- Anos de análise
21:26 @ 17/08/2008

A vida acontece em grupos.
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No cinema, o sexo é um bailado de corpos que se exercitam, com luz e música apropriadas |
COM FREQÜÊNCIA (crescente?), o sexo, no cinema, consiste em cenas intermináveis nas quais fragmentos de corpos, enquadrados de maneira que não se sabe mais se são nádegas ou seios, movimentam-se numa luz suave e com uma trilha sonora que é uma espécie de Galvão Bueno da "transa" -só que mais previsível que o apresentador global.
Talvez se trate de um efeito da censura ou da autocensura: o disfarce "artístico" vale como pretexto para que a gente se autorize a mostrar coisas que, sem isso, pareceriam proibidas.
O fato é que, em geral, esse sexo "artístico" me causa um mal-estar.
De repente, passo a contemplar (no escuro) a ponta de meu sapato, como um adolescente que estivesse na companhia dos pais. Mas não é por pudor infantil: no cinema, uma cena de sexo que seja pornográfica ou simplesmente realista não me causa mal-estar algum, e, quer eu goste ou não, sigo olhando para a tela.
De onde vem, então, minha dificuldade com o sexo "artístico"?
Uma amiga gostava de um homem bonito e "sarado". Quando se deitaram juntos pela primeira vez, havia um grande espelho ao lado da cama.
No meio das escaramuças, o homem olhava insistentemente para o espelho. Minha amiga pensou que ele devia achar excitante a visão dos dois corpos nos gestos do amor, mas logo ela notou que o homem não parava de flexionar seus tríceps verificando, no espelho, a definição de seus músculos. Minha amiga perdeu o entusiasmo; esperou, educadamente, que a transa acabasse e nunca mais encontrou o homem.
"O que foi?", perguntei, "você ficou com ciúmes dos olhares apaixonados que ele reservava para seu próprio corpo?". "Não", respondeu minha amiga, "só fiquei com a sensação de que a gente estava na academia. E aí perdi o embalo".
Pois bem, no cinema, as representações "artísticas" do sexo me fazem um efeito parecido: é como se o descontrole do corpo erótico (que, claro, concordo, pode ser obsceno) fosse substituído quer seja por um bailado de corpos higienistas que se exercitam, quer seja por uma câmara lenta de músculos e pele, que parece ambicionar o estatuto de obra de arte abstrata.
Em suma, no estereótipo cinematográfico, o sexo parece mais estético, saudável e pretensamente poético do que extático.
Ora, o sexo não é nada disso, e torná-lo "artístico" não é apenas um jeito de representá-lo, é também um jeito de domesticá-lo, de regrá-lo.
Acaba de ser publicado em português mais um seminário de Michel Foucault, o de 1978-79, "Nascimento da Biopolítica" (Martins Fontes).
Talvez seja a única ocasião em que Foucault analisou diretamente o poder do Estado no mundo contemporâneo. Como sempre, Foucault é genial: ele aponta o ideal do Estado contemporâneo na "frugalidade" (ou seja, no menor governo possível), enquanto o exercício do poder é delegado a mecanismos que triunfam por seu caráter aparentemente natural e incontestável. Exemplo fundamental: o Mercado, que, sem intervenções externas, produziria os preços e os custos "verdadeiros" -só pelo livre jogo dos agentes econômicos. Em outras palavras, no exercício do poder moderno, não é preciso mandar: basta mostrar a "naturalidade" do óbvio.
O seminário termina antes que Foucault consiga tratar propriamente do poder na gestão da vida cotidiana, mas entende-se que ele funciona da mesma forma, graças a reguladores implícitos, que se impõem por sua suposta e "óbvia" naturalidade. Por exemplo, quem negará que a vida saudável, a harmonia e a higiênica limpeza são valores "naturalmente" benéficos?
Então por que seríamos reféns da "feiúra" da concupiscência, quando é possível (como sugerem as cenas artístico-eróticas do cinema) viver orgasmos lindos e simultâneos, quem sabe ritmados pelo coro da "Nona Sinfonia" de Beethoven?
Sem contar que, com luz e música certas, também parece óbvio que o sexo possa espontânea e naturalmente conviver com o amor. Não é?
P.S. A vantagem do teatro sobre o cinema é que, no teatro, a estetização sanitarista do sexo é mais difícil, pela presença física do corpo dos atores e pela falta de enquadramentos parciais. Como contraponto ao sexo "artístico", freqüente no cinema, quem estiver em São Paulo ou passar por aqui pode assistir a uma peça: "Pornografia Barata", de Mauricio Peroni de Castro, em cena no Espaço dos Satyros (às 21h nas sextas e sábados até o fim de agosto, depois disso à meia-noite).
CONTARDO CALLIGARIS (FSP 14/08/2008)
Os primeiros anos deste século, entre outras coisas, podem ser caracterizados por um culto a beleza e a juventude.
Assim, trazem consigo uma supervalorização dessas categorias que, passam então a ser incentivadas economicamente e, em conseqüência, familiarmente, uma vez que as famílias tentam sempre fazer de seus filhos elementos de sucesso e de realização social e econômica.
Quando nasce uma criança seus pais projetam sobre ela fantasias, muitas vezes inconscientes, de poder, sucesso e realização que, em muitos casos, correspondem a frustrações dos próprios genitores. Assim, em uma sociedade que considera sucesso e realização pessoal como sinônimo de poder e dinheiro, fica claro que esse passa a ser o objeto de interesse familiar.
Assim, duas são as maiores possibilidades, em nosso país, dessa realização a curto prazo e com considerável benefício.
Uma é o caminho do esporte, para o qual são encaminhadas uma considerável parcela de crianças e que, com o devido estímulo e a devida dedicação, podem obter aquele sucesso tão desejado, principalmente nas camadas menos favorecidas da população onde o investimento de tempo e dinheiro necessários para a aquisição de cultura torna-se demasiado.
Outro caminho, ligado também às mesmas questões, passa pelo aspecto estético.
Todos os pais orgulham-se de filhos bonitos, que sejam reconhecidos por todos e, mais ainda, se esse padrão de beleza é recompensado, de forma muitas vezes régia, pela sociedade.
Assim, abrem-se as portas para a possibilidade do sucesso precoce e o conseqüente encaminhamento daquela criança na vida produtiva de uma sociedade capitalista.
Uma única questão deve ser considerada, a criança.
Uma criança é ainda um ser em desenvolvimento que deve necessariamente passar pelo seu processo de desenvolvimento cognitivo e afetivo de maneira coerente e integrada.
Para isso deve ter condições de interagir com outros indivíduos da mesma idade, compartilhando experiências e possibilidades.
O trabalho infantil, e temos que considerar que ser modelo constitue igualmente em trabalho infantil, priva a criança de um padrão de desenvolvimento similar ao das demais crianças, fazendo com que ela ao invés de participar de atividades normais para a sua idade passe a dividir interesses com o adulto, muitas vezes ainda sem ter condições de avaliar corretamente aqueles valores, o que prejudicará, consideravelmente, seu posterior desenvolvimento.
É curioso que, ao mesmo tempo em que criticamos e propomos propostas de punição para o trabalho infantil menos privilegiado ( como por exemplo o das crianças que são exploradas nas fábricas ou nas lavouras), fato esse que realmente deve ser evitado, fechamos nossos olhos para essa outra atividade que, embora estéticamente mais bonita e economicamente mais diferenciada, não se difere da exploração do trabalho da criança que, levada pelos pais e por interesses puramente econômicos, é desvirtuada em sua infância e sua ingenuidade.
Cabe portanto pensarmos, sem nos deixarmos levar pela sedução do dinheiro e do sucesso, na necessidade de cuidarmos da criança como um ser em desenvolvimento, dignos de consideração e de não ser explorado pelo sistema que nos cerca.
Francisco B. Assumpção Jr.
(Carlos Skliar)


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para
tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo
ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem
pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes
- na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi
vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
(Álvaro de Campos)
2001 argumentos para quem assisitiu os videos ... Tambem acredito numa psicanalise do futuro, e voces ?
João Guimarães Rosa:
"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens."