Grupos

A Bíblia e a liberdade

10:13 @ 03/08/2007

Imaculada Virgínia Souto Aranha

A favor da censura

"Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás." (Gênesis 2: 17)

Outros textos: Gênesis 3: 22 a 24; Êxodo 19: 12 e 13; Deuteronômio 5: 24 a 28, 13; Jó 38: 1 a 42: 6; Salmo 131; Isaías 45: 9 e 10; Malaquias 2: 17; Mateus 12: 31 e 32; Marcos 3: 28 e 29; Lucas 6: 37; Romanos 14: 10 a 13; Gálatas 1: 8 e 9; Tiago 4: 11 e 12, 5: 9

Contra o direito de ir e vir

"E marcarás limites ao povo em redor, dizendo: Guardai-vos, não subais ao monte, nem toqueis o seu termo; todo aquele que tocar o monte, certamente morrerá. Nenhuma mão tocará nele; porque certamente será apedrejado ou asseteado; quer seja animal, quer seja homem, não viverá; soando a buzina longamente, então subirão ao monte." (Êxodo 19: 12 a 13)

Outros textos: Deuteronômio 23: 1 a 6; 2 João 10 e 11

Contra a liberdade religiosa

"Portanto guardareis o sábado, porque santo é para vós; aquele que o profanar certamente morrerá; porque qualquer que nele fizer alguma obra, aquela alma será eliminada do meio do seu povo." (Êxodo 31: 14)

Outros textos: Êxodo 20: 4 a 6, 22: 18, 20 e 28, 23: 13, 32: 1 a 29, 34: 13 a 17; Levítico 20: 6 e 27, 26: 14 a 38; Deuteronômio 5: 8 a 10, 6: 14 e 15, 7: 5, 25 e 26, 11: 26 a 28, 12: 1 a 3, 13, 28: 15 a 68, 29: 22 a 28, 31: 16 a 18; Malaquias 3: 8 a 12; Mateus 5: 29 e 30, 10: 28, 12: 31 e 32; Marcos 3: 28 e 29; 9: 43 a 48, 16: 16; João 3: 18; Gálatas 3: 10; 1 Timóteo 5: 4, 9 e 10, 14 e 15

Contra a liberdade artística

"Guardai, pois, com diligência as vossas almas, pois nenhuma figura vistes no dia em que o Senhor, em Horebe, falou convosco do meio do fogo; para que não vos corrompais, e vos façais alguma imagem esculpida na forma de qualquer figura, semelhança de homem ou mulher; figura de algum animal que haja na terra; figura de alguma ave alada que vôa pelos céus; figura de algum animal que se arrasta sobre a terra; figura de algum peixe que esteja nas águas debaixo da terra" (Deuteronômio 4: 15 a 18)

Outros textos: Êxodo 20: 4; Deuteronômio 5: 8, 7:5, 25 e 26, 12: 1 a 3

Contra o sexo

"Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera." (Levítico 20: 10)

Outros textos: Êxodo 20: 14, 22: 16 e 17; Levítico 18: 20, 19: 20; Números 5: 12 a 27, 25: 1 a 9 e 31: 15 a 18; Deuteronômio 22: 13 a 30; Provérbios 2: 16 a 19, 5, 6: 23 a 35, 7: 6 a 27; Malaquias 2: 11 a 16; Mateus 19: 9 a 12, 22: 24; Marcos 10: 11 a 12, 12: 19; Lucas 20: 28; João 8: 3 a 5; 1 Coríntios 6: 13 a 18, 7: 2 a 5 e 39; Gálatas 5: 19 a 21; 1 Tessalonicenses 4: 3 a 5; Hebreus 13: 4

A favor da escravidão

"Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor aos senhores, não somente aos bons e humanos, mas também aos maus." (1 Pedro 2: 18)

Outros textos: Êxodo 21: 1 a 11 e 20 a 21; Deuteronômio 15: 12 a 18; Salmo 24: 1 e 2; Mateus 16: 24; Lucas 1: 30 a 31, 9: 23; Romanos 6: 22; 1 Coríntios 6: 19 e 20, 7: 4 e 39; 2 Coríntios 5: 15; Efésios 6: 5 a 8; Colossenses 3: 22 a 25

Bom texto: "Não entregarás a seu senhor o servo que, tendo fugido dele, se acolher a ti; contigo ficará, no meio de ti, no lugar que escolher em alguma das tuas portas, onde lhe agradar; não o oprimirás." (Deuteronômio 23: 15 a 16)

A favor da opressão dos pais sobre os filhos

"Quando alguém tiver um filho contumaz e rebelde, que não obedecer à voz de seu pai e à voz de sua mãe, e, castigando-o eles, lhes não der ouvidos, então seu pai e sua mãe pegarão nele, e o levarão aos anciãos da sua cidade, e à porta do seu lugar; e dirão aos anciãos da cidade: Este nosso filho é rebelde e contumaz, não dá ouvidos à nossa voz; é um comilão e um beberrão. Então todos os homens da sua cidade o apedrejarão, até que morra; e tirarás o mal do meio de ti, e todo o Israel ouvirá e temerá." (Deuteronômio 21: 18 a 21)

Outros textos: Êxodo 21: 17, 22: 16 e 17, 34: 15 e 16; Levítico 20: 9; Provérbios 30: 17; Colossenses 3: 20

A favor do abuso de poder

"Nem ainda no teu pensamento amaldiçoes ao rei, nem tampouco no mais interior da tua recâmara amaldiçoes ao rico; porque as aves dos céus levariam a voz, e os que têm asas dariam notícia do assunto." (Eclesiastes 10: 20)

Outros textos: Êxodo 22: 28; Josué 1: 18; Salmo 45: 5; Eclesiastes 10: 4; Mateus 15: 4; Marcos 7: 10; Romanos 13: 1 a 7; Efésios 5: 22 a 6: 9; Colossenses 3: 18 a 4: 1; 1 Pedro 2: 13 e 14

A favor da exploração

"As tuas primícias, e os teus licores não retardarás; o primogênito de teus filhos me darás." (Êxodo 22: 29)

Outros textos: Êxodo 23: 19; Levítico 23: 10; Deuteronômio 14: 22 e 23, 26: 1 a 15; Salmo 24: 1 e 2, 50: 9 e 12; Ageu 2: 8; Malaquias 3: 8 a 12; Atos 5: 1 a 11

