Grupos

Pretendo descrever aqui um método que desenvolví para criação expressa de aulas (neste caso, de webdesign, mas o conceito aplica-se a diversos gêneros de informação e áreas de conhecimento). Cheguei a esse modelo ouvindo as opiniões de alunos, por tirocínio e necessidade próprios.

 

Ponto de partida: o tema

Como uma novela, filme, ou romance, aulas se montam "de trás para frente", ou seja, é a partir de um fio condutor (que a partir daqui chamarei de tema) que pode-se montar aulas de informática em diversas categorias, dando significado ao conhecimento que se exercita ou desenvolve.

 

Por exemplo: no caso de aulas de webdesign, o objetivo é desenvolver um site, ou conjunto de páginas com conteúdo multimídia (texto, fotos, vídeo, animação, áudio, elementos de interatividade e troca de informação, etc). Assim sendo, definí temas que podem ser desenvolvidos em qualquer módulo: Loja de música online, turismo de ciclismo, cafeteria online, montadora de automóveis, etc. Esse tema pode partir de um modelo existente (os programas de computador geralmente oferecem um exemplo que explicam como eles funcionam) ou pode ser criado pelo professor (o que demanda mais tempo).

 

Desenvolvendo o conteúdo do tema:

 

Cada tema possui conteúdo próprio bem diversificado: texto para cada seção; fotos e desenhos vetoriais aplicáveis a qualquer seção; vídeo (eventualmente aúdio) relacionado ao tema e animações. Esse conteúdo pode ser pesquisado na própria internet ou pode ser expandido pelo professor que cria novas imagens a partir das imagens adquiridas.

 

No caso das fotos, desenhos, vídeo e animações, é interessante converter um mesmo material em mais de um formato (p.ex., vídeo digital em formato Windows e multiplataforma - WMV e MPEG) para que o tema possa ser aplicado em mais de um contexto/software.

 

É importante que todo o conteúdo seja no idioma dos alunos (no meu caso, português do Brasil), pois o aluno (a) que não sabe o idioma vai se sentir um alienígena manipulando informação que não sabe ler. Se o texto do tema estiver em outro idioma (inglês, p.ex.) e tiver pouco tempo, traduza-o aos poucos durante cada aula, ao montar as páginas de internet com os alunos; ao final do  módulo já terá traduzido boa parte do seu material.

 

Por fim, é fundamental que todos os temas escolhidos sejam como um presente especial para alguém especial: selecione os temas  pelo excelente design que encontrar, ou modifique o tema para tenha essa excelência. Oferecer algo especial (exercícios de aula excelentes) valoriza o professor, os alunos e a aula.

 

Aplicando o tema na aula:

 

Vamos pegar como exemplo o tema de Turismo de ciclismo. Esse tema pode ser desenvolvido como uma página de internet ou uma apresentação de slides.
Se for uma página de internet terá tanto texto quanto fotos, com alguma multimídia (áudio, animação e vídeo). As páginas poderão ser verticais (com rolagem) ou encaixadas na tela (sem rolagem).

 

Se for uma apresentação de slides, terá mais ilustrações que texto, texto resumido ou dividido em várias telas. Nenhuma tela terá rolagem.

 

Reutilizando o tema:

 

O tema - seja qual for - pode ser utilizado tanto para exercício de aula como para trabalhos de reforço, recuperação ou avaliação. Pode-se usar um mesmo tema como exercício de aula ou para desenvolver tarefas extras;
p. ex., no caso do tema "Turismo de ciclismo", em aulas de webdesign pode-se passar ao aluno a tarefa de fazer um hotsite (site de evento diretamente relacionado ao tema) com outros assuntos e imagens.
Se for uma apresentação de slides, pode-se definir novas telas da apresentação desenvolvida em aula ou uma segunda apresentação relacionada(treinamento para ciclistas de enduro).

 


Tema único, tarefas múltiplas e personalizadas

 

Algumas vezes o professor precisará avaliar vários alunos ao mesmo tempo, individualmente em aula ou à distância; em espaço curto de tempo ou ao longo do tempo; mas não pode passar o mesmo trabalho para todos sob pena de o aluno reutilizar o trabalho do colega (não que o professor não perceba isso, mas em algumas situações o aluno possui interesse em outras matérias do curso). Neste caso, personalizar a tarefa reduz as variáveis de trabalho do docente. Isso pode ser feito assim:

 

Os temas oferecidos para cada aluno(a) podem ser vários (novamente loja de música online, turismo de ciclismo, cafeteria online, montadora de automóveis, etc), mas a estrutura de layout (diagramação), nome das seções, títulos e subtítulos e nome dos arquivos (textos, imagens, etc) é a mesma. Muda apenas o conteúdo desses arquivos (relacionado a cada tema).
P.ex.: tanto no tema loja de música online ou site de turismo de ciclismo a tela é diagramada em duas colunas; existem as seções Início e Quem somos; na seção quem somos existem os títulos (e subtítulos) História, Diretoria e Equipe; em ambos os casos os arquivos de imagem da seção Quem somos se chamam historia.jpg, diretoria.jpg e equipe.jpg.



 

Do macro ao micro:

 

Se os temas são a "visão geral" da aula, as explicações são a "visão micro" do conhecimento. Pode-se pegar um pedaço do exercício de aula para desenvolver uma explicação (tutorial escrito, ilustrado, em vídeo ou áudio) sobre determinado assunto. P.ex., ainda no tema de Turismo de ciclismo dentro do curso de webdesign, pode-se explicar um assunto - como se constrói uma barra de navegação com o layout deste tema. Essa explicação pode ser repassada independente do restante do módulo.

 

Desenvolver explicações específicas "soltas" a partir de um tema permite reunir ao longo do tempo um conjunto de explicações para montar um material didático (apostila, blog, vídeoaula, wiki, etc). Como o tempo do docente é normalmente escasso, esta acaba sendo uma tarefa que se auto-alimenta.

 

Outra forma de desenvolver um módulo do "micro" para o "macro" seria desenvolver tarefas pequenas, que, reunidas, formam um conjunto uniforme. Por exemplo: as tarefas podem ser relacionadas ou serem relacionáveis.
Se você já tem diversas tarefas planejadas sem conexão entre sí, reuna-as num tema que seja polivalente: uma apresentação sobre fotos de fatos curiosos ou um site sobre notícias.
Pode-se ainda organizar as tarefas por semelhança: imagens com pessoas vestidas de maneira sui generis podem ser reunidas para fazer um site ou apresentação sobre moda.

 

Essa abordagem "micro" é ideal em trabalhos cooperativos: uma comunidade razoavelmente organizada pode se auto-alimentar com informações (como fazer) e material (conteúdos) que podem ser reaproveitados por cada membro para gerar novos cenários (novos cursos, módulos, aulas ou exercicios).

Uma foto pode dar origem a um passo-a-passo de como fazer máscaras com imagens no software X. Esse passo-a-passo pode ser parte de uma aula ou ser reunido com outros passo-a-passo relacionados (como fazer  máscaras complexas); este passo-a-passo pode dar origem a um tutorial sobre técnicas de mascaramento de fotos (ou mini-curso avançado sobre máscaras).


A foto citada pode ainda ter uma ilustração, que pode ser o ponto de partida para uma apresentação de slides com fotos e desenhos, iniciando um novo ciclo, mas em um curso diferente (Aprentação de slides)...

 

Enfim, essa metodologia independe de ferramentas de auxílio ao design educacional (como os CMS/gerenciadores de conteúdo ou sistemas/ambientes de ensino e aprendizagem) e podem ser aplicadas de forma a desenvolver conteúdo de aulas rapidamente.

Dica de software

16:34 @ 05/08/2011

Lente de aumento virtual portátil



Tenho de comentar este programa - o Virtual Magnifying Glass Portable (WMGP) - que atende às demandas de quem precisa apresentar programas em projeção da tela do computador, com grandes detalhes. É um software para facilitar a vida de portadores de necessidades especiais mas também pode ser usado em aulas de informática.

Por que usar este programa?

