Grupos

Saindo da berlinda

19:06 @ 14/04/2008

Certa vez numa reunião de docentes, foram colocados certas questões meio recorrentes e o ponto de vista de cada um dos presentes sobre estas. Uma questão recorrente era “o que fazer quando o(a) cliente (não era “aluno(a)” pois a instituição é comercial, e o ensino, um commoditie...) não sai satisfeito do curso (leia-se: com o conhecimento esperado)?”.

Foi colocado o fato de que nem todos têm aptidão natural para o qualquer área do conhecimento humano. Um designer dificilmente irá aprender programação num único curso livre, até porque qualquer conhecimento tem de ser exercitado. Eu mesmo seria um péssimo aluno de física quântica.


Eu coloquei que quando encontro alunos sem grandes aptidões para a área de conhecimento que ensino, crio facilidades para que ele acompanhe o curso. Após o curso ele irá se convencer se este ou aquele conhecimento faz parte de suas aptidões, mas pelo menos enquanto ele estiver em aula comigo, irá se sentir satisfeito...


Alguns colegas ficaram meio revoltados, não com minha posição, mas com a idéia de ter de criar as “facilidades” que eu crio (não sou pago(a) para ser baby-sitter, foram algumas pérolas que ouvi).


O próprio coordenador da reunião ficou meio sem resposta quando cobrou “satisfação de todos os clientes”, mas não deu solução para resolver o drama que se instala quando um aluno reduz o ritmo da aula aborrecendo os demais (coisa comum em turmas heterogêneas, cursos livres, aulas presenciais em grupo).


De minha parte, vejo que o problema não está nos alunos com ritmo diferenciado, mas sim no modelo educacional existente. Como citei em outro post, não dá mais para dar aula no século XXI no mesmo modelo de dez, vinte séculos atrás. Ou se cria facilidades para que as coisas fluam melhor dentro dum modelo antigo ou se criam alternativas dentro deste modelo (um modelo novo). Por exemplo, aulas de reforço para alunos que perderam aulas ou não estão conseguindo digerir o conteúdo no tempo previsto.


Mas para isto ocorrer, o cenário tem de ser adequado: todo o conteúdo programático oferecido tem de estar documentado no papel, e cada aula tem de ter seu conteúdo pré-definido. Conteúdo extra o professor fica encarregado de repassar aos alunos por conta própria.


E estas aulas de reforço podem se dar de diversas maneiras: ensino à distância, aulas monitoradas...  em último caso até as famosas aulas extras de reposição ao final do módulo (que particularmente não aprovo muito devido sua eficácia relativa – quem solicita normalmente não comparece). Particularmente acredito que o que chamo de MicroCursos irão preencher uma lacuna existente nos dias de hoje. Uma lacuna: necessidade de aprender assuntos específicos, em curto espaço de tempo. Outra lacuna: não ter de fazer um curso inteiro quando o interesse é de adquirir parte duma área do saber. Assim como o governo atual atingiu uma parcela da população historicamente esquecida com o microcrédito (gerando distribuição de renda), os MicroCursos irão atender uma parcela da população que deseja aprender rápido, conhecimento específico e a um custo compatível.


Não estou falando de aulas particulares eventuais, e sim de aulas regulares a um grande contingente que por motivos diversos não se encaixa no modelo educacional tradicional, por ter novas necessidades.


Esta, ao meu ver,  seria uma forma de sair da berlinda educacional. Particularmente estou oferecendo essa modalidade de ensino, que possui seus prós e contras, que discutirei noutro post.

Quando comecei a ensinar webdesign[1] em cursos livres, webdesign era ensino de ferramentas (tecnicas) para esta atividade. Era o boom da internet comercial, por volta de 2000, e apesar de algumas iniciativas interessantes existirem no campo conceitual (como existem até hoje) basicamente o layout "página de revista" era regra geral na web. Ensinar ferramentas era o que o mercado buscava, as boas práticas vinham a reboque, até porque, pouca gente imaginava como fazer dinheiro com a web, de modo concreto, na época.

 

O tempo passou e, sem perceber, à medida que ia modificando o conteúdo de meus cursos,ia me adaptando às exigências do mercado intuitivamente. Só que o mercado mudou radicalmente entre 2003 e 2007. Hoje webdesign tem de dar conta de conceitos sólidos de usabilidade, experiência de usuário, arquitetura de informação... além das ferramentas (tecnologias que viabilizam tudo isso) que por sí só já são um capítulo à parte, dos mais extensos.

 

No caso dos cursos de web, o modelo de ensino tradicional já não dá mais conta de certas necessidades, que irei destrichar nas linhas seguintes, e solicita certas adaptações da parte do docente.
Quero frisar de antemão que as "soluções" por mim sugeridas aqui são baseadas num modelo de aula onde o tema dos projetos são definidos pelos alunos, ou sugerido pelo docente (a partir de um modelo pré-definido). Existem outras abordagens projetuais que não estou considerando aqui [2] mas que são igualmente eficientes do ponto de vista da dinâmica ou gerenciamento da aula.

 

Por exemplo, a complexidade dos projetos de webdesign desde 2003 me fez por dividir as turmas em dois grupos, para poder dar a mínima atenção aos presentes. Certo, o ideal é ter um monitor, mas como nem sempre essa necessidade bate com as planilhas de custo da instituição de ensino, resolví a questão assim, pela divisão de horários, com 50% do horário para cada metade dos participantes (alunos).

