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Texto "Sociedade liberal ou moralista hipócrita?", revisado em 07 / 11 / 07.

Um caso de sexo... e polícia

Confusão armada

Mulher e quatro homens são detidos por suposta orgia em D-20

Quatro homens e uma mulher de 23 anos foram detidos na manhã de ontem por um policial militar do 18º Batalhão de Contagem, na Grande BH, sob suspeita de promover orgia sexual no interior de uma caminhonete D-20, numa rua sem saída no Bairro Chácaras Califórnia.

Por volta das 7h20, em ronda de rotina, o cabo José Carlos Pitangui teve sua atenção despertada para um veículo, de cor preta e com vidros fumê, placa CAI-0204, por estar com o porta-malas aberto. Ao se aproximar, segundo a ocorrência policial, encontrou um homem do lado de fora do carro, com as calças arriadas até os joelhos, e outros três, dentro do veículo, com uma mulher.

Todos os envolvidos foram encaminhados à 6º Seccional de Contagem e poderão repsonder pelo artigo 233 do Código Penal: atentado violento ao pudor. Na delegacia, os quatro, que trabalham em um circo montado em Contagem, alegaram que foram surpreendidos pelo PM, de arma em punho, e, ao questionarem o motivo da abordagem, foram alertados para não se mexerem. Em seguida, o cabo requisitou reforço policial.

Inicialmente, o delegado de plantão, Aci Alves dos Santos, entendeu que a ocorrência não havia caracterizado ato obsceno, pois teria sido praticado dentro de um veículo com os vidros escuros, em uma rua sem saída e deserta.

CONFUSÃO armada: Mulher e quatro homens são detidos por suposta orgia em D-20. Aqui, Belo Horizonte, 28 de outubro de 2007, pág. 3.

Orgia na caminhonete

O que era para ser uma diversão entre um grupo de quatro homens e uma mulher acabou se tornando caso de polícia, na manhã de ontem, em Contagem, na região metropolitana da capital. Os cinco foram detidos acusados de praticar ato obsceno em plena via pública. A orgia foi descoberta pelo cabo José Carlos Pitangui, do 18º Batalhão da PM, durante um patrulhamento de rotina pelas ruas do bairro Chácaras Califórnia, que fica bem próximo do centro de Contagem.

O policial conta que ao avistar uma caminhonete modelo D-20 achou estranha a atitude de um homem que estava quase sem roupa, do lado de fora do veículo. Ao se aproximar, ele viu que dentro da caminhonete outros três homens e uma mulher praticavam sexo explícito. "Eu estava patrulhando o bairro quando vi a picape de porta aberta e um dos rapazes do lado de fora, seminu. Quando me aproximei vi aquela cena ridícula", comentou o policial.

De acordo com o cabo Pitangui, os quatro rapazes disseram que trabalham em um circo instalado na cidade - um deles se apresenta no "Globo da Morte" - e a mulher os teria conhecido ao assistir aos espetáculos da trupe. "Eles alegaram que estavam apenas se divertindo e um dos rapazes disse que a mulher não era garota de programa e faz isso porque gosta mesmo".

Os cinco detidos, segundo o policial, são maiores de idade e vão responder processo pela prática de ato obsceno em via pública. Pelo Código Penal, ato é considerado crime de menor potencial ofensivo e por isso os suspeitos devem ser condenados a pagamento de pena alternativa.

ORGIA na caminhonete. Super Notícia, Belo Horizonte, 28 de outubro de 2007, pág. 3.

Um país imerso na lascívia: onde fica?

O mais preocupante é perceber que a TV dos Marinhos procede como se nada tivesse a ver com a grave incidência de gravidez na adolescência, num país onde boa parte das jovens até 17 anos de idade são mães de até três ou quatro filhos. (ACCIOLY, Márcio. Banalização de Horrores. Alerta Total. Disponível em <http://alertatotal.blogspot.com/2006/07/banalizao-de-horrores.html>. Acesso em 03 de novembro de 2007. O autor se refere à novela "Páginas da Vida")

Três ou quatro filhos de sexo no primeiro encontro ou de namorado e ex-namorados?

"A nova novela das oito nada fica a dever a filmes pornográficos." (idem)

Sem comentários!

As emissoras de televisão acreditam passar informações aos adolescentes quando, na verdade, apenas mostram o sexo como um ato sem resultado algum e que, portanto, não deve ser pensado com responsabilidade. (HAAG, Andreza e OLIVEIRA, Samantha A. R. Gravidez na adolescência. Disponível em <http://slidespowerpoint.googlepages.com/Gravidez.ppt>. Acesso em 07 de novembro de 2007)

Você pode se lembrar de uma novela em que uma jovem namora sem engravidar?

"Um exemplo desta banalização do sexo e até mesmo da gravidez na adolescência está nos programas exibidos aos domingos, onde apresentadoras expõem sua gravidez como algo público e incentivam adolescentes a engravidar, passando um sentimento de naturalidade excessiva." (idem)

Saudades do tempo em que os pais escondiam a gravidez dos próprios filhos? Quem quiser achar um incentivo pra uma adolescente engravidar, pode ler a Bíblia. Para dar apenas dois exemplos:

"Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão." (Sl 127. 3)

"Dá-lhes, ó Senhor; mas que lhes darás? Dá-lhes uma madre que aborte e seios secos." (Os 9. 14)

Para citar um de um sem número de estudos bíblicos e sermões sobre sexo (ou contra ele), reproduzo este texto da Revista Refrigério:

O poder de satanás no sexo

Satanás usa todos os processos do "inferno" para incentivar o sexo. E é por isso que vemos o sensualismo no traje das mulheres, muitas vezes indecorosos e que excitam os homens; vemos o sensualismo nas revistas, jornais e cartazes; o sensualismo no falar; sensualismo no pensar, sensualismo em tudo!