  • A lente de aumento do Windows é um recurso incômodo para muitos, pois não dá a agilidade necessária para "ligar" e "desligar" a lente, nem de definir a área de ampliação com flexibilidade.
  • Programas como a linha CS5 da ADOBE possuem fontes e ícones com tamanho fixo, o que torna inútil reduzir o tamanho da resolução de tela do monitor, (de 1024 x 768 px para 800 x 600 px, p.ex.) ampliando os ícones e textos do programa.
O VMGP permite definir o tamanho da área de aumento, tem ligar e desligar prático, entre outros recursos.
Recomendo, é gratuito e está disponível para baixar no site Portable Apps ou nesse link direto (categoria accessibilidade).

Manual do bom docente

00:52 @ 31/07/2011

Mais uma vez, como escreví num post anterior, me sentei na cadeira de aluno num curso de informática e cheguei a algumas conclusões interessantes:

  • "alunos" muitas vezes fazem jus à definição do termo (a=sem luno=luz, "sem luz") pois aceitam situações pedagogicamente "erradas" como se fossem algo "natural" (os exemplos seguem mais adiante) seja pela pouca idade ou desconhecimento de causa.
  • Maus exemplos são extremamente didáticos, pois acabam orientando sobre o que se deve fazer, de fato.
  • A origem dos problemas podem estar no sistema a nossa volta ou dentro de nós; a própria personalidade, temperamento ou modo de perceber o mundo podem ser tão prejudiciais quanto um ambiente que não colabora para que as coisas funcionem de modo adequado. Perceber isso é tão difícil quanto fundamental para quem trabalha com o público.

Enfim, vou discorrer sobre situações que presenciei enquanto aluno; antes de tudo um pedido: quem por acaso se identificar com algumas das situações a seguir, por favor encarem os comentários como forma de auto-aperfeiçoamento. Ninguém sabe tudo sobre docência e nem Bill Gates sabe tudo sobre informática.

Se a aula for em sala com computadores, evite:

1) Projetar a tela de computador em resolução alta (com letras e detalhes pequenos). Aula de informática não é exame de vista. Se você precisa mostrar um recurso que só aparece em resolução alta (tornando os detalhes da projeção um jogo de adivinhação) use "recursos de acessibilidade" como a lente de aumento do Windows, ou, após mostrar o que desejam retorne à menor resolução possível, com os elementos de tela maiores.

Se projetar em tela com detalhes grandes implicar em mostrar uma coisa e os alunos verem outra:
a) coloque a tela dos alunos na mesma resolução que a sua
b) se não for possível, tente decorar as diferenças entre a sua tela e a dos alunos (tenha uma imagem da tela como os alunos vêem sempre à mão) e explique durante a aula que na sua projeção a tela "está assim", mas na projeção dos alunos "está deste modo".

2) Terminar a aula depois do horário ou começar antes da hora. Respeite quem precisa acordar cedo no dia seguinte ou mora longe. Parece surreal mas já ví um docente fazer as duas coisas numa mesma aula...

3) Dar mais atenção aos alunos mais adiantados, pois os atrasados demandam maior atenção para compreender a matéria.

4) Não assumir que desconhece um assunto é desonestidade intelectual. Ficar com a dúvida é preguiça mental. Tente descobrir a dúvida não respondida até a aula seguinte ou final do módulo, se possível, e repasse o esclarecimento. Os alunos vão ficar com boa impressão de você, pode crer.

5) Assumir que o aluno conhece programas ou assuntos que fogem ao escopo do que é ensinado. Se o aluno não conhece um segundo programa - ou informação - que vai ajudar a realizar uma tarefa no programa principal, explique teoricamente ou faça com o aluno passo-a-passo.

Eu particularmente faço uma dinâmica ao início do curso/módulo para medir o nível de conhecimento dos alunos: peço para que realizem tarefas, relacionadas a informática básica, que serão desenvolvidas no decorrer do curso. Isso permite que eu saiba de antemão quem precisa mas de atenção dentro do grupo.

6) Abandonar os alunos mais atrasados, pois eles irão abandonar você. Crie estratégias para que os mais atrasados acompanhem os mais adiantados. Por exemplo, se - um aluno perdeu o fio da meada- o computador do aluno travou e ele não salvou - copie para ele o trabalho em desenvolvimento para ele prosseguir a partir daquele ponto.
Isso pressupõe que suas explicações são passo-a-passo, e que você desenvolve exercícios junto com os alunos.

6) Demonstrar o que não será ensinado; deixe bem claro que isso foge do escopo do curso. Mostrar e não ensinar deixa a impressão de que se está sonegando informação, no mínimo.

7) Ignorar demandas dos alunos. Se pedirem mudanças no programa, faça alterações, deixando bem claro que se está deixando de ensinar um assunto em favor de outro.

No caso de divergência, decisões por consenso são melhor do que por maioria: se a maioria decide algo que não agrada a minoria, você pode "perder" a minoria, que pode gerar um efeito dominó de esvaziamento da turma. Neste caso tente uma solução em que ambos os lados abrem mão de alguma coisa em favor da opinião do colega.

Exemplo: se a maioria decide que o curso de informática básica deve abordar instalação e uso de um programa utilitário e a minoria acha que isso não é relevante, que tal ensinar o uso de um software que tenha versão instalada, portátil e online? Mostrar o uso de um software online (que possui poucos recursos) será bem mais rápido do que instalar e explicar um software completo...

8) Fugir ao programa do curso. Se o curso é sobre o software "A" não comece a explicar o software "B" porque você acha melhor.
Imagine que num curso de "Apresentação de slides" começo a explicar um outro programa que faz organo/fluxogramas pois este faz organogramas melhores que o primeiro? E quem pagou para aprender apresentação de slides fica como?
Agora, se no final da aula parte da turma deseja dicas de como usar o segundo programa, e ele está instalado, não há problema em explicar esse assunto apenas para os que desconhecem, num intevalo ou ao final da aula...

Enfim, a lista é longa essas são apenas algumas situações recorrentes. Quem quiser dar outros exemplos ou comentar, fique a vontade.

Organizando a aula

09:40 @ 17/07/2011

Mesmo não sendo pedagogo - ou talvez até por esse motivo - vez em quando sou convidado ou incumbido de ajudar alguém que está ingressando na atividade de docência emcursos de informática. Mesmo sabendo que eu mesmo ainda sempre aprendo algo novo todos os dias eu procuro passar dicas de organização de aula, como roteiro e apresentação de aula.

 

Plano de aula não é a aula, apenas um roteiro que vai informar às pessoas sobre os assuntos tratados. Mas é uma das bases sobre a qual a aula pode ser construída.

 

Costumo dizer que montar uma aula é como escrever uma obra de ficção: um livro, um filme, novela... Tudo isso é feito de trás para frente.
A partir do plano de aula, defina o produto final de sua aula. Agora pense nas estratégias para orientar as pessoas a chegarem nesse objetivo.

 

Exemplo: se seu plano de aula é ensinar a desenhar formas simples (linhas, quadrados e círculos, você pode pegar como objetivo uma figura simples (boneco do tipo "palito").
Isso pressupõe ensinar a criar linhas, círculos e quadrados (formas simples) e depois reunir esses desenhos na forma de um boneco simples. Ou seja, a aula parte do mais simples para depois chegar ao mais complicado. O planejamento parte do complexo (objetivo), e pensa como levar o aluno até lá (meio).

 

Após isso pense no exercício de fixação, que deve ter alguma coisa de mais complicado que o trabalho de aprendizagem, para estimular o interesse do alunado.
Por exemplo, passe um exercício para criação da "família palito": desenhar o marido, esposa e filho com cenário (parque com árvores).

 

O material paradidático nessas horas é fundamental para os alunos mais atrasados ou que perderam a aula. Como nem sempre haverá material que seja o espelho de sua aula, você pode recorrer a tutoriais na internet, videoaulas, apostilas digitais. Se precisar montar material próprio, telas que ilustrem o exercício "pronto" ou passo-a-passo (sem descrição) são úteis.
Por fim, se puder pensar em ilustrar suas explicações teóricas, é importante pois as pessoas fixam mais o que vêem do que aquilo que lêem. Sem falar que isso poupa tempo de aula, evitando que tenha de refazer esquemas/gráficos que ilustrem sua explicação, a cada aula.
Indicar redes sociais para que o aluno possa pesquisar suas dúvidas por conta própria também é útil.

