formaram-se vários grupos. Era um bosque. Alguns preparavam a paella. Os que já
tinham inclinação pela alimentação naturista, formavam outro grupo e mais afastados um grupo
de nudistas.
Naquele dia tiramos uma fotografia com um amigo e companheiro de sempre, Fernando e o
seu cunhado. Essa foto foi destruída pela minha mulher quando estourou a ditadura de Franco,
com medo de represálias.
CNT, FAI e JJLL, as três juntas, cumprem a sua missão histórica.
Enfocando do ponto de vista social, eu só posso dizer que somente o Movimento Libertário
é capaz de resolver os problemas sociais.
Olhando a panorâmica política de qualquer parte do mundo de hoje, administrado por
políticos de diversos partidos e diversas formas de governo, nenhum resolve os problemas do
povo. Aqui no Brasil e na América do Sul, podemos ver que só há miséria e desemprego.
Sabemos que na Europa, 1
o mundo, também na Espanha por exemplo, a vida está um poucomelhor, não é como era antes mas também há desemprego. Só que o desemprego lá, assim com
na França, tem o salário desemprego por 24 meses, coisa que aqui estamos longe de conseguir
esse beneficio.
Com a moeda espanhola, peseta, nos anos 90, comprava-se US
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pesetas, hoje precisamos de 150,00 pesetas para comprar US
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não cobre as necessidades do individuo.
2)Como a FAI e JJLL observavam os acontecimentos históricos internacionais
(Revolução Russa, II Guerra Mundial etc)?
Quanto à Revolução Russa que começou em 1917, trouxe esperança para os trabalhadores
do mundo inteiro, na época. Tanto assim que a CNT passou a fazer parte da 3
a Internacional pormotivo de que o Comitê Superior haviam se infiltrados alguns comunistas. Nunca tiveram
organização sindical, então sempre procuravam um meio de fazer sua escalada.
A CNT em 1922, nomeou Angel Pestaña que pertencia ao ramo metalúrgico. Foi mandado
à Rússia com outros dois que pertenciam a outros partidos catalães. Naquela época era o
capitalismo que não deixava passar. Não queria que vissem o que acontecia lá. Não havia o
“Telou de Acero” mas havia os capitalistas que não deixavam ver o que acontecia lá dentro. O
único que pôde passar foi Angel Pestaña. Os outros dois não puderam passar. Ele conversou com
Lênin e ele fez uma exposição a Lênin sobre o que estava acontecendo.
Na volta, escreveu o livro “14 dias na Rússia”. Neste livro ele coloca uma das coisas como
exemplo: “Agora lá não tem mais trem com vagão de 1
a Classe ou vagão de 2a Classe, e simassento duro e assento macio. Não mudou nada”.
Posteriormente, sabe-se que Trotski, o Comissário do Exercito Vermelho, foi combater e a
acabar com a Revolução Nestor Makno que era uma Revolução Libertária em Ucrânia, capital
Kiev
1.A II Guerra Mundial, 1 de setembro de 1939. Nesses momentos estávamos exilados e
Franco dono da Espanha. Quando os nossos foram vencidos e muitos liquidados pelas forcas de
Franco, muitos de nós tivemos que imigrar para França.
O povo espanhol teve de seguir a pé, seja de qualquer ponto da Espanha, perto ou longe e
atravessar a fronteira.
Todos os sindicalistas Cenetistas, Faistas, todos foram para campos de Concentração de
imigrados na França. Nada mais podíamos fazer no nosso país.
Esses dias foram muito difíceis porque todos foram jogados. Não eram campos arrumados,
era apenas um espaço cercado por arame farpado e o exército francês com guardas senegaleses
para tomar conta. Neste conjunto de vencidos e derrotados, havia um bom contingente de
mulheres e crianças. Todos foram largados nesses campos com refugiados “Refugos”. Em praias
em Argelo e Bernet, ali passaram muitos dias sem água e sem alimentos. Pela manhã, apareciam
muitos mortos pelo frio e pela fome. As mulheres e as crianças forma separadas em campos
diferentes. A França não foi humanitária naqueles momentos, sabendo de antemão que tinha que
albergar toda aquele contingente de pessoas que estava fugindo de Franco.
