‘Última Hora’ ressuscita na rede
Acervo de jornal que fez sucesso até 1971 ganha digitalização e traz de volta fatos históricos dos anos 50, 60 e 70
Rodrigo Martins
“Matou-se
Vargas!”; “Janio renunciou”; “Lua conquistada: foi um passeio!”;
“Kennedy Assassinado”.... Manchetes e textos jornalísticos do passado
irão ganhar vida nova na era digital. Um dos jornais mais importantes
do País no século passado, o Última Hora, que fez barulho em sete estados brasileiros entre 1951 e 1971, terá agora o seu
acervo restaurado, digitalizado e colocado gratuitamente na rede.
O
projeto está sendo tocado pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo,
detentor do acervo, em parceria com a fabricante de processadores AMD.
Serão 108 mil páginas digitalizadas. O processo será dividido em duas
etapas: a primeira, até março de 2008, pretende disponibilizar na web
36 mil páginas, de edições até 1960; a segunda, até o final do ano que
vem, colocará as edições até 1971.
Essas edições fazem parte do acervo histórico do Arquivo Público, adquiridas em 1990 de uma das filhas do criador do Última Hora,
Samuel Wainer, a jornalista Pink Wainer. “Há algumas lacunas,
principalmente, nos primeiros anos. De 1951, não há nada. E de 1952,
pouca coisa”, explica o coordenador do Arquivo Público, Carlos
Bacellar. “Esperamos preencher esses espaços com a busca em outras
bibliotecas.”
Embora o
jornal tenha tido versões no Rio, Niterói, São Paulo, Curitiba, Porto
Alegre, Belo Horizonte e Recife, entre outras cidades, a que será
digitalizada será a carioca. “Foi a que veio no acervo adquirido pelo
Arquivo”, diz Bacellar.
Digitalizar o jornal não será
uma tarefa das mais fáceis. Os jornais não vão direto no scanner, como
se imagina. Primeiro, eles são microfilmados e, daí, o microfilme é
escaneado. No acervo, há várias edições já microfilmadas. Mas muito
desse material não está em boas condições. “Antes de ser adquirido, ele
ficou em um porão por cerca de 20 anos, por causa da ditadura. O local
não era o ideal”, explica Bacellar.
Nesses casos, diz o
coordenador, ou tenta-se recuperar o microfilme ou recorre-se à coleção
física de jornais. “Tirando os anos iniciais do Última Hora, temos um alto índice de completude da coleção.”
Depois que o arquivo está
escaneado, ele é salvo em formato JPEG (o mais comum em imagens na internet) e disponibilizado na página www.arquivodoestado.sp.gov.br/uhdigital.
“Para não termos problemas de direitos autorais, o material pode ser
impresso, mas não está disponível em alta resolução”, explica Bacellar.
No site, o que poderá ser acompanhado serão as páginas do jornal digitalizadas. O acervo de mais de 160 mil fotos do Última Hora,
que também está no Arquivo Público, não tem previsão para ser
disponibilizado. Hoje, quem acessar o site, terá acesso a cerca de 500
páginas apenas. Mas, em breve, devem ser colocadas mais 1,5 mil.
O
projeto está sendo financiado pela AMD. “Disponibilizamos equipamentos
e funcionários. Também estamos desenvolvendo o site em conjunto com o
Arquivo Público”, explica o vice-presidente de Marketing e Vendas para
a América Latina, Antonio Scodiero.
Segundo Scodiero, a escolha do Última Hora para ser digitalizado não foi ao acaso. O Arquivo Público também possui o acervo dos jornais Diário de São Paulo e Diário da Noite,
já extintos e pertencentes ao falecido barão da mídia nacional Assis
Chateaubriand, dono da cadeia de veículos Diários Associados, que
reunia jornais, rádios e emissoras de TV.
“Entramos no projeto pela importância do Última hora
em uma época de ebulição política, os anos 50 e 60”, diz Scodiero. “O
jornal tinha uma linguagem popular e foi pioneiro em diversos aspectos,
como no uso de cor, que era importada”, completa Bacellar.
Com
a digitalização, o intuito agora é tornar o material, que antes ficava
restrito a consultas no prédio do Arquivo Público, disponível a
pesquisadores e estudantes em geral. “No original, apenas uma pessoa
por vez podia fazer a pesquisa e tinha de se dirigir à biblioteca”, diz
Bacellar. “Agora, em qualquer lugar, será possível acessar o material.”
Outro
benefício é que o acervo de jornais poderá ser melhor preservado.
“Digitalizar não significa jogar fora”, explica Bacellar. “O papel
jornal é o pior que existe. Serve para ler e depois embrulhar peixe.
Com isso, o contato humano pode danificá-lo. Agora, poderemos
preservá-los por séculos e séculos, para contar a história.”
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