Bons textos: "Quando entrares na vinha do teu próximo, comerás uvas conforme ao teu desejo até te fartares, porém não as porás no teu cesto. Quando entrares na seara do teu próximo, com a tua mão arrancarás as espigas; porém não porás a foice na seara do teu próximo." (Deuteronômio 23: 24 e 25)

"Quando no teu campo colheres a tua colheita, e esqueceres um molho no campo, não tornarás a tomá-lo; para o estrangeiro, para o órfão, e para a viúva será; para que o Senhor teu Deus te abençoe em toda a obra das tuas mãos, quando sacudires a tua oliveira, não voltarás para colher o fruto dos ramos; para o estrangeiro, para o órfão, e para a viúva será. Quando vindimares a tua vinha, não voltarás para a rebuscá-la; para o estrangeiro, para o órfão, e para a viúva será. " (Deuteronômio 24: 19 a 21)

Contra a liberdade de associação

"Se alguém vem ter convosco, e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis. Porque quem o saúda tem parte nas suas más obras." (2 João 10 a 11)

Outros textos: Êxodo 23: 31 a 33, 34: 11 a 16; Levítico 21: 7, 13 e 14, 22: 12; Múmeros 25: 1 a 9 e 31: 15 a 18; Deuteronômio 7: 1 a 4; 13: 6 a 10; Malaquias 2: 11 a 16; Mateus 19: 3 a 9; Marcos 10: 2 a 12; 1 Coríntios 7: 39; 2 Tessalonicenses 3: 14

Bom texto: "Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais" (1 Coríntios 5: 11)

Contra a liberdade de expressão

"E não murmureis, como também alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor." (1 Coríntios 10: 10)

Outros textos: Levítico 24: 10 a 16; Números 11: 18 a 20 e 33, 12, 14: 1 a 24, 16, 21: 4 a 9; Deuteronômio 1: 21 a 39, 6: 16; Mateus 7: 1 a 5; 12: 31 e 32; Marcos 3: 28 e 29; Lucas 1: 18 a 20, 6: 37; Romanos 14: 10 a 13; 1 Timóteo 5: 1 e 2; Tiago 4: 11 e 12, 5: 9

Contra o lazer

"Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre." (1 João 2: 15 a 17)

Outros textos: Êxodo 23: 14 a 19, 32: 6 e 19 a 29; Levítico 23: 4 a 8; Números 25: 1 a 9 e 31: 15 a 18; Deuteronômio 16: 1 a 17; Isaías 22: 12 a 14; 1 Coríntios 10: 7; 1 Timóteo 5: 6

Contra a liberdade e a dignidade da mulher

"Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos." (Efésios 5: 22 a 24)

Outros textos: Gênesis 3: 16; Êxodo 21: 17, 22: 16 e 17; Deuteronômio 21: 10 a 14, 25: 5 a 12; Mateus 22: 24; Marcos 12: 19; Lucas 20: 28; 1 Coríntios 7: 39, 14: 34; Colossenses 3: 18; 1 Timóteo 2: 9 a 15; Tito 2: 3 a 5; 1 Pedro 3: 1 a 6

ARANHA, Imaculada Virgínia Souto. A Bíblia e a Liberdade. Disponível em <http://paraisoconcreto.blogspot.com/2007/06/bblia-e-liberdade.html>. Acesso em 03 de agosto de 2007.

Comentários de O Reino de Deus

Excelente estudo para mostrar aos cristãos. Se a Bíblia tivesse um mínimo de preceitos ensinando os homens a respeitar as mulheres como iguais em valor, os patrões a respeitarem seus empregados e tivesse um modelo de governo democrático, Israel seria o primeiro modelo de democracia, dignidade humana e liberdade. Você já ouviu os cristãos reclamarem a patente da democracia, do respeito à mulher, da abolição da escravatura e outras políticas de dignidade humana? Primeiro, essa alegação mostra que eles não costumam ler suas bíblias, como já sabíamos. Segundo, eles estão no século XXI, e não na Idade Média, e, acostumados aos valores do primeiro, não da última, querem introduzir esses valores na Bíblia, na qual estes valores são alienígenas e pecaminosos, na velha idéia de que a Palavra de Deus é perfeita.

Walter Nunes Braz Junior / O Reino de Deus - oreinodedeus@grupos.com.br

Vamos recapitular algumas características da internet. A internet possibilita um contato rápido e fácil com informações e pessoas, que não raro seria quase impossível de outra forma. Via internet podem ser compartilhados arquivos de qualquer tipo: texto formatado, áudio e vídeo, planilhas, etc. A internet, sendo mundial, permite um acesso a informações locais, de outros locais e gerais. Não só porque existem centrais de notícias e versões para a internet de jornais impressos, mas também porque existem enciclopédias eletrônicas e outras páginas de qualidade, que podem ser encontradas através de páginas de busca.

É forçoso dizer que a internet também pode propagar boatos e mentiras, ser meio de ataques pessoais, disseminar vírus de computador e trazer outros problemas. Também não se pode negar que alguns desperdiçam a internet produzindo páginas de mau gosto ou de conteúdo pobre e outros acessando essas mesmas páginas. Então, surge o controle de acessos. Dirão alguns, não poucos sinceros, que o controle de acessos é uma medida para disciplinar o uso da internet.

Para compreender melhor o controle de acessos, vejamos os países que usam filtros para a internet. Outros ainda usam outras políticas de controle. A tabela a seguir é uma adaptação de "Repórteres sem Fronteiras aponta os inimigos da internet livre", do Wikinotícias (http://pt.wikinews.org/). O texto é de novembro de 2005.

Alvo do filtro Países
Pornografia Arábia Saudita, Bahrein, Coréia do Sul, Irã
Páginas contra a religião majoritária Arábia Saudita, Irã
Páginas de oposição ao governo Bielorrússia, Maldivas, Nepal, Tunísia, Uzbequistão
Imprensa independente Líbia
Direitos humanos Nepal

Considerar o controle de acessos uma regulamentação contra o uso indisciplinado é um entendimento simplório mesmo no nível local. Eu mesmo já usei salas de informática em que não pude acessar o Observatório da Imprensa (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/) por bloqueio às páginas "ig.com.br", outros computadores em que não pude acessar o Alerta Total (http://alertatotal.blogspot.com/) por bloqueio ao termo "blogspot" e uma sala em que não pude acessar o Portugal Diário (http://www.portugaldiario.iol.pt/). Assim, o controle de acessos pode ser determinado não só por imposição de clérigos e políticos como por humores de qualquer administrador de rede. O debate, informações, a escolha religiosa, o sexo de qualidade, a dignidade, um outro mundo estão sendo negados a milhões de pessoas ao redor do mundo pela censura à internet, que a torna virtual no sentido pejorativo. E você, o que acessa na internet?

