Redução de mortalidade materna exige tratamento amplo do problema
09:09 @ 14/05/2008
Brasília - O Brasil só poderá
reduzir em 75% a mortalidade materna até 2015, como prevê a Organização das
Nações Unidas (ONU) nos Objetivos do Milênio, caso enfrente o problema em todas
as suas dimensões, inclusive as relacionadas ao direito sexual e reprodutivo. A
opinião é de Télia Negrão, secretária-executiva da Rede Nacional Feminista de
Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos.
Segundo ela, houve avanços
significativos no país desde a criação, em 2004, do Pacto pela Redução da
Mortalidade Materna e Neonatal, que envolve governos e sociedade civil. Entre esses
avanços ela citou a criação de mecanismos para prevenção, como os Comitês de
Mortes Maternas, as políticas de humanização do parto e a obtenção de dados
mais precisos sobre as causas dos óbitos maternos.
Para a secretária-executiva,
no entanto, só haverá esultados mais significativos quando outros aspectos do
problema forem enfrentados. "Se não for adotada uma política muito séria
de educação sexual, planejamento familiar, melhoria do atendimento durante a
gestação, parto e puerpério [pós-parto], e de legalização do aborto, não
conseguiremos, reduzir as mortes maternas no Brasil e atingir as Metas do
Milênio. A esse conjunto de medidas se agrega também o enfrentamento da
feminização da aids [aumento da contaminação de mulheres pelo HIV] da violência
contra as mulheres" avaliou.
Adson França, coordenador de
Ações Estratégicas do Ministério da Saúde e do Pacto, também reconhece a
dificuldade de alcançar a redução da mortalidade materna nos níveis propostos
pela ONU.
"É uma meta muito
audaciosa para a maioria absoluta dos países porque envolve vários fatores: o
aumento da escolaridade e do empoderamento da mulher; a melhoria das condições
de saúde, da atenção ao parto e ao nascimento; a qualificação de profissionais;
a legislação relacionada a complicações no contexto da violência contra a
mulher".
A redução de 75% prevista
pela organização internacional tem como base a taxa de mortalidade materna nos
países em 1990, que no caso do Brasil era de 64 óbitos a cada 100 mil nascidos
vivos.
Hoje, a taxa no país,
levantada a partir de dados de 2005, está em pouco mais de 53 óbitos. O número
é 2,1% maior do que registrado em 2000 quando as metas da ONU foram lançadas,
mas segundo o coordenador, o aumento reflete a melhoria na notificação de
óbitos maternos que antes estavam subestimados.
Ele aponta, dados positivos
que "seguramente" estão contribuindo para reduzir as mortes maternas,
como por exemplo, o a ampliação da cobertura dos exames pré-natal no país, que
passou passou de 22% das gestantes em 1990, para 76% em 2005.
"Estamos otimistas.
Vamos reduzir bastante a mortalidade materna até o ano de 2015. Estamos
buscando isso de forma persistente e se não chegarmos lá vamos ter a
consciência tranqüila de que estamos no caminho, envolvendo gestores e
sociedade civil. Se nós tivermos recursos financeiros e gestores mais
comprometidos podemos sonhar pelo menos em chegar perto "afirmou.
França cita a experiência de
Fortaleza, onde além de ser ampliado, o pré-natal passou a ser articulado com o
atendimento durante e depois do parto. Segundo ele, em quatro anos a medida fez
cair, de 70 para 40, o número de óbitos maternos a cada 100 mil nascidos vivos
na capital cearense. "A mulher tem que fazer o pré-natal e saber onde vai
parir. Não pode ficar peregrinando atrás de um leito", destacou.
O técnico do Ministério
salientou, no entanto, que também é preciso aumentar a qualidade do pré-natal
no país, pois em muitos lugares a consulta não avalia aspectos necessários para
garantir a segurança da gestante e do bebê e nem sempre consegue oferecer
exames importantes. Segundo ele, um resultado de VDRL, exame que possibilita
diagnosticar a sífilis, às vezes demora até dois meses para ser disponibilizado
e das 4500 maternidades brasileiras só 1200 fazem o exame que detecta o vírus
da aids.
Além disso, França apontou a
ainda a necessidade de qualificar os profissionais que vão atender as mulheres
na hora do parto."Ela precisa chegar nesse local e ter profissionais
qualificados em urgências e emergências obstétricas e neonatais para dar
continuidade ao processo. Porque se ela faz um bom pré-natal e não tem
profissionais qualificados durante o parto o risco de morrer persiste".
A má qualidade no atendimento
de saúde antes, durante e depois do parto é responsável pelas quatro maiores
causas da mortalidade materna no país - hipertensão na gestação, hemorragias,
infecções pós-parto e complicações em decorrência de aborto. A avaliação é da
secretária-executiva da Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e
Direitos Reprodutivos, Télia Negrão.
"Um pré-natal não feito
ou mal realizado; o atendimento inadequado na hora do parto, quando muitas
vezes a mulher perambula de hospital em hospital para conseguir uma internação,
dando à luz fora do serviço de saúde ou tendo descolamento de placenta por
estresse; a má qualidade do atendimento, isso agrava a sua condição de saúde da
mulher, levando ao óbito", afirmou, lembrando que cerca de duas mil
mulheres são vítimas de mortalidade materna por ano no Brasil.
Além da falta de leitos,
Télia apontou o despreparo dos profissionais para atender adequadamente às
gestantes na hora do parto.
"Profissionais
despreparados não conseguem enxergar que a mulher está em sofrimento, ou então,
no caso daquelas que provocaram aborto e chegam aos hospitais, ao invés de
serem acolhidas, muitas vezes são punidas com o sofrimento, já que o aborto é
crime" disse.
Segundo a ativista, a má
qualidade do atendimento também contribui para as infecções no pós-parto, já
que muitas vezes não são detectadas a tempo de serem tratadas. Ela salientou
que, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, 96% das mortes
maternas são preveníveis e evitáveis.
"Na medida em que a
gestação é uma vivência da sexualidade e não uma doença e que 96% das mortes
maternas poderiam ser evitadas, é inexplicável que no Brasil mais de duas mil
mulheres morram por razões ligadas à maternidade".
Para ela, os números
demonstram, além da má qualidade do atendimento de saúde, graves problemas de
planejamento familiar. "Muitas das gestações sequer foram desejadas ou
planejadas levando as mulheres a abortar e a morrer".
Télia destacou que, apesar da
tendência de estabilidade nos indicadores de mortalidade materna no país (52,36
mortes por 100 mil nascidos vivos em 2000 e 53,34 em 2005) o quadro pode ser
alterado para pior com a feminização da aids.
De acordo com ela, o aumento
do número de casos da doença faz com a aids já seja a segunda causa de morte
entre as mulheres no Brasil, perdendo apenas para as doenças circulatórias.
"Se uma doença como essa
não encontra uma barreira, políticas fortes bem direcionadas, principalmente à
mulheres em situação maior de vulnerabilidade, é bem possível que a Aids passe
a constituir uma razão muito forte de mortalidade materna no Brasil".
Telia apontou destacou ainda a violência contra a mulher como responsável por
um grande número de mortes maternas.
Fonte : Agência Brasil
Comentários