 

Outra questão "atual" é que a complexidade dos projetos pressupõe - como em qualquer projeto real - a dedicação de um tempo relativamente exclusivo para análise, formulação e seleção de alternativas, e, por fim, implementação com testes. Novamente não dá para dividir a atenção entre uma dúzia de pessoas e ainda fazer análise de projetos. Levar "dever de aula" para corrigir em casa acaba gerando dupla jornada, que se torna improdutiva quando se tem outras atividades que não a docência (coisa comum).

Minha solução foi reservar determinados dias de aula para fazer essa análise de projetos complexos, ainda que liberando a turma para usar os computadores (para navegar, se informar ou buscar soluções próprias). Aliás, essa opção por fazer a análise em sala de aula (e não em casa) acaba por ser interessante pois faz com que os alunos eventualmente descubram uma solução até antes do professor, poupando trabalho desnecessário. E filtra o argumento de que o docente está de bermudas em casa, sendo pago para isso.

 

Vale frisar que todas essas "soluções" devem ser negociadas de antemão, para que não hajam atritos entre as partes. Um exemplo típico seria informar que a carga horária reservada ao projeto fatalmente será insuficiente para que todos concluam o mesmo (mas suficiente para realizar as seções principais). Sempre cito como exemplo o site de um ex-aluno que fez o curso de webdesign duas vezes a fim de terminar seu (belíssimo) site.

 

Outras questões não menos relevantes como se ater à infra-estrutura que se dispõe (se o acesso a sites fundamentais ao desenvolvimento da aula está bloqueado, informe o fato de antemão aos alunos e trabalhe sem eles) ou se programar para ministrar as aulas mesmo sem estes recursos (p.ex. copiar o conteúdo necessário de antemão e disponibilizar em CD) acaba sendo tão necessário quanto ter proeficiência no conteúdo que está conduzindo. Assim como estar bem-disposto todos os dias mesmo que o biorritmo não esteja colaborando.

 

No mais, como diria Clemente Nóbrega (diretor de marketing da Amil, autor dos best-sellers "A empresa quântica" e "Empresas de sucesso, pessoas infelizes") o PLANEFAZENDO (planejar à medida que se executa) pode ser uma metodologia que pressupõe já saber planejar e fazer, mas acima de tudo pressupõe que um projeto (pedagógico) se faz aparando as artestas no seu curso (conhecimento tácito), sem receitas de bolo (conhecimento explícito).

 

...
Notas

[1] Existe até hoje uma discussão se o termo "webdesign" não é empregado errôneamente. Um exemplo disso é o curso (técnico) de Editoração Eletrônica (Desktop Publishing) que no Rio de Janeiro é chamado de Design Gráfico (!). Se formos tomar o nome pelo seu significado literal, design para  a web - projetar para a web - o termo está errado, pois formação em projetos é assunto para  cursos de longa duração (cursos superiores, p.ex.) pois envolveria tanto a conceituação do projeto, necessidades deste e design (que vai além do desenho simplesmente).
Se entendermos webdesign como ensino de ferramentas que permitem o desenho da interface, aí sim, o nome está correto, ao associar design com desenho, grafismo ou escrita. Particularmente o SENAC RJ adotou uma solução ao (re)nomear o curso de editoração eletrônica como "Ferramentas básicas de design gráfico", subentendendo design gráfico como desenho para mídia impressa.
Existe na língua espanhola os termos diseño e dibujo, que respectivamente significariam projeto e desenho; mas como termos de língua inglesa tem peso no mercado brasileiro (até que a atividade se torne campo comum do saber) webdesign irá sobreviver até ser renomeado como "Ferramentas de webdesign" ou "Ferramentas de design/projeto para web".

[2] Propor um projeto onde o professor é a figura do "cliente" e a turma se divide em grupos produtivos funciona muito bem, assim como fazer da aula um grande workshop onde as idéias fluem livremente e a orientação se dá em horários flexíveis. Fazer da "aula expositiva" um projeto também funciona, pois a cada aula se constrói um (grande) projeto, ou vários projetos semelhantes ao longo do tempo. O projeto final, previsto na grade curricular pode ser utilizado para fins diversos (reforço da matéria, recuperação, finalização de projetos, etc).

Um aluno meu, procurando se recolocar no mercado de trabalho, optou por sair do emprego onde estava para se dedicar a sua requalificação (leia-se: atualização via estudo) por um certo período.


Outro aluno, já resolveu investir todo o seu salário - tirando as contas essenciais - em um curso que pudesse mantê-lo no atual emprego.
Esses cenários mostram que o mercado de trabalho está muito competitivo por força do excesso de pessoas que migram todos os dias do interior para os grandes centros. Esse mesmo fluxo migratório impulsiona o progresso mas também o crime, mazelas sociais como a proliferação de favelas, declínio dos serviços públicos, por força de uma equação simples: assim como a natureza não pode prover alimento para a população mundial sem a intervenção duma agricultura mecanizada, a sociedade não tem como prover trabalho com remuneração digna à quantidade de pessoas que se espremem todos os dias nos centros urbanos.