Em Madrid, ainda estava o exército, mas como não havia mais como enfrentar as forças de
Franco foi nomeado um socialista quando os exércitos saíram para entregar a chave (simbólica)
de Madrid à Franco. Depois ele foi fuzilado. Todo o exercito que estava lá teve que abandonar
Madrid e foi concentrar-se em Alicante onde tem um porto de mar.
Em Alicante, antes que chegassem as forças de Franco, estavam esperando os navios
ingleses que levariam os mais graduados, os que tinham se comprometido mais com o
1
Para nós, esta revolução foi negativa, pois a Rússia acabou sendo um Estado forte, Ditador.movimento político, e no movimento sindical. Ficou a promessa. Os navios não vieram e o cerco
ia-se apertando.
Os navios não chegavam e os desespero crescia. José Ularia Prada estava nesse bolsão,
diretor do jornal CNT em Madrid.
Depois que alguns se suicidaram os demais foram todos presos e muitos condenados e
muitos fuzilados. Pôde se observar que todo movimento anarquista, Confederados, Faistas e
Cenetistas, estavam nesse meio ou refugiados nos Campos de Concentração franceses.
3)Metodologia e Construção de Programas Políticos.
Nós vamos à procura de construir a auto-gestão. Isto é uma afirmação plenamente
anarquista.
Conhecemos muitos sistemas políticos em nome da democracia, outros em nome da
globalização e os problemas sociais não se resolvem. Continua existindo o desemprego, a fome
dos povos, particularmente na América do Sul e África.
O anarquismo não tem metodologia política. A principio, enquanto não houver outra forma,
são os sindicatos que se incumbem da distribuição do trabalho, da distribuição dos alimentos, das
matérias primas para a Industria e Agricultura.
Organizar-se para saber o que se produz, o que se necessita e onde deve ser distribuído. Ter
relação constante com outras localidades, províncias e regiões para organizar esse sistema de
intercambio. Não dar nem ao produto e nem as matérias primas valor de mercado e sim valor da
sua utilidade.
4)Formação política: a)Dentro da Organização, b)No movimento de massas.
a)Dentro da organização.
Segundo a teoria de Aristóteles, “política é a arte de governar e fazer leis que conduzam e
assegurem o bom andamento do Estado e a tranqüilidade e o bem estar dos cidadãos.” Como já
sabemos secularmente e os anarquistas aprenderam com a própria história que não é bem assim.
Os povos secularmente recebem pouca retribuição pelo trabalho que fazem, passando muita
miséria. Em conseqüência disso, surge o pensamento anarquista. Ex: Leon Tolstoi, um
anarquista cristão, um dos que se recusou a pagar impostos e aconselhou aos outros para que não
pagassem impostos.
b)No movimento de massas.
Não existe uma formação política e sim uma educação para estabelecer o sistema de autogestão
como foi realizado na Espanha em 1936. Orientação para administração dos sindicatos.
Saber a finalidade e a força que eles tem. Edição de jornais e revistas que preparam os sindicatos
que vão enxergando um futuro melhor. Com essa preparação chegamos a 19 de julho de 1936 e
tivemos a oportunidade de autogestionar a agricultura e a industria. No curto tempo que durou
essa situação, ficou demonstrado que o próprio operário sabendo que trabalhava para ele e não
para o patrão, motivado, passou a produzir mais. Nesse período, tanto na indústria como na
agricultura, a produção aumentou 40%. Mesmo considerando que houve falhas de alguns
operários que não tinham percebido as vantagens de trabalhar para nós e não para o patrão.
Muitos patrões fugiram e deixaram a empresa abandonada. O que nos íamos fazer? Não
tivemos que pensar muito. Foi formado um conselho de administração em cada industria que se
encontrava nessa situação. Esse conselho podia ser formado por um elemento de cada seção,
aquele que conhecia o andamento da seção, sabia o que se produzia e a matéria prima que se
necessitava.
Na agricultura era indicado aquele que estava acostumado a semear para plantar o trigo, o
milho ou a beterraba, a azeitona, a batata etc...
Sempre há um grupo de carpinteiros, há os sapateiros e assim por diante.
Pode ser que estamos no tempo de colheita da azeitona ou da uva e participa do conselho
quem entende.
As cidades passaram a ser administradas pelo próprio povo. Foi destituída a Prefeitura de
suas autoridades, passou a ser município livre. Em assembléia geral de todo o povo, era nomeado
um secretário e mais 2, 3 ou 4 elementos a mais que ajudavam. Este número era de acordo com o
tamanho do município. Estes ajudantes acompanham os outros no canteiro de trabalho.
Esse secretário tem ligação com outras cidades do Estado e ele está informado do que se faz
nas outras cidades, o que se fabrica, o que se precisa e o que está sobrando.
Um dos pontos interessantes é que nesse sistema é que não há desemprego. Todos
trabalham. Em algumas localidades ainda circulava o dinheiro. O trabalhador, o pai de família,
recebe pelo número de membros que tem sua família, em espécie ou em dinheiro (onde ainda
circulava). Cada um tem uma carta ou carnê que justifica que está trabalhando. Assim evita que
aquele que não trabalha receba. O que não trabalhava, não recebe alimentos, nem roupas, nem
calcados etc...
Foi criada uma Cooperativa de produção e outra de distribuição.
Na sala de reuniões havia um quadro-negro onde se colocavam os nomes dos companheiros
trabalhadores, com as diversas tarefas que tinham que ser feitas.
5)Articulação: a)Política de alianças nos movimentos sociais de classe; b)entre
anarquistas; c) com socialistas; d)com marxistas.
A CNT sempre quis fazer alianças com a UGT mas somente foi conseguida uma vez, na
revolução de Astúrias, em 6 de outubro de 1934. Foi feita uma aliança e havia socialistas e alguns
comunistas. Depois disso, resultou a sigla UHP, Unión de Hermanos Proletários. Essa revolução
durou 15 dias até a chegada das tropas do governo.
Antes disso, havia o interesse em fazer um Congresso para unir todos. Aliança entre todas
as organizações operárias. Nunca chegou a ser realizado.
No dia 19 de julho de 1936, todo o povo saiu às ruas. Claro que a maioria era FAI, CNT e
JJLL, mas os demais independentes da ideologia políticos ou sociais, também se juntaram a nós.
Todos se reuniram nas ruas para defender o interesse do povo trabalhador. A aliança verdadeira
foi construída nesses dias.
Madrid era mais socialista do que anarquista, mas estavam todos juntos na luta. Também no
ataque ao “quartel de la montaña”.
O que unia era a própria necessidade. Se entrassem os franquistas, o prejuízo era para todos.
Não havia saída.
Em Cataluña, houve aliança quando o governador, presidente da República Catalana, Luis
Compagni chamou e consideramos que devia haver representantes de todos os partidos no
conselho que se formou e assim foi feito. Mais tarde eles foram traidores como mostra o 3 a 8 de
maio de 1937.
6)Propaganda (Teoria e Prática) a)Bandeira de luta; b)Ações de massa; c)Violência
revolucionária (“clandestina”).
A teoria é a Ácrata ou Libertária. É a procura da conquista das ferramentas de trabalho na
industria e no campo. Em síntese quer dizer: A propriedade comunitária dirigida e administrada
pelos próprios trabalhadores, por aqueles que sua a camisa.
Não temos bandeira de luta. Temos um símbolo que é a bandeira vermelha e preta porque
estamos em guerra social. Se não estivéssemos em guerra, não precisaríamos de bandeira. Para
que bandeira? Não somos nacionalistas. Não queremos formar uma nação e sim um mundo pelos
mesmos princípios e finalidades: produzir e viver.
