Grupos

O jogo da cerveja

13:06 @ 03/02/2010

Lendo o livro "A quinta disciplina" de Peter M. Senge sobre administração, me deparei com uma dinâmica de grupo - quase uma parábola - chamada  "o jogo da cerveja", que na verdade é uma técnica usada para descrever, grosso modo, como os problemas tem origem nos sistemas a nossa volta.

Ou melhor: como compreender que as estruturas a nossa volta determinam nosso comportamento, e este é que vai, de fato, determinar nosso sucesso ou fracasso.
En resumo, para os que não irão ler o livro (recomendo a qualquer pessoa que trabalhe com administração: gerentes, coordenadores e até professores), o cenário é um sistema que produz e expede bens - no caso cervejas. Há o varejista, o atacadista e a cervejaria.

 

Mais adiante vou trocar os personagens para que, você, docente, compreenda onde quero chegar.

 

Neste jogo, o varejista semanalmente encomenda 4 caixas da marca da cerveja X, até que determinado dia as venda aumentam, e ele solicita mais caixas, prevendo a demanda.
O atacadista faz o mesmo, mas a cervejaria não dá conta da demanda, pois, entre os pedidos e a cerveja entregue,  é necessário algum tempo para compra de mais insumos, contratação de pessoal extra, etc.

 

Como as cervejas não chegam no prazo solicitado, a "cadeia distribuidora" (varejista e atacadista) solicita mais cervejas ainda, para cobrir estoques e consumo estimados.
Quando as cervejas começam a ser entregues, a demanda retorna aos patamares habituais, e há o natural encalhe.

 

O motivo do aumento da demanda foi um videoclipe de sucesso na TV, de uma banda de música que citava a cerveja X.

O admnistrador da cervejaria descobre este fato quando o mal já estava feito, mas a "cadeia distribuidora" descobrira o fato durante o aumento da demanda. Mas como todos os personagens não se falavam (quando as coisas vão bem, não há nada a se conversar, quando as coisas vão mal... [1]) essa informação crucial ficou perdida no processo.

 

Agora vamos transportar o jogo da cerveja para a área de docência de informática (poderia ser qualquer área, uso esta pois é o tema deste blog).

Agora temos como cenário um curso de informática, e como atores o professor, o coordenador e a instituição de ensino.

O professor em determinado momento se depara com o esvaziamento da turma, apesar de dar a mesma aula do mesmo modo há anos em várias escolas e cursos. Um grupo de alunos vai ao coordenador e solicita a mudança do docente pois estão achando que o esvaziamento da turma é reflexo de mau ensino. O coordenador substitui o docente mas o problema persiste.

 

O docente novo procura entender a origem do problema e descobre com os alunos restantes que o antecessor, entre outras coisas, não começava as aulas no horário, o que gerou atrasos por parte dos alunos ("porque chegar na hora se nunca começam na horário?"). A outra parte, além de ficar com a impressão de que o esvaziamento era fruto de mau ensino, começou a reclamar da carga horária, que não estava sendo cumprida por conta dos atrasos.

 

Por fim, o docente descobre que questões extra-docente infuíram no desandar das aulas: problemas com os computadores se replicaram na sala do novo docente. Neste cenário, faltar de água por um dia no ambiente de estudo, passa ser "a gota d'água" para os alunos pagantes.

 

No caso da cervejaria, se os atores conversassem entre sí poderiam chegar a conclusões em comum: a demanda era sazonal, e pedir mais cervejas para fazer estoque era contraproducente.

No cenário do curso de informática, a coordenação fazendo semