Ela lembra a Texel, mas as pernas são longas demais, se olhar com atenção tem o porte da Santa Inês, contudo tem lã. Não é grossa, mas tem. Assim é a Ovelha Pantaneira, uma mistura de diversas raças de ovinos que estão nas planícies alagadas desde a vinda dos primeiros bandeirantes que buscavam ouro nos sertões brasileiros há cerca de 300 anos.
Para preservar um animal que pode se tornar mais uma raça de ovinos a Uniderp (Universidade para Integração do Pantanal) Anhanguera criou em Campo Grande o CTO (Centro de Tecnologia em Ovinocultura), criado exclusivamente para estudar as características dessa ovelha. "Ela é como o povo brasileiro, tem um pouquinho de cada raça", compara o coordenador do CTO, professor Marcos Barbosa Ferreira. "Ile de France, Dorper, Sullfolk, Texel e Santa Inês se misturaram e, com a ajuda do meio ambiente, o Pantanal, formaram a ovelha Pantaneira. Onde quer que você vá naquela região vai ver este animal", completa.
Na verdade ela ainda não é uma raça reconhecida mas sim um grupo genético com características próprias adquiridas em função dos cruzamentos e da evolução natural. Para suportar o Pantanal os animais foram modificando seus corpos ao longo de gerações. Elas têm as pernas mais longas do que qualquer outra raça de ovelha. "Isso facilita ela andar em terreno alagado sem ter de levar o peso extra da água retida na lã", observa Ferreira.
Outra característica visual que poder ser percebida é o tamanho das orelhas, bem menores que seus parentes de outras raças.
O pulo da ovelha
Nas andanças pelo Pantanal para se selecionar os exemplares que estão sendo estudados na universidade os pesquisadores perceberam uma coisa: a qualquer época do ano sempre havia uma borrega ao pé das mães. Isso é muito estranho, pois os ovinos têm uma estacionalidade foto-periódica, ou seja, têm o período em que reprodução é regulada pela luz solar, isso ocorre tanto em fêmeas quanto em machos. Contudo, a ovelha pantaneira não apresenta esta característica e chega a ter duas parições por ano, quando o normal é apenas uma.
Segundo Ferreira, os ovinos no mundo todo têm apenas um parto ao ano, no Brasil este número é de um e meio. Em algum momento o DNA da ovelha Pantaneira entendeu que os animais poderiam se reproduzir sem problema durante todo o ano. O professor explica que na natureza a reprodução é um "luxo". "Só acontece quando o animal está em boas condições corporais, com alimento para si e para sustentar sua cria.
Por isso na Europa só há cordeiros na primavera, quando existe comida para todos". Além disso, por ser um animal rústico, tem grande capacidade de converter em carne uma pastagem pobre em proteína, como por exemplo a brachiária. No período de dois anos uma matriz Pantaneira entrega quatro cordeiros, quando, na melhor das hipóteses, outras raças entregam apenas três. Se comparada com a capacidade de cria das ovelhas no Uruguai a produtividade é simplesmente o dobro.
Tal característica pode ser o principal diferencial da raça, isso porque o grande problema para a indústria frigorífica brasileira que trabalha com ovinos é a falta de regularidade na produção. "Pode-se fazer um sistema de engorda, onde alguns criadores forneceriam os cordeiros e outros finalizariam o processo, dessa forma o fornecimento de animais para a indústria seria constante", diz Ferreira, lembrando que os animais chegam aos 30 quilos em 120 dias como um cordeiro de qualquer outra raça. "Por isso, preservar as qualidades genéticas da ovelha Pantaneira é tão importante", salienta. Pesquisas apontam que o cruzamento entre fêmea Pantaneira e macho Texel produz um cordeiro com excelentes qualidades de ganho de peso. "Mas dois cuidados têm de ser tomados: com os machos de outra raça que têm estacionalidade, por isso se faz necessária a inseminação artificial, e também com os filhos deste cruzamento que não devem se reproduzir, pois poderiam acabar estragando as características da ovelha Pantaneira".
Ainda não se sabe quantos animais dessa possível nova raça existem, mas eles são encontrados em qualquer fazenda no Pantanal. Para ganhar o status de raça a ovelha Pantaneira necessita ser reconhecida como tal pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Recursos Genéticos e Biotecnologia, que fica em Brasília. "Mas para isso os animais têm de ter a capacidade de transmitir características fenotípicas [físicas], mas no processo de separação dos indivíduos que apresentam as melhores condições físicas pode-se perder as vantagens genéticas", alerta.
O caminho para se afirmar se é ou não uma nova raça ainda é longo, mas o certo é que entre os criadores da região do Pantanal não há melhor animal para se ter do que os que já se encontram lá.
• Fonte: Folha do Fazendeiro