O que Satanás, porém, esconde, são os resultados desse caminho de rebelião, de libidinosidade, de adultério, que é terminantemente condenado por Deus em toda a sua palavra!

Satanás engana com sua peçonha infernal, e por isso se multiplica o número de suas vítimas cada dia. Os jornais notificam suicídios, os assassinatos consequentes da impureza!

Os manicómios estão repletos dessas vitimas, milhares estão com o seu sistema nervoso abaladíssimo como fruto do pecado sexual; o meretrício se torna cada dia mais infernal com o contigente que recebe de uma sociedade adúltera e perversa; casais separados, divorciados, vidas infelizes e infelicitando a outros, filhos atirados em orfanatos, internatos, sem o carinho dos pais, sem o respeito dos pais, crescendo revoltados e cheios de complexos, perdidos quase sempre para uma vida útil e boa. E tudo isso porquê?

Por causa da caverna da impureza!

A Bíblia condena em todas as sua páginas, o pecado da impureza. O Senhor Jesus (Mateus 12:39) verberou: "Uma geração má e adultera e pecadora..."pede um sinal" e repetiu isso em Mat.16:4. Em Marcos 8.38 o divino Mestre exprobrou: "Porque se alguém nesta geração adúltera e pecadora..."; o verbo "adulterar" se acha muitas vezes nos Evangelhos (Mat.54:27, 28:19:18e Marcos 10:19); de igual modo o verbo "adulterar" se acha muitas vezes (Mat.5:32;12:30 e Marcos 8:38)e também em João 8:3,4).

Jesus condenou o "adultério" mão só no acto consumado, mas no "olhar" cobiçoso; nessas condições, o adultério já se consumou no coração.

O que a sociedade corrupta tolera em imundícies, meretrício (Alegando até necessidades), amancebais (com desculpas e razões), divórcios, que muitas vezes não passam de meretrícia legalizado, a Bíblia condena veementemente.

Vejamos : (I Cor. 6:9,10) "Acaso não sabeis que os injustos, não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis; nem fornicários, nem idólatras , nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbedos, nem maldizentes, nem ladrões herdarão o reino de Deus".

Em Apocalipse 21:8 Deus declara: "Mas quanto aos medrosos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicários, e aos feiticeiros, e aos idólatras... sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre, que é a segunda morte" (Apoc.21:28).

Qual é a sua escolha ?

SANTIAGO, Horácio. O poder de satanás no sexo. Refrigério, Aveiro (Portugal), nº 88, maio-junho de 2002. Disponível em <http://www.refrigerio.net/images/stories/pdf/refrigerio88.pdf>. Acesso em 06 de novembro de 2007.

O Código Penal brasileiro: lei de um país liberal?

Art. 215. Ter conjunção carnal com mulher honesta, mediante fraude:

Pena - reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos.

Parágrafo único. Se o crime é praticado contra mulher virgem, menor de 18 (dezoito) e maior de 14 (catorze) anos:

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos.

Art. 216. Induzir mulher honesta, mediante fraude, a praticar ou permitir que com ela se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal:

Pena - reclusão de 1 (um) a 2 (dois) anos.

Parágrafo único. Se a ofendida é menor de 18 (dezoito) e maior de 14 (catorze) anos:

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos.

Art. 217. Seduzir mulher virgem, menor de 18 (dezoito) anos e maior de 14 (catorze), e ter com ela conjunção carnal, aproveitando-se de sua inexperiência ou justificável confiança:

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos.

Art. 218. Corromper ou facilitar a corrupção de pessoa maior de 14 (catorze) e menor de 18 (dezoito) anos, com ela praticando ato de libidinagem, ou induzindo-a a praticá-lo ou presenciá-lo:

Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos.

Art. 227. Induzir alguém a satisfazer a lascívia de outrem:

Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos.

§ 1º Se a vítima é maior de 14 (catorze) e menor de 18 (dezoito) anos, ou se o agente é seu ascendente, descendente, marido, irmão, tutor ou curador ou pessoa a que esteja confiada para fins de educação, de tratamento ou de guarda:

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.

§ 2º Se o crime é cometido com emprego de violência, grave ameaça ou fraude:

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, além da pena correspondente à violência.

§ 3º Se o crime é cometido com o fim de lucro, aplica-se também multa:

Art. 229. Manter, por conta própria ou de terceiro, casa de prostituição ou lugar destinado a encontros para fim libidinoso, haja, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente:

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.

Art. 231. Promover ou facilitar a entrada, no território nacional, de mulher que nele venha a exercer a prostituição, ou a saída de mulher que vá exercê-la no estrangeiro:

Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa.

§ 1º Se ocorre qualquer das hipóteses do § 1º do art. 227:

Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos.

Uma observação: o favorecimento da prostituição e o tirar proveito da prostituição alheia são tratados em outros artigos (228 e 230, respectivamente).

Art. 233. Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público:

Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.

Art. 234. Fazer, importar, exportar, adquirir ou ter sob sua guarda, para fim de comércio, de distribuição ou de exposição pública, escrito, desenho, pintura, estampa ou qualquer objeto obsceno:

Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, ou multa.

Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem:

I - vende, distribui ou expõe à venda ou ao público qualquer dos objetos referidos neste artigo;

II - realiza, em lugar público ou acessível ao público, representação teatral, ou exibição cinematográfica de caráter obsceno, ou qualquer outro espetáculo, que tenha o mesmo caráter;

III - realiza, em lugar público ou acessível ao público, ou pelo rádio, audição ou recitação de caráter obsceno

Obs.: a lei é de 1940, anterior à primeira transmissão de televisão (1948) e à expansão do videocassete no Brasil (década de 1980). Apenas por isso ela não fala em filmes e programas de televisão.

Art. 240. Cometer adultério:

Pena - detenção, de 15 (quinze) dias a 6 (seis) meses.

§ 1º Incorre na mesma pena o có-reu.

§ 2º A ação penal somente pode ser intentada pelo cônjuge ofendido, e dentro de 1 (um) mês após o conhecimento do fato.

§ 3º A ação penal não pode ser intentada:

I - pelo cônjuge desquitado;

II - pelo cônjuge que consentiu no adultério ou o perdoou, expressa ou tacitamente.

§ 4º O juiz pode deixar de aplicar a pena:

I - se havia cessado a vida em comum dos cônjuges;

II - se o querelante havia praticado qualquer dos atos previstos no art. 317 do Código Civil.

Nota: o artigo 317, revogado pela Lei n.° 6.515, de 1977, é o seguinte:

"A ação de desquite só se pode fundar em algum dos seguintes motivos:

"I. Adultério.

"II. Tentativa de morte.

"III. Sevicia, ou injuria grave.

"IV. Abandono voluntário do lar conjugal, durante dois anos contínuos."

O Código Penal, Decreto-lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940, texto original e alterações, pode ser lido em http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/Decreto-Lei/Del2848.htm.

O antigo Código Civil brasileiro: lei de um país liberal?

Art. 218. É também anulável o casamento, se houver por parte de um dos nubentes, ao consentir, erro essencial quanto à pessoa do outro.

Art. 219. Considera-se erro essencial sobre a pessoa do outro cônjuge:

(...) IV - o defloramento da mulher, ignorado pelo marido.

Nota: Código Penal:

Art. 236. Contrair casamento, induzindo em erro essencial o outro contraente, ou ocultando-lhe impedimento que não seja casamento anterior:

Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos.

Parágrafo único. A ação penal depende de queixa do contraente enganado e não pode ser intentada senão depois de transitar em julgado a sentença que, por motivo de erro ou impedimento, anule o casamento.

Art. 231. São deveres de ambos os cônjuges:

I - fidelidade recíproca (...)

Nota: no atual Código Civil (lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002), este é o item I do artigo 1566.

Art. 233. O marido é o chefe da sociedade conjugal, função que exerce com a colaboração da mulher, no interesse comum do casal e dos filhos (...)

Art. 240. A mulher, com o casamento, assume a condição de companheira, consorte e colaboradora do marido nos encargos de família, cumprindo-lhe velar pela direção material e moral desta.

Isso lembra alguma coisa?

O Código Civil, Lei nº 3.071, de 1º de janeiro de 1916, texto original e alterações, pode ser lido em http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/leis/L3071.htm. O atual, Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002, pode ser lido em http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/leis/2002/L10406.htm.

Conclusão

Foi a Lei nº 11.106, de 28 de março de 2005 (disponível em http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/_Ato2004-2006/2005/Lei/L11106.htm) que mudou o termo "mulher honesta" para "mulher" nos artigos 215 e 216 do Código Penal, também mudou o termo "marido" para "cônjuge ou companheiro" no § 1º do artigo 227, revogou os artigos 217 e 240, e deu a seguinte redação para o artigo 231:

Art. 231. Promover, intermediar ou facilitar a entrada, no território nacional, de pessoa que venha exercer a prostituição ou a saída de pessoa para exercê-la no estrangeiro:

Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa.

§ 1º - Se ocorre qualquer das hipóteses do § 1º do art. 227: Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos, e multa.

§ 2º Se há emprego de violência, grave ameaça ou fraude, a pena é de reclusão, de 5 (cinco) a 12 (doze) anos, e multa, além da pena correspondente à violência.

Art. 231-A. Promover, intermediar ou facilitar, no território nacional, o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento da pessoa que venha exercer a prostituição:

Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa.

Parágrafo único. Aplica-se ao crime de que trata este artigo o disposto nos §§ 1º e 2º do art. 231 deste Decreto-Lei.

A população brasileira é 73,60% católica e 15,41% de outros ramos do Cristianismo. Estarão os outros 11%, suponhamos de ateus libertinos, sustentando sozinhos os programas escandalosos, a indústria pornográfica? Estariam eles lutando por um país submerso na luxúria?

Seriam as filhas deles as adolescentes grávidas? Quanto à gravidez na adolescência, indico o texto "Mães adolescentes", do blog A Vez das Mulheres. Para não reproduzir o texto na íntegra, vou dar uma "palhinha":

"A menina que engravidou com 15 anos é a mesma que não pode ver nada de sexo antes dos 18. E aí, a culpa é dela que não se reprimiu suficiente ou da sociedade que tem nojo de falar de sexo?"

Meus caros cristãos zelosos, minhas caras mulheres recatadas, se não sabiam dessas leis que mencionei, me respondam: um país onde em 2001 alguém poderia pegar até 6 meses de detenção por adultério; até 2 anos de detenção por perder a virgindade antes do casamento e não contar o marido, a mesma pena que para o incêndio culposo (art. 250 § 2º CP); até 4 anos de reclusão por seduzir uma adolescente virgem, a mesma pena que para maus tratos com lesão corporal grave (art. 136 § 1º CP); pode ser considerado liberal?

Tal como o mundo cristão da Idade Moderna, mesmo com uma Igreja mais poderosa que os próprios estados, estava tomado de bruxas e adoradores do Diabo, o mundo cristão de hoje está tomado de ameaças aos valores do Evangelho. Então, as ovelhas são chamadas à guerra contra si próprias (a sua "natureza humana"), contra seus irmãos vacilantes e contra o exterior do seu grupo religioso.