Walter Nunes Braz Júnior / O Reino de Deus

João Paulo II

10:57 @ 14/08/2007

Porque a Igreja católica é tão importante?

Rodrigo Ricúpero

Doutorando em História do Brasil pela USP

João Paulo II foi o mais importante líder religioso de todo o mundo, não apenas pelo tamanho da Igreja católica ou por sua presença em praticamente todos os países, mas porque, ao contrário das outras religiões, o catolicismo mantém uma enorme e centralizadíssima estrutura de poder, com o topo ocupado pelo papa, que governa de forma absoluta, sem se submeter à qualquer instância.

A Igreja funciona sem nenhuma democracia e, para garantir a continuidade de sua política, João Paulo chegou a escolher pessoalmente a maioria dos cardeais que definirão sua sucessão.

A Igreja também é a única que tem sua sede mundial, o Vaticano, reconhecida como um Estado independente, o que lhe possibilita manter relações diplomáticas com quase todos os países e participar de organismos como a ONU.

“Banqueiros de Deus”

O Banco do Vaticano é parte do capital financeiro internacional, e não por acaso o papa nunca se pronunciou contra os planos do FMI. O cardeal norte-americano Marcinkus, responsável pelo Banco e um dos braços direitos do papa, chegou a ser condenado por operações fraudulentas pela Justiça italiana e não pode sair das fronteiras do Vaticano.

Ele também esteve envolvido no episódio do Banco Ambrosiano (associado ao Banco do Vaticano), que, em 1982, praticou uma fraude de US$ 1,4 bilhão e no assassinato (até hoje não esclarecido) de Roberto Calvi, o “banqueiro de Deus”.

Em todos os países, a Igreja tem propriedades, empresas, escolas, hospitais e terras. Isso dá uma base material para a aliança de sua hierarquia com os setores mais conservadores da burguesia.

Próximo dos poderosos

A proximidade do papado com os poderosos do mundo não é exclusividade de João Paulo II. Se voltarmos na história, podemos lembrar a conivência do Vaticano com o nazismo de Hitler, recentemente objeto de livros e filmes. Nas palavras do papa Pio XII, que dirigiu a Igreja durante a Segunda Guerra, o inimigo a ser combatido era o comunismo. Já o fundador da Opus Dei dizia: “Hitler contra os judeus, é Hitler contra o comunismo”. Daí não se estranhar que muitos nazistas tenham conseguido fugir da Europa com a ajuda do Vaticano.

RICÚPERO, Rodrigo. Porque a Igreja católica é tão importante? Disponível em <http://www.pstu.org.br/internacional_materia.asp?id=3349&ida=13>. Acesso em 14 de agosto de 2007.

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O papa foi um santo?

Rodrigo Ricúpero

Doutorando em História do Brasil pela USP

O papa João Paulo II faleceu no sábado, 2 de abril, após longa agonia, explorada pela Igreja católica com a ajuda dos meios de comunicação de todo o planeta. O clima de comoção, principalmente entre os cerca de um bilhão de católicos no mundo, deve continuar. Aos que, hoje, sofrem a morte do papa como um dos seus, queremos recordar o papel de João Paulo II na direção da Igreja católica, abraçando não o povo, mas os ditadores, o imperialismo norte-americano e os setores mais conservadores do clero

Nas últimas semanas, surgiram livros, revistas e artigos biográficos, que, com raras exceções, enaltecem João Paulo II. Ele aparece como lutador pela paz e defensor dos povos oprimidos. Foi chamado de “o homem do século”, que “mudou o mundo”. Forma-se, assim, um mito em torno do papa, abrindo caminho, até, para sua canonização, ou seja, para que seja declarado como mais um santo da Igreja.

Escolhido para ser o líder da Igreja católica em 1978, o polonês Karol Wojtyla, que adotou o nome de João Paulo II, foi o primeiro papa não italiano em séculos.

Simbolicamente, pouco depois foi rezar no túmulo do fundador da organização ultra-reacionária Opus Dei, depois santificado pelo papa, deixando claro sua identidade com os objetivos do grupo, como o anticomunismo e a defesa de posições conservadores em matéria de comportamento moral, sexual e familiar.

Rapidamente, o papa assumiu uma postura política ativa, utilizando como principais instrumentos suas viagens pelos vários países, seus discursos e textos. João Paulo foi o papa da globalização, utilizando-se da mídia como nunca. As suas viagens moviam grandes massas, como nas três visitas ao Brasil.

Dois anos depois de sua posse, Ronald Reagan chegaria à presidência dos EUA, com forte discurso conservador, iniciando um novo período de convergência entre o Vaticano e a Casa Branca, formando o que Richard Allen, presidente do Conselho de Segurança Nacional de Reagan, chamou de “a maior aliança secreta dos tempos modernos”.

Colaborando com a contra-revolução

João Paulo II atuou em dois pontos-chave da cena internacional na virada da década 70 para 80: Polônia e Nicarágua. Visitou a Polônia, em 1979, iniciando uma mudança na posição adotada até então pela Igreja, a de dialogar com o regime stalinista, o Vaticano passou a apoiar abertamente os grupos de oposição.

A ação do papa em conjunto com a CIA, como confirmou recentemente seu antigo diretor, o general Vernon Walters, tinha como objetivo contribuir moral e financeiramente com os setores da oposição que defendiam a restauração capitalista, contra os que combatiam a burocracia, mas defendiam a propriedade social. A justa luta do povo polonês contra o stalinismo foi conduzida, com o apoio do papa, para a restauração do capitalismo, por meio de Lech Valesa e da direção do sindicato Solidariedade.

Na Nicarágua, em 1983, o papa condenou a participação de padres no governo da Frente Sandinista e apoiou a cúpula da Igreja, que fazia oposição ao novo regime, inclusive promovendo o arcebispo de Manágua a cardeal. Novamente o Vaticano associou-se aos EUA em uma grande campanha contra os sandinistas, que contou com o envio de fundos da Agência de Desenvolvimento Internacional, órgão do governo dos EUA, para a oposicionista arquidiocese de Manágua.

Na sua visita a Cuba, em 1998, o papa tinha como objetivo, declarado por ele próprio, produzir os mesmos efeitos que sua visita provocou na Polônia, ou seja, auxiliar o processo de restauração capitalista.