Se há violência revolucionária é porque existe o capital. Se não houvesse o capital, não
haveria revolução. Não há parto sem dor. O parto da nova sociedade custa as suas dores.
A luta tem que ser clandestina. Se a lei nega o seu direito a viver, a expor-se, você tem que
se defender.
7)Organização: estrutura federativa (bases, núcleos e células).
Haviam os sindicatos por profissões. Em cada cidade haviam vários sindicatos, formando
uma federação local onde havia um delegado de cada sindicato.
Havia a federação local, depois da Comarca, depois da Província, depois da Região e depois
a Federação Nacional que unia esse conjunto.
8)Finanças/Tesouraria: como adquirir recursos: a)No períodos pré-revolucionário;
b)Durante a revolução; c)Pós-1939.
Os recursos provinham da cotização de cada filiado ao Sindicato. Havia um carnê que
continha uma folha com (12 meses) espaços para 12 meses onde eram colocados os selos
mediante a contribuição que era paga no sindicato. Também havia o selo do Comitê Nacional. A
contribuição, na época, era no total de um real. 0,25 pst. Sendo 0,10 a 015 pst a contribuição para
o (Comitê) sindicato local e o restante para a Federação Nacional. Tínhamos um carnê de afiliado
com o número.
Isto permaneceu antes e durante a revolução. Quando entrou Franco, acabou com todos os
sindicatos e partidos políticos que passaram para atividade clandestina até que puderam se
organizar de novo, mesmo que clandestinamente.
Eu voltei do exílio em 1942 e pouco a pouco os sindicatos foram se reorganizando. Eu 1947
voltei ao sindicato filiado como metalúrgico, não mais como gráfico, como representante da
Federação local. Não havia uma regularidade nem obrigatoriedade na cota, mas alguns
contribuíam voluntariamente.
9)Instancias (resolutiva, deliberativa, executiva, assembleísmo etc...).
Os sindicatos eram administrados por nós, sem interesse de ganho. Haviam reuniões
quinzenais ou mensais de sindicatos e militantes, para tratar de problemas locais: alguém que
tinha sido despedido ou alguma greve ou alguma circular que tinha vindo da federação nacional
em caráter consultivo etc...
Os assuntos eram debatidos para depois ser manifestada a conclusão. Isso mantinha os
militantes informados.
O comitê nacional coletava todos as informações e depois de analisado e colhida a opinião
de todos, tomavam as medidas que eram informadas através de circular para todos os sindicatos.
Durante a Revolução as reuniões eram feitas com o próprio povo para debater e achar a
solução. Assembléias locais e imediatamente sabia-se o que fazer, qual o trabalho, qual a atitude
ou determinação, levando-se em consideração que cada Bairro tinha as suas necessidades e fazia
as suas assembléias. Quer necessidade de moradia, falta de água ou qualquer outro problema
daquela comunidade. No conjunto de todas as assembléias de Bairros, Aldeias, Cidades,
províncias e regiões. Sabíamos o que tínhamos em mãos e o que precisávamos fazer. Se houvesse
necessidades da nomeação de alguém para determinada função. Essa eleição era feita
publicamente, na assembléia.
10)Ideologias (conceitos-guia e ferramentas de luta).
Conceitos de acordo com a idéia libertária pois a Revolução era libertária.
Em todo aquela zona que se chamava republicana partimos para a implantação do
Comunismo Libertário de forma como nós entendemos, com a socialização de todas as riquezas
que estavam em nossa mãos, indústria e agricultura. Passamos a por em prática o que hoje se
chama auto-gestão. Depois do dia 26 de julho, voltamos ao trabalho todos os que não éramos
mais necessários na rua. Permaneceram na rua com fuzil pendurado ao ombro, para manter o
controle da situação, apenas um número necessário. Assumimos o controle de indústrias e
também na agricultura mediante Conselhos de Administração. Esses Conselhos eram formados
em Assembléia Geral na indústria ou na agricultura em cada município, sempre por
companheiros que tinham capacidade. Na indústria, por exemplo, os trabalhadores sabiam a
matéria prima que se necessitava e conheciam o produto que se fabricava. Na agricultura
também.