 

Os cursos, stricto ou latu sensu, por força dos tempos atuais têm demanda por um novo papel: informar sobre a atividade e contextualizar esse conhecimento de modo específico, personalizado, diferenciado. Por exemplo, na área de tecnologia, não basta mais ensinar a práxis deste ou aquele modo de fazer; nem mostrar "as melhores práticas do mercado" dentro do seu uso "mais comum". Agora o papel do ensino técnico é


- ensinar a tecnologia dentro do que é necessário saber, mas com foco no dia-a-dia (necessidade) do aluno.
- mostrar como essa tecnologia funciona no contexto desta necessidade.
- ensinar o que está surgindo de novo diretamente ligado a esta área de conhecimento, para que o próprio aluno decida para onde deve ir após este aprendizado

 

O ponto de vista que defendo é o foco do ensino não estar mais no conhecimento comoditizado, e sim no saber personalizado. O paradigma do ensino até recentemente foi o saber "genérico" para "turmas genéricas", o que cria uma multidão silenciosa insatisfeita ao longo do tempo, por conta de um modelo de ensino henry-fordista. Quando o conhecimento "empacotado" se torna obsoleto, atualiza-se o conteúdo programático e reinicia-se o processo.
Proponho uma nova abordagem, baseado na experiência (bem-sucedida) de colegas como Edson Belém que abandonou  os cursos mais tradiconais e estão empreendendo por conta própria um modelo de educação que ainda não virou commoditie, até por que pressupõe uma nova organização do ensino; mais ou menos como um escritório sem paredes:


- cursos sem conteúdo programático "fechado" (apenas tema definido); a cada nova turma devem ser feitas alterações no conteúdo. Isso significa que um mesmo aluno pode fazer o mesmo curso mais de uma vez, já que o conteúdo ao longo do tempo não será mais o mesmo (!).


- programa definido, mas direcionado às necessidades dos alunos (o que pressupõe análise prévia destas ou adequação no decorrer do curso). Desta forma acaba-se o paradigma do aprendizado sem contextualização na realidade (área de interesse ou aplicação) daquele aluno.


- Cursos de curta ou curtíssima duração; sob medida ou com número de alunos reduzidos. Desta forma pode-se ganhar em qualidade do que é ensinado e na rotatividade dos alunos atendidos (como citei no primeiro tópico, o mesmo aluno pode fazer o mesmo curso duas vezes ao ano e sempre sair com conhecimento novo)

 

Do lado do professor, tarefa árida se impõe, como estar sempre um passo à frente do que está sendo ensinado, tanto para garantir sua posição como profissional da educação como para fidelizar novos alunos.
De outro lado, isso implica em não estar afinado com os interesses (tradicionais) da instituição onde presta um serviço "padronizado". Cabe aqui este profissional de educação procurar ambientes onde possa desenvolver uma nova proposta pedagógica ou ele mesmo criar seu espaço para esse fim.


Como pode ver, caro leitor, se a docência tradicional é uma conveniência, opção ou oportunidade, este novo modelo passa a ser uma forma de empreendedorismo: novos modelos mentais passam por novas formas de atuação no mercado, que mudam constantemente pelas questões que citei no início deste texto. Como me disse certa vez o profissional de web Beto Byron numa palestra, "não corra atrás de nada; corra na frente".

 

Usar a web como ferramenta para/didática tem seus prós e contras, que pretendo discutir aqui, baseado em minha experiência de uma década nesta área.

 

Usar a web para exemplificar conteúdo de aula em ambiente informatizado ganha longe de abordagens mais "tradicionais" como o discurso apoiado no oral, anotações no quadro ou projeção de transparências. Um recurso equivalente, mas mal explorado, são as famosas apresentações em PowerPoint; estas apesar de permitirem incorporação de vídeo e áudio, normalmente são repetições das transparências impressas e projetadas (raramente um design atraente ou uma atividade dinâmica são incorporados à exposição). 

 

Um fator que normalmente pesa para a ineficácia das transparências ou slides é o tempo de confecção, normalmente curto como o tempo para preparação das aulas. Sem querer entrar no mérito, não há mais lugar no mundo para o "professor profissional" que dá aulas manhã até a noite, 6 dias por semana; o docente hoje tem de se reciclar via atividades profissionais ou de estudo da matéria, sob o risco de desaparecer como os dinossauros...

 

Mas voltando ao tema, a internet tem muito conteúdo multimídia (animações, áudio, vídeo, sites especializados) que ilustram virtualmente qualquer assunto. Nesta caso, deve-se estar atento às políticas da instituição de ensino: restrições de rede, falta de placa/caixa de som podem sabotar a aula que foi preparada com tanto cuidado em sua casa. Nesta caso, além de verificar se o conteúdo pode ser apresentado sem áudio, verifique se pode ser exibido com outras restrições da sala de aula (endereços restritos, falta de plug-ins para vídeos, etc).

 

Conteúdo "dependente-da-internet" neste caso deve ser baixado previamente e levado em CD,  para exibição local. Este cuidado por sua vez leva ao seguinte raciocínio:


- o conteúdo pode sair da internet a qualquer momento, portanto fazer cópia é mais inteligente que usar os favoritos do delici.us

- guardar o conteúdo em CD é salvaguarda relativa, qualquer mídia é sujeita a ação do tempo;

Assim sendo, ter um espaço (pago) na web para guardar esse conteúdo paradidático é tão necessário quanto seu capital intelectual. Ao pagar a mensalidade de hospedagem você está transferindo para terceiros o custo e responsabilidade manter seu conteúdo "vivo" ao longo do tempo.


Além disso, evita que esse conteúdo seja apagado à revelia (no caso de sites de hospedagem gratuita). Por fim, como o trabalho de docência se estende muito além do "dar aula" (discutirei esse assunto em outro texto), manter ambos - os bookmarks/favoritos e a cópia desse conteúdo -  atualizados na web acaba sendo um círculo virtuoso: verificar a informação ao longo do tempo acaba sendo uma reciclagem involuntária.

 

Não é uma atitude útil, do ponto de vista do tempo ou custo x benefício editar o material, a não ser que seja para incorporá-lo a um outro material existente; citar a fonte acaba sendo tão necessário quanto passar credibilidade, do ponto de vista da honestidade intelectual (o aluno tem o mesmo acesso a informação que você, professor).

 

Um exemplo prático do que estou descrevendo é usar a web como fonte de conteúdo para exercícios extras (trabalhos de casa ou presenciais); é uma alternativa que tem me poupado muito tempo - em vez de criar provas do zero, localizo sites de tutoriais onde os assuntos estão desenvolvidos e, a partir deles, formulo exercícios novos. Ganho ao ter sempre conteúdo atualizado sobre o tema, no tempo de preparação e no escopo: como o objetivo é reforçar o conhecimento (não avaliar apenas) o aluno pode estudar de outras fontes (eu repasso os sites de tutoriais para estudo na internet), mais ilustradas inclusive do que o material "oficial" da instituição de ensino.

 

Outro exemplo prático é que o ensino informatizado nos dias de hoje pressupõe interatividade, principalmente para as gerações mais novas nascidas e criadas com a web.

 

Usar a rede local, a internet, os dispositivos móveis (pen drive, CD/DVD) para trabalhos em grupo acaba sendo um fator socializante. Infelizmente minha experiência mostra que ensino informatizado de nível técnico significa experiência individual - as pessoas desejam construir todo o conhecimento e não parte dele como ocorre em outras atividades de grupo (faculdade, por exemplo). Já me aconteceu de usar o MSN Messenger numa turma de deficientes auditivos, com resultados satisfatórios, mas cada caso é um caso, ainda mais se tratando de turmas heterogêneas.

 

Por fim, o uso criativo da tecnologia resolve situações localizadas: num ambiente informatizado onde não há projeção, disponibilizar os slides como página da web cria uma projeção na tela do computador do aluno. Mas vale o bom-senso antes de qualquer atitude ou decisão. 

Se seus slides demoram a carregar em conexão discada (não há como prever em que contexto serão visualizados) melhor disponibilizar esses slides na rede local da sala de aula; se parte da turma achar que estudar via apostilas dispensa a aula presencial, melhor disponibilizar esse conteúdo como auxílio a recuperação, após a matéria ser dada. Não tem graça fazer da solução um problema antecipado.

 

Enfim, as questões envolvendo esse tema são extensas, quem quiser continuar o debate pode postar sua opinião aqui.

Reavaliando a avaliação

14:53 @ 16/04/2008

Houve uma época em que dava aulas de webdesign e não aplicava provas, o que era cômodo para os cursos em que trabalhava, pois há o pensamento de que onde existe reprovação existe atestado de mau ensino.

Passado um tempo trabalhei numa instituição que aplicava provas (não gosto deste termo, pois causa estresse; uso um equivalente, já explico porque) no início “analógicas” e depois informatizadas. Foi quando tomei trauma de provas – uma aluna que assistiu duas aulas (sendo a segunda a própria “prova”) tirou nota sete numa múltipla escolha. Explica-se: existem técnicas para se sair bem nessas provas, assim como toda prova discursiva tem o álibi da subjetividade na interpretação. Os remédios para esse estado de coisas em múltipla escolha ainda estão em fase embrionária. Existem múltiplas escolhas onde só se pode marcar “sim”, “não” e “não sei”, sendo que marcar errado (chutar) subtrai o ponto em dobro. Outra “solução” é pontuar as respostas com valores diferentes (existência de mais de uma resposta certa); por fim existem as provas múltiplas (várias provas diferentes distribuídas aleatoriamente), provas filmadas, ou seja, o cardápio é variado.

 Adotei um método próprio: passei a fazer revisões diárias da matéria no lugar de provas. Meu ponto de vista se fundamenta no fato de que a “prova tradicional” tem como um dos objetivos fazer o aluno rever a matéria passada (a decoreba é um efeito colateral). Quem repassa a matéria está estudando (ninguém absorve um assunto de primeira, salvo se a memória afetiva for grande), portanto acho mais efetivo repassar a matéria várias vezes em forma de revisão do que apenas no dia da prova. E essa revisão é feita em grupo, um aluno responde e todos tentam fazer juntos; desta forma tenho noção de quem está absorvendo o conhecimento e dou chance de recordar matérias passadas. Sem estresses típicos de uma “prova”.

Claro que toda abordagem inovativa carece de respaldo social, uma vez que este é um método parcialmente quantitativo e qualitativo. Mas o objetivo principal é fixar o conhecimento, mais que distribuir graus ou juízos de valor. Até quando tenho de passar “prova formal” saio pela tangente: forneço um número razoável de questões e deixo os alunos escolherem 50% delas para responder. Essas questões estão distribuídas em graus de dificuldade (baixo, médio e alto). Se ainda assim não o aluno não se sair bem, passo um exercício para fazer em casa e ainda forneço tutoriais na internet para estudar. Mais chance do que isso só se eu fizer a prova do lado...

O que quero colocar aqui é que qualquer modelo avaliativo uma vez criado tende a ficar obsoleto (a prova de múltipla escolha era ótima até criarem mecanismos para desvirtuá-la) daí ser necessário criar novas abordagens de avaliação sobre as existentes ou novos parâmetros de avaliação (coisa que humildemente procuro fazer).

Ações efetivas (1)

15:04 @ 16/04/2008

Essa é a pergunta que sempre me faço quando era convidado a reuniões de departamento para discutir problemas educacionais. O que estamos fazendo de efetivo para melhorar as coisas na sala de aula?

Hoje eu sou muito criterioso ao participar destas reuniões, que em sua maioria acabam sendo sessões de choramingos coletivos ou "treinamentos corporativos" elaborados por quem teve pouca ou nenhuma vida acadêmica na prática.

Para não dizerem que sou taxativo e radical, as reuniões mais produtivas que já participei foram em franquias, onde até os "treinamentos corporate" eram focados em problemas-comuns.

Tem um termo que conhecí recentemente, chamado "desconferência", que em resumo significa um seminário onde todos os convidados são palestrantes e vice-versa. Surgiu pela informalidade deste tipo de encontro, e se fosse convidado a participar de uma na área educacional, colocaria as minhas ações para resolver questões como:

- Falta ou carência de material didático "oficial":
tenho a base de minhas aulas em forma de apostila ilustrada, e sempre que passo matéria nova procuro acrescentar na apostila ou crio pequenos tutoriais (também ilustrados) sobre o(s) assunto(s).

- Intercâmbio de informações extra-curricular:
mantenho uma lista de email na internet, onde deposito dúvidas dos alunos respondidas; isso poupa de responder a mesma dúvida várias vezes.

- Redistribuir geograficamente os alunos na sala de tempos em tempos; desta forma pode-se dar mais atenção a quem precisa e - teoricamente - evita que os mesmos se sintam discriminados.

- Ser psicólogo o tempo todo; observar o modo de falar, se vestir e comportar de cada aluno e procurar agir de modo semelhante. Já dei aula arranhando 3 idiomas ao mesmo tempo, é algo tão esquizofrênico quanto cansativo mas dá resultados efetivos.

- Fazer das tripas coração para se comunicar o tempo inteiro com a instituição onde trabalha. Isso significa, entre outras, que se não puder ir no dia seguinte ou for fazer aula externa, falar pessoalmente ou deixar recado por escrito com as pessoas-chave (coordenador, faxineiro, suporte técnico, recepcionista). Não contar com o "pode deixar que eu dou o recado" ou "fique tranqüilo que está combinado". Verbalmente.

- Lembrar que você é professor em decorrência de ser um pesquisador ou profissional da área e não o contrário. Ensinar de manhã à noite 6 dias por semana é tão danoso como trabalhar e não estudar.
Hoje recuso assumir muitas turmas por esse motivo.

- Como tudo na vida, ter um plano B. Entrar na sala de aula preparado, mas ter mais de uma alternativa se as coisas não saírem como o planejado.

Todas essas soluções tem seus prós e contras, alguns dos quais inclusive discutí em outra postagem. Mas são ações que costumo praticar com sucesso, mesmo eliminando algumas e substituindo por outras ao longo do tempo.

Continuo o assunto no proximo post.

Ações efetivas (2)

15:08 @ 16/04/2008

Dando continuidade às “ações efetivas” (ou soluções novas para problemas antigos), me lembrei de um fato recorrente: o aluno – ou cliente (eufemismo para consumidor ou público pagante) – reclama de que deseja fazer prova de certificação técnica e o docente não segue à risca o material oficial. Este lado da questão tem sua razão: quem pretende se certificar que aprender o conteúdo da certificação (como numa prova para concurso).

O segundo colega – que não vai se certificar - reclama que professor em sala passa um exercício e quando vai estudar em casa pelo material didático “o assunto é explicado de modo completamente diferente”. Aqui a questão é: o material didático segue o programa que é oferecido pela instituição ou é um livro de terceiros? O professor tem material próprio, documentado e atualizado?

Já o terceiro colega da mesma turma acha legal a abordagem do professor, de naão seguir o material didático ao pé da letra, pois o material oficial “não é ilustrado”, os exercícios são “pouco estimulantes” e ele não tem saco pra ficar lendo livro (“se é para aprender via livro, leio em casa”, diz ele nos corredores). Aqui, a situação se explica facilmente: muitas pessoas desejam tirar dúvidas através de assuntos fora do programa "oficial", para contextualizar o conhecimento, de alguma forma.

Para todas essas situações criei uma solução que se baseia no bom-senso: ao ministrar um curso procuro passar pelo menos um exercício por aula baseado no material didático; passo exercícios próprios (que estão documentados) e tutoriais do próprio fabricante do software. E quando surge um assunto fora do programa – mas relacionado a ele – procuro acrescentá-lo a aula. Procuro fazer de tudo um pouco, agradar gregos e troianos, se é que isso é possível.

Outra coisa: já foi analisado cientificamente que o grau de atenção do ser humano cai após uma hora de exposição contínua a uma informação (por isso que o ensino primário é baseado em atividades lúdicas diversas, ao contrário da educação adulta). Por esse motivo eu faço pequenos intervalos a cada hora de aula, mudo os alunos de lugar a cada novo módulo do curso e só não faço mais porque os móveis são fixos (com o wireless isso já devia ser coisa do passado em cursos de informática, mas...).

Quando possível procuro fazer visitas em empresas do ramo para que os alunos saiam do curso sabendo alguma coisa a mais do que o software que possuem em casa e mesmo assim descobri que isso tudo ainda é pouco, pois até o esperado cafezinho no intervalo de aula é negligenciado em muitos locais de ensino...

Todas essas ações que registrei aqui são como gotas de chuva, que se não forem represadas, não poderão ser reutilizadas no futuro próximo: a chamada “memória educacional” – característica de organizações funcionais – somente é ferramenta pedagógica face a solução de problemas. E estes só são replicáveis através da direção, supervisão ou área técnica da instituição educativa. Ou seja, não é a ação isolada de um docente que vai mudar o status quo ou apagar incêndios (até porque o docente, mesmo tendo vários empregos e trabalhando em vários lugares não é onipresente).

Este blog por exemplo é uma atitude de guerrilha, pois tento formar massa crítica em diversos níveis (dos colegas docentes aos coordenadores e técnicos educacionais aos quais tenho algum tipo de acesso), para aí sim, plantar a semente da mudança. Mudança que por sinal virá de diversos lugares, mas isso é assunto para outro texto.

Já ministrei cursos em instituições que se encaixavam nas categorias do título deste texto, e cheguei a conclusão que uma pequena franquia é melhor do que uma grande empresa (com ou sem filiais). A resposta está na natureza do negócio.

A franquia tem de ser um modelo de qualidade reproduzível em escala, tem de ter uma filosofia clara e definida (interna e externamente falando), enfim, neste modelo de negócio a cobrança pela qualidade é mais evidente do que num negócio que cresceu além das vistas do seu dono. A franquia pressupõe uma fiscalização que assegure o valor da marca no mercado, enfim, até as reuniões em franquias são mais produtivas do que numa “não-franquia”.

Lembro-me de uma reunião educacional numa instituição “não-franquiada” onde se discorria sobre conceitos como “prencher o aluno de conhecimento como se enche uma taça de vinho”. Ninguém comentou sobre o que se faz quando uma taça fica pela metade e a vizinha “transborda de tanta informação”; ou sobre mecanismos que assegurem a qualidade do que se vende (já que educação é um commoditie) ou valoriza ao longo do tempo.

Noutra instituição, uma franquia, algumas as reuniões chegavam a ser intensivas (final de semana inteiro), mas eram focadas em dramatizações de problemas recorrentes, de maneira prática. Questões práticas como improviso, paciência, ou questões teóricas como “didática x conhecimento técnico” e técnicas de didática eram abordadas de forma coletiva, participativa, com dinâmicas que envolviam desde filmagem dos participantes até esquetes representando situações cotidianas (o famoso tragicômico).

Assim como se diz que as empresas pequenas tem mais agilidade para inovar pois possuem estrutura hierárquica reduzida, acredito que as franquias possuem mais agilidade de planejamento; mais do que empresas “não-franquiadas”.

Mas o que fazer então, se franquias são minoria no mercado? Procurar implantar certas qualidades da vizinhança em nosso quarteirão pode ser um começo.

 

Minha experiência de aulas de informática com portadores de necessidades especiais (surdos) indicou que o ambiente educacional é tão importante quanto outros aspectos (material para/didático, conforto, suporte técnico e acadêmico). Vou listar alguns problemas comuns pelos quais passei (ou passo):

Ensinar softwares gráficos sem projeção acaba sendo uma prática que inviabiliza a aula ou desestimula os alunos por um motivo simples: imagine explicar um quadro (algo que deve ser visto) “verbalmente”. Só faria uma exceção em curso de Algoritmo Estruturado se ministrado com papel, lápis e borracha. Ainda assim vai ter gente reclamando que existem compiladores de algoritmo (softwares) para tornar o aprendizado se não melhor, mais atualizado, mais coerente com o estágio atual do conhecimento ou tecnologia.

Modelos educacionais estáticos: Os alunos cobram, entre outras coisas, uso de ferramentas atualizadas, conceitos atualizados e abordagens inovativas para fazer a diferença no mercado. Curiosamente as instituições de ensino não vêem o modelo de ensino como algo a ser trabalhado.

Explico: o ensino presencial tradicional em 2008 é essencialmente o mesmo de há pelo menos dois séculos atrás: grandes turmas heterogêneas, carga horária longa... apenas o quadro negro e giz foi trocado pelo quadro branco e caneta (o apagador continua onipresente). Muitas instituições acordaram para esse fato e oferecem alternativas ao ensino presencial (ensino à distância ou auto-instrucional em paralelo ao ensino presencial da matéria), que acaba tendo seu valor competitivo ao ir “além da matéria”, agilizando o processo de aprendizagem ou contextualizando o conhecimento.

Outra abordagem é atualizar o sistema de projeção; o E-board, o quadro branco virtual, onde a projeção é uma cópia da tela do projetor, sendo incluive “clicável” é um bom exemplo. Até os quadros que “dão a volta” na sala são uma boa abordagem.

Infra-estrutura física não-planejada: Esse quesito pode se dividir em:

- Ar condicionado barulhento;
- Salas com grande exposição ao sol com vidros sem insulfim, e janelas sem persianas;
- interruptores que não permitem regular a intensidade da iluminação da sala (nem escurecer a área de projeção em separado da área dos alunos).

- Mau posicionamento dos computadores/bancadas. Numa turma tradicional alunos ficarem de costas (ou em diagonal) em relação ao professor/quadro/projeção é 50% ruim- eles podem se virar nos momentos importantes.  Numa turma para deficientes auditivos isso é 100% ruim, pois mesmo com a ajuda de um intérprete muito da informação se perde. Uma forma de contornar esse drama é o uso de SMS, como o MSN Messenger; as mensagens de texto instantâneas em  computador neste caso podem ajudar, ao contrário de dispersar atenção em turmas tradicionais.

Um bom exemplo de como resolver esta última questão em ambientes informatizados é perceber que as redes sem fio (wireless) facilitam o posicionamento dos computadores voltados para o quadro (ou professor). Imagine que as bancadas começam na parede esquerda: a energia (tomadas) poderiam partir dali. Outra coisa importante é definir previamente uma área mínima para as salas de aula, a fim de que o layout da sala seja orientado ao ensino, e não para o número de alunos por metro quadrado.

Enfim, essas críticas são construtivas, mas a solução demanda que os diretores das instituições – ou profissionais de arquitetura – lembrem da máxima que fazer de qualquer maneira custa tanto quanto fazer da maneira correta. E investir no aperfeiçoamento do passado é tão importante quanto olhar para o futuro.

 

Um ex-colega de mestrado, doutor na sua área de conhecimento (usabilidade, um ramo da ergonomia) comentando sobre sua experiência de ensinar essa matéria num curso técnico me levou a uma conclusão meio pragmática: ensino de tecnologia deve estar atrelado à atividade final (produto ou processo) e a geração de conhecimento tem seu espaço nas universidades.

Explicando: o curso era de webdesign, a matéria, usabilidade, um assunto para o qual ainda não existem botões suficientes no software que englobem todo o assunto (ou preencham várias aulas práticas por si só). A turma (de ensino técnico) não se motivou pelo conhecimento que não era aplicável inteiramente via ferramenta de trabalho (no caso software para produção de páginas para web).

Isso nos leva a algumas conclusões meio preconceituosas ou questionáveis: nos cursos latu sensu o conhecimento teórico (ou por que daquele saber) existe a reboque do conhecimento técnico. Um curso técnico acaba sendo um primo do curso de capacitação, subentendidos como cursos que focam o uso de uma tecnologia ou a realização de uma ou mais atividades relacionadas a um objetivo específico. Assim sendo, do ponto de vista do aluno, transmitir conhecimento teórico num curso técnico é tão “errado” (faço questão de enfatizar as aspas) quanto, do ponto de vista educacional, transmitir conhecimento essencialmente prático na universidade.

Sei que muitos vão dizer, corretamente, que a prática é a contextualização do conhecimento, a unidade de medida para avaliar se uma hipótese, conhecimento ou informação é real (fato científico). Agora, há que se separar o conhecimento técnico do tecnológico e do científico. Não é da universidade o papel de desenvolver inovação tecnológica – esse papel é do mercado de trabalho, empresas, indústrias – assim como a razão de ser da indústria não é ser uma universidade com bibliotecas, pesquisadores e doutores embora esta possa desenvolver pesquisas com ou sem rigor científico.

Agora, a universidade deve desenvolver conhecimento para que o mercado de trabalho (indústria, comércio, serviços) aplique em inovação, e este dê origem a ferramentas que viabilizem a aplicação de um conhecimento. Ou seja, a ciência deve ser a base do desenvolvimento tecnológico e este o pilar da tecnologia. Agora, porque as pessoas buscam facilidades - formação técnica na universidade - são muitas e variadas:

- ver a universidade como um “curso técnico mais valorizado”
- querer o canudo apenas para ascender profissionalmente no local de trabalho
- desconhecimento, desinformação
- reflexo da cultura fast-food (informação em vez de conhecimento, a rapidez da superficialidade em vez da profundidade da reflexão) [*]

Agora, voltando ao curso de Usabilidade do início deste texto, creio que num futuro próximo este conhecimento será mais e melhor incorporado à tecnologia existente (software) de forma a facilitar o ensino desta matéria no âmbito técnico; paralelamente esta área do conhecimento continuará se desenvolver como conhecimento científico, pois independe da web para existir. Usabilidade se aplica em qualquer produto fabricado pelo homem, de automóveis a páginas da web.

...

Notas

[*] O pensador Fredrick Jameson no texto “Transformações da imagem na pós-modernidade” diz com muita propriedade que a geração atual (da MTV, dos desenhos animados a la “bob esponja” e da propaganda dos últimos 20 anos) foi educada para absorver mais informação em menos tempo, daí o ritmo frenético da informação condensada num vídeo-clipe. Jameson coloca que os mais jovens conseguem absorver num clipe de música o equivalente de informação de um longa-metragem; eu acrescentaria que isso é fato, mas sem a profundidade do discurso escrito ou cinematográfico, por exemplo.

J.L. de Campos no seu texto “Eis dois cachimbos: Roteiro para uma leitura foucaultiana de Magritte” ao discutir a relação entre mídia escrita e visual coloca que a imagem encurta o caminho que a palavra estaria encarregada de representar, o que explica a “preguiça” crescente das novas gerações com a informação escrita.

Ouvir versus escutar

15:21 @ 16/04/2008

Lendo o famoso livro de Ricardo Semler “Virando a própria mesa” me deparei com frases interessantes. Uma delas é:

“Raras são as pessoas muito inteligentes que sabem ouvir melhor do que falar”

Percebi isso na prática quando comecei a dar aulas para militares. Faço aqui ligeira distinção entre soldados e graduados. Os soldados por estarem em um ambiente autocrático têm pouco espaço para expressões individuais, e, portanto procuram se expressar dentro daquilo que estudam. Em outras palavras, não rola sugerir “um caminho melhor”, pois o aluno-militar-soldado deseja (melhor dizendo, tem necessidade de) ir pelo seu próprio caminho. Isso não deveria ser tão crítico para os militares graduados, já acostumados a dar ordens, e, portanto, expressar sua visão das coisas no seu dia-a-dia. Mas acaba sendo mais ainda, pelo mesmo motivo cultural-militarista. O que me leva a questionar se cursos para militares não deveriam ser enquadrados na categoria de “turmas corporativas”, ou seja, fechadas(?).