 

Se fosse juntar tudo num roteiro de aula seria mais ou menos assim:
1) apresente os objetivos da aula (de forma ilustrada), e defina as ferramentas, técnicas ou conhecimento a serem trabalhados.
2) apresente as ferramentas e comece a construir o exercício com os alunos. Uma vez apresentado os caminhos básicos, deixe os alunos terminarem o trabalho sozinhos.
3) passe um segundo trabalho, ligeiramente mais complexo, como exercício. Se tiver elementos que não ensinou ainda é útil para medir o grau de conhecimento dos alunos na matéria e estimular a curiosidade.
Por fim, ofereça um exercício onde o aluno possa construir um conteúdo de seu interesse, com as ferramentas e técnicas utilizadas.

 

Essa metodologia se baseia no "aprender fazendo" do construtivismo, mas com uma organização prévia, típica do ensino tradicional. O aluno aprende de forma organizada, porém com espaço para fazer suas próprias construções do conhecimento ao final. Em todo o processo sabe de onde parte, para onde vai e como chegar.
Isso tudo evita o "ensino baseado na tecnologia" onde mostrar a tecnologia acaba sendo a condição para chegar num resultado prático.

 

Enfim, esta é uma metodologia que embora use para orientar "novos docentes" vale para docentes antigos que trabalham com "metodo próprio" (que funciona bem com o próprio docente mas não necessariamente com outras pessoas ou alunos) e que acaba sendo um "método sem método".

Encenando a aula

13:49 @ 06/07/2011

Assistindo um vídeo do criador do Facebook dando uma palestra percebí que o cara só conseguiu reunir tanta gente por tanto tempo devido ao seu sucesso profissional. Mesmo assim muitos dos presentes devem ter desgostado da mis-en-scene do palestrante.

O teatro é uma imitação da vida, todos nós temos papéis sociais e a sala de aula não é diferente. Imagine que você docente é uma companhia teatral de uma pessoa só: você é autor, diretor, ator, figurinista ou cenógrafo de si mesmo. O que você pode fazer

Como figurinista, em relação ao seu visual?

Sabemos que o hábito não faz o monge, e que beleza não põe mesa, mas uma embalagem boa ajuda a vender um produto. Se o ambiente é bom, se vista de acordo, não destoe, cause uma impressão tão boa quanto seu entorno.

Como cenógrafo, em relação com o palco (ou sala de aula)? Dá pra mudar os móveis de lugar para que as pessoas assistam sua performance de modo mais agradável? Dá pra melhorar a visão de aula para os alunos que ficam longe de você?

Como ator,  como é a sua comunicação (verbal e não-verbal) com os alunos? As pessoas te escutam bem de longe? Você se comunica com clareza? Os alunos mais atrasados conseguem acompanhar a matéria, sem ficar para trás?
Como entretainer (animador) você dá a mesma atenção para todos, proporcionalmente?


Como autor, sua história é previsível e linear ou tem reviravoltas inesperadas - e interessantes - ao longo da peça? os diálogos possuem piadas e social para descontra(r)ir?

Como diretor, o que faz para que o conteúdo (a "história") seja interessante para quem aprende/ assiste? Você fala sobre um mesmo assunto longamente (esgota o assunto de modo consativo) ou divide um assunto em doses homeopáticas?

Cursos de informática podem ser esquetes, peças, óperas ou novelas.

Workshop é um tipo de aula (como uma esquete teatral, de curta duração), mas aulas (encenações longas, de média/longa duração como peças ou óperas) ou cursos (como as novelas)  não podem ser workshops.
Exposições curtas podem ser superficiais, focar um único assunto em profundidade ou vários sem aprofundamento. Cursos subentendem um conjunto de informações com média ou alta complexidade que se encaixam.

Essas são apenas algumas idéias para organizar aulas, de modo geral, do ponto de vista do teatro - que é espelho da vida.

Curso para clientes

20:17 @ 29/05/2011

Todo mundo que trabalha já viu esse filme: a pessoa era alguém fora de seu eixo profissional (parente, amigo/a) ou profisional da sua área (colega de trabalho, sócio/a), gente finíssima... até o dia em que virou cliente. Aí começou a se portar igual a qualquer estranho, com comportamento igual ao dos clientes que costumava criticar (como no caso de colega de profissão).
Não que os profissionais não pisem na bola - errar é humano, daí existirem códigos de ética profissional - mas achei interessante a idéia de fazer uma cartilha do que seriam os "mandamentos do bom cliente" até porque as pessoas, de modo geral, não tem consciência de que são "maus clientes" do ponto de vista profissional e agem de acordo com o senso comum de que "se estou pagando tenho todos os direitos; o que estou solicitando não é de graça, afinal". Como diria Ricardo Semler no seu livro "virando a própria mesa", todos tem o direito de serem tratados com justiça, e a justiça pode estar dos dois lados do balcão.

 

Uma lista de recomendações segue abaixo, baseada na observação de certas atitudes de pessoas próximas, colegas de profissão e claro, ex-clientes que, ao tomarem atitudes profissionalmente incontornáveis, tiveram algum tipo de prejuízo:

 

a) Procure ter certeza do que está pedindo e atenha-se ao que pediu até o final.
Se tem dificuldades de tomar decisões sobre o que deseja, peça um dia ou dois para refletir sobre o assunto.
Nem todo serviço profissional é como ir na copiadora da esquina (1); imagine que, para quem está prestando serviço, consertar um furo no casco de um navio ou na sola de um sapato é um trabalho que demanda experiência, custo material e tempo de execução (2). Ambos serviços merecem igual respeito, independente da sua complexidade ou tamanho.

 

b) Tenha em mente que alterações no combinado implicam em custos extras.
Pedir ao frentista do posto de gasolina para colocar gasolina com álcool no seu carro e depois de abastecido pedir para trocar por gasolina sem aditivos- sem custos - não é o que se espera de uma pessoa coerente.

 

c) Solicitou e foi entregue conforme o combinado, efetue pagamento. Foi entregue parcialmente, pagamento parcial.
Além do sinal, essa é uma situação que merece atenção de ambos os lados, contratado e cliente (3).

 

d) Faça uma auto-crítica baseado na reação das pessoas: ninguém sorrí quando está insatisfeito ou o contrário. Analise porque o outro lado (contratante) não sorriu para você em determinada situação de trabalho e tente não repetir a situação mais adiante.

 

e) Assim como não nos relacionamos bem com qualquer pessoa, o inverso também vale. Se por acaso o relacionamento profissional A não fluiu bem, tente com o profissional B. Se os problemas persistirem as chances do problema estar em alguma atitude sua são grandes.
Em último caso veja se não lhe interessa aprender a atividade que necessita, para ficar independente e resolver o problema por sí só. Lembre do ditado que problemas são oportunidades disfarçadas de trabalho...

 

f) Tenha em mente que a vida é uma rua de mão-dupla: assim como você descarta pessoas que não lhe atendem dentro do esperado você pode ser descartado como um cliente que não se comporta de acordo, sendo atendido de forma a não voltar de novo.
Assim como você recomenda negativa e publicamente uma empresa ou profissional o outro lado do balcão pode fazer o mesmo tipo de comentário a seu respeito no mercado, se o sentimento for recíproco (e pior: esse comentário não será público, mas pode propagar na mesma proporção que o seu entre empresas e profissionais do ramo).
Como diz o ditado, em caso de divergência, mais vale um acordo do que uma ação.

 

g) Nem toda relação de trabalho é uma relação pessoal, assim como nem todas as pessoas que você conhece frequentam sua casa. Se para você segurança envolve relações pessoais talvez contratar autônomos por indicação pessoal seja uma solução de personalizar minimamente as suas relações de trabalho.

 

h) As oportunidades de trabalho e de ofertas de serviços são amplas mas cada mercado é pequeno, as pessoas se conhecem. Se os dois lados do balcão puderem deixar uma boa impressão para a outra parte todos saem ganhando. Evite ser um mau cliente que acaba pagando caro para ter seu problema resolvido a contento ou evite ser um prestador de serviços que ninguém recomenda.

i) Errar é humano. Ninguém em sã consciência quer ter ou dar prejuízo. Se ambas as partes erraram em algum momento na hora de tomar decisões, divida o prejuízo.

No mais, felicidades para todos nós, clientes e profissionais.


...
Nota:
(1) mesmo assim conheço empresas que fazem cópias que solicitam uma assinatura na entrega da cópia de um documento, em papel comum, para que não hajam dúvidas sobre o que foi solicitado e o entregue...


(2) Nesse ponto entra uma questão comum a maioria das áreas profissionais: o hiato entre o prometido e o oferecido. Nem todo profisional apresenta uma amostra fiel do que vai oferecer ao final da prestação de serviços. Particularmente só inicio um serviço após apresentar essa amostra - fiel - do que será entregue, com aprovação formal, por escrito.


(3) Costumo recusar trabalhos em que a parte contratada se recusa a colocar por escrito os termos do trabalho. Formalizar por escrito as relações - das solicitações ao recibo de pagamento - é segurança para ambos os lados, e evita ruídos na comunicação. Eu elaboro relatórios de serviços ilustrados para reduzir ao mínimo os ruídos na comunicação, com resultados positivos.

Boa aula versus aula ruim

02:04 @ 27/05/2011

Existem varias maneiras de se abordar um problema, todas com prós e contras. Se formos perguntar a um docente e a um aluno o que é “uma boa aula” ouviremos definições quase que opostas, mas com elementos em comum: “a cara dos alunos diz se a aula foi boa ou ruim” diriam alguns professores ou “eu me diverti aprendendo” podem responder os alunos.

 

Eu acredito que vivemos no século do Entretenimento, com E maiúsculo: tudo hoje ou é ou passa pelo entretenimento. Esporte é entretenimento (isso deve explicar tantos eventos de esporte nas praias dos centros litorâneos), cultura é entretenimento (se não for não consegue patrocínio), política (os showmícios são prova inconteste disso) informação é entretenimento (os telejornais que fazem shownalismo são um bom exemplo), enfim... educação também virou uma forma de entretenimento. É fácil entender: numa época onde o acesso ao entretenimento é tão fácil (nos grandes centros é fácil ter acesso a espetáculos gratuitos ou de preço simbólico, além da internet, TV a cabo, DVD, jogos, cinema, teatro, eventos...) que as pessoas podem se dar ao luxo de escolher como e quando vão se entreter. Entretenimento – e não só ele - é um consumo tão fácil que tudo o mais entra na mesma categoria ou se nivela a ele: das nossas relações pessoais até as escolhas profissionais. Ao fazer um curso, comprar um livro, ler uma revista, folhear um jornal, ouvir uma rádio, assistir um programa na TV, temos o pressuposto de que qualquer atividade deve ser rápida e prazerosa como um sanduíche de fast-food. O cerne da questão reside aqui.

 

Se para o professor da geração anterior à internet a boa aula coletiva é aquela em que os conceitos são passados, exercitados e fixados por todos, para os alunos criados com a internet a “aula boa” deve ser individual como a tela de seu computador, e a informação só deve parar de ser transmitida quando a sensação de cansaço for semelhante a de ficar o dia inteiro assistindo ao YouTube. Ou assistindo vídeos do Humor Tadela.

 

Certa vez ouví uma definição ótima de "mau aluno": aquele que acha que possui conhecimento do assunto o suficiente, ou só deseja aprender "o que está na sua frente" sem profundidade. Também já ouví uma definição excelente do que deve ser a meta do professor: melhorar a pessoa que está à sua frente (Paula Wenke, diretora teatral). Lidar com esses extremos fazem parte da missão de quem lida com o público, ou com educação.

 

Mesmo sabendo que não existem fórmulas mágicas, apenas recomendações que devem ser dosadas conforme o contexto, particularmente acho que é importante tentar equilibrar as piadas e o social que faço durante as aulas com conteúdo, pois no meu entender, é o conteúdo que segura a aula, por melhor que seja minha habilidade em entreter as pessoas.

 

Outra coisa que tento fazer é criar estratégias de personalização/individualização do ensino dentro de aulas coletivas, seja nas tarefas de aula como nas tarefas de recuperação; por exemplo, aplico uma mesma base de exercício - com variações individualizadas de acordo com o grau de necessidade de cada um - a alunos diferentes. Isso me poupa a tarefa de criar exercícios ou recuperações novas sempre, embora isso seja necessário ao longo do tempo.

 

Por fim, revisão permanente do conteúdo – a cada turma tento incluir conteúdo novo de forma a atualizar ou aumentar o grau de dificuldade da matéria. A forma com que nos comunicamos entra nesse rol de expertises também. Acho que esse trinômio – entretenimento, personalização e conteúdo – é um pilar no qual a “boa aula” deve se pautar, sempre.

Atrasar não adianta

01:50 @ 27/05/2011

O aluno chega atrasado, e nada acontece por conta disso. No dia seguinte chega mais atrasado ainda. No terceiro dia mais atrasado que no dia anterior e assim por diante. No final do curso, reclama que não aprendeu muita coisa...

 

O colega deste aluno vê o colega chegar tarde e resolve imitar pelo mesmo motivo. “Nada acontece mesmo...” Um belo dia chega na hora e vê a sala esvaziada. “O que está acontecendo?” ele pensa; “O conteúdo da aula está ruim, os colegas estão debandando, vou faltar a próxima aula para ver o que acontece” aumentando a bola de neve.

 

O terceiro aluno começa a ter “compromissos inadiáveis” todo final de aula, pois, para ele, não faz sentido ficar até o final de uma aula longa numa turma que se esvazia, mesmo tendo tarefas a cumprir e conteúdo a apreender.

 

Pra culminar, o professor resolve chegar atrasado, pois cansou de chegar na hora e encontrar a sala esvaziada. Os alunos que chegam ou comparecem começam a ficar com a pulga atrás da orelha e solicitam a mudança de docente, pois analisam não o conteúdo mas o esvaziamento da sala de aula.

 

Como diz uma das leis de murphy, as coisas deixadas por sí só vão do ruim ao pior.

Na verdade o professor frente a situações de desordem do alunado(*) tem de ter estratégias para contornar o problema - o esvaziamento da sala através dos atrasos, ausências e faltas - e por ordem na sala de aula.

 

Definir as regras do jogo no primeiro dia de aula – e relembrá-las ao longo do tempo – é uma primeira ação:

- definir percentual de faltas mínimas permitidas por módulo;
- faltas não justificadas abonadas somente com realização de trabalhos ou avaliações;
- ausências antes do final da aula são convertidas em falta na aula inteira;
- presenças são contabilizadas da hora de chegada até a hora de saída.
- nunca "voltar a matéria": o atrasado prossegue a partir do ponto que chegou, em respeito aos que chegaram na hora. Se puder ver um resumo da matéria no intervalo, perfeito.

 

Além dessas ações, comunicar a situação dos alunos ao final dos módulos é uma segunda ação efetiva para que o aluno fique a par de seu próprio comportamento e desempenho, fazendo auto-gestão de seu estudo.

 

Estas diretrizes solucionam problemas na origem, através do monitoramento do problema e da imposição de limites a comportamentos inadequados.

 

Não há receita de bolo: Cada professor adota soluções de acordo com seu ponto de vista, temperamento ou estratégia frente ao problema. Tenho um colega docente que trata a questão de forma diversa da minha, sem ser fiscal de alunos: os alunos chegam e saem a hora que desejam, e ele avalia as competências adquiridas ao final do curso, seja quais forem...

 

Outros colegas docentes, quando os alunos atingem certo patamar de ausências/faltas pedem para a instituição de ensino ligar para os responsáveis pagantes do curso (o problema é quando o aluno é maior de idade, a instituição não liga...).

 

Enfim, o tema é antigo como a sala de aula, mas é um problema de gestão educacional e como tal, contornável quando se possui um método.

...

Nota:

* Normalmente essa desordem é fruto de políticas equivocadas do docente frente ao problema ou de políticas frouxas da instituição de ensino, como o uso de celular em sala de aula.


Num cenário desorganizado o docente pede que o aluno não use o celular e este se nega, gerando atitudes severas por parte do docente ou instituição de ensino.


Num cenário adequado o docente pode dar o exemplo de que o celular não deve ser usado em aula ou o poder público pode determinar uma lei que proíba o uso do aparelho em instituição de ensino.

O docente pode definir que o uso do celular deve ser em caso de emergência ou a instituição de ensino pode recomendar pessoalmente e por escrito o não uso do celular em aula.

Uma vez, conversando com colega docente ela relatou um caso de uma outra colega que teve de substituir, e que, nas palavras dela, “se perdeu psicologicamente com a turma” (leia-se: fez muita amizade com os alunos mas não conseguiu manter o interesse deles pela matéria). Eu mesmo já me deparei com essa situação ao substituir um docente, mas consegui extrair fatos e soluções comuns dessas situações que colhi ao longo do tempo.
Caro(a) docente, se a matéria que você deu com sucesso recentemente não está motivando o grupo atual, pode ser que:

(a) a turma esteja achando o conteúdo fácil demais (parte da turma pode já conhecer a matéria, o assunto pode não estar dentro do interesse de um grupo, etc).

O que pode ser feito: comece a dar a matéria “de trás pra frente”: o “mais difícilque ficaria pro final comece a dar agora. Quando a bola do corpo discente baixar, retome a matéria onde estava. Isso sempre funciona.
Use sempre referências estrangeiras (que os alunos só terão acesso com maior dificuldade); use referências em língua portuguesa apenas se não houver em outros idiomas. Não é questão de "ser chique", se os alunos encontrarem suas referências facilmente irão questionar se o seu saber é relevante...

(b) a saída de parte dos alunos (por motivos de saúde até imprevistos pessoais) numa turma pequena, dando a impressão aos restantes de que o conteúdo “não é relevante”.

O que pode ser feito: aumentar o grau de dificuldade da matéria, variar os exercícios a cada aula ou mudar o projeto de aula (pode-se dar o mesmo conteúdo de diversas maneiras, lembre-se!)

(c) Desnivelamento no grau de dificuldade dos exercícios ou no nível de aprendizado dos alunos

O que pode ser feito: ter mais exercícios do que vai dar de fato, ajuda a distribuir as tarefas por nível de dificuldade; colocar os alunos menos aptos para perto de você docente, geograficamente, de forma a dar mais atenção, mais rapidamente.

(d) haja uma grande diferença de idade entre docente e alunos

O que pode ser feito: aí entram técnicas de relacionamento interpessoal, que vão desde uso de expressões corporais (se movimentar ocupando toda a sala, complementar o que é dito com gestos) até pequenos arranjos pontuais (no caso de turmas longas, mudar os  alunos de lugar a cada mudança de módulo; propor técnicas de avaliação de acordo com a faixa etária). Tudo é válido para quebrar a monotonia.

(e) haja uma grande diferença de idade entre os alunos

O que pode ser feito: agrupar alunos na sala conforme a faixa etária; posicionar um aluno que precisa de ajuda com outros mais adiantados, para que se ajudem.

(f) haja uma grande diferença de estilo de aprendizagem entre alunos

O que pode ser feito: ter me mente que alunos mais introvertidos ou mais conservadores precisam fazer construções do conhecimento de um modo diferente dos colegas mais extrovertidos ou comunicativos. Pautar a aula pelos alunos mais conservadores na hora de explicar a matéria ao grupo (leia-se não quebrar nem fragmentar uma explicação), de forma que estes não se sintam deslocados e passe truques mais avançados nos intervalos aos mais adiantados.

Enfim, são algumas observações que recolhi ao longo do tempo e que acho que podem ser aplicadas com certo sucesso em sala de aula.

Os ergonomistas dizem que qualquer ação que possa ser repetida da mesma forma mais de uma vez pode ser projetada. Enviar um email, abrir uma porta, asssitir um filme... Posto o fato percebo que já existe um "projeto da experiência de aprendizado ou ensino", e que os cursos de inglês já trabalham isso muito bem. A começar pelo material didático, aulas e avaliações multimeios e multimídia.
A avaliação pode ser escrita, oral ou em grupo. Idem para as tarefas/exercícios de aula. As exposições do conteúdo (matéria) podem ser sob a forma de vídeo, quadro interativo (um software educacional, que substitui o quadro tradicional, na verdade) áudio, jogos (outro software educacional).

Uma vez que todo o conteúdo já está definido em detalhe (o professor não precisa construir suas aulas), fico imaginando que instituições de ensino "ideais" (os cursos de inglês?) devem treinar os docentes ou fornecer espaço/tempo para que eles possam se inteirar desse conteúdo e tecnologias para ministrar em aula, já que nem todos os professores trabalham com multimídia em sala de aula. E além, deve haver um "serviço de aopio ao docente" (um coordenador, grupo de professores ou comunidade de funcionários) para que certas dívidas sobre o conteúdo do curso possam ser tiradas pelos novos docentes.

A educação no século XXI pressupõe esse modelo, que, ao contrário da "escola tradicional" e da "escola construtivista" estrutura o aprendizado permitindo que, ao mesmo tempo os alunos façam suas próprias construções do conhecimento. Por exemplo: as aulas podem estar organizadas, mas os alunos podem rever a matéria, a sua maneira, em casa, através de um CD-ROM, vídeo ou audio-book, por um motivo simples: cada um de nós possui certas habilidades mais desenvolvidas do que outras; um aluno vai apreender melhor o que está escrito, outro o que é apresentado visualmente, e assim por diante.

Normalmente se pensa que somente grandes corporações como franquias é que podem investir em "projeto da experiência de aprendizagem/ensino", pois possuem receita e infra-estrutura para tal. Nem sempre. Presto serviço para uma empresa sem filiais que possui seu material didático bem organizado (apostila com conteúdo e CD-ROM com exercícios extras). Na verdade os bons exemplos nem sempre são seguidos, ou raramente as políticas da empresa permitem que as boas idéias sejam postas em prática.

De qualquer forma, até o docente - independente da instituição de ensino - pode planejar a "experiência de ensino/aprendizagem" de suas aulas que na maioria das vezes é um mix de planejar como passar o conteúdo, desenvolver bons exercícios e desenvolver bom relacionamento interpessoal com os alunos. O único problema que pode haver são as políticas da instituição não colaborarem para que essas boas intenções permaneçam de pé: não funciona muito planejar bem uma aula de informática se os computadores por algum motivo não funcionam a contento.

Acredito que assim como a instituição de ensino deve ter políticas firmes, mas fundamentadas, sobre seus objetivos, o docente deve ter sua metodologia de aula bem definida e amarrada. Se vai fazer aula externa, fazer dessa aula parte da avaliação do aluno ou parte da matéria desenvolvida em aula para que ele perceba que a "aula externa" não é "dia de passeio", e que não pode faltar impunemente...

Estava eu  numa reuniao de departamento, com o então coordenador de curso de uma unidade da instituição de ensino. Antes de comentar sua saida da função (estava se demitindo do cargo de coordenador) ele sugeriu que um outro docente assumisse sua função, pois, no seu entender, somente alguém que é docente pode estar a frente da coordenação de seus pares.

 

Claro, não é o único requisito, e raramente o mercado segue esta lógica (*), mas a observação é deveras relevante, pois quando um aluno faz uma reclamação a quem desconhece a atividade, este vai ver o problema com olhos de aluno (ou seja, vai ter uma visão parcial da situação).
É fácil compreender a situação. Peça a uma criança perguntar a outra criança o que ela acha dos pais as "obrigarem" a tomar banho todos os dias, e você vai ter uma resposta do ponto de vista de uma criança.
Peça a um coordenador que nunca deu aulas a analisar os queixumes de um aluno. Ele nunca será capaz de ler nas entrelinhas o que está sendo dito em comparação a realidade dos fatos, nem de argumentar que existem objetivos claros com o modus operandi dum curso coletivo, e que infelizmente serão quebrados ao se personalizar o curso para o queixante.

O aluno acha a aula ruim porque não pode usar o MSN enquanto o professor explica a matéria; o pai "pagante do curso" reclama que o filho adolescente não aprendeu a fazer cartões de visita no MS Word (mesmo que esta competência não esteja dentro do escopo do curso) pois ele comprou um micro novo e deseja que o filho produza cartões de visita para amigos, na esperança de recuperar o investimento feito; o aluno se sente desconfortável pois está no século XXI aprendendo no mesmo modelo de ensino que existia em 1945. E por aí vai.