Apoiando as ditaduras

Ainda na América Latina, o papado, antes e depois de João Paulo II, apoiou claramente as diversas ditaduras militares. No Chile, um dos grandes aliados do general Pinochet foi o arcebispo Angelo Sodano, núncio apostólico, ou seja, embaixador do Vaticano naquele país. Sodano, até a morte do papa, era a segunda autoridade do Vaticano, ocupando a função de secretário de Estado. A velha amizade com Pinochet levou o Vaticano a solicitar a libertação do ditador, quando este esteve detido na Inglaterra, a pedido da Justiça espanhola.

Na Argentina, os generais encontraram no núncio Dom Pio Laghi um leal parceiro, o que levou a Associação das Mães da Praça de Maio a processá-lo junto à Justiça italiana. Ainda nesse país, recentemente, o bispo capelão-mor do exército disse que os defensores do aborto deveriam ser jogados no mar – prática de que a ditadura se valeu para assassinar presos políticos –, tendo recebido total apoio do Vaticano após essa infame declaração.

Alguns artigos da imprensa procuram mostrar o papa como crítico tanto do socialismo como do capitalismo: nada mais falso. Para João Paulo II e o Vaticano, o socialismo, de maneira geral, é uma das “ideologias do mal”. Ao passo que as críticas ao capitalismo são pontuais, e, na maioria, tratam de questões como a perda dos valores religiosos na sociedade moderna, causadas pelo consumismo ou pela nova moral sexual.

Mesmo o discurso pela solidariedade mundial não passa de palavras vazias, sem atacar as causas da miséria ou da exploração. Afinal, um dos conselheiros do órgão encarregado de elaborar a doutrina social da Igreja católica, a Comissão de Justiça e Paz, é Michel Camdessus, ex-chefe do FMI

Perseguição aos setores progressistas

Na América Latina, o alvo foi a Teologia da Libertação (TL) e os setores da Igreja ligados às lutas populares, acusados de introduzir temas marxistas no catolicismo. Um dos principais mecanismos usados foi a Congregação para a Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício da Inquisição), dirigida pelo cardeal Ratzinger, um dos membros mais poderosos do Vaticano. Por sua iniciativa, muitos teólogos ligados à TL foram censurados, como Leonardo Boff, tiveram suas obras banidas ou foram proibidos de continuar ensinando em suas universidades.

Dessa forma, enquanto a TL, as Comunidades Eclesiais de Base e as pastorais sociais perderam espaço, movimentos como a Renovação Carismática Católica, da qual o Padre Marcelo é o mais conhecido representante, ganharam força.

Condenações ao aborto, à homossexualidade e aos preservativos: uma interferência criminosa da Igreja

João Paulo II também defendeu toda uma série de posições extremamente reacionárias sobre comportamento sexual. Mais do que posições pessoais, o papa expressava as posições defendidas pelo conjunto da Igreja católica.

Nesse ponto, novamente se percebe a afinidade do Vaticano com a Casa Branca, particularmente durante os governos republicanos de Ronald Reagan, de Bush “pai” e de Bush “filho”. Entre os vários temas, três merecem destaque: a ardorosa condenação do aborto, do uso da camisinha e da união civil entre homossexuais.

Em seu último livro, João Paulo II comparou o aborto, atualmente permitido em vários países, com as formas de extermínio praticadas pelos nazistas nos campos de concentração, e acusou as uniões entre gays e entre lésbicas de serem uma grave violação às leis de Deus e da natureza.

A condenação ao uso da camisinha só pode ser vista como uma atitude criminosa, já que é o único método conhecido para se prevenir a disseminação da epidemia da Aids.

RICÚPERO, Rodrigo. O papa foi um santo? Disponível em <http://www.pstu.org.br/internacional_materia.asp?id=3348&ida=13>. Acesso em 14 de agosto de 2007.

"O que existe no Brasil é uma burguesia mafiosa, que decidiu usar a bandidagem fardada para se manter no poder e continuar gerindo seus lucros, cuja grande porcentagem é obtida de forma fraudulenta e irregular", afirma Maurício Campos, 44 anos, membro do Comitê de Comunicação da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência. A entidade apóia ocupações de imóveis e terras improdutivas, promove manifestações e organiza a classe trabalhadora. Por conta disso, Maurício já foi espionado e ameaçado diversas vezes, inclusive pelo Comando de Caça aos Comunistas, ainda ativo no Brasil. Nessa entrevista concedida com exclusividade ao AND, ele analisa o fenômeno da violência policial no Rio de Janeiro à luz do imperialismo ianque e mostra que a opressão contra as massas, incluindo as chacinas como a da Candelária, de Vigário Geral e, recentemente, a do Alemão, seguem a orientação do USA.

Marcelo Salles

AND - Qual é a política de segurança que existe hoje no Rio de Janeiro e qual a sua opinião sobre sua aplicabilidade?

— Aqui no Estado do Rio, e poderia dizer até no país, existe uma política de segurança e existe também uma prática das forças de segurança, que você nem pode chamar de política. Grande parte das forças de segurança é formada por grupos mafiosos, grupos que extorquem, têm negócios próprios, que exploram diversos serviços escusos e que em grande parte vivem de extorsão dos próprios bandidos não-fardados, dos próprios criminosos, do tráfico e por aí vai. Eu sempre coloco isso no início porque quando a gente fala em "política de segurança pública" parece que estamos tratando de um Estado de Direito, o que não é verdade. No Brasil não é isso.

O governo estadual, em particular, tem dado cada vez mais poder a essa polícia corrupta para executar uma política baseada no extermínio, no assassinato, na execução sumária. Isso vem ficando evidente ao longo dos anos, mas nos últimos meses se agravou muito com a suposta necessidade de uma segurança maior no dito combate ao crime mais intenso, a pretexto da necessidade de organização dos Jogos Pan-Americanos. Por isso eu digo, em poucas palavras: é uma política de extermínio baseada na conivência com a corrupção e baseada na força bruta e no assassinato. Tem uma política que diversos setores chamam de criminalização da pobreza que não é exclusiva da área de segurança. É uma política que envolve os grandes meios de comunicação e envolve os governos, que têm estimulado isso claramente, não só a criminalização da pobreza, mas eu diria que o preconceito de corte fascista. Com a proximidade do PAN, por exemplo, o governo, principalmente a Prefeitura do Rio, estimulou muito na Zona Sul a população de "classe média" a denunciar a presença de flanelinhas, de prostitutas etc., e isso criou um clima, um ânimo, nos setores mais fascistas, mais preconceituosos da "classe média", que têm resultado nesses casos todos que a gente tem visto: espancamento da empregada doméstica, do recente caso envolvendo os atores da Globo. E abertamente falaram "bate no preto, bate no preto". Quer dizer, essa juventude de tendência fascista da "classe média" está se sentindo muito poderosa e com permissão para fazer esse tipo de coisa, estimulado pelo poder público. A operação "Copa Bacana", desenvolvida em Copacabana, abertamente falava: "se houver criança na rua, denuncie". Quer dizer, estimulando claramente uma visão de segregação violenta de determinados setores da sociedade.