Walter Nunes Braz Júnior / O Reino de Deus - oreinodedeus@grupos.com.br

O relato macabro foi descrito por moradores do Jacarezinho, favela localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde a reportagem do AND esteve no dia 18 de agosto.

Marcelo Salles

Há alguns meses, policiais teriam matado uma pessoa e a colocado num carrinho de mão, usado para passear com o corpo pela favela durante toda a manhã.

Desde o final dos Jogos Pan-Americanos, período que proporcionou uma certa tranquilidade na cidade, dezenas de pessoas já foram assassinadas e feridas durante operações policiais. Em Deodoro, a polícia assassinou seis pessoas no dia 24 de agosto. No Jacarezinho, três pessoas tiveram igual destino no dia 15 do mesmo mês: Lincoln da Silva Rezende (18 anos), Fábio Souza Lima (19 anos) e Elisângela Ramos da Silva (28 anos). A mesma operação deixou ferido o filho de Elisângela, Tiago, de apenas 4 anos. No final de julho, outra operação policial em Vigário Geral assassinou seis pessoas. Situação idêntica ocorreu na Vila Aliança, Coréia, Estácio, Borel, Macacos, Cutia e Maré. A cena se repete por toda a cidade e, revelam os moradores, ao contrário do que divulga o monopólio da imprensa, geralmente não há troca de tiros.

A ação da polícia no Jacarezinho dificilmente será esquecida pelo povo dali.

Versão dos moradores

Ivan Ramos da Silva, irmão de Elisângela, contou que ela foi alvejada enquanto levava seu filho para a casa da mãe. Como havia uma obra sendo realizada no trajeto habitual, ela desviou pela beira do rio, local onde os bandidos costumam ficar. Quando os policiais começaram a atirar, ela procurou abrigo numa padaria. No instante em que ela passava em frente à padaria, os policiais despontaram num beco e atiraram. Um dos tiros de fuzil atingiu a cabeça de Elisângela. Esse mesmo projétil, amortecido pelo impacto na mãe, atingiu a cabeça do pequeno Tiago, que ainda encontrou forças para gritar repetidas vezes:

— Levanta, mamãe. Levanta, mamãe. — afirmou Ivan, que é técnico de som e tem 31 anos de idade:

— Quando ela caiu, os moradores queriam ajudar. E ela estava pedindo ajuda, ainda estava viva. Estava viva! Os policiais não deixaram socorrê-la. Falaram que quem chegasse perto ia morrer junto. Nesse momento, quando falaram isso, todo mundo se afastou.

Mesmo diante das ameaças, uma moradora chamada Elisânea Oliveira atravessou a ponte correndo, tomou Tiago no colo e o levou para o hospital:

— Tive que fazer um 'barraco' no hospital, porque só queriam atender o menino quando chegasse um parente — ela conta.

Enquanto Tiago era levado para o hospital, o corpo de sua mãe foi atirado dentro do Caveirão — veículo blindado da polícia — , que seguiu para fora da favela. Ivan conta que

— ...lá fora, tiraram o corpo do Caveirão e o colocaram numa viatura, uma D-20. Minha mãe viu quando estava levando três sobrinhos meus para a escola. Quando eles chegaram no hospital, eles jogaram o corpo da minha irmã e dos outros dois rapazes no chão, em vez de colocar na maca, o que também deixou o pessoal do hospital indignado.

Ivan conta ainda que os policiais demoraram duas horas para levar os corpos até o hospital. Por fim, o menino acabou sendo operado e uma peça de platina foi implantada em seu crânio, em lugar do projétil. Ele não corre risco de morrer.

Outro depoimento

O depoimento da mãe de Lincoln, morto em 15 de agosto no Jacarezinho, teve de ser interrompido quatro vezes. De vez em quando ela começava a chorar. Aquela mulher, pelo menos naquele dia, carregava toda a dor do mundo. Seu olhar oscilava entre a ausência absoluta de expressão e o brutal arrepio de quem perdeu o filho que tanto amava:

— Ele estava em casa, comigo. Eu ia sair de manhã, às 11h30. Ele falou 'pode ir, mãe'. Eu falei pra ele ficar em casa e perguntei se precisava fazer almoço. Ele respondeu 'não, mãe, não precisa fazer almoço, agora não. Quando a senhora voltar, a senhora faz a comida. Qualquer coisa, eu vou na padaria e compro pão'. Eu disse: 'tá bom, meu filho'. Aí ele me abraçou, me beijou, abençoei ele e saí para trabalhar. Quando eu cheguei, às duas horas, ali na Mário Rangel, vieram minhas duas sobrinhas correndo. Aí coloquei a mão nelas e falei 'que foi, filha'? Elas: 'Benção, tia'. O que foi, aconteceu alguma coisa. E elas com os olhos cheios de lágrimas: 'Tia, mataram o nosso Lincoln, tia. Lá em frente à padaria' — disse Maria Luiza da Silva Rezende, chorando muito.

Tanto no Jacarezinho, quanto em outras localidades, as operações policiais têm sido realizadas em horário escolar: de meio-dia a uma, e entre cinco e seis da tarde.

Chacinas do varejo

Wanderley Cunha, coordenador de um pré-vestibular na Favela de Acari, disse que a polícia escolhe esses horários por ser o da troca do plantão nos batalhões, quando teoricamente os bandidos estariam mais atentos. Ele critica essa tática da polícia que expõe a vida de milhares de pessoas:

— Essa é a hora em que os trabalhadores de todo o mundo, inclusive moradores de favelas, estão saindo para o trabalho. As crianças estão sendo levadas pelos pais para as escolas e funcionários públicos (tal como os policiais militares), estão chegando aos seus locais de trabalho; que são escolas, creches, postos de saúde que ficam próximo ou dentro das favelas — disse.