Esse tipo de filtro só possui quem está na "linha de frente" dos cursos, ou seja, o professor.
Por isso que sempre bato na tecla de que uma empresa deve ouvir mais de uma parte (a prata da casa incluso) antes de tomar decisões. Até para que as decisões não sejam corporativistas, nem "de cima para baixo" (fora da realidade).



...

 

"Aprenda o básico de Photoshop em menos de 25 minutos"
http://www.htmlstaff.org/ver.php?id=25463
Por isso que o ensino "do software" se banalizou; hoje faz mais sentido o ensino de "aplicações interessantes do software" em sua profissão.
A geração mais nova já entra em sala de aula com assinatura da revista Photoshop, a bíblia do Photoshop, videoaulas do YouTube, tutoriais na web...
Cursos do tipo "retoque de imagem para publicidade" pode até não fazer sentido para quem trabalha no ramo, mas ajuda a vender um curso de Photoshop.

Em breve "curso de Photoshop" será substituído por "técnicas de Photoshop", assim como curso de "Excel" foi substituído por "Excel Avançado".


Não que os cursos básicos irão acabar, mas será um tipo curso com espaço cada vez menor.

 

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Um colega docente conseguiu dar a "volta por cima" dentro da área de docência. Ele acabou migrando de curso para outro (da área A para a área B) por ação do mercado, uma vez que o local onde ele ministrava aulas não percebeu que o seu insucesso em sala de aula se dava por questões não relacionadas ao docente. Entre outros micos, o MSN era permitido durante as aulas (**), o conteúdo programático não ia de encontro às expectativas dos alunos, tanto na parte pedagógica quanto em infra-estrutura.


Particularmente fiz o mesmo, cerca de 10 anos antes, por opção própria (percebí a situação antes do colega); Hoje percebo que a própria área de profissional onde estou inserido está mudando rapidamente, tanto no conteúdo como em demandas extra-curriculares (aptidões interpessoais, políticas e até sociais) o que me faz pensar em como me reinventar para continuar na área de docência.
Mas esse assunto merece um post inteiro.

 

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Presto serviço numa instituição de ensino de formato privado, onde problemas em relação a satisfação dos clientes/alunos é um fato, por conta até do gigantismo da instituição. As relações aqui são essencialmente impessoais como a relação entre um motorista de ônibus e você.
Estou fazendo curso numa ONG, que, ao contrário da instituição privada, as relações são mais personalizadas, o que minimiza problemas de satisfação, p.ex. Não que não hajam problemas na ONG, mas a questão da satisfação do corpo discente (alunos) nesta ong é das mais altas.


Problemas todos têm, mas é curioso como os problemas são diretamemnte relacionados com o modelo (políticas) de cada instituição.

 

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Uma frase que sempre utilizo é a de que os alunos, quando assumem papéis de consumidores, frequentemente se utilizam do bordão "estou pagando..." da personagem Lady Kate do programa Zorra Total da Tv Globo. Ou seja: "se estou pagando, tenho direitos...".
O que as pessoas não percebem é de que a personagem do programa humorístico mostra nas entrelinhas é que ter dinheiro (ou direitos de consumidor) não transforma ninguém em uma pessoa melhor. Melhor dizendo, comprar um curso não significa que o respeito de quem está do outro lado do balcão esteja à venda. Aliás, esse respeito tem de estar presente em ambos os lados.


A tecla que me bato é que os problemas começam nos sistemas e terminam nas pessoas. As pessoas são o espelho do sistema a sua volta. Certa vez numa universidade pública pedí informação a uma funcionária sobre como preencher um formulário e tive como resposta "você sabe ler?". Se esta pessoa estivesse na iniciativa privada (em outro sistema) dificilmente a resposta seria essa...

 

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Notas

(*) Cargos de confiança normalmente não são dados a desconhecidos; e raramente um conhecido seu vai preencher todos os requisitos para a solução de seus problemas... Daí existirem tantas pessoas chefiando áreas/pessoas fora de sua formação ou experiência.
Há quem afirme que o principal para ser gerente/coordenador é entender de pessoas, pois nem sempre a pessoa "certa" vai estar disponível no mercado de trabalho no momento necessário.


Concordo com a importância de possuir "inteligência interpessoal/emocional" ao lidar com pessoas, mas isso não habilita conhecimento de causa sobre como as coisas funcionam. Me peça para consertar uma TV e irei levá-la a um técnico, mesmo correndo o risco de contratar um mau técnico. Me peça para consertar um micro e serei capaz de descobrir ao menos onde está o defeito, e se o conserto foi bem feito. No primeiro caso desconheço o assunto, no segundo não - a possibilidade de me sair melhor no conserto do micro são maiores do que na TV, por mais que tenha inteligência interpessoal/emocional ao lidar com pessoas...

 

(**) Nada contra o MSN (ou serviço de SMS via internet); se bem usado pode ser um recurso paradidático excelente - já usei o MSN em cursos para deficientes auditivos. Em vez de depender da intérprete em libras - linguagem de sinais para surdos - pedir para prestarem atenção, eu "puxava a orelha" deles via SMS, que estava sempre ligado, com resultados mais efetivos...

Flexibildade com critério

09:56 @ 13/02/2011

Presto serviço numa instituição que sempre adota as novas tendências do mercado de trabalho.  A exemplo do próprio mercado essas adoções são feitas sem que se faça algum teste prévio, até para ver se a tendência se adequa à cultura e políticas da empresa, como manda o bom-sendo (o plano Collor* foi um plano econômico necessário e correto, só errou na dose, ou seja, na falta de um verificador prévio das suas conseqüências. Ou seja, um teste prévio).



Depois da "globalização" o termo da moda agora é "flexibilização"; eu vejo esse termo como uma forma de tornar as relações boas para os dois lados,cada qual abrindo mão de alguma coisa (direito/ver) de modo que a balança das relações não penda só para um lado. há quem defenda que no caso das relações de trabalho, o conceito de flxibilização não deveria ser mantido, pois implica em retirar direitos dso trabalhadores, que, historicamente não tem possibilidades de estabilidade, ascensão/mobilidade social na iniciativa privada. Outros defendem a idèia de que a CLT não se atualizou com o tempo (porque um funcionáro trabalha 11 meses e recebe 13?). Enfim, o termo flex é polêmico.



O termo “flex” é usado oficialmente na instituição onde presto serviço para definir as novas relações trabalhistas,  mas pode e deve ser usado informalmente nas relações entre docentes-alunos.
Um exemplo: nos cursos livres, entre outras coisas, a instituição fornece material didático e há um compromisso com a formação técnica adequada às exigências do mercado de trabalho. Aqui as faltas/presenças/ausências são tratadas com 75% de presença mínima exigida, e 25% de ausências/faltas/atrasos permitidos.
Sair antes do final da aula implica em falta na aula inteira, chegar atrasado implica em ter presença a partir daquela hora (descntando os minutos/horas de atraso).


Na pós/graduação, apesar das semelhanças com os cursos livres, não há material didático fornecido pela instituição e as presenças x ausências/atrasos são flexíveis: ausências e atrasos são relevados ou ignorados, mas felizmente as faltas são contabilizadas.



Minha conclusão é de que, em ambos os casos, pode-se ter flexibilidade para tratar faltas, ausências e atrasos do corpo discente, dentro do um bom-senso: se um aluno atinge 70% de faltas/atrasos/ausências num sistema onde só 75% é permitido, se o(a) aluno(a) tiver bom desempenho, pode-se informalmente ajustar a avaliação, aprovando o(a) aluno(a). Menos de 70% de presença, reprovação sem discussão, se não sala de aula vira casa da sogra. Estratégias para recuperação durante ou após o curso podem ser articuladas, dentro desse mesmo pensmento.



Outro exemplo dentro dessa filosofia “flex” é a tolerância com hábitos e costumes dos alunos: a geração mais nova usa a internet intensivamente, proibir o uso da internet é algo que vai contra essa cultura – seria como impedir a alunos mais velhos de usar relógio em aula, p.ex. Pode-se ser flexível com isso ao determinar horários/intervalos de aula onde  a internet pode ser usada sem problemas. Isso vale para o celular: pode-se pedir que o uso do celular em aula (que é proibido por lei) seja limitado: ou se coloca em sistema sem campainha com vibração  ou se atende fora da sala.



