Todos os livros do mundo (ou quase)
16:13 @ 01/10/2007
O movimento para criar uma biblioteca digital digna de respeito no meio do turbilhão de informações da internet
GISELA ANAUATE
| PRESTE ATENÇÃO Alguns livros virtuais, como edições impressas, têm problemas de revisão. Crônicas de Machado de Assis no Domínio Público têm pequenos erros de pontuação |
Para
um amante dos livros, não há prazer maior que sentir o cheiro, a
textura das páginas, as dobras trazidas pelo tempo. Para ele, nada
substitui a visita a uma biblioteca. Uma surfada no mundo virtual não
se compara a um folhear de páginas. Mas mesmo os ratos de prateleira
devem admitir que a internet está provocando uma revolução na
informação. Há um esforço para elevar a rede virtual de
terra-de-ninguém a espaço onde é possível investigar as fontes mais
legítimas do saber, o conteúdo de livros.
O projeto mais
ambicioso seria uma utopia cinco anos atrás: construir a biblioteca
universal, colocando em rede toda a memória cultural. Esse projeto,
oWorld Digital Library, é encabeçado pelo maior acervo bibliográfico do
planeta, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Entre os membros
fundadores estão a Biblioteca de Alexandria, no Egito, e a Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro. Eles vão ceder coleções importantes de
fotos, mapas e livros. O acordo entre as bibliotecas será anunciado em
outubro, durante a 37a Conferência da Unesco. “O portal vai concentrar
os acervos mais valiosos do mundo”, afirma Liana Gomes Amadeo, diretora
de processos técnicos da Fundação Biblioteca Nacional. A iniciativa faz
parte de um movimento mundial, iniciado em 1971 com o projeto Gutenberg
(leia ao lado), pioneiro no e-book. O objetivo é nutrir a internet com
fontes confiáveis de conhecimento. O site Google é um dos mais
atuantes. Em 2004, anunciou a Pesquisa de Livros, projeto de
digitalização do acervo de milhares de bibliotecas e editoras. A
iniciativa enfrentou resistência dos protetores de direitos autorais.
Mas o Google defendeu-se. Demonstrou que os usuários poderiam ler
apenas trechos dos títulos protegidos por copyright. Só os textos em
domínio público seriam exibidos na íntegra. A idéia acabou aceita.
“Fornecemos uma degustação dirigida do livro”, diz Rodrigo Velloso,
gerente da Pesquisa de Livros do Google no Brasil.
Hoje,
as possibilidades de pesquisa são muitas. ÉPOCA convidou quatro mestres
em fuçar sebos, bibliotecas e lojas para um passeio virtual. Eles
avaliaram os sites de e-books e procuraram preciosidades. Marciano
Lourenço de Souza, dono da loja Metido a Sebo, em São Paulo, trabalha
há 30 anos como livreiro e nunca havia baixado livros da internet.
Gostou do Domínio Público. “O estudante pode montar sua biblioteca pelo
site”, diz. Ele encontrou Que É a Metafísica, do filósofo Martin Heidegger, em português. A edição brasileira, de 1969, está esgotada.
Evandro Affonso Ferreira, autor de cinco romances e dono do sebo paulistano Avalovara, pesquisou títulos difíceis, como
Fome, do norueguês Knut Hamsum. Sem sucesso. Tentou, então, obras não protegidas por direitos autorais. Achou Minha Formação,
de Joaquim Nabuco, no Domínio Público. Mesmo assim, a jornada virtual
não o satisfez. “Os clássicos que estão na internet são editados
normalmente.”
A historiadora Mary Del Priore, autora do livro O Príncipe Maldito,
ficou encantada com o Archive. “Para quem faz pesquisas em ciências
humanas, é o melhor”, diz. “Achei uma fantástica História do Diabo, de
Daniel Defoe.” O arquivo foi escaneado de um livro de 1727.
Antonio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras, é um detetive de livros. O autor de Guia dos Sebos (Odisséia)
achou, no site da Biblioteca Nacional, o manuscrito da letra do hino
nacional de Osório Duque-Estrada. Mas não encontrou alguns poemas
obscuros do Romantismo. “Os autores menores, importantes para a
pesquisa, permanecem no limbo pré-internético, à espera da alma digital
e piedosa que venha salvá-los”, diz Secchin. A internet ainda está
distante de reunir todo o conhecimento.
Mas os piedosos scanners estão trabalhando.
| Escolha sua fonte confiável |
|---|
| Os sites de download que os especialistas em livros recomendam |
| http://gallica.bnf.fr/ Gallica, a biblioteca on-line da Bibliothèque Nationale, na França, tem 90 mil títulos disponíveis e várias imagens. Pode ser acessada gratuitamente por qualquer internauta www.periodicos.capes.gov.br O Portal de Periódicos da Capes assina 11 mil títulos de publicações científicas nacionais e internacionais, acessíveis por instituições de ensino www.gutenberg.org/wiki/PT_Principal O Gutenberg é um site internacional pioneiro em e-books, mantido por voluntários. Há mais de 20 mil itens para download. Esse link dá acesso às obras em português www.livros.google.com.br O Google tem 3,5 milhões de livros digitalizados, mas a maior parte deles não pode ser baixada integralmente. Os usuários podem ver trechos que combinem com sua pesquisa http://worldpubliclibrary.org Tem 500 mil livros on-line, pelo custo de US$ 9 por ano. Em um período do ano os livros ficam disponíveis para download gratuitamente http://www.ieb.usp.br/online/index.asp No site do Instituto de Estudos Brasileiros, há 98 obras raras digitalizadas. O acervo do instituto está sendo digitalizado, processo que vai se completar com a Brasiliana USP http://www.bartleby.com/ No site de fácil acesso, que nasceu da Universidade Colúmbia, é possível ver a obra completa de Shakespeare sem precisar dar download. Tem a mais ampla coleção de poemas na rede, tudo em inglês |
| www.bn.br O site da Biblioteca Nacional tem documentos raros. Você deve clicar em “Acervo Digital” e em seguida em “Biblioteca Nacional Digital”. Secchin encontrou o hino nacional manuscrito |
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| www.dominiopublico.gov.br Apontado por Marciano e Evandro, o site do Ministério da Educação oferece textos de clássicos brasileiros e portugueses para download |
| www.archive.org Mary destacou o Archive, portal que pesquisa em dezenas de bibliotecas e tem 260 mil obras disponíveis na internet. Tem mais textos em inglês e muitos documentos históricos |
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