AND - E qual a parcela de responsabilidade do monopólio da imprensa nessa situação?

— O monopólio dos meios de comunicação tem grande responsabilidade nisso. Sempre associando no noticiário a questão da criminalidade ao jovem negro, ao morador da favela. E por trás disso tem outra coisa, que é a influência do USA, que é a orientação de como as forças de segurança devem agir na América Latina. Isso não é invenção, está muito longe de ser uma teoria da conspiração. Existem dados concretos em relação a esse intercâmbio, a esse entrelaçamento entre as forças repressivas aqui no Brasil e a orientação estratégica militar do USA.

O Brasil, hoje, atua no Haiti a partir de uma estratégia traçada pelo USA, há muito tempo. Aquele Estado foi o primeiro a transformar o Haiti num campo de experimento de guerra urbana. Quer dizer, o Brasil está aprendendo e desenvolvendo técnicas próprias que já começa a usar. O próprio Beltrame [Secretário de Segurança Pública do RJ, José Mariano] já declarou que muitas das táticas e ações utilizadas na operação do Alemão foram desenvolvidas no Haiti pelas tropas brasileiras. Outro elemento são os diversos acordos e encontros com autoridades ianques, que desde que era candidato o Sérgio Cabral vem mantendo, e com autoridades colombianas. Sendo que todo mundo sabe que o governo colombiano é dominado por pára-militares, os que chegaram ao poder através do Uribe [Presidente Álvaro], que é o governo mais próximo do USA. Politicamente, militarmente, dentro da América Latina é o governo mais próximo. E o Sérgio Cabral elegeu a Colômbia, o governo colombiano, e a forma de agir do Exército e da Polícia colombiana como modelo para o Brasil. Visitou a Colômbia várias vezes. Fala isso abertamente, que vai tomar a política colombiana como modelo, em particular o modelo de Medellín, para aplicar aqui no Brasil.

Recentemente, no dia 17 de maio, o Sérgio Cabral se encontrou, aqui no Rio, com a Anne Peterson [embaixadora e secretária-adjunta do Bureau de Assuntos Internacionais de Entorpecentes e Aplicação da Lei do governo americano]. Na ocasião, oficialmente foram fechados acordos de treinamento de policiais do Rio de Janeiro pelo FBI. Ela é a principal conselheira da Condoleezza Rice, secretária de Estado do USA, para assuntos de drogas e "combate" a drogas no mundo. Quer dizer, uma pessoa do alto escalão do governo Bush se encontrou com Sérgio Cabral para firmar um acordo de colaboração direta do governo ianque com o governo do Estado do Rio de Janeiro. O documento final desse encontro não foi divulgado, mas a relação é clara. Não foi por acaso que, no mesmo dia em que se encontrou com Anne Peterson, o Sérgio Cabral fez um encontro com empresários no BNDES e utilizou aquela expressão: "A pressão no Complexo do Alemão não iria ceder porque o Alemão era um foco de terroristas e gente do mal". (?!) Exatamente com essas palavras. "Foco de terroristas e gente do mal". Exatamente o discurso de George Bush, do governo ianque, em relação ao Afeganistão, ao Iraque, Faixa de Gaza...

AND - Quais foram as denúncias dos moradores do Alemão?

—É o que tem sido denunciado por alguns órgãos e principalmente por alguns jornalistas da imprensa de São Paulo. A imprensa do Rio fez claramente um grande acordo de publicar muita pouca coisa das denúncias. Roubo, violação de domicílio, arrombamento de casas que estavam fechadas, incêndio de automóveis, arrombamento de automóveis, furto, espancamento, muita gente baleada e execuções sumárias. Vários relatos de execuções sumárias, de pessoas que já estavam rendidas. Teve um depoimento de que três rapazes já estavam rendidos numa casa, cercados. "Vamos sair, vamos sair...". Saíram, os policiais mandaram eles se ajoelharem e fuzilaram na hora. Isso aí está em vários depoimentos. Esses depoimentos não estão sendo muito levados em consideração, estão pegando mais pelos laudos. O laudo já indica bem que foi execução, a maior parte pelas costas — uma prática comum da polícia: pegar a pessoa, espancar e mandar correr. Quando a pessoa corre, é fuzilada. Matam pelas costas. A outra é mandar ajoelhar e fuzilar. Então um laudo que indica muitos tiros pelas costas ou então tiro de cima para baixo geralmente é uma ou outra modalidade de execução. E outra modalidade muito comum é deitar de bruços e dar um tiro na nuca. 16 dos 19 corpos baleados pelas costas tem muitos tiros à curta distância. Se juntar esses laudos com os depoimentos, o fato de que quase todo mundo ou todos foram executados não vai dar para negar. Agora vamos ver até que ponto a investigação vai ser séria. Vai depender muito da pressão dos movimentos sociais e da pressão internacional.

AND - Qual é a lógica dessa ação da polícia? É controlar, manter as pessoas com medo?

— São diferentes bandos que vivem da extorsão. Um bando policial para extorquir o tráfico de uma favela, por exemplo. Qual é a melhor maneira de negociar? A violência. Eles têm que mostrar que matam friamente, que são capazes de matar muito, e poder extorquir muito. A moeda de troca da polícia é a violência. O principal não é existirem policiais corruptos. É existir um sistema dentro do Estado que permite que esses policiais corruptos não apenas fiquem impunes, mas se reproduzam cada vez mais e tenham cada vez mais poder dentro da polícia. Hoje, a parte corrupta da polícia é tão poderosa que até os policiais que não são corruptos têm medo de fazer qualquer coisa. Não vou dizer que todos os policiais estão metidos com corrupção, mas aqueles que não estão, não têm poder nenhum. Tem comandantes que são líderes de verdadeiras quadrilhas. Quando sai de um batalhão leva com ele um monte de gente. Porque não querem se desfazer da quadrilha. Tem aquele Garcia, do 6º BPM, Álvaro Garcia, que era major quando teve aquele espancamento na Cidade de Deus. O cara chegou a coronel e ganhou o comando de um batalhão. Se fosse uma polícia, mesmo dentro das normas burguesas, jamais o cara seria promovido, ia ser afastado. Mesma coisa o Murilo Leite. Aonde vai leva o pessoal dele. Geralmente o policial não corrupto prefere até abandonar o trabalho na rua, arranja um jeito de ficar na burocracia.

AND - Como isso pode funcionar?

— Existe uma orientação do Estado de permitir que essas máquinas, essas quadrilhas, dominem completamente e continuem com esse poder. Essa orientação vem da classe dominante, que fala assim: "Vamos trabalhar com essa bandidagem mesmo. Esses são os nossos protetores". Também tem relação pessoal. Grande parte dos comandantes tem relação direta com políticos, empresários, familiares... É uma coisa muito imbricada. O que existe no Brasil é uma burguesia mafiosa. Uma burguesia que se organiza de maneira mafiosa e age de maneira mafiosa. É só ver os escândalos de corrupção que estão aí para entender tudo. Dá para ligar uma coisa com a outra. Eles agem de maneira mafiosa nas licitações públicas, agem de forma mafiosa nas eleições, agem de forma mafiosa na repressão policial... Toda forma de agir é assim. Com o objetivo claro de se manter no poder e continuar gerindo seus lucros cuja grande porcentagem é obtida de forma fraudulenta e irregular.

AND - E quanto ao que o monopólio da imprensa andou divulgando, de que o governador Sérgio Cabral havia proibido a indicação política para os comandos dos batalhões de polícia?

— Quem acompanhou o processo das eleições já sabia que isso não era verdade. Teve deputados eleitos pelo partido do Cabral, com clara ligação com o Cabral, que foram deputados e vereadores que montaram esquema de crescimento de pára-militares na Zona Oeste, em Jacarepaguá. O Jerominho, Natalino, todo mundo sabe disso, as comunidades sabem. Eles chegavam lá e falavam: "Vamos limpar a comunidade, vamos ter armas mesmo pra chegar aqui e expulsar os caras". Quem sabia disso percebeu que tudo o que o Cabral falava era jogo de cena, uma coisa para consumo externo. Houve certamente uma ofensiva muito grande por parte dessa máfia da polícia e dos aliados ianques do Cabral, no sentido de radicalizar muito rápido, muito rápido mudar de discurso e de prática. Mas isso já vinha de antes. Esses contatos com a Colômbia já vinham antes da eleição. Quem percebia isso, percebia. Agora, quem se deixou levar pelo discurso acha que houve mudança. Mas não houve, não.

AND - Você fez uma análise mostrando que é a primeira vez que o Estado justifica uma chacina. Pode explicar melhor?

— Se a gente pegar outros casos de matança cometidos pela polícia na história do Rio de Janeiro, matanças com muita gente, até então nunca o Estado chegou e disse que os policiais envolvidos estavam certos. Chacina da Candelária. Eram policiais contratados por comerciantes para "limpar" o centro das crianças de rua. Aí está: agiram contra a lei, não estavam fardados, e tal. Mesma coisa em relação a Vigário Geral, que embora tenham ido fardados, o Estado disse que eles não estavam em uma operação permitida. Disse que era uma operação ilegal. Nas outras grandes chacinas, a mesma coisa: nunca o Estado falou que eles estavam fazendo o serviço deles. Em ocasiões menores, sim, eles falavam isso. Agora, nessa chacina do Alemão, não. Até agora o discurso está sendo raivoso. "São todos bandidos". Nem pensa "não, talvez...". Mas não, o governador diz que todos são bandidos. Está nos jornais de 6 de julho de 2007: "A polícia fez certo. Vamos continuar". Isso é um dado que mostra a escalada no sentido de liberar a polícia para fazer tudo.

AND - Então a intenção é continuar?

— Eles não fariam um discurso tão duro se por trás disso não estivesse a intenção de continuar com essa política. Eles não arriscariam um desgaste político muito grande... E se começam a aparecer provas, como já estão aparecendo, de execução sumária? Eles vão ficar completamente... Mas não querem saber... Devem ter por trás muitas garantias do USA, para bancar esse jogo violento. Estão fazendo isso nesse momento, e ainda tem a questão do PAN. Estão todos olhando para os Jogos Pan-Americanos, e fazendo tudo para ele acontecer... Foi a ocasião que eles escolheram para essa radicalização. Agora, vai continuar. Porque essas armas compradas para o PAN permanecerão nas mãos dessa polícia. Assim como todos os equipamentos.

AND - Qual o interesse do USA para manter esse estado de coisas?

— Olha, o interesse maior do USA é colocar em prática uma política mundial de militarização de todos os conflitos. Seja em países da Ásia, da África ou da América Latina, a idéia e a política que o USA tem implementado, e não é coisa só dos republicanos, não. O Clinton já tinha bombardeado o Sudão. É a questão de militarizar totalmente todos os conflitos. É uma política de guerra total. E utilizam diversos pretextos para isso. Principalmente dois: "terrorismo" e "tráfico de drogas". E cada vez mais misturados. Os discursos estão cada vez mais misturando uma coisa com a outra. E o Cabral toda hora usa a palavra "terrorista" no lugar da palavra "traficante". Está ensinando a alguns subalternos a usar esse discurso também. Toda hora trocar "traficante" por "terrorista" para se adaptar ao discurso dominante do USA. É uma política diante dos problemas sociais que o capitalismo está passando, com todo o desemprego e os conflitos sociais que isso gera, e passa a enfrentar isso com força bruta. E mais particularmente devido aos problemas específicos decorrentes do declínio dessa potência mundial.

A única vantagem que o USA têm hoje é a força militar. Tudo o mais ele perdeu. Não tem mais vantagem tecnológica, não tem mais vantagem econômica. Mas a vantagem militar, tem. Isso é inegável, é a maior de todas. Então, quanto mais avança a situação de guerra, de conflito no mundo, os setores do USA que detêm as maiores corporações do capital monopolista — que giram em torno do aparato militar, que são os mais poderosos — reúnem também mais condições de obter lucros.

AND - Com venda de armas e equipamentos?

— Tudo. Venda de arma, equipamento, produção, consultoria em segurança, tudo. E as possibilidades econômicas que uma guerra gera, como no Iraque. As empreiteiras que fazem imensas obras... Mas o objetivo é esse mesmo. Não tem nada a ver com levar ordem ao mundo. Depois que invadiram o Afeganistão, o que já tem algum tempo, o tráfico de ópio aumentou. Fazem a mesma coisa sob o pretexto de combate ao "terrorismo". Não é muito diferente do que se faz aqui no Brasil. Grandes empresas trabalhando abertamente com estruturas mafiosas.