Enfim, existem várias situações onde a flexibilização do que está definido oficialmente pode e deve ser usada, estas são apenas algumas situações, dignas de registro e que podem ser um exemplo de como pensar a flexibilização das relações, sem com isso engessar os relacionamentos dentro dos ambientes educacionais.



...
Notas:
(*) Para quem não era nascido à época, foi um plano econômico Brasileiro que visava conter uma hiperinflação em curso. A solução adotada foi confiscar a poupança e conta corrente de todos os brasileiros até aquela data, quebrando financeiramente diversas empresas e cidadãos. Se tivesse sido testado, teria feito o confisco dos cinco anos anteriores, apenas...

Planejamento e substituição

19:39 @ 10/02/2011

Atualmente me deparei com um problema recorrente na instituição onde presto serviços, que é a substituição de docente num curso em andamento. Este fato raramente é indolor e pode inclusive se virar contra quem veio solucionar o problema se não for tratado com algum critério (se a instituição não tiver processos sistematizados e programas bem definidos ou se o docente não tiver um método bem definido, comunicado e mantido ao longo do tempo).

 

Vou postar aqui o cenário e as metodologias que adotei na solução do problema:

 

Cenário: um docente que teve de ser substituído, entre outros quesitos, por não estar tendo desempenho adequado no módulo em questão.

 

Diagnóstico: após me inteirar da situação (ver exemplos de aulas desenvolvidas; cruzar o que foi lançado como matéria dada com o depoimento dos alunos sobre o que foi ensinado) relacionei o que os alunos desejariam ter como reposição da matéria.

 

Solução adotada: A partir daí desenvolvi cronograma de aulas incluindo reposição de matéria. Como a carga horária do curso não podia ser estendida (nem deve, pois na prática isso não funciona) fui reduzindo a carga horária de alguns módulos para acomodar aulas de reposição. Esse acordo foi feito com a concordância dos alunos, mas não foi colocado por escrito, pois era um acordo informal.

 

A situação ficou assim: na 1ª e 2ª semana do mês a matéria oficialmente era "X", mas a primeira semana ficou sendo reposição da matéria "A". Quando uma reposição atravessava dois módulos (final de um e início de outro) os alunos eram avisados ao início das aulas em que módulo estavam, a fim de ficarem a par do cronograma real versus o aplicado na prática.

 

Ao final de cada módulo as avaliações eram lançadas seguindo o cronograma oficial; como pode acontecer de no cronograma uma matéria ter terminado e ainda não ter sido dada de fato (devido às revisões/reposições), as notas eram lançadas tendo como critério a frequência e eram informadas para os que ficaram reprovados por faltas (*).

 

No caso dos alunos argumentarem que “levaram falta num módulo fazendo outro” meu argumento é: faltas são faltas, independente do módulo e são contabilizadas pela instituição de ensino; o docente (eu) apenas lança as faltas/ausências/atrasos. Se as matérias dadas acompanhassem o cronograma oficial, haveriam faltas - e reprovações por falta - do mesmo modo.

 

O importante nesta metodologia é informar aos alunos periodicamente a situação na qual eles se encontram (resultado das avaliações por módulo; lista de reprovações por falta;  matéria reposta x módulo que estão em relação ao cronograma oficial) para que não haja o argumento da “desinformação” causada pelo esquecimento ou eventual má-fé.

 

Vendo a situação de longe, penso como essa situação pode ser evitada ou amenizada, preventivamente:

 

• A coordenação deve manter-se informada sobre o andamento das aulas, ao fazer visitas periódicas a turma.

 

O plano de aula deve estar detalhado por aula, e não apenas no “conteúdo programático” de modo geral. Mudou o docente, continua-se a matéria de onde se parou. Ou inicia-se matéria nova a partir dali.

 

Os exercícios de todas as aulas devem ser padronizados, com material didático que seja espelho desses exercícios; as aulas devem ocorrer independente do docente e do local onde o curso ocorre.

 

O docente substituído deveria ter uma segunda chance e passar por processo que o habilitasse na matéria em questão para o futuro, uma vez que (a) pode ser novo na função de docente (b) é mais barato qualificar a prata da casa e resolver problemas de fato do que demitir quem errou e viver eternamente apagando incêndios...

Esse processo de requalificação da prata da casa deveria ser capitaneado pela instituição de ensino:  o docente poderia (a) assistir aulas da matéria em questão com outros colegas com mais experiência, (b) fazer novos cursos de reciclagem no mercado (c) conversar com colegas em fóruns de discussão sobre como desenvolver exercícios e dinâmicas mais atraentes.

 

Não pensar/agir assim é perpetuar o problema, pois “o docente ideal” nunca irá existir, pois não vivemos num mundo ideal.

 

Enfim, achei interessante compartilhar essa metodologia, que, como todo planejamento e gerenciamento de crises “toma tempo” e “dá trabalho”, mas que foi aplicada com resultados positivos.

 

...

Notas:

(*) Na instituição de ensino em questão as faltas são tratadas assim: alunos que não vem às aulas recebem faltas (claro); os que chegam atrasados recebem presença a partir da hora que chegam;  os que saem antes do final da aula recebem falta pela aula inteira (até para separar os alunos que tem imprevistos para resolver dos que fazem da aula turismo). Esse critério é uma das coisas que deve ser explicada no primeiro dia de aula do curso ou do módulo, assim como o sistema de avaliação, que pode ser único (em todo o curso) ou diferente a cada módulo.

Planejamento e programação

13:37 @ 06/02/2011

Esta semana fui apresentado a uma metodologia que antecipa determinado problema escolar,prevendo sua solução: troca de docente e reposição de aulas.

 

Na instituição onde era aluno, logo na primeira aula eram apresentadas a "normas da casa" em relação a presenças/faltas/atrasos: 70% de presença mínima, por módulo. 5 faltas num módulo implica em desligamento do curso.

 

No primeiro dia de aula é informado aos alunos que de tempos em tempos um outro docente ou coordenador irá dar aula no lugar do docente titular, para se inteirar da matéria já dada, do andamento do curso, etc. Se no dia da substituição a matéria que seria dada for fundamental, essa aula será reposta na próxima substituição do docente.

 

Na eventualidade do docente titular - ou coordenador - não poder dar uma aula o docente do turno anterior ou posterior pode ser convocado para cobrir a falta. Essa aula pode ou não ser continuação da aula anterior, mas deve estar dentro do programa geral do curso.

 

Neste sistema o programa do curso não pode estar definido em detalhes - aula por aula - pois desta forma haverá a cobrança do conteúdo programado para "aquele" dia. Por outro lado acaba com o drama da substituição de docente "em cima da hora", pois essas substituições estão previstas, sem data marcada nem frequência definida, a título de avaliação do curso, da matéria e docente, de modo geral.

 

Acredito também que esse sistema deve funcionar melhor em estruturas pequenas onde haja sintonia muito fina entre coordenação e docentes, onde as pessoas se conhecem mais de perto; afinal, quanto mais degraus existirem entre a sala de aula e a direção/coordenação, menores as chances de que as pessoas "se dêem as mãos" para resolver as questões.

Um exemplo: já substituí e fui substituído por colegas docentes, retornando para - e devolvendo - turmas sem problemas pois os docentes se viam com frequência (dentro e fora do trabalho), o coordenador era docente também (algo fundamental) o que garantia que os problemas sempre eram resolvidos da melhor maneira para todos. Aluno insatisfeito é transferido para outra turma que ocorre em paralelo, docente insatisfeito com a turma passa o grupo para outro colega docente, assumindo outras turmas mais adiante, etc.

Somente em ambientes pequenos os problemas são resolvidos de maneira tão ágil.

 

Políticas desse tipo resolvem questões "eternas" em educação: manter o cronograma de aulas previsto no início do curso, mesmo com substituição eventual de  docentes, de modo flexível. Se antecipar aos problemas já prevendo soluções é algo que deveria valer tanto para o docente como para um equpamento, alunos ou produtos (um livro que não é entregue no primeiro dia de aula, p.ex.).  O grande desafio é ter um sistema onde esse planejamento de fato funcione, afinal, o ser humano é falho.