11)Coletivizações (no desenvolvimento próprio das contradições): a)Formas de
organização; b)Limitações encontradas.
Coletivização que hoje chamamos de auto-gestão, ou socialização,é a mesma coisa.
A coletivização representa que os povos coletivamente organizam um novo mundo, uma
nova sociedade.
A socialização representa que os povos tomam conta ou fazem-se donos das ferramentas
industriais e do campo. Por isso existe a foice e o martelo como símbolo. Assim chegamos ao
ponto em que tudo o que se produz, não importa o que, tudo o que é necessário para-a
sobrevivência fica para o produtor para o próprio povo em conjunto. Um exemplo é o que a
natureza dá para nós. Também as formigas todas trabalham sem olhar se uma faz mais ou menos
viagens. Mas todas se esforçam para levar alguma coisa para o celeiro. Dessa maneira- ela podem
conseguir preencher todas as necessidades tal como a natureza da vida está exigindo. Isto é um
exemplo de que os trabalhadores produzimos toda a riqueza do mundo, ou o que a natureza dá
para nós sem cobrar nada e o homem deveria aprender com isso. E ainda, insistindo neste
propósito de sobrevivência, vamos fazer uso de um mandamento: Ganharás o pão com o suor do
teu rosto. Esse mandamento está escrito para o mundo todo, todo sobrevivente, não só aquele que
trabalha mas para aquele que não faz nada.
12)Imaginário social (como o povo recebia a FAI e a JJLL).
Os três setores que formavam o Anarco-sindicalismo: CNT-FAI e JJLL.
CNT-formada em 1910, em outubro ou novembro. Com mais de meio século de atuação e
propaganda. Há muitos jornais e muitas revistas, muitos mesmo e bons.
Até julho de 1936, no meio operário, já haviam muitos simpatizantes, já tinha 2.000.000 de
filiados numa população que era de 25.000.000 de habitantes e a força de trabalho era de
14.000.000. Temos que contar que dentro dos meios operários havia uma Central Sindical
chamada UGT, sindicalismo dos socialistas e que tinha 1.500.000 de filiados. FAI- Federación
Anarquista Ibérica e JJLL- Juventudes Libertárias formada durante a 2
a República espanhola.Todos do movimento libertário, pois todos eram filiados à CNT que era libertária.
13)Um corpo com três cabeças (Durruti, Ascaso e Garcia Oliver).
Não eram três cabeças isoladas. Elas formavam parte do conjunto do movimento libertário
espanhol. Haviam outras cabeças que não chegavam à altura deles mas também faziam o seu
trabalho. Era um tecido social eficiente. Se o conjunto libertário não fosse acompanhado pelo
povo na sua totalidade, as três cabeças não significariam nada.
Cada um cumpre a missão conforme a capacidade que ele tem. Que teria Durruti se não
houvessem as milícias? Que teriam feito as milícias sem os que estavam nas indústrias fabricando
roupas, calcados e armas? Tudo isso não é motivo eu não pretendo tirar o seu valor.
Durruti não era um intelectual era um lutador. Quando falava na tribuna o povo
acompanhava. Todos o admiravam. Não usava de retórica, era prático. Ascaso também era
admirado.
Tem uma passagem dessa historia em que Durruti, Ascaso e mais 100 homens, foram
levados para África Equatorial (protetorado espanhol).
