Associação Americana de Medicina pede desculpas por histórico de racismo
14:48 @ 05/08/2008
Entidade se
dirigiu aos médicos negros do país e pediu perdão por 'erros do passado'. Pressão
era tanta que profissionais negros criaram sua própria associação
(Harriet A. Washington* Do New York Times)
A medicina organizada há
tempos reflete uma obsessão bem americana: a questão racial. Por mais de um
século, a Associação Americana de Medicina tem sido o maior e mais poderoso
grupo de médicos do país -– e um grupo esmagadoramente branco. Os médicos
negros têm seu próprio grupo, menos conhecido, a Associação Nacional de
Medicina.
No dia 10 de julho, as
atenções se concentraram brevemente nessa segregação. A AAM se dirigiu
diretamente à ANM, coisa rara, para comunicar uma mensagem ainda mais rara: uma
desculpa aos médicos negros do país, mencionando um século de “erros passados”.
Que erros, exatamente? W.
Montague Cobb poderia ter respondido a essa pergunta detalhadamente.
Cobb (médico, antropólogo
físico, ativista dos direitos civis, presidente da Associação Nacional de
Medicina nos anos de 1960) sabia que a organização devia sua própria formação
às barreiras raciais. Ela foi fundada em 1895 depois que a AAM se recusou a
aceitar três delegados afro-americanos em suas reuniões anuais de 1870 e 1872.
Ele também sabia que
pacientes e médicos negros eram freqüentemente transferidos para divisões
obscuras de caridade ou para “gente de cor”, ou mesmo completamente banidos dos
hospitais. Eles responderam a isso com seus próprios hospitais e escolas de
medicina, pelo menos sete delas existiam em 1909.
Naquele ano, a AAM
encarregou um educador bastante conhecido, Abraham Flexner, de visitar e
avaliar todas as escolas de medicina norte-americanas. Seu relatório divulgado
em 1910, “A Educação Médica nos Estados Unidos e no Canadá”, levantou obstáculos
maiores para médicos negros: ele recomendava que todas as escolas de medicina
de negros (com exceção de duas, Howard e Meharry) fossem fechadas. Sem
conseguir atrair financiamento, as outras realmente fecharam, e o número de
médicos negros diminuiu, como previsto.
Em
Em 1963, quando Cobb se
tornou presidente da ANM, os Estados Unidos tinham 5.000 médicos negros, de um
total de 227.027 médicos. Apesar de a afiliação à AAM ser importante para a
prática hospitalar, treinamento em especialidades e conquistas profissionais, muitos
capítulos e “sociedades constituintes” – grupos médicos que eram os “porteiros”
da organização maior – estavam fechados para negros.
E a AAM sistematicamente
se recusou a forçar suas sociedades constituintes a admitir negros. Em
1952, Martha Mendell, profissional branca membro do Fórum dos Médicos, um
grupo de médicos multirracial
Ainda assim, um punhado de
médicos negros influentes conseguiu ter acesso à AAM. Sem dúvida encorajado por
esse fato, em 1957 Cobb fundou a Imhotep National Conference on Hospital
Integration para forjar uma coalizão entre as associações médicas.
A AAM se juntou à
iniciativa Imhotep com entusiasmo. Mas seis anos depois, Cobb afirmou
amargamente que a associação freqüentemente estava ausente nas reuniões da
Imhotep. E mais, os dois grupos médicos cada vez mais tomavam lados opostos nas
importantes batalhas contra a discriminação. Enquanto a Associação Nacional de
Medicina fazia campanha para o Medicare e o Medicaid em nome dos pacientes de
seus membros, em sua maioria negra, geralmente pobre, Dr. Edward R. Annis da
AAM censurou ambos os programas como “medicina socializada”.
Sem o apoio da AAM,
médicos negros como Hubert A. Eaton, de Wilmington, Carolina do Norte,
recorreu a processos legais federais para obter acesso a hospitais de brancos.
E apesar de promessas de
discursos oposicionistas sobre regras da construção do hospital Hill-Burton
validando instalações “separadas, porém iguais”, a resposta da AAM foi no
mínimo sem propósito.
A paciência de Cobb estava
no fim, e talvez suas mãos tenham tremido levemente – de indignação, não de
cansaço – quando deu uma resposta, em agosto de 1963: “Durante sete anos os
convidamos para sentar conosco e resolver o problema. O alto nível profissional
e econômico dessas organizações e os princípios altruístas e religiosos sobre
os quais elas deveriam operar não significaram nada. Com sua recusa em
conversar, eles forçam uma ação emergencial. E agora os eventos passam longe
deles. A iniciativa oferecida já não é mais deles, eles não podem mais
aceitar”.
A declaração de Cobb foi
visionária, pois os médicos negros e seus simpatizantes brancos ganharam suas
batalhas de direitos civis. A lei dos direitos civis de 1964 foi aprovada sem o
apoio ativo da AAM. O último artigo da lei tapou a brecha do caso Hill-Burton:
a segregação dentro de hospitais se tornou ilegal. O Medicare foi aprovado em
1965.
No entanto, para
afro-americanos e outros médicos anti-segregacionistas, ainda permaneceu um
bastião da exclusão racial a ser conquistado: a AAM. Para isso, esses médicos
recorreram às mesmas estratégias que haviam acabado com a segregação em
escolas, refeitórios e subúrbios monocromáticos.
Em 19 de junho de
Quando ficou claro que
Annis não tinha nenhuma intenção de ler ou responder à carta diante dos médicos
reunidos, Holloman virou as costas e deixou o salão para se juntar aos 20
médicos negros e brancos que protestavam do lado de fora. Repórteres se
amontoaram junto aos membros da AAM durante toda a convenção, clamando por
saber por que os médicos protestavam do lado de fora, acusando a organização de
ser racista.
Essas cenas de
manifestação pública continuaram até 1968, quando a AAM finalmente alterou sua
constituição e estatutos para punir a discriminação racial, permitindo a
expulsão de sociedades constituintes.
Relações mais amenas se
seguiram entre as sociedades médicas, e apesar de um esforço em 1973 para
uni-las ter falhado, elas realmente formaram uma ligação duradoura, com a qual
W. Montague Cobb sempre sonhara. Os esforços conjuntos mais frutíferos incluem
a criação, em 1992, da Associação de Assuntos Minoritários, e em
Mesmo assim, lembranças dessa história de rancor ainda persistem e o pedido de desculpas da AAM continua sendo pertinente, apesar de atrasado. Considere essa estatística: em 1910, quando Abraham Flexner publicou seu relatório sobre a educação médica, os médicos afro-americanos representavam 2,5% do total de médicos nos Estados Unidos. Hoje, eles são 2,2%.
Fonte: Jornal “O Globo”
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