Outra experiência semelhante foi dar aulas para turmas específicas (cursos para atores, contadores, médicos). O ideal seria ter um docente de informática que também fosse profissional da mesma área profissional dos alunos. Como achar um docente já é tarefa ingrata (que dirá um docente “específico”) o mais coerente é adaptar o curso às necessidades dos clientes. Se os alunos são de contabilidade o foco do curso de informática é Excel ou Access. Se é ator, programas de comunicação (do SMS/MSN ao e-mail). Outra preocupação necessária no caso de “cursos específicos” (mas se aplica a qualquer curso livre) seria a questão da faixa etária. Não funciona colocar lado a lado alunos de 8, 18 e 80 anos. O de 18 presta atenção enquanto o de 80 não acompanha o ritmo e o de 8 fica no Orkut.

Por fim, observar que o aluno “menos extrovertido” espera ser tratado de modo individualizado é tão fundamental quanto perceber que o aluno nerd deseja aprender tecnologia  (e apenas isso) ou que o aluno mediano deseja que a aula seja um programa de auditório. O problema dessa equação me levou a conclusão que as “aulas tradicionais” precisam ser revistas e atualizadas – o aluno de 1945 não é o mesmo aluno de 2007. No meu ponto de vista melhor seria dar duas aulas seguidas de hora e meia para dois grupos distintos (de 7 pessoas cada) do que uma aula de 3 horas para 14 pessoas. Se ganha mais qualidade, atenção e rendimento atendendo o mesmo número de pessoas. Ah, mas aí a duração de cada turma se duplica; não se o curso for diário (em vez de duas ou três vezes por semana).

Tudo isso mostra que ouvir o cliente com pente fino hoje é fundamental. Mas aí me veio um outro pensamento do próprio Ricardo Semler:

Para que o cliente tenha razão é essencial que todo ser humano também tenha, sempre. Ou será que quando o ser humano se veste de cliente ele se transfigura num sábio defensor da justiça?

Se aceitamos que o cliente nem sempre tem razão, qual a razão do sucesso desta frase? A resposta é conhecida. O consumidor é verdadeiramente um ser humano, portanto suscetível a todo o tipo de chantagem emocional. Achando que a empresa sempre e o tratará como se ele tivesse razão, ele fica satisfeito por descobrir que alguém confia em seu bom-senso. Sim, porque a esposa, o filho, a sogra e o cão conhecem-no o suficiente para não lhe dar esse tipo de liberdade em casa.

Porém, esse conceito nada tem a ver com a questão básica. O que se quer dizer realmente com essa frase é que ‘o cliente merece um respeito especial e deve ser tratado com justiça’. O que, convenhamos, nada tem a ver com lhe dar sempre a razão, uma vez que a justiça pode também estar do lado do fabricante” (comerciante, ou prestador de serviço).

Respeito pode ser agendar datas de início e término do curso e ter em mente que alterar essa programação vai atrapalhar o calendário de viagem, férias ou mudança de endereço de algum aluno. Justiça pode ser expressa em atender solicitações de A sem que isso interfira com os desejos ou sentimentos de B.

Este pensamento/parágrafo pode ser resumido em: ouvir os clientes internos e externos para se chegar a uma verdade baseada na justiça dos fatos (conversar com duas ou três pessoas não vai representar a opinião da totalidade das pessoas do mundo); fazer isso interpretando as informações e fazendo ajustes ao longo do tempo; se lhe solicitam aumentar a carga horária dum curso e não comparecem às últimas aulas algo precisa ser revisto – como ofertar essa carga horária extra, o conteúdo oferecido ou o  que de fato se deseja em contraponto ao que lhe está sendo pedido.

Por fim, outro pensamento interessante do mesmo Ricardo Semler é: “As três condições sine qua non para sobrevivência a longo prazo parecem ser:

    1. Capacidade de enxergar a necessidade de mudanças a tempo, com coragem para implementá-las antes que seja tarde demais.
    2. Fazer a empresa funcionar através da efetiva participação de seus funcionários, e ter uma linha de conduta administrativa flexível e aberta às transformações.
    3. Ter uma cultura própria e definida, que não seja adaptada às condições do momento, mas sim perene em suas crenças básicas.”

Uma coisa que aprendi na prática foi a de não ministrar mais cursos em finais-de-semana, manhã e tarde. De preferência só de manhã. As pessoas tem de ter direito a estudar  mas também de viver no sábado ou domingo. Oferecer o mínimo de conforto é fundamental para quem faz cursos intensivos (ou de fim-de-semana). O famoso lanche é parte inegociável disso.

Outra: a carga horária de cursos aos sábados deveria ser menor do que nos “dias úteis”; se o curso de 2ª a 6ª tem 150 h, aos sábados deveria ter em torno de 75h. Isso evita ter gente dormindo depois do almoço ou sala vazia depois da 30ª hora de aula.

Se questionarem a profundidade deste curso (comparação com o mesmo durante a semana) ou se oferece uma compensação (curso complementar no mesmo dia da semana, à parte) ou se tem se firmeza de colocar que cursos aos sábados/domingos não são produtivos com carga horária longa. Não concordou, procure a concorrência. Esse cliente retornará após comprovar a veracidade dos fatos, já cônscio de como as coisas podem ser ou devem ser.