Eram 100 homens mineiros que se levantaram contra a Republica. Foram levados para lá
Durruti e Ascaso, como castigo pois eles não eram mineiros mas eles defendiam as
reivindicações dos mineiros. O navio estava no Porto de Barcelona e o nome dele era “Buenos
Aires”. Essa condenação provocou uma onde de greves na Espanha toda. Em Sabadell, Ulauresa
(cidades industriais), em Valencia etc... Essas greves foram feitas pelo povo em geral em sinal de
protesto. Não sei se foi nessa ocasião que Garcia Oliver foi preso numa cadeia em Barcelona e os
castigos que recebeu foi tão cruéis que chegou a urinar sangue. Os sindicatos de Barcelona
fizeram protesto.
14)O papel da FAI e da JJLL: a)formas de aproximação e incorporação de militantes;
b)o anarquismo como elemento social e de classe.
a)Todo o trabalhador da industria, da agricultura ou intelectual, explorado, vinha e se filiava
ao sindicato para defender em conjunto o seu interesse: formar uma força maior.
Os livros ou revistas que escreviam os intelectuais serviam para abrir os olhos.
O interesse pela causa faz com que não fosse um simples cotizante, mas forma-se parte do
processo de escola de militantes. Ia aprendendo e cada vez mais ia despertando o interesse,
podendo participar da Junta de Administração do sindicato.
b)O anarquismo é uma filosofia de vida que está no meio operário e mediante o discurso e
propaganda em todos os sentidos vai ganhando prosélitos.
O anarquista sozinho não faria nada. Ele precisa do povo.
O anarquismo procura o explorado para abrir-lhe os olhos e mostra uma tábua de salvação.
Procura os que têm fome, ou não tem casa ou não tem terra para trabalhar.
15)Diante do inimigo de classe.
O inimigo de classe é o patrão. Se o patrão te explora, dá pouco salário para você alimentar
a sua família, põem você na rua quando ele quer, então que fazemos? Apresenta-se a
oportunidade de unir todos os trabalhadores, formar uma força única e lutar juntos contra essa
exploração. Até agora, nunca vimos e nem existiu outra saída.
16)O povo em armas.
Chegou a hora em que o povo estava sendo atacado então teve que se defender. Houve um
levantamento militar contra a República. O povo teve que se defender quase sem armas, que os
poucos foi conquistando. Uma vez de posse das armas, foram direto implantar a sua ideologia:
socializar as riquezas. Era uma promessa feita no dia 24 de abril de 1931 por aqueles que
consideravam que não tinham ajudado a implantar República, mas se um dia a República
estivesse ameaçada, eles defenderiam.
17)A Coluna Durruti.
a)ano de formação:
formou-se em 1936, poucos dias depois de ter terminado a luta na rua, formaram-se as
milícias; no mesmo mês de julho. Apareceram muitos voluntários mas nem todos puderam sair
porque não haviam armas para todos. Eram no começo 6.000 e depois foram agregando mais.
Mais adiante, formou-se uma divisão com três brigadas, a 19, 20 e 21.
b)características políticas:
era exclusivamente social, revolucionária. Eram milícias formadas por voluntários para
atacar o inimigo, conquistar as terras que estavam nas mãos dos franquistas. Porque o exército
tinha muitos inimigos e não foi considerado, foi desfeito. Essas milícias com Durruti foram de
encontro com o inimigo em Aragon. Saíram de Barcelona depois de um desfile de despedida.
Foram de trem ou caminhão.
c)formas de organização:
a coluna estava formada em centúrias e em cada dez indivíduos havia uma espécie de cabo.
Saiu com Durruti um militar de confiança. Foram abrindo caminho e no percurso outros foram se
agregando e também seguiam com eles ambulâncias, viveres e armamento.
Os responsáveis pelos pequenos grupos de milícias, reuniam-se para ver a melhor maneira
de atacar o inimigo, distribuindo o pessoal nos pontos estratégicos. Cada grupo tinha uma missão
determinada sempre num conjunto de esforços.
d)onde atuava:
Na região de Aragon, chegando quase as portas de Saragoza..
e)Ano de ingresso na Coluna (Diego Gimenez Moreno):
Em setembro de 1937.
f)discussões sobre ações políticas de massa:
Não havia. Havia discussão de tática, de objetivo e de avançar, de ir em frente e derrotar o
inimigo. E reivindicar as armas que precisávamos. Cada vez eram necessárias armas mais
eficientes, coisa que não recebíamos. O governo não se interessava. Éramos apenas o povo.
g)violência revolucionária:
Não se faz revolução sem violência. As guerras são violentas. Enquanto fabricarem armas,
haverá violência. Fabricam-se armas para armar exércitos que depois temos que combater.