AND - Por último, pediria que você comentasse a foto daquele policial fumando charuto, caminhando ao lado de uma vala de corpos, numa quase obsessão do monopólio da imprensa pela figura que ele representa.

— Primeiro, aquele não é um policial qualquer que está fumando charuto. E nem é o charuto. Esse é apenas o lado pitoresco da história. O mais importante é saber que policial é aquele. É um policial altamente treinado, recebeu curso da Swat...

AND - ...que é mais um indício de relação com o USA.

— Exatamente. E que abertamente fala que gostaria de estar na Faixa de Gaza. O Torres, esse policial, se ofereceu como mercenário para lutar no Iraque. Sabe essas empresas que contratam mercenários? Ele se ofereceu. Isso saiu na imprensa há algum tempo. Então, o importante ali é saber quem é aquele cara. E encarnando a figura do guerreiro, que dá tiro, que mata mesmo. E que vê isso como uma coisa tranquila. Deve ter parte da sociedade achando que diante disso tudo "a gente precisa de uma pessoa dessa, que mata friamente, que não se abala, que depois de matar ainda fuma um charuto. É o nosso Rambo". Isso vem sendo trabalhado há muito tempo. O próprio filme Rambo é um exemplo dessa figura cultivada pelo monopólio da imprensa ianque.

AND - Quando teve a outra ditadura, também se montou um sistema de comunicação que, a pretexto de integrar o Brasil, serviu de sustentação do regime. Você acha que hoje em dia acontece a mesma coisa? Seria possível sustentar esse modelo sem o aparato ideológico?

— Não. Sem essa imprensa, que inclusive é a mesma estrutura montada pelos militares, não seria possível. A Rede Globo continua dominando hoje. Com métodos mais sofisticados, como se fosse um pouco mais independente. De vez em quando solta uma matéria polêmica, mas na verdade é a mesma coisa. No dia-a-dia o que a gente vê... A questão da identificação, que sempre mostra cena de favela e tiro, favela e violência. É difícil ter um "Jornal Nacional" ou um "RJTV" sem imagem de favela. E, quase sempre, falando de tiro, de confronto. Favela e tiro, favela e confronto. Seria muito difícil criar uma justificativa social para tanta matança, tanta execução sumária, se não se criar na opinião pública pelo menos a seguinte visão: "Esse é o preço que a gente tem que pagar para a cidade não ser dominada pelos traficantes". Mas já está dominada. Porque os grandes traficantes não estão na boca, são as grandes redes mafiosas que estão por aí, inclusive a polícia.

Nos três primeiros meses desse ano, segundo o Instituto de Segurança Pública, foram mortos 10 policiais em serviço e 40 fora de serviço. Esses geralmente são mortos em conflitos relacionados a grupos pára-militares. A partir da decisão política de alguns, como César Maia que falou isso abertamente, como Eduardo Paes, que todo mundo sabe que é ligado a grupos de extermínio de Jacarepaguá faz tempo, e agora é o secretário de Esportes e Turismo de Sérgio Cabral. Só que deram muita arma para esse pessoal, imaginando que fossem controlar as áreas do PAN. O César Maia até criou o termo "auto-defesas comunitárias", mas depois parou com isso, viu que não pegou bem. Um termo copiado da Colômbia, onde há as "auto-defesas unidas da Colômbia". Mas não deu certo isso porque botaram muitas armas nas mãos desses grupos, que geralmente são formados por muitos policiais e ex-policiais. São mais ou menos independentes. Não há uma grande estrutura de grupos de extermínio. Geralmente são pequenos grupos e competindo pelo mesmo mercado. E não existe mercado para tanta gente armada. Quais são os mercados? Segurança privada, que é o extermínio propriamente dito, é quem o empresário pede para matar. E depois começaram a se diversificar para caça-níqueis, vans, gato-net, gás, mais ou menos isso. Começou a rolar muito dinheiro nisso, mas mesmo rolando muito dinheiro, não dá para todo mundo porque é muito grupo com arma na mão. Então começou a disputa por território, mais visível nessa disputa pelos caça-níqueis. E está morrendo muita gente. Zona Oeste, Baixada, São Gonçalo. É essa briga entre eles. Em São Gonçalo morrem 15 por semana. Cresceu a ganância e começaram a se matar.

AND - Na Rede Contra a Violência vocês, de fato, incomodam o poder. Vocês tentam organizar as massas, promovem atos, manifestações públicas, vão para as ruas. Eu soube que você já foi ameaçado pelo Comando de Caça aos Comunistas, além de ter recebido outras tentativas de intimidação. Pode me contar como foi?

— Foi em 2000. Fizemos uma manifestação sobre o aniversário de 7 anos da chacina de Vigário Geral. A manifestação foi massacrada pela imprensa. O próprio Garotinho, na época, foi à imprensa dizer que era uma manifestação organizada junto a traficantes, um troço muito pesado. Não houve repressão física, mas houve uma forte repressão da imprensa reacionária. Mas mesmo assim a gente conseguiu fazer a manifestação. Fiquei até impressionado, achei que ninguém ia. E eles avisaram: vai ter não sei quantos policiais à paisana filmando e fotografando porque a gente sabe que isso está sendo organizado por traficantes. Isso foi em agosto. Em setembro a gente fez uma manifestação na Praça XV, em frente à Bolsa de Valores. Quando a gente chegou, o pessoal ficou com medo e fechou a Bolsa. Aí a gente notou dois caras, de longe, tirando foto da gente. Estavam escondidos atrás do chafariz. Aí eu falei: "Vamos dar uma dura neles só pra mostrar que a gente não está de bobeira". Aí fomos dois companheiros de cada lado e pegamos eles de surpresa. Um ficou apavorado e correu para Praça XV. O outro correu para lado do Paço Imperial. Fomos atrás desse. Ele saiu andando, quase correndo, e a gente atrás. Aí ele entrou num táxi, mas se deu mal porque a rua estava parada — ali está sempre engarrafado —, fechou o vidro e trancou a porta. Aí um companheiro chegou e deu uma porrada no pára-brisa e quebrou o pára-brisa. O cara ficou assustado. Eu disse: "Olha, você estava fazendo uma coisa que não deve. Fotografando a gente". Ele disse "não, não, eu sou um cidadão, sou turista". "Mas turista não fica fotografando escondido. Olha, tem um monte de gente aqui querendo te bater. Me dá seu filme que tá tranquilo". Aí ele me deu e foi embora. Depois que revelei deu para ver que ele estava há pelo menos duas horas tirando foto da gente. Dois dias depois chegou a carta lá em casa. Tinha o remetente do meu local de trabalho, para minha casa, assinado Carlos Coimbra Cabral, que é um nome fictício, mas tem a sigla CCC. E a carta era profissional, dando passo a passo de onde eu morava, a placa do meu carro, a empresa onde eu trabalhava, o que eu tinha feito na última semana, inclusive o ato na Praça XV, dizendo: "Não gostei do que você fez, atacou um trabalhador fazendo o seu serviço, isso não se faz". E terminava: "Não estamos dormindo. Nosso braço é longo. Assinado: Comando de Caça aos Comunistas". Aí eu denunciei, o Tortura Nunca Mais divulgou uma nota e depois andei recebendo uns telefonemas, mas foi diminuindo. Mas eu tenho um dossiê com um companheiro que só eu sei quem é, que se acontecer alguma coisa comigo provavelmente vão descobrir a autoria.