A socióloga Vera Malaguti classifica essas ações pontuais nas favelas como "chacinas do varejo".

— Em qualquer país do mundo, o enfrentamento policial que resulte em morte é um problema muito grande para a polícia. A polícia do Rio, se não é a que mais mata, está entre as mais violentas do mundo, junto com outras brasileiras. Nessa área, somos campeões olímpicos. Criou-se e adestrou-se uma leniência coletiva com relação à truculência policial. Da saída da ditadura para cá, acho que os meios de comunicação martelaram o medo, e o medo sempre concentrado no varejo da pobreza, na criminalização da pobreza. Nós não tivemos medo do privatizador, embora o Brasil tenha perdido muito mais com isso do que qualquer outra coisa — afirma a secretária-geral do Instituto Carioca de Criminologia.

Para a Dra. Vera, esse modelo de segurança pública também prejudica o policial.

— Não faz bem você transformar o homem da segurança pública num matador. Não acho que isso vá ser positivo para ele, nem para os familiares dele. Coitado dele e da sua família. Isso tem um preço muito grande, não é um papel confortável. É confortável para o pessoal que vai aplaudir na Zona Sul — sublinhou a socióloga, que também fez duras críticas ao monopólio da imprensa.

— Acho que se criou um consenso e a grande "mídia" está fazendo uma blindagem desse assunto no governo estadual. É o velho paradigma da escravidão brasileira, reciclado pelo capitalismo de barbárie e pela construção desse aplauso pela mídia. Não tem nem mais vergonha do extermínio que, pelo contrário, virou modelo de sucesso — conclui.

Medo profundo

Wanderley Cunha também enxerga nessa política de segurança pública um instrumento das classes dominantes contra o proletariado.

— Vendo do ponto de vista desses governos e da classe dominante que eles representam e servem, acho que estão cumprindo seu papel.

Esse modelo militarizado de segurança só pode ser sustentado se for infundido um sentimento de medo profundo na população. E um medo direcionado para o proletariado. Ao mesmo tempo em que ele é aterrorizado pelos agentes do Estado, o restante da população é levado a acreditar que ele, o proletariado, é a classe perigosa. Este é o campo simbólico que em nada tem de diferente do Brasil escravocrata. No livro O medo no Rio de Janeiro, Vera Malaguti destaca um editorial de um jornal carioca de 1835, intitulado Mais polícia, que diz o seguinte:

"Precisamos de uma polícia que a nós inspire confiança e aos escravos infunda terror".

Para dar seguimento a esta política terrorista, o Estado conta com o apoio irrestrito do monopólio da imprensa. Seus órgãos cumprem com fidelidade canina a missão de naturalizar as agressões contra o proletariado, ao mesmo tempo em que constroem dele uma imagem violenta.

Série O Globo sobre violência

O jornal The Globe publicou, a partir de 19 de agosto, uma série de reportagens sob o título Os brasileiros que ainda vivem na ditadura onde pretende mostrar o sofrimento dos moradores de favelas tirando a responsabilidade do Estado.

Pode parecer que a série de reportagens que O Globo publica desde 19 de agosto dá voz e vez ao proletariado. Em alguns textos, fica clara a agressão da polícia contra os moradores dos espaços populares. Nisso, sem dúvida, há um importante trabalho dos repórteres, porém muito comprometido devido à intervenção da chefia. Além disso, há um certo atraso no jornal da família Marinho. O leitor do AND, por exemplo, vem sendo informado desde março deste ano a respeito da violência policial nas favelas cariocas.

A presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, Cecília Coimbra, foi uma das primeiras fontes procuradas pela reportagem de O Globo, ainda durante a formulação da pauta. Ela ressaltou a importância das matérias, mas fez duras críticas ao conteúdo dos textos e, sobretudo, à chamada da capa do domingo 19 de agosto, o primeiro dia da série, cuja manchete foi: Tráfico impõe leis de exceção para 1,5 milhão de cariocas.

— Eles dizem que 70% dos casos dos desaparecidos são feitos pelo tráfico e pelos grupos paramilitares. Isso é um absurdo! Porque esquecem o Estado. É uma forma de absolver o Estado — afirmou a professora do departamento de Psicologia da UFF.

Jornalistas e o patrão

Para Wanderley da Cunha, coordenador de um curso pré-vestibular da Favela de Acari, os moradores de favelas foram enganados pelo O Globo:

— É sempre assim: uma jornalista de voz simpática nos liga e nos diz que está fazendo uma matéria; que isso vai ajudar a nossa favela na luta contra a violência e pelos Di reitos Humanos. Mas, nem bem termina a série de reportagens e descobrimos que fomos traídos mais uma vez, que não devíamos ter confiado de novo em gente 'bem intencionada' como Carla Rocha e não devíamos abrir nossas portas e nossas vozes para ela — afirmou Wanderley.

O coordenador do Pré-Uni Acari também deixou claro que a responsabilidade maior é dos donos e editores do jornal:

— No final, a aparente boa intenção de repórteres ditos investigativos é desmascarada por seus chefes, editores e donos de jornal. A série de reportagens com aparência de independente, serve apenas para ilustrar o que pensa O Globo sobre a gente favelada: a favela é uma doença urbana. E a gente favelada mais uma vez constata que governantes, "mídia" impressa, falada etc, pensam e vêem a favela e o favelado como uma doença.

Wanderley se refere ao editorial do O Globo, da terça-feira, 21, cujo título é Ditadura na favela. Sua primeira frase foi particularmente muito criticada:

"Embora seja uma doença urbana disseminada pelo país, a favelização virou a cara do Rio".

O termo "doença" remete ao início do século passado, quando o prefeito Pereira Passos destruiu o cortiço Cabeça de Porco com a justificativa de higienização do centro da cidade. E a idéia de "limpar" ou "curar" remete ao pensamento nazi-fascista, ainda muito presente na sociedade atual e na maneira de pensar dos donos das corporações da tal "mídia".

Cecília Coimbra ressalta que os meios de comunicação de massa produzem um deslocamento subjetivo do eixo da violência:

— O tempo todo a gente diz que a violência não está com a pobreza, porque se a pobreza fosse violenta a gente não saía na esquina. A violência está com os agentes do Estado. São os agentes do Estado que promovem a violência nessas comunidades — diz.

Por fim, Wanderley da Cunha observa que

— Talvez a verdadeira doença social do país esteja por detrás das grades e das guaritas dos condomínios fechados da Zona Sul e da Barra da Tijuca. Pois é de lá que os verdadeiros donos do tráfico comandam seus negócios e lucram com o sangue e a vida que se esvaem dos corpos dos jovens favelados. Para nós, da favela, ela é a cura, e os condomínios burgueses são as doenças. E os jornais burgueses como O Globo, e governantes como Sérgio Cabral, são os "vetores" dessa doença.

SALLES, Marcelo. Prossegue o terrorismo de Estado. A Nova Democracia. Disponível em <http://www.anovademocracia.com.br/37/05.htm>. Acesso em 12 de novembro de 2007.

Marcia Carmo

De Buenos Aires

Centenas de moradores da cidade de El Alto, no Departamento de La Paz, na Bolívia, queimaram bares, discotecas e prostíbulos em dois dias de protestos iniciados na segunda-feira.

De acordo com a Agência Boliviana de Informação (ABI, oficial), 21 pontos de comércio foram saqueados e incendiados, incluindo revendedores de bebidas alcoólicas, na segunda e na terça-feira.

"Cansados da insegurança pública, registrada diariamente nesta cidade, os moradores, a maioria pais de família, afirmaram que estes centros de diversão estimulam a delinqüência e prejudicam os menores de idade", escreveu a ABI.

Reportagem do jornal La Razón informa que os manifestantes usaram paus e pedras antes de colocar fogo nos locais e em objetos como colchões, equipamentos de som, mesas, cadeiras, roupas de prostitutas, preservativos e até uniformes da polícia.

Segundo a agência oficial, as prostitutas anunciaram que vão reagir com protestos e ações judiciais contra a Federación de las Juntas Vecinales de El Alto (equivalente a associação de moradores de El Alto), que teria organizado os protestos.

"As meretrizes ameaçaram caminhar nuas até a sede do governo porque viram suas fontes de trabalho afetadas", publicou a ABI.

Polícia

A representante das prostitutas, identificada apenas como Ely, disse que elas cumprem todas as regras exigidas pela administração municipal e que a violência do protesto não faz sentido.

"Temos filhos para manter e isso que fizeram com a gente não tem nome", reclamou.

Segundo o jornal e a própria agência oficial boliviana, a polícia assistiu à destruição sem fazer nada.

De acordo com a ABI, "cerca de 20 policiais seguiam o grupo enfurecido a uma distância prudente, em atitude passiva, contemplando as ações violentas".

O secretário de Pequenas Empresas da Associação de Moradores de El Alto, Daniel Gutiérrez, disse que os moradores tiveram que tomar suas próprias medidas porque, segundo ele, há muito tempo pessoas alcoolizadas cometem delitos na cidade.

Diante das câmeras de televisão, mulheres indígenas, que não se identificaram, afirmaram estar "lutando contra o antro de perdição de menores".

CARMO, Márcia. Centenas queimam bordéis em protesto na Bolívia. BBC Brasil, 17 de outubro de 2007. Disponível em <http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/10/071017_boliviaprotestos_mc_cg.shtml>. Acesso em 21 de novembro de 2007.

Prostitutas bolivianas iniciam greve de fome após ataques a bordéis

22/10/2007 - 22h35

da Efe, em El Alto

Dezenas de prostitutas ocuparam nesta segunda-feira um centro médico da cidade boliviana de El Alto e deram início a uma greve de fome contra a falta de providência das autoridades para punir os que queimaram e destruíram uma série de bordéis na semana passada.

Lili Cortés, líder das prostitutas de El Alto, cidade vizinha a La Paz e a mais pobre da Bolívia, disse à agência de notícias Efe que suas companheiras também ameaçam se enterrar vivas e costurar os próprios lábios caso o governo não apresente uma solução para os problemas do grupo até quarta-feira.

Na semana passada, pais de família e grupos de estudantes destruíram e queimaram mais de 50 bares e prostíbulos de El Alto, por considerá-los um ninho de criminosos.

Segurança para a categoria

A líder das prostitutas disse que o governo precisa tomar providências, já que, devido à atitude passiva da polícia na hora de conter os ataques, as profissionais do sexo da cidade ficaram sem local para trabalhar.

Cortés pediu justiça e prisão para os que promoveram os saques e incêndios. Além disso, exigiu segurança para a categoria.

O centro médico ocupado pelas prostitutas é o mesmo que elas usam toda semana para fazer testes sobre doenças sexualmente transmissíveis.

Segundo Cortés, como forma de protesto, suas colegas de El Alto decidiram não fazer mais os exames. A representante também disse acreditar que as prostitutas de todo o país se solidarizarão à causa delas caso não haja uma solução.

EFE. Prostitutas bolivianas iniciam greve de fome após ataques a bordéis. Citado por: Folha Online, 22 de outubro de 2007. Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u338912.shtml>. Acesso em 21 de novembro de 2007.

Comentários de O Reino de Deus

"'Nós vamos fazer justiça pelas próprias mãos, até fechar essas casas de pouco valor', declarou uma manifestante citada pela ABI." (EFE. Bolivianos destroem prostíbulos em protesto. Citado por: G1, 18 de outubro de 2007. Disponível em <http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL151459-5602,00.html>. Acesso em 21 de novembro de 2007).

Isto é u'a manifestação popular no reino de Deus! Os súditos do reino de Deus só se mobilizam quando guiados por seus senhores, por seus manipuladores e por seus preconceitos. Empregados fazem absurdos e deixam de ajudar quando é perfeitamente possível para obedecer caninamente as ordens do chefe. Cidadãos comuns entregam desafetos à polícia em ditaduras. Empregadores preterem, discriminam, punem ou demitem empregados por algo como posição religiosa ou ter posado nu(a) numa revista. "Vote no Cristo"; "denuncie a pirataria"; "fora Collor"; "Brasil rumo ao hexa"; e por aí vai.

Prostitutas são agredidas enquanto fazem ponto. E policiais corruptos? Ateus perdem eleições. E políticos conhecidamente desonestos? Adúlteras são execradas. E patrões assediadores?

Desculpem o "baixo astral" deste blog. O Contra os Reis e as Religiões é um pouco melhor.

Walter Nunes Braz Júnior / O Reino de Deus - oreinodedeus@grupos.com.br

A menina paraense que virou notícia

Por Ligia Martins de Almeida em 27/11/2007

A prisão de uma menina de 15 anos em uma cela com 30 homens - e a violência continuada que sofreu durante o período - indignou a mídia na semana que passou, a ponto de merecer um editorial do Estado de S.Paulo sob o título de "Vergonha nacional":

"No capítulo das grandes vergonhas nacionais, merece destaque o fato, especialmente sórdido, de vileza desmedida, que é a colocação de mulheres em celas com muitos homens, para que sejam exploradas e brutalizadas sexualmente... E o mais acachapante é que a governadora do Pará suspeita de que a prática é comum - não apenas em seu Estado, mas em outros locais do território nacional - para garantir sexo aos detentos (e assim, quem sabe, deixá-los mais calmos)". (Estadão, 25/11/2007)

Pessoas sensíveis talvez não tenham conseguido passar da abertura das matérias publicadas durante a semana. Cada uma acrescentava um dado a mais sobre a miséria, a falta de perspectiva e a degradante situação das pessoas mais humildes quando em confronto com as pequenas autoridades, como os carcereiros e delegados que abusam do poder e ameaçam aqueles que estão sob seu jugo. E, pior ainda, diante das autoridades maiores, como juízes, promotores e até governadores, que se escondem atrás de argumentos legais ou da desinformação para não tomar providências.

"Gritava e pedia comida"

A leitura das revistas e jornais permite traçar o quadro completo da miséria nacional, a partir do abuso cometido com uma adolescente numa remota cidade do norte do país.

A Veja desta semana (nº 2036, de 28/11/2007), começa a matéria "Presa, estuprada e torturada" comovendo os leitores com a descrição física da vítima:

"Aos 15 anos, L.A.B. mede 1,50 metro e pesa 35 quilos. Tem a compleição física de uma criança de 12 anos. Todos os dias, L. era violada de cinco a seis vezes. A situação revoltou alguns dos presos, que disseram aos carcereiros que, além de ser uma menina, ela não podia ficar na cela com homens. Os policiais, então, cortaram o cabelo longo, liso e negro de L. à faca e rente à cabeça. Como seu corpo tem poucas curvas, ela ficou parecida com um rapaz."

A Folha de S. Paulo - "Todos sabiam que a menina estava no meio dos homens" (25/11/2007) - discute a omissão do público diante do abuso policial:

"'Era um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém falava nada', disse uma mulher na delegacia, sexta-feira à noite. 'Antes de comer, os presos se serviam dela', lembra, inflamada, outra mulher, falando alto bem em frente à sala do delegado de plantão. Refere-se ao fato de os presos obrigarem a menina a praticar sexo como condição para lhe darem alimento. `Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar', afirma outra."

O Brasil dos pobres

O Estado de S. Paulo, na matéria "Miséria e Prostituição na trilha de L., 15 anos" (25/11/2007), foi além dos concorrentes ao situar os leitores na situação em que vivem os moradores do município, "antigo produtor de cachaça, que hoje sofre com a grande quantidade de jovens viciados em drogas".

Sem tentar comover os leitores - como fez a Veja ao falar da fragilidade física da menor -, o jornal dá um retrato verdadeiro, cruel e talvez por isso mais comovente ainda da situação da jovem, ao dizer:

"Vivendo nas ruas e prostituindo-se desde os 12 anos, viciada em drogas, a menina, apelidada de Cartucheira, acabou presa em Abaetetuba. Com a anuência da Polícia Civil, Ministério Público e Judiciário, ficou entre os presos numa cela que pode ser vista da rua pela população, escancarando a tolerância da sociedade com aberrações cometidas pelas autoridades."

Mas, de toda a cobertura da imprensa, talvez a denúncia mais grave seja a do Diário do Pará (24/11/2007), na matéria "Polícia comunicou fato à Justiça", que informa:

"A Justiça teria conhecimento da situação da Delegacia de Polícia de Abaetetuba e houve falhas na comunicação entre os órgãos de Justiça e a Superintendência de Polícia Civil do Baixo Tocantins. É o que mostram documentos obtidos pelo Diário. Além disso, vários pedidos de transferências de delegacias do interior revelam que a situação se repete em outros municípios. Entre os documentos, um ofício, anterior ao escândalo, mostra que a Superintendência Regional do Baixo Tocantins, situada em Abaetetuba, solicitou a transferência da menor antes das denúncias virem à tona, ainda que com um inexplicável atraso de 14 dias em relação à prisão, ocorrida no dia 22 de outubro. A comunicação em tempo hábil poderia ter evitado que a presa sofresse tantos abusos. O ofício nº 870/07, de 5 de novembro de 2007, enviado pelo superintendente regional, Antonio Fernando Botelho da Cunha, e encaminhado à juíza da 3ª Vara Criminal de Abaetetuba, foi protocolado na secretaria do Fórum Penal no dia 7. No documento, o superintendente pede a transferência da presa para o CRF (Centro de Recuperação Feminino), em Belém, 'em caráter de urgência (...) uma vez que não possuímos cela para o abrigo de mulheres, estando a mesma custodiada juntamente com outros detentos, correndo o risco de sofrer todo e qualquer tipo de violência por parte dos demais' ."