Se foi morto algum capitalista, algum patrão que tinha se portado mal com os trabalhadores,
pagando mal, perseguindo e as vezes mandando fuzilar, por outro lado, os republicanos eram
perseguidos e apenas por ter um carnê do sindicato, ele fuzilavam.
As revoluções Russa e Francesa também foram violentas.
O desemprego, não ter moradia, a criança que passa fome também é violência.
Para que se fabrica fuzil?
Não haverá violência quando se permite uma vida com dignidade.
h)Disciplina:
Não existia na forma convencional, vinda de um superior. A única disciplina que havia é
que estivesse combatendo para uma vida melhor. Não havia ninguém que a impusesse. Era a
própria necessidade e a determinação pela qual você estava lá. Quando tinha uma tarefa a
executar, você não podia abandonar ou desistir. Pois para isso você tinha se incorporado as
milícias.
i)Formação política dos (militares) militantes:
Não havia formação política. Haviam escola ou ensino informal. Quem sabia mais ensinava
aos outros.
j)Construção do conhecimento na prática:
Conforme você vai conquistando terreno, você vai fortalecendo a capacidade de executar.
18)Como aplicar os conceitos da Revolução Espanhola nos dias de hoje? O que deve
ser revisto?
A Revolução Espanhola ainda se considera valida. Todas as Revoluções que aconteceram
tiveram as suas falhas. O homem não é um ser supremo que consiga executar a obra ao pé-daletra,
ao que concerne ao seu pensamento ou seu sentimento.
A Revolução Espanhola foi uma conquista do povo espanhol em procura de uma sociedade
igualitária. Se alguns dos que participaram, as cabeças mais brilhantes falharam, o povo sedento
de liberdade e justiça, realizou aquela obra que fica permanente para todos os outros que possam
acompanhar e fazer melhor. Ainda se alguém falhou na sua missão na qual estava comprometido,
no conjunto, depois de tanto tempo que já passou, eu não me sinto com direito de julgar. Os que
venham atrás que recolham esse exemplo do povo espanhol e se há falhas que procurem corrigilas.
A situação do povo hoje mostra que está incapacitado. Não podemos comparar com o povo
espanhol naquela época. O povo não está preparado. A maioria não sabe o que é uma revolução
social. Nem tem interesse de se preparar, ficando descartada a possibilidade do caráter de
revolução.
A tarefa dos libertários que são poucos e naquela circunstância eram numerosos, é falar
boca-a-boca no Bairro, nas reuniões para que o povo aprenda a saber o sentido daquela
revolução.
Temos que nos desprender dos costumes de hoje que não são sadio. Não estamos
defendendo os nossos interesses e sim o do capital. Temos que fazer como a cobra que se livra da
pele velha para ter uma nova.
19)Há mais considerações que você gostaria de apresentar?
Durruti falou que levamos um novo mundo em nossos corações. Para conquistar esse novo
mundo não é problema de retórica. Todos aqueles que pretendem acompanhar o pensamento de
Durruti e também anseiam por um mundo melhor, não podem perder horas num bar, fumando ou
tomando cerveja. Nesse caso estamos consumindo em favor do capitalismo. Não devemos ter
muitos sapatos ou roupas etc ... em casa. Consumir apenas o necessário.
Com todos aqueles que nos acompanham nas horas do dia ou da noite, falar com o amigo
ou companheiro sobre essa idéia tão maravilhosa: “com o esforço de todos, acabaremos com a
exploração capitalista”.
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