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A fila para sobrevivência

10:10 @ 26/08/2008




"As dificuldades que envolvem um transplante são compreensíveis somente por aqueles que vivenciam a falta de soluções para qualificar um sistema há muito ultrapassado"


Artigo de Alexandre Pinto Cardoso, publicado no "Globo":

 

Um acidente de helicóptero no Espírito Santo vitimou há pouco tempo duas equipes médicas que retornavam de uma atividade de captação de órgãos para implantes. Recordar esse fato é apenas uma forma de mostrar a angústia que envolve a espera por um órgão. Sim. Porque esse sentimento não é só do paciente que aguarda na fila. É também vivido pelos seus familiares e pelos médicos que acompanham o problema. As dificuldades que envolvem um transplante são compreensíveis somente por aqueles que vivenciam a falta de soluções para qualificar um sistema há muito ultrapassado.

 

Quando recebemos a informação de que existe um órgão para captação, desencadeia-se uma operação de guerra: mobilizar as equipes, chamar os primeiros da fila para realizar a aproximação da compatibilidade e garantir reserva de sangue e vaga nos leitos de terapia intensiva para o pós-operatório.

 

Na fila, os que aguardam um rim estão em terapia renal substitutiva (hemodiálise) e a realização do procedimento em si exige equipamentos e insumos caros; cujos valores continuam elevados no pós-operatório tanto imediato quanto tardio, por conta do uso de imunossupressores e de seu controle.

 

Durante uma captação, entram em ação duas equipes: uma que capta e outra que prepara e inicia o procedimento no receptor. Em contrapartida, hoje, a legislação que rege a formação de novos quadros é restritiva, uma vez que só permite participar de transplantes quem estiver habilitado pela Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos.

 

 Ora, como formar e treinar alguém sem permitir que essas pessoas participem do processo previamente? Outro aspecto que necessita tratamento diferenciado é a remuneração dos profissionais envolvidos, sobretudo porque professores não podem receber horas extras ou dar plantões e, por lei, o funcionário público não pode receber adicionais pecuniários pelo

procedimento.

 

Por outro lado, não podem ficar exclusivamente à espera de doadores, já que desempenham outras atividades ligadas ao programa ou nos seus respectivos departamentos. O chamado fígado marginal, que não se encontra em excelentes condições para implante, é outra variável dessa questão.

 

 Por oferecer risco extra de rejeição ou insucesso, durante um certo tempo este órgão foi descartado para implante, até que nos Estados Unidos começou a ser proposto condicionar seu uso à aceitação do paciente, principalmente entre portadores de câncer de fígado que não estavam entre os primeiros da fila.

 

Os critérios dessa prática, que pode salvar muitas vidas, já estão estabelecidos e devem se tornar públicos para todos que precisam de um órgão. Por todas essas variáveis, é preciso rediscutir soluções para qualificar o atendimento realizado pelo sistema de captação como um todo.

 

Não basta a mobilização de uma ou outra instituição. Estamos organizando um debate no Cremerj reunindo todos os hospitais que realizam o procedimento, Ministério Público, Defensoria da União, Coordenação Estadual de Transplante, Academia Nacional de Medicina, além de ONGs ligadas ao assunto.


Credibilidade se conquista com ações eficazes ao longo do tempo. Chegou a hora de tocarmos na ferida e adotarmos um modelo eficaz que acabe com a angústia dos que dependem de uma fila para sobreviver.

(O Globo, 25/8)

 

 

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