TEMPORÃO: PAÍS TEM HOJE MINISTÉRIO DA DOENÇA
09:57 @ 28/07/2008
Ministro diz
que cuidar do cidadão quando ele chega aos hospitais é muito mais caro, e
defende mudança de cultura
O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, embarcou
há dois dias para a Índia levando uma convicção na bagagem: para fazer jus ao
nome, sua pasta tem que mudar muito. Temporão se considera o ministro da
Doença. “Cuidamos do cidadão quando ele já está doente. E isso é muito caro.
Temos que trabalhar para que ele não precise ir ao hospital. Isso custará bem
menos ao país.” Na Índia, um dos expoentes mundiais em fármacos, ele negociará
parcerias tecnológicas com empresas locais, na tentativa de abrir caminhos para
a recuperação da indústria biomédica brasileira, um dos pontos críticos da
saúde nacional. Antes de embarcar, Temporão, médico sanitarista filiado ao
PMDB, falou sobre as críticas que vem sofrendo nas páginas políticas dos
jornais, e reiterou outra de suas convicções básicas: “Precisamos de uma
política de saúde e não de política na saúde.” Satisfeito com os primeiros
resultados da lei que impõe mais rigor a quem dirige alcoolizado, o ministro
sugere que a indústria de bebidas torne mais contundente, nos rótulos de seus
produtos, a advertência sobre os males do álcool à saúde.
TÉCNICO X POLÍTICO: “Acusam-me de ser mais técnico
que político, mas recebo todos os deputados que me procuram, não deixo ninguém
sem atendimento. Vivi na ditadura, valorizo a democracia, respeito o Parlamento
e acho que o diálogo com os deputados ajuda a melhorar nossas propostas para
mudar a saúde. Emendas parlamentares, em tese, são coisas boas, um direito do
deputado. Por outro lado, defendo não só a reforma política, mas a reforma do
Estado brasileiro. O Executivo dispõe hoje de milhares de cargos com livre
provimento, os tais DAS. E preenchê-los torna-se um problema a cada eleição.
Penso que a nomeação de técnicos para a área de Saúde não deve passar necessariamente
pelos partidos, não me parece um caminho adequado. Ousei enfrentar meu partido
em relação a isso e surgiram ruídos. Precisamos de uma política de saúde e não
de política na saúde. Todos ganharemos se optarmos pela primeira alternativa,
estejam certos disso.”
DOENÇA X SAÚDE: “O país tem hoje um Ministério da
Doença que gasta fortunas com doenças. No nosso plano “Mais Saúde, Direito de
Todos (2008-2011)”, já apresentado pelo presidente Lula, temos uma proposta que
dá a partida em direção ao verdadeiro Ministério da Saúde. Gerir saúde no
Brasil, hoje, consiste em montar estruturas para atender doentes. Ou seja, só
há saúde quando há hospital. Temos que mudar essa cultura. Evitar que as
pessoas fiquem doentes exige estruturas mais complexas, mas o país gastará
muito menos. Já caminhamos bem na área de prevenção, através do SUS. Hoje,
aliás, 70% da população depende exclusivamente do SUS. São 140 milhões de
brasileiros. Os outros 40 milhões são atendidos pela saúde privada, mas quem
pensa que não precisa do SUS é alienado. Usa o SUS quem vai a pronto-socorro,
se vacina, faz transplante, tem doença crônica grave, consome remédios em
geral, todos controlados e fiscalizados pelo sistema de saúde, assim por
diante. O sistema público custa R bilhões/ano e o privado, R0
bilhões/ano. O gasto per capita no setor público é um terço do privado. O ideal
é termos um sistema como o da Inglaterra, universalizado. Lá, todos são iguais
perante o sistema, que é totalmente público. A sociedade precisa entender que a
CSS, sucessora da CPMF, não é apenas uma sigla nova.”
Fonte:
Jornal O Globo
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