Plano paga só 19% da dívida com SUS
09:00 @ 06/05/2008
No 3º andar do prédio onde funciona a Gerência-Geral de Integração com o
Sistema Único de Saúde (SUS), da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS),
no centro do Rio, acumula-se uma parte de 16 milhões de folhas-ofício que
juntas cobririam uma extensão de dois quilômetros, pesam 75 toneladas e
correspondem a 1.500 árvores.
Essa papelada, guardada em 16 mil caixas, refere-se às cobranças da ANS aos
planos de saúde suplementar pelo ressarcimento de 460 mil internações
hospitalares, desde 2000, dos seus associados em hospitais conveniados ao SUS.
A agência ainda tem outras 273 mil autorizações de internação hospitalar
(AIHs), de abril de
Apesar da quantidade de papéis, o retorno financeiro é pequeno. Em oito anos, as cobranças totalizaram R$ 472 milhões, valor suficiente para cobrir os gastos que o governo federal previa ter no ano passado com medicamentos biotecnológicos (produzidos com alta tecnologia). Do total cobrado, apenas R$ 87,9 milhões, isto é 18,62%, foram efetivamente pagos. Com os R$ 8,7 milhões parcelados, os ressarcimentos significarão 20,68% dos gastos hospitalares no atendimento a uma parte dos 48,2 milhões de brasileiros com planos de saúde.
O processo de cobrança é considerado ultrapassado e cartorial, permitindo recursos utilizados pelas operadoras dos planos "para postergar o pagamento", como admite o diretor de Desenvolvimento Setorial da ANS, José Leôncio Feitosa. Ele apresentará na próxima quarta-feira na Comissão de Fiscalização da Câmara o novo processo de cobrança com o qual a ANS quer "acabar com a orgia de instâncias e criar credibilidade com o mercado, para que ele reconheça o que deve ou não". Operadoras e entidades ligadas às empresas contestam o ressarcimento.
Leôncio diz que pretende "desmistificar que o ressarcimento pode ser fonte de financiamento para o SUS". "Não pode. Ele é irrisório, corresponde a 0,4% da CPMF", diz. Segundo ele, "as pessoas com saúde suplementar que utilizam o SUS equivalem a 3% dos 12 milhões de AIHs emitidas por ano (em dados de 2006). Em valor financeiro do que o SUS gasta dá 1,5%".
"Mesmo que recebêssemos os R$ 470 milhões, o que é isto em um orçamento de R$ 50 bilhões? A CPMF gerava R$ 38 bilhões. O que temos a receber em oito anos é um terço do orçamento anual do município do Rio. A importância do ressarcimento para financiamento do SUS é falaciosa. É mentirosa", diz.
TRÂMITE
De três em três meses, a ANS cruza o banco de dados dos associados a planos de
saúde com as informações das AIHs referentes às internações hospitalares - não
há cobranças das consultas e dos atendimentos nas emergências. As 156 mil AIHs
identificadas por ano geram 13 mil cobranças mensais.
Os planos têm direito a dois recursos administrativos. "Mais ou menos 50% das contestações sobre o que cobramos nós deferimos em primeira instância. É conseqüência de um erro grave da legislação. Temos que ter filtros melhores para não cobrarmos errado. São cobranças equivocadas", admite Leôncio.
A outra metade, cujos recursos não foram deferidos, se transforma em processos
volumosos, como aconteceu com o de número 2.029, de 2005, para ressarcimento de
2.029 internações hospitalares no Estado de São Paulo, de associados de uma
mesma operadora que foram atendidos em procedimentos de partos e cirurgias
cardíacas. O caso nem sequer foi julgado na primeira instância e conta com 342
volumes, acumulando 63.873 folhas.
Fonte : O Estado de São Paulo
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