Carta de Paulo Freire ao Pe. Rogério Cunha
11:19 @ 04/03/2011
Meu caro Rogério1 Cambridge, Out. 1. 69 Recebi sua carta, precedida de outra de meu querido amigo Fiori, a propósito de sua intenção de estudar o esforço que venho fazendo no sentido de uma educação para a liberdade. Confesso que sua determinação de fazer um tal estudo faz crescer em mim a responsabilidade no cumprimento do que sempre, humildemente, considerei uma tarefa a realizar. E é com o espírito de tarefeiro que me disponho a oferecer-lhe todos os dados necessários a seu trabalho, tal qual venho fazendo com uma jovem italiana e um professor assistente de Boston University, ambos escrevendo, também, sobre o mesmo tema, ainda que sob ângulos distintos dos seus. Concordo com você em suas observações em torno da ”alienação imensa, profundíssima a que os sacerdotes são sujeitos durante os anos de sua formação [talvez fôsse melhor dizer de sua deformação] no seminário.” Já é tempo, realmente, de mudar. Se é verdade que os seminários, enquanto instituição, não podem ser vistos ou compreendidos fora da estrutura da sociedade em que estão, o que vale dizer que sua transformação implica na radical modificação da estrutura, é possível, porém, antes mesmo que esta se verifique, tentar que eles se façam uma das vozes de tal modificação.* ________________________________ 1 Documento doado ao IPF por Rogério Ignácio de Almeida Cunha, em 26/10/2005. Este texto, digitado pelo próprio doador, mantém, dentro do possível, o formato original do documento manuscrito por Freire. Em razão disso, todos os destaques em verde, grifos, palavras em maiúsculas, números de páginas, formas ortográficas (hoje modificadas), entre outras características, foram mantidas tais como as existentes no original. Rogério é Licencidado em Letras e em Filosofia. É também Doutor em Teologia pela Universidade de Münster. Atualmente, entre outras atividades, assessora a Pastoral Operária e é colaborador do CEBI - Centro de Estudos Bíblicos - no desenvolvimento da “Leitura Popular da Bíblia”. • Deixo de referir-me, pelo menos hoje, a como vejo a transformação do próprio seminário, em função das experiências de uma fase histórica eminentemente secularizada e à qual a estrutura hierárquica da Igreja, retrògradamente medieval, não pode responder. Estou convencido, com IVAN ILLICH, de que o Sacerdócio, como vem sendo assumido, tende a desaparecer, cedendo seu lugar a uma outra forma de expressão inserida nas novas condições históricas que vivemos. Daí que, já de agora, devam constituir-se em centros utópicos, tomando UTORIA no sentido em que a discuto num ensaio que acabo de escrever “CULTURAL ACTION AND CONSCIENTIZATION”. Isto é, como a indissolúvel unidade entre denúncia e anúncio. Denúncia das estruturas desumanizantes e anúncio, - que não podem ser feitos fora do engajamento - de estruturas em que os homens possam SER MAIS, possam amar, sorrir, cantar, criar, recriar. Somente assim poderão os seminários ser proféticos e falar autenticamente de esperança. Se é verdade que para os cristãos nos basta, como fundamento de nossa esperança, a convicção de que Deus não mente, verdade também é que esta convicção não pode justificar nossa inação; nossa neutralidade — que é conivência — em face de uma realidade em que os homens estão sendo proibidos de ser. Não há esperança na passividade, na acomodação, no ajustamento, mas na dialeticidade inquietação e paz, que caracteriza o ato crítico do permanente buscar. Por isto é que minha espera só é válida, se busco e luto com esperança. Uma teologia em que a esperança fôsse a espera sem busca seria profundamente alienante, porque estaria tendo no homem um demitido de sua práxis no mundo. No fundo, esta seria uma teologia que, assosciando esperança com passividade, estaria negando o homem como ser da transformação e, ainda, negando a própria salvação como busca na comunhão. O homem seria um puro espectador, um paciente “esperador” de sua salvação, não um “trabalhador” dela. A salvação deve ser trabalhada para que possa ser esperada. Somente na medida em que busco com esperança, tenho o direito de esperar. Esta esperança, de caráter fatalista, que nos leva à espera inativa e, por isto mesmo falsa, que nos leva à acomodação, ao “status quo”, envolve um equívoco fatal a dicotomia absurda entre mundanidade e transcendentalidade. Nada faço no mundo senão esperar pelo que há mais além dele, que é puro, justo e bom. Desta forma, compactuo com a injustiça, com