 

Enfim, achei que essa metodologia digna de nota.

Ponto de vista: aulas e aulas

13:34 @ 03/02/2011

Tom Jobim já foi vaiado num festival de música popular brasileira. Todos meus amigos dizem que “o rei” Roberto Carlos “canta mal” (!). Os Beatles foram recusados no seu primeiro teste numa gravadora. Fausto Silva, o Faustão, é o apresentador de TV mais malhado de toda TV brasileira, a despeito de seu programa estar há 20 anos no ar.
Acho que existem muitas pessoas que não curtem Tom Jobim, Roberto Carlos, os Beatles e o Faustão, mas maior injustiça é não reconhecer que Tom é um gênio, que Roberto Carlos chegou num patamar que poucos artistas alcançaram, os Beatles são referência na história da música, e há apresentadores menos comunicativos do que Fausto Silva fazendo o mesmo programa, no mesmo horário há tanto tempo que ele. Bem, nem Cristo foi unanimidade...

 

Já passei por esse drama: desenvolví o conteúdo programático de um curso, e anos depois, uma aluna do mesmo curso se queixou a coordenação de que "eu desconhecia o conteúdo da matéria" (!). Leia-se: se ela não estava aprendendo, o problema só pode ser meu (!). O professor que prosseguiu depois de mim foi alvo das mesmas críticas, já que a instituição de ensino em questão não possuía (e não possui até hoje) estratégias ou políticas de ensino para alunos com deficiências de aprendizagem...

 

Estava vendo um anúncio de um curso de inglês que vendia “turmas para adolescentes”, onde um representante reclamava em alto e bom tom: “não quero aula chata”, “nem decoreba”; era como se dissesse “quero dar boas risadas enquanto estudo”.
Quem já fez aulas de pré-vestibular conhece esse estilo de aula: o professor organiza um rol de piadas para inserir nas aulas enquanto passa a matéria.  Nada contra, mas o perigo é o aluno lembrar mais das piadas do que da matéria.
Ok, tem a coisa da memória afetiva: você se lembra da situação divertida, vai se lembrar da matéria também. Acredito que quando a situação é criada pelo aprendiz é mais fácil que essa relação ocorra. Por exemplo, se o estudante de biologia pega um música e recria a letra com elementos da matéria, a chance dele se lembrar da matéria anos depois é muito maior do que se o professor musicar suas aulas.

 

Em outro cenário semelhante que assistí: o(a) docente faz da aula uma palestra, onde discorre com muita mise-en-scéne sobre seu conhecimento. Nenhum exercício de fixação, nenhuma contextualização, nenhuma dinâmica, nenhum trabalho em grupo, nem material paradidático. Meus colegas aplaudiram a aula, mas eu questionei: “você se lembra do assunto X que o(a) docente falou?” resposta: “não”. “Então essa aula maravilhosa foi uma droga” eu retruquei.

 

O que quero dizer com esses exemplos é que “a aula boa é a aula que fica”, e não “aula boa é a aula que parece ser boa”. E essa “aula boa” depende em 50% do aluno. É claro que se o docente atingir seus objetivos parcialmente a mágica não acontece, mas no caso desta falha, estratégias – material paradidático, aulas de reforço, trabalhos de recuperação – devem ser utilizados pois o foco é o conhecimento não o “circo” em torno dele.
Claro, que até “o circo” bem organizado pode ser um elemento contribuidor dos objetivos de aprendizagem.

 

Um exemplo: comecei a fazer curso de teatro e uma das lições que aprendi foi que o ator deve “ocupar o espaço cênico” caminhando, buscando lugares vazios no palco e preenchendo-os com sua presença. Fiz isso em aula - comecei a passear pela sala ao explicar um assunto e os comentários típicos dos alunos com déficit de atenção ou hiperativos - “que sono” - desapareceram como que por completo. Entrou na sala de aula, esqueça que a sua cadeira existe, caro docente.

 

No meu entender, qualquer ferramenta – técnicas de teatro, psicologia – podem e devem ser utilizadas, mas com critério para não se perder o foco do ensino. Todo docente sabe como fazer com que as aulas fluam da melhor maneira, mesmo não passando – ou fixando - conhecimento algum: seja oferecendo material didático que “se encaixa” na primeira tentativa do aluno, fazendo um social com o alunado antes durante e depois das aulas e principalmente sendo extremamente flexível com as faltas e ausências.

 

Certa vez ouvi de um professor de graduação que ele “não reprovava alunos” pois, no seu entender “reprovação é atestado de mau ensino”. Ele ainda argumentava que “não preciso cobrar dos alunos pois o mercado de trabalho vai fazer isso por mim mais tarde”.
Outro professor me deu o outro lado da moeda “tenho de ser rígido para preparar vocês para o mercado de trabalho, que é extremamente exigente”. Isso incluía não corrigir trabalhos que eram entregues num tamanho que não fosse - exatamente - o A4. Particularmete opto pelo meio-termo - nem fazer da aula a casa da sogra nem deixar o barco correr solto no leito do rio.

 

Enfim, acredito que fazer da aula uma experiência agradável é condição sine qua non para que a informação possa ser absorvida de maneira adequada. Agora, fazer do ensino entretenimento é algo que tem de ser dosado. Já trabalhei em instituições onde o ensino é visto, tratado e vendido como entretenimento, porém, havia toda uma estrutura/organização para que o aprendizado ocorra e seja fixado ao longo do tempo.
Não sou contra o “pão e circo” na educação. Se o pão alimentar o corpo, e o circo alimentar o espírito, preparando ambos para o dia de trabalho, perfeito. Acredito que quando as políticas de ensino são bem amarradas – os objetivos, ferramentas e métodos visando o ensino são bem definidos pela instituição de ensino (1)– esse tipo de discussão – a aula é boa ou ruim - inexiste. O docente sabe como a aula deve ser conduzida, pois segue objetivos bem claros, independente de seu estilo de ensino. Se o método 1 não atingiu os objetivos, tem-se de se ter a mão uma segunda abordagem para o mesmo fim (2). Se o aluno reclama de políticas bem definidas, ele tem todo o direito de procurar seu estilo de aprendizado no mercado de ensino, que com certeza oferece o pão com o recheio procurado e o entretenimento com a dose desejada...


...

Notas:
(1) Trabalhei numa franquia de ensino onde as aulas seguiam o seguinte modelo: 1/3 de aula teórica (no início meio ou final da aula) e 2/3 de aula prática. A aula teórica era apoiada em projeção de transparências ou projeção de telas do computador, com jogo de perguntas e respostas; as telas são fornecidas pela instituição de ensino, onde se repassa o conteúdo do material didático (“quais são as etapas para realizar tal procedimento?”).

 

As aulas práticas seguem o roteiro do material didático, sendo que há espaço para os alunos praticarem fora do horário de aula, uma vez por semana, exercícios extras criado pelo docente ou exercícios do material didático. De qualquer forma a chance de fixar conhecimento com outros docentes, com outro métodos e abordagens é o principal desta metodologia.

 

Hoje em dia o mercado de ensino procura oferecer abordagem de aulas individuais em turmas reduzidas,  onde os alunos são agrupados com colegas do mesmo nível; isso evita que um aluno mais adiantado diga que o curso é um ruim, apenas porque o ritmo da aula segue o ritmo da maioria.
Acredito que boas idéias acompanhadas de um modelo palpável a ser seguido é o melhor caminho para solução de problemas, não só em educação.

 

(2) Por exemplo, não tenho tempo de elaborar recuperações durante os módulos. Se  a instituição de ensino onde presto serviços tivesse sistemas de avaliação e ensino à distância, essa lacuna poderia ser preenchida independente de minhas possibilidades.
Avaliação e recuperação são atividades normalmente não-remuneradas em instituições de ensino; são vistas cono parte do rol de atividades que o docente tem de ter pronto, como seu plano de aula. A questão é que aulas coletivas são preparadas uma vez para uma coletividade; recuperações - e avaliações de recuperações - são individuais, e preparadas várias vezes, mesmo existindo estratégias pedagógicas para agilizar esse processo.