Grupos

Pegando carona no texto do mestre André, de fato existe um abismo que separa o ensino técnico do ensino superior, assim com existe uma fronteira bem nítida que separa informação, conhecimento e sabedoria.

 

Quando o(a) aluno(a) pergunta “como se faz tal coisa”, devemos  ler literalmente: “me forneça a receita do bolo”. O problema é que, enquanto educadores, temos visão de que “dar a receita” equivale a dar a rede sem ensinar a pescar. Pior ainda: o mau uso da “rede” vai afetar o “meio ambiente” (pescar na época de procriação dos peixes vai acabar com a pescaria no futuro) e depois o dono da rede se volta contra o fornecedor: (“você me ensinou a pescar errado”). Não adianta dizer depois que “dei o que você me pediu: a rede. Não aula de pescaria”. Alguém tem de levar a culpa pelo mal feito.

 

Um dos motivos deste estado de coisas é o fascínio que a tecnologia exerce sobre as pessoas. Todos nós ficamos fascinados pelo que não conhecemos, a tecnologia entra nesse contexto. O seu avesso, curiosamente poucos discutem: tecnologia antiga é desprezada pelos profissionais do ramo, independente de funcionar a contento para solucionar alguns probemas (vide o CGI, fartamente utilizado em formulários simples).

 

Tive um aluno que, como autodidata, vinha às aulas só para “tirar dúvidas” sobre o que aprendeu sozinho[*]. Como alguém que aprendeu a dirigir sozinho e pergunta para o motorista profissional o que caiu na prova da auto-escola. Ayrton Senna não se tornou campeão desse jeito, pode ter certeza...


Tive uma cliente que se aborrecia com explicações “corretas” (ou longas) e, como não tem muito método de estudo, eu acabava recebendo mais de uma vez para explicar a mesma coisa. A certa altura bateu a dor na consciência e coloquei as explicações por escrito. Receita de bolo mesmo. Resolveu. Perdí a cliente? Não, pois fazer um site não é colecionar receitas de bolo, e sim articular conhecimento – ou receitas de bolo – para realizar um projeto, ou seja, um conjunto de objetivos.

 

É neste ponto que desejo chegar: se fornecermos a explicação “correta” somos taxados de prolixos e pouco objetivos; se fazemos a vontade do cliente, dando a explicação pelo meio, o erro se voltará contra nós no futuro. O que fazer então?

 

Acho que a solução está em primeiro explicar onde a pessoa vai chegar com a explicação “pelo meio”.
Depois, se a pessoa concordar com os problemas que ela vai ter, dar o que se pediu. Normalmente a pessoa se rende aos fatos e

 

-  desiste da explicação
ou
- aceita ouvir a explicação do começo ao fim

 

De qualquer forma a situação se resolve da melhor maneira, ao meu ver.
Quem quiser receita de bolo, leva a receita, sabendo que o bolo pode solar no final. Quem quiser aula de gastronomia, aprende a fazer algo “além do bolo”, ou seja, excelentes lanches.

...
[*] Pierre Lévy numa palestra no SESC/SP em 2002 propôs a idéia de que hoje em dia a multiplicidade de meios de comunicação (internet; rádio; tv a cabo, digital e aberta; cinema; DVD; CD; áudio cassete e digital) permite que se obtenha conhecimento tão válido quanto o ensino formal. Claro que Lévy faz crítica ao modelo de ensino tradicional, instrucionista (unidirecional). Quando se faz essa afirmação devemos ter em conta o tipo de formação obtida por multimeios: autodidata ou com orientação? Individualizada ou socializada? Superficial ou aprofundada?  A grande crítica que se faz ao ensino tradicional é oferecer um aprendizado focado em úma única fonte ou ponto de vista, coisa que não ocorre no mercado de trabalho, por exemplo. O grande defeito do autodidatismo é o mesmo, só que por via oposta: a possibilidade nada remota de reunir informação de diversas fontes não respaldada pela sociedade, coisa que não ocorre na academia.

Coisas que devemos evitar

18:33 @ 01/01/2010

Algumas idéias baseadas em observações e experiências próprias, que acho interessante compartilhar sobre atitudes a se evitar na área de docência. Devemos evitar:

Como docentes:
- Começar a aula tarde porque tem poucos alunos presentes. Se a aula começa às 08h começar no máximo às 08h05, mesmo que só haja uma pessoa na sala. Não fazer isso implica os alunos acharem que podem chegar tarde pois a aula nunca começa na hora.
Eu coloco umas regrinhas: chegou tarde, senta-se ao lado dos alunos que estão acompanhando a aula até terminar a explicação. Terminada a explicação, copia-se o que está sendo feito via rede e o(a) aluno(a) segue junto da turma a partir daquele ponto.
Quem não entender isso, vai se sentar sozinho(a) ou junto dos alunos que chegam tarde.

 

- Dar mau exemplo. Se a norma é não comer em sala de aula nem usar o celular, não o faça. Se for imprescindível, deixe claro que o uso do celular foi uma exceção à regra.

 

Como coordenadores:
- Ao reformular cursos/módulos, deve-se colher informações: 50% com alunos, 16,6% no mercado (empreaas e profisionais) , 16,6% com acadêmicos (nível técnico e universitário) 16,6% na concorrência (outros cursos no estado e fora dele – outros países incluso). Motivo: o mercado pode apontar uma direção e os alunos podem procurar outra. No final das contas as pessoas que vão comprar o curso é que vão decidir se ele é bom ou não. Outras questões se referem ao que é correto ensinar [*].

