Publicar ou perecer
14:38 @ 07/02/2008
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| Estudo de pesquisadores do Brasil e da Espanha alerta para o que chamam de “darwinismo bibliográfico”, que estaria selecionando cientistas com base na quantidade de artigos publicados, que teriam se tornado mercadoria acadêmica |
Especiais
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Por Thiago Romero
Agência FAPESP
– A contabilização numérica de artigos publicados em revistas
científicas legitima acadêmicos em seus campos de atuação. Mas em um
cenário em que recursos de internet estão cada vez mais avançados, os papers podem ter se tornado uma mercadoria acadêmica que estaria seguindo a
tendência do “darwinismo bibliográfico”, cujo lema é publicar ou perecer.
Essas são algumas conclusões do artigo Entre fetichismo e sobrevivência: O artigo científico é uma mercadoria acadêmica?, publicado na revista Cadernos de Saúde Pública
da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Os autores são Luis David Castiel,
da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp) da Fiocruz, e
Javier Sanz-Valero, da Universidade de Alicante, na Espanha.
O
trabalho aponta que as novas tecnologias de informação e comunicação
servem de base para a atual concepção de produtividade em pesquisa, que
se baseia sobretudo na quantidade de artigos publicados em diferentes
revistas, fazendo com que os papers sejam vistos como uma espécie de capital simbólico. O estudo se baseou em outros trabalhos sobre o assunto, de autores de
diversos países.
“Trata-se de uma crítica ao primado da perspectiva empiricista que
estabelece a produção de evidências quantitativas como única forma de
visualizar, dar significado e valorizar o conhecimento científico”,
disse Luis Castiel, pesquisador do Departamento de Epidemiologia e
Métodos Quantitativos em Saúde da Ensp, à Agência FAPESP.
Castiel ressalta que o estudo foi baseado na produção anterior em
sociologia do conhecimento científico, que não se baseia em resultados
empíricos ou lógicos. “A função de nosso trabalho não é questionar o
método científico, mas promover o debate sobre a contribuição dos
artigos publicados para o avanço do conhecimento.”
De
acordo com Castiel, o que chama de “darwinismo bibliográfico”,
caracteriza-se por uma luta pela sobrevivência na qual os acadêmicos
mais aptos se destacam. Do mesmo modo, nas revistas
científicas haveria uma “luta ferrenha” entre diferentes artigos para ocupar um mesmo espaço editorial.
“E,
nesse jogo, vale até práticas como, antes de enviar um trabalho para
uma determinada revista, preocupar-se em incluir referências
bibliográficas da própria publicação para seduzir, de alguma forma, os
editores e mostrar que o trabalho irá colaborar para melhorar o índice
de impacto da revista. Ou seja, é um artigo cuja bibliografia tem
outros artigos do próprio veículo”, disse o pesquisador.
Publicacionismo científico
Umas das conseqüências desse “publicacionismo”,
segundo Castiel, seria o fato de a quantidade de artigos ditar, ou pelo
menos influenciar, os rumos da produção científica. Tal influência
teria forte relação com o “citacionismo”, ou a necessidade de produzir artigos que tenham
vitalidade para estar em outras publicações.
A principal questão é que um trabalho muito citado não necessariamente
representa avanço no conhecimento ou alta produtividade em pesquisa. “A
ênfase citacionista, como avaliação de qualidade de uma obra acadêmica,
pode se tornar um círculo vicioso que, de alguma maneira, participa da
sustentação de modelos ideológicos que definem como devem ser os
processos de busca e produção do conhecimento”, disse Castiel, que
também integra o comitê editorial dos Cadernos de Saúde Pública.
Para ele, no fim das contas esse contexto pode acabar promovendo a
manutenção de uma cultura tecnológica globalizada, que estimula “as
precariedades do excesso de informações redundantes ou supérfluas”.
Um mesmo conteúdo que aparece em vários artigos, por exemplo, após
receber pequenas mudanças, foi chamado pelos autores de
“ciência-salame”: uma pesquisa é fatiada em unidades menores
publicáveis para se tornar diversos artigos distribuídos em diferentes
revistas.
Por conta disso, o artigo teria passado a ser não apenas um produto da
prática científica, mas também um elemento produtor de relações
sócio-históricas e políticas dentro das comunidades acadêmicas.
“Diante do excesso de publicação, os pesquisadores estão cada vez menos lendo os textos na íntegra. Hoje, é praticamente impossível ler todos os estudos publicados em uma única área de pesquisa. Estima-se,
também, com base em estudos bibliométricos, que aproximadamente 50% dos
trabalhos publicados em ciências sociais, por exemplo, nunca serão
citados”, disse Castiel.
Para ler o artigo Entre fetichismo e sobrevivência: O artigo científico é uma mercadoria acadêmica?,
disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP), clique aqui
Fonte: Agência Fapesp
Comentários
(15:14 @ 09/04/2008) Anônimo disse:
Isso é resultado da GANÂNCIA de nossos "DOUTORES".