Embora não se consiga concordância sobre o que é melhor, o princípio do melhoramento é selecionar os melhores e dar a eles maior chance de deixar descendentes, isto porque sabemos que os melhores têm maior chance de deixar bons descendentes.
Selecionar é escolher. Há pessoas que acreditam que sabem escolher um "bom animal" só de bater o olho, no dia em que o bichinho nasce. Pode ser. Mas aí cabe discutir o que vem a ser um "bom animal" e o que vem a ser um "animal melhorador". Já falamos muito sobre as pistas de julgamento, e, sendo um pouco mais condescendentes com a turma da beleza e pureza racial, podemos aceitar que realmente existem pessoas com olho bom para selecionar campeões. É uma questão de experiência, de arte e de um pouco de futurologia. Para pista o que conta e o que dá dinheiro é o animal bonito e bem tratado, portanto o melhor animal é o que mais encanta aos olhos.
No entanto, quando falamos de animais de produção, escolher "a olho" é uma tarefa impossível. Sem conhecer o material do ponto de vista produtivo, nossas chances de fazer boas escolhas ficam reduzidas a zero. Mas melhorar somente a produção pode não ser o mais interessante.
Vivemos num país sem subsídios para a produção pecuária, então o importante não é o que o animal produz, mas o quanto ele produz de lucro. Assim, é importante saber qual a receita e qual a despesa com cada animal. Para isto é imprescindível ter dois tipos de anotação: a zootécnica, onde procuramos registrar os eventos ligados à vida produtiva dos animais, e a econômica, onde se registram os gastos, os investimentos e as receitas ligadas à atividade e a cada animal.
Tudo isso parece muito complexo, principalmente para o produtor, que já se ocupa de tanta coisa. É bastante comum o produtor pedir para o técnico um modelo de ficha de anotação, ou um programa de controle de rebanho, mas muitas vezes a ficha e o programa ficam esquecidos depois de algum tempo. Isto acontece porque pouca gente faz uso prático das informações, e desta forma o trabalho de anotação é em vão.
Tenho uma amiga em Brasília que chegou a ter mais de duas mil ovelhas deslanadas e fazia uma anotação zootécnica excelente. O marido dela fazia a anotação econômica. Essa minha amiga é a doutora Maria Isabel Boffil, veterinária, e referência na ovinocultura do Centro Oeste. O mais curioso, no entanto, é a forma que ela achou para fazer as anotações. Seus funcionários de campo recebiam no início do ano, cada um, uma agenda. Essa agenda deveria ficar com eles todo o dia e os funcionários deveriam anotar todos os eventos relacionados ao rebanho, no dia correspondente: nascimento com identificação, peso do cordeiro e número da mãe; mortes, com identificação do animal e causa aparente; pesagens, vacinações, vermifugações e outros eventos sanitários; vendas e preço de venda. No fim de semana a Maria Isabel passava as anotações para uma agenda única, com as devidas correções e com o esclarecimento de eventuais dúvidas.
Com esse procedimento ela podia, inclusive, avaliar o envolvimento do funcionário com o trabalho. Maria Isabel tinha, ainda, o cuidado de manter uma ficha individual dos animais. Acontece que ela não gostava de computadores, o que certamente facilitaria seu trabalho de compilação de dados.
O marido, economista, guardava todos os recibos de compras e despesas gerais da fazenda em envelopes identificados com o respectivo mês. Tive a oportunidade de trabalhar com esses dados no meu doutorado e posso dizer que não vi nada igual, nem antes nem depois dessa época. A idéia é a mais simples possível, como toda boa idéia, fácil e prática de se adotar.
De posse desse tipo de informações é possível dizer quais são os melhores animais, do ponto de vista produtivo, econômico, e, com um pouco mais de refinamento, aqueles que podem contribuir com progênies melhores. As anotações zootécnicas e econômicas são, então, ferramentas de gestão de suma importância, e subsídio imprescindível para o melhoramento genético. Aqui não se trata de arte, nem de clarividência, nem de sorte, trata-se da mais pura e simples matemática, aliada à economia e a conhecimentos de genética.
Octávio R. Morais
Pesquisador da EPAMIG