o desamor, com a exploração dos homens no mundo e nego o próprio ato de amor com que Deus, Absoluto, se limita a Si mesmo [e sòmente Ele se poderia limitar a SI PRÓPRIO] ao ter nos homens, embora finitos, inconclusos, inacabados, seres da decisão, copartícipes de sua obra criadora. …nor is it farfetched to say that artistic production of man, or even ordinary work, is a kind of analogous participation in the creative activity of God Himself*. _____________________________ • Kreyche, Robert Y. – “God and Reality – an introduction to the philosophy of God”. Holt, Rinehart and Winsten – New York – Chicago – 1965, pág 97. _____________________________ Não posso aceitar nenhum imobilismo, que destroe o profundo sentido utópico e profético da mensagem cristã, mensagem que nos sela como seres viáticos, opostos que devemos ser à estabilidade, à parada, que Cristo denunciou quando, depois de um descanso com Seus apóstolos, num lugar gostoso e manso, um deles, mais ou menos LHE disse: Porque partir Mestre, se aqui estamos tão bem Convosco, em paz? E Ele: Havemos de partir, de marchar, de falar aos homens!. Fora desta unidade denúncia-anúncio, que são ação e reflexão constantes, não há esperança e me parece que perdemos o nosso endereço enquanto homens no mundo, com o mundo e com os homens. Talvez nunca, tanto quanto hoje, precisamos tanto de um rejuvenescimento teológico. Algo, porém, que aproveitando o balanço que a chamada Teologia Radical da MORTE de DEUS, provocou na teologia medievalizada, vá mais além dela. Faça o que parece que ela não foi ou não está sendo capaz de fazer. Às vezes, embora não seja teólogo mas um “enfeitiçado” pela teologia, que, em muitos aspectos, marca o que penso vir sendo minha pedagogia, tenho a impressão de que o TERCEIRO MUNDO*, por sua natureza utópica e profética de mundo emergindo pode converter-se numa fonte inspiradora deste ressurgir teológico. É que as metrópoles dominadoras estão proibidas, por sua natureza de sociedades para as quais o futuro é a manutenção de seu presente de metrópoles, de ser utópicas. Estão proibidas de ser esperançosas, estão ameaçadas pelo“establishments” que temem todo futuro que as negue. Sua tendência é condicionar filosofias e teologias pessimistas, negadoras do homem como ser da transformação. Por isto é que, para pensar – e há os que pensam – fora deste esquema, nas metrópoles, é necessário, primeiro, “fazer-se” homem do TERCEIRO MUNDO*. Esta, me parece, devia ser a tarefa básica, ‘the primary concern” dos teólogos do Terceiro Mundo. “Banhar-se” de Terceiro Mundo, para que, utópicos, proféticos, esperançosos, possam ser homens do Mundo. Mas, ser homem do Terceiro Mundo é renunciar às estruturas de poder, aos “establishments” que, neste mundo, representam o mundo da dominação. É estar com os oprimidos, com os “condenados da terra”, numa postura de autêntico amor, que não é a da conciliação impossível entre quem oprime, esmaga, explora e mata e quem é oprimido, esmagado, explorado e prestes a ser morto. É tempo já de os cristãos distinguirem esta coisa tão óbvia: Amor, de suas formas patológicas: sadismo, de um lado; masoquismo, de outro, ou ambos simultaneamente. E contrário deste amor não é, como às vezes ou quase sempre se pensa, o ódio, mas o medo de amar e o medo de amar é o medo de ser livre. A maior, a única prova de amor verdadeiro que os oprimidos podem dar aos opressores seus é retirar-lhes, radicalmente, as condições objetivas que lhes dão o _____________________________________ * Quando falo em TERCEIRO MUNDO em emergência e registro sua natureza utópica, obviamente não me estou referindo a suas elites do Poder, mas a suas massas populares, oprimidas e a um cada vez maior número de intelectuais engajados na luta pela libertação. ____________________________________ poder de oprimir e não, acomodar-se mazoquistamente, à opressão. Sòmente assim os que oprimem podem humanizar-se. E esta tarefa amorosa, que é política, revolucionária, pertence aos oprimidos. Os opressores, enquanto classe que oprime, jamais libertam como jamais se libertam*. Só a debilidade dos oprimidos é suficientemente forte para fazê-lo. Uma corajosa teologia da Revolução tem de fazer esta distinção e tem de ir mais longe que Tomaz no reconhecimento ao direito de rebelião. Como uma teologia da violência deve desmascarar uma série de mitos, entre os quais o de que só o oprimido é violento, quando se defende, afinal, da violência do opressor. Para mim, violento é o