 

Enquanto instituição de ensino:
- Não reformular os métodos de trabalho, nem criar padrões fáceis de se seguir dos mesmos. Quando visitei a Xerox de Brasi com meus alunos, pude ver que todo o fluxo de trabalho na empresa era descrito num fluxograma - pintou problema se localiza facilmente onde esta o erro, acabado com o famoso eufemismo criado por um certo presidente latinoamericano "eu não sei de nada".

 

- Não informar no que o docente desejou a desejar, qualitativa e quantitativamente falando. Por exemplo: fazer uma pesquisa que diz que o docente não é criativo ao expor os exercícios é um dado tão importante quanto saber quantas pessoas pensam assim. O que não rola é puxar a orelha do docente porque um cliente - numa turma de 10 pessoas - acha que as aulas têm de ser como o domingão do Faustão...

 

...

Enfim, são idéias depois posto outras aqui.

 

* Não vou discorrer aqui sobre o hiato entre o que seria uma aula boa ou ruim do ponto de vista do professor ou aluno, nem o que seria correto do ponto de vista educacional ou discente. Essa discussão fica para outro post.

Idéias pedagógicas

19:28 @ 14/01/2010

Recentemente conversando com um colega de profissão, instrutor de informática básica para a terceira idade, tive contato com uma técnica para aulas particulares.

 

Como aula particular demanda, como qualquer curso, material didático, e esse material possui um custo (elaboração, diagramação, impressão) esse instrutor criou  a seguinte metodologia:

A primeira aula é uma conversa com o(a) aluno(a), para de avaliar suas necessidades, eventuais experiências negativas com informática (com a matéria ou outros professores).

A partir daí cria-se um roteiro de aula baseado na necessidade do(a) aluno(a).

 

A partir da segunda aula (prática) enquanto ministra a aula e o(a) aluno(a) realiza as tarefas, o professor vai anotando o passo-a-passo de cada tarefa. Ao final da aula o(a) aluno(a) tem material para fazer o “dever de casa”: estudar sozinho, seguindo o roteiro da própria aula.

 

O lado positivo é a criação de aulas personalizadas com custos reduzidos.

 

A desvantagem desse método é não poder reaproveitar o metarial didático, que normalmente é escrito à mão. Se o professor tiver lapttop/netbook para anotar digitalmente melhor, pode criar uma biblioteca de aulas e reaproveitar conforme a necessidade.

 


Outra abordagem interessante é disponibilizar exercícios para os alunos via internet (email, blog, site pessoal) Eu particularmente tive de criar metodologia para desenvolver recuperações de modo expresso, pois é uma atividade não-remunerada e pouco compreendida por algumas instituições de ensino, que veem a recuperação como atividade que deve ser realizada durante a aula (!) ou entre aulas, como dever de casa. Como o docente nem sempre tem tempo para se dedicar a atividades não-remuneradas ou não trabalha em regime de dedicação integral, essa atividade acaba sendo jogada para o pós-curso.

 

De qualquer forma eu aproveito material de terceiros para criar essas aulas/tarefas recuperações, basicamente.

 


Conversando com outro docente, percebí que utilizar o material didático existente (seja qual for) é importante para que o aluno possa estudar em casa. O problema é quando o docente não ganha o material da instituição ou não tem tempo de organizar sua aula em função desse material.


...

 

Quando trabalhei em franquia de cursos de informática, sentí a importância de se trabalhar em um ambiente organizado, onde há um padrão para a realização das tarefas, da recepcionista ao professor, passando pelo faxineiro. Como o conteúdo das aulas está definido do geral ao específico (do plano de aula ao material didático impresso) o docente fica livre para se concentrar na atividade-fim, dar aulas. Isso engloba correr atrás de dúvidas dos alunos, preparar recuperações, exercícios extras, enfim, ir “além do curso”.

 

Funcionários novos tem de assistir aulas de outros docentes para conhecer o modelo pedagógico da instituição. Anualmente são realizadas reuniões para ensinar soluções para problemas recorrentes (improviso, jogo de cintura, criatividade, etc) e, claro, passar previamente o essencial do conteúdo dos cursos novos, quando o material didático muda. Sempre que há necessidade são feitas reuniões nas franquias para se resolver problemas pontuais (alunos com necessidades específicas que precisam ser remanejados para outras turmas, ter aulas de reforço, etc).


Hoje presto serviços em empresa com perfil não muito definido (tem cursos livres, técnicos e politécnicos; possui cursos gratuitos e pagos; tem cara de franquia mas é uma empresa de filiais; tem modelo educacional tradicional embora se anuncie como construtivista), o que me obriga a preparar todas as etapas anteriores: praticamente definir o plano de aula até os exercícios extras.

 

Enfim, se ambiente de escritório não tivesse o vírus da política seria o lugar perfeito para se trabalhar.

 

Por isso sempre que encontro dificuldades na segunda empresa, recorro a bons exemplos em outros locais para encontrar soluções. Como diz o ditado, se voce se junta com pessoas maiores que você, você cresce; se faz o contrário...