O cartunista Carlos Latuff (entrevistado pelo AND na edição 35) foi intimado pela polícia no dia 24 de julho. A delegada Valéria de Aragão Sádio, da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra Propriedade Imaterial, convocou o artista gráfico devido às charges que fez com o símblo dos jogos Pan-Americanos, o sol Cauê, com um fuzil na mão e ao lado do Caveirão. A charge é uma crítica às violências cometidas pelo Estado contra o proletariado e estava sendo utilizada em camisetas pela Rede Contra a Violência. Na intimação, a delegada deixou claro que se Latuff não comparecesse, seria enquadrado no crime de desobediência. Em sua defesa, o cartunista argumentou que outros artistas também utilizaram o mascote do Pan e não foram intimados, como é o caso de Aroeira, do jornal O Dia. Ou seja, a intimação contra Carlos Latuff é mais um exemplo da perseguição política dos agentes do Estado contra os movimentos populares.

SALLES, Marcelo. A violência que a burguesia gosta. A Nova Democracia. Disponível em <http://www.anovademocracia.com.br/36/06.htm>. Acesso em 21 de agosto de 2007.

Por Jorge Serrão

O Governo federal comete mais uma inconstitucionalidade contra os cidadãos-eleitores contribuintes. O presidente Lula da Silva fechou um acordo com os ingleses para cometer o crime de violar a privacidade dos brasileiros. O Ministério da Fazenda e a Super Receita Federal prometem, em três semanas, incluir, na Serasa, o nome de brasileiros com débitos tributários. Uma negociata destas seria motivo para um impeachment, por crime de lesa pátria e de responsabilidade. O agravante é que a Serasa pertence aos ingleses do Experian Group Limited, desde 26 de junho passado.

Não foi por coincidência que este acordo inconstitucional entre o governo brasileiro e a Serasa foi anunciado, exatamente, na semana em que o prefeito do distrito financeiro da City Londres, sir Lord Mayor John Stuttard, visita o Brasil. Na edição de 22 de março de 2007, o Alerta Total antecipou que os controladores ingleses da economia mundial controlariam as informações pessoais de cada cidadão brasileiro, com a conivência do governo petista, que é sustentado pela Oligarquia Financeira Transnacional. Vendida pelos bancos brasileiros ao capital inglês, a Serasa possui o maior banco de dados da América Latina sobre consumidores, empresas e grupos econômicos.

O advogado Ives Gandra Martins considera que a medida viola não só o Código Tributário Nacional (CTN), mas também fere a Constituição, que assegura aos cidadãos o direito à privacidade. A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional estuda como será o cronograma de inclusão dos nomes dos devedores na Serasa. A inclusão na “lista negra” ocorrerá paulatinamente. Já está acertado, por exemplo, que contribuintes que tenham dívidas, mas estejam com parcelamento em dia, não serão incluídos, assim como aqueles com bens penhorados que estejam na fase de execução fiscal, e os que têm liminar na Justiça suspendendo a cobrança da dívida.

O Experian Group Limited é líder global na prestação de serviços analíticos e de informação a organizações e consumidores. A empresa é listada na Bolsa de Valores de Londres (London Stock Exchange), tem 13.500 funcionários em 36 países (atendendo a clientes em mais de 60 países) e gera receitas anuais de US$ 3,5 bilhões. A empresa tem sede administrativa situada em Dublin, na Irlanda, e duas sedes operacionais, em Costa Mesa, Califórnia, e Nottingham, no Reino Unido. O executivo-chefe da empresa britânica é Don Robert.

No Brasil, a Experian comprou em meados de abril a Inform@rketing - uma empresa de marketing que atua no gerenciamento de campanhas e no tratamento de mailing lists. Entre os clientes da Experian, estão instituições financeiras, empresas de comunicações, planos de saúde, seguradoras, comércio varejista, empresas de vendas por correspondência e pela internet, entre outros.

O controle sobre as informações pessoais de cada cidadão brasileiro foi a maior tacada da City de Londres, que já comanda a reestruturação da Bola de Mercadorias & Futuros (BM&F) do Brasil. O negócio foi fechado por Alcides Lopes Tápias, presidente da Aggrego Consultores, que prestou consultoria para as companhias envolvidas na transação. O Experian adquiriu 65% da Serasa. Pagou US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 2,32 bilhões) pela empresa, que era controlada pelos bancos Itaú, Bradesco e Unibanco.

Após a operação, a fatia do Bradesco no capital da empresa passou de 26,50% para 8,36% (corresponde à venda de 676.503 ações ordinárias), do Itaú foi de 32,63% para 10,29% (832.176 ações), e do Unibanco caiu de 19,17% para 6,05% (489.195 ações ordinárias). Os três bancos continuam acionistas e indicam membros do conselho de administração. Além disso, os bancos Santander Banespa, ABN Amro Real e HSBC, que tinham participações de 7%, 5,32% e 4,33%, respectivamente, também venderam cerca de 68% de sua participação na Serasa.

Nos próximos seis meses, a participação da Experian na Serasa aumentará para 70%. A Experian controla três dos cinco principais grupos de análise de crédito do mundo - Estados Unidos, Reino Unido e Brasil.

SERRÃO, Jorge. Lula estupra a Constituição e negocia com os ingleses da Serasa as dívidas e os dados sigilosos dos brasileiros. Disponível em <http://alertatotal.blogspot.com/2007/08/lula-estupra-constituio-e-negocia-com.html>. Acesso em 31 de agosto de 2007.