Morosidade da Justiça, omissão governamental, abuso policial, somados a um quadro de miséria que obriga adolescentes a se prostituírem - por pura falta de opção e perspectivas - foram revelados nas várias matérias publicadas ao longo da semana. Graças a um escândalo que deixou leitores sensibilizados e foi um dos destaques da semana, a mídia acabou traçando um triste retrato de um Brasil que dificilmente ganha páginas dos jornais: o Brasil dos pobres e desamparados que não sensibiliza nem mesmo as mulheres no poder.

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ALMEIDA, Ligia Martins de. A menina paraense que virou notícia. Observatório da Imprensa, nº 461, 27/11/2007. Disponível em <http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=461CID001&codsit=51&codparext=2054>. Acesso em 28 de novembro de 2007.

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Governadora se diz 'chocada' com prisão de moça no PA

Jovem ficou presa na mesma cela com 20 homens em delegacia de Abaetetuba.

Governadora afirmou que determinou uma investigação rigorosa do caso.

Da Agência Estado

A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa (PT), disse nesta quarta-feira (21) ter ficado "chocada" ao saber que uma jovem ficou presa na mesma cela com 20 homens em Abaetetuba, a 80 quilômetros de Belém. A governadora admitiu que o caso pode não ser um fato isolado, mas disse que seu governo não tinha conhecimento da prisão de mulheres com homens no interior do Estado, apesar de não haver carceragem feminina em Abaetetuba. Ana Júlia contou ter ficado surpresa ao ser informada da denúncia de estupro em troca de comida feita pela jovem ao Conselho Tutelar.

"Chocou a mim também como mulher e como governadora", disse Ana Júlia, que esteve no Rio de Janeiro para um almoço com empresários. Ela afirmou que, além de afastar o delegado responsável e os superintendentes da Polícia Civil e do sistema penal do Estado, determinou uma investigação rigorosa. "Instauramos um inquérito para apurar responsabilidades e vamos punir de forma exemplar. Se ela tem 15, 20, 50, 80 anos ou até 100 anos, não importa. Uma mulher não poderia estar presa numa cela junto com homens", afirmou.

Apesar das violações aos direitos humanos no sistema carcerário do Pará já denunciadas por organismos internacionais, a governadora disse que esse não é um problema apenas do seu Estado. Ela insistiu que não tinha conhecimento do que se passou em Abaetetuba, mas admitiu que pode ter ocorrido outros casos. A governadora indicou que há a suspeita das autoridades de que a jovem foi presa para viabilizar sua exploração sexual pelos presos.

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AGÊNCIA ESTADO. Governadora se diz 'chocada' com prisão de moça no PA. G1, 21/11/2007. Disponível em <http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL187780-5598,00.html>. Acesso em 28 de novembro de 2007.

Comentários de O Reino de Deus

O Conselho Tutelar de Abaetetuba (PA) denunciou nesta segunda-feira (19) ao Ministério Público (MP) e ao Juizado da Infância e da Adolescência o caso de uma garota de 15 anos que ficou presa na delegacia do município com cerca de 20 homens durante um mês.

A adolescente disse ao Conselho Tutelar que teria sido obrigada a deixar a cidade. Segundo a conselheira tutelar Maria Imaculada dos Santos, a estudante contou que foi retirada da cela por um policial e abandonada no cais da cidade. Também teria recebido ameaça para deixar a cidade.

Segundo o Conselho Tutelar, no dia que seria entregue à família, a polícia informou que ela havia fugido da delegacia. A estudante ficou desaparecida por três dias e só foi localizada sábado (17), no cais da cidade. (G1. Adolescente fica presa em cela com 20 homens por um mês. G1, 20/11/2007. Disponível em <http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL185679-5598,00-ADOLESCENTE+FICA+PRESA+EM+CELA+COM+HOMENS+POR+UM+MES.html>. Acesso em 28 de novembro de 2007)

O caso só veio ao conhecimento do público pela denúncia do Conselho Tutelar.

No dia 19, a denúncia. No dia 21, os delegados envolvidos foram afastados1. Foi anunciada para o dia 26 uma "varredura para identificar novos casos de abuso sexual contra mulheres"2.

No reino de Deus se faz assim. Enquanto o abuso e a insanidade são cotidianos, aceite-se; se alguém, vítima ou não, protesta, seja desprezado; se o inconformado insiste, seja intimidado; se vem o escândalo, mostre-se indignação e tome-se "providências".

Desculpem o "baixo astral" deste blog. O Contra os Reis e as Religiões é um pouco melhor.

Walter Nunes Braz Júnior / O Reino de Deus - oreinodedeus@grupos.com.br

1 G1. Delegados envolvidos na prisão de jovem no Pará são afastados. G1, 21/11/2007. Disponível em <http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL187584-5598,00.html>. Acesso em 28 de novembro de 2007

2 AGÊNCIA ESTADO. Governo fará varredura em cadeias do Pará. G1, 25/11/2007. Disponível em <http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL191636-5598,00.html>. Acesso em 28 de novembro de 2007