ato com que um ou alguns homens proíbem outros ou outra classe de SER. Ai está o desamor. Pelo contrário, amoroso é o ato com que se busca anular esta proibição. A violência dos oprimidos, por isto mesmo, não é violência, mas resposta legítima, é afirmação do ser que já não teme a liberdade e que sabe que esta não é um presente mas uma conquista. ________________________________ * Desenvolvo estas teses amplamente num dos meus últimos livros PEDAGOGIA DO OPRIMIDO, que está sendo traduzido no momento para o Inglês e o Castelhano. __________________________ o ____________________________ Não poderia haver respondido à sua carta burocraticamente. Sim, talvez, parece, é possível. Não escrevo burocraticamente a ninguém. Daí que me tenha estendido tanto, antes de lhe apresentar algumas indicações que me parecem úteis com relação ao núcleo central de sua carta. a) Repito: pode contar comigo fraternalmente. Tantas vezes quantas lhe sejam necessárias, pode escrever-me e eu responderei. b) Fontes de referências: 1) “Educação como prática da Liberdade” Indispensável a leitura penetrante da introdução de Francisco Weffort. Além da edição brasileira, há uma chilena e uma síntese publicada em Paris – 69 – cuja fonte lamentavelmente não lhe posso dar pois jamais me mandaram siquer uma cópia. Sei, porém, que tal síntese foi editada por uma revista dirigida pelo professor de Roche. 2) ”Introducción a la Acción Cultural”. Segundo informação que tive, sairá este mês no Chile. Você poderia pedir que o Fiori lhe remetesse um exemplar. 3) “Pedagogy of the opressed” Está sendo feita a tradução para o inglês. Recebi, há dois dias, carta de um editor alemão, tratando da possibilidade de uma edição aí. Como, porém, em sua carta ele fala de “Bíblia do oprimido”, preferi escrever dizendo-lhe que é Pedagogia e não Bíblia do Oprimido e que, no caso de continuar o interesse, lhe escreveria dando-lhe um resumo do texto. Gosto de “jogar” muito claramente. As posições que defendo no livro, se bem que para mim sejam cristãs, são realmente, duramente revolucionárias. 4) “Cultural Action and Conscientization”. Este ensaio tem duas partes. A primeira com quatro pequenos capítulos, escrevi aqui. Mesmo que trate temática já discutida em outros trabalhos, faço algumas análises novas. A segunda parte é um ensaio pequeno que se encontra incluído na “Introducción a la Acción Cultural”. Estão sendo traduzidas estas partes que compõem o todo do ensaio. Vou tentar gravar a primeira parte e remeter-lhe. 5) Relatório em torno de minhas atividades em 68, no Chile, enviado à UNESCO, pelo fato de ter sido seu “expert” junto ao Instituto de Capacitación e Investigación en Reforma Agrária. Este relatório, de que não tenho cópia em castelhano, foi agora traduzido para o inglês. Remeterei cópia a você. 6) No número Marx-Avril de “Terre entière” - Paris, você encontrará uma análise crítica excelente de meu trabalho. 7) É importante a leitura do livro do prof. Brasileiro Cândido Mendes. Memento dos Vivos —um estudo sobre a esquerda católica brasileira. Tempo Brasileiro Rio - 1967. Sua análise sobre a conscientização é muito bem feita. 8) Prefácio da edição americana de Pedagogy of the opressed, escrito por um dos bons teólogos norte-americanos do Princeton theological Seminary, Dr. Richard Shull. Remeterei cópia a você. 9) Prefácio de Ernani Fiori à edição castelhana deste mesmo livro. Peça diretamente a ele no Chile, onde foi publicado em separata. Aqui não tenho. 10) Remeterei cópia de outro estudo feito, em inglês, por um jovem teólogo em Genebra. 11) “The Church and Conscientização”, Henrique Vaz S. J. Mandarei cópia. No momento, estou em Harvard University, no Center For Studies in Education and Development como visiting Professor, orientando um seminário sobre Adult Education as Cultural Action. Em fevereiro, depois da Conferência anual de Catholic InterAmerican Cooperation Program, em Washington, seguirei para Genebra, onde permanecerei por três anos no Staff de Educação do WORLD COUNCIL OF CHURCHES. Um fraternal abraço para você e para o Pe. Hugo Assmann (ass.) Paulo Freire. P.S. Somente hoje, 5, me foi possível terminar esta carta, devido a um compromisso que tive com a Universidade de Columbia, New York, onde falei sexta-feira passada sobre a Pedagogia do Oprimido. Em certo sentido foi bom porque assim já lhe posso estar remetendo um dos trabalhos prometidos. O estudo do prof. Sanders. (ass.) PF
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