Competencias e habilidades
20:04 @ 07/02/2010
Lembro das sábias palavras de Umberto Eco, que disse em seu livro "Como escrever uma tese" que dissertações são como um animal suíno: delas se aproveita tudo. Na minha dissertação de mestrado pesquisei definições de inteligência, competência e habilidade que aproveito aqui:
Inteligência segundo MACHADO (2008) "Ao se estudar o cérebro, só encontramos condições para dois grandes tipos de inteligência: a analógica e instintiva, e a inteligência racional, identificada com a lógica aristotélica".
Competência seria "Capacidade para apreciar e resolver determinado assunto" (FERNANDES, LUFT, GUIMARÃES, 1993, p.238).
Habilidade por sua vez é "Característica de quem é hábil (adj.) – que tem aptidão ou capacidade para algo". (O DIA, AURÉLIO, 1993. p. 166).
Quando uma pessoa faz um curso procura adquirir competências, que só serão atingidas se tiver - ou desenvolver - as habilidades necessárias. E isso não tem nada a ver com inteligência.
Já tive alunos muito inteligentes (que já trabalharam há tempos na área que ensinava e vinham se atualizar comigo) e que não tinham habilidades para o assunto em questão, e portanto não desenvolviam cmpetências para colocar em prática.
O problema central é que nem todas as pessoas são altas e magras, ou ricas e famosas. Todos nós levamos mais ou menos tempos para adquirir certas competências (ou desenvolver certas habilidades). O aprendizado passa pelo interesse e aptidão de cada um por determinado assunto, além do ambiente. Eu dificilmente seria um bom aluno de física quântica, pois esse não tenho simpatia por essa matéria (interesse), embora tenha facilidade (aptidão) em entender assuntos relacionados à ciência. Por fim, se não tiver necessidade (ambiente) de aprender esse assunto jamais serei um grande conhecedor.
Oferecer um curso com o pressuposto de que todos os pagantes irão desenvolver as mesmas competências no mesmo tempo é como vender uma roupa manequim 30 para pessoas de todas as alturas, pesos e medidas, o famoso "tamanho único". Na ergonomia, existe um assunto que alguns estudiosos chamam de "a falácia do homem médio[*]", que trata do mesmo exemplo que dei agora.
Algumas instituições, franquias de ensino adotam estratégias flexíveis no sentido de estimular o desenvolvimento de habilidades respeitando o tempo individual: o aluno pode frequentar o curso para fazer treinamentas monitorados durante um determinado período, durante e após o término do curso.
Durante o curso também são oferecidos horários para fazer as mesmas aulas monitoradas.
Outra estratégia adotada por cursos de inglês é oferecer ensino à distãncia com material paradidático multimídia (CD, DVD, livros, áudio-books, etc).
Enfim, existem várias formas de fazer com que o ensino presencial seja efetivo no sentido de permitir o desenvolvimento de habilidades, que, aí sím, levam às competências.
Aqui chegamos ao topo de nosso raciocínio. Uma vez desenvolvidas as competências, durante o curso como mantê-las, após, para que possam ser exercidas?
As estratégias que citei (aulas monitoradas, p. ex.) são sinônimo de prática, treino. Estagiar na área estudada, desenvolver projetos individuais são estratégias para se manter as competências adquiridas vivas na memória. Sem a prática não há exercício de habilidades, que como citei, levam às competências.
O papel das instituições de ensino não é ser, ela própria mercado de trabalho, embora seja uma porta em diversas situações: as incubadoras de empresa, empresas júnior, os escritórios-padrão que as faculdades de advocacia oferecem à população (sem custos) são meios para o exercício da prática profissional em muitas áreas. Infelizmente assim como o sistema penal não conduz os que desejam abandonar a marginalidade a uma atividade profissional (e deveriam fazê-lo!), nem todas as instituições de ensino tem como filosofia abrir espaço para a prática profissional como parte do processo de aprendizado.
Na instituição onde presto serviços há demanda para a produção de material didático próprio, que poderia ser produzido (editorado) por ex-alunos de meus cursos, a custos baixos em comparação a contratação de terceiros. Mas tudo isso esbarra nas políticas de cada instituição; cada uma tem objetivos e prioridades próprias.
Enquanto estava na faculdade fiz curso técnico, na minha área profissional, e depois estagiei para poder exercer a atividade de editoração eletrônica. Formado, continuei a trabalhar na área, e acabei por ministrar aulas, curiosamente, no mesmo local onde fiz o curso técnico. Foi minha forma de manter viva a chama do conhecimento. Mesmo assim, existe a questão de saber no que se é "melhor ou pior" dentro de sua área de competência[**] - posso ser um bom diagramador e um criador razoável. Normalmente somos chamados a executar trabalhos relacionados com nossas aptidões naturais, ou desenvolvidas e mantidas ao longo do tempo.
Enfim, independente da filosofia de cada instituição de ensino, cabe ao estudante procurar seu caminho dentro das oportunidades de aprendizado que lhe são oferecidas, seja através de um curso intensivo (como os cursos preparatórios para concursos), um curso regular (como os técnicos) ou de médio/longo prazo (como os superiores ou de pós-graduação).
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Notas
[*] Essa teoria desmonta a idéia de que projetar produtos para seres humanos com medidas "na média" contempla a maioria dos usuários. Os ônibus coletivos são o melhor exemplo dessa teoria, onde pega-mãos no teto são inacessíveis a pessoas mais baixas, e a maioria dos assentos não comporta pessoas altas ou obesas, ou seja, "fora da média". O fato da população a cada década ser mais alta e os assento continuarem a ser projetados nas mesmas medidas só reforça essa teoria.
[**] Existe uma teoria chamada Peter Principle - ou nível de incompetência - que diz que por mais que sejamos conhecedores num assunto, somos incompetentes em uma área deste conhecimento; posso ser um bom teórico (redigir bons textos) e ter problemas de didática (explicar mal o assunto), por exemplo.
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Referências:
MACHADO, Luiz. Não há
Inteligências Múltiplas, __, Campinas, ___.
Disponível na Internet:
http://www.cidadedocerebro.com.br/newsletter_inteligencias_multiplas.asp
Acessado
em junho 2008.
O
DIA, Jornal; AURÉLIO.
Dicionário
prático da língua portuguesa. 3a ed., Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira
1993.
FERNANDES, Francisco; LUFT, Celso
Pedro; GUMARÃES, F. Marques. Dicionário
brasileiro Globo. 30ª ed., São Paulo: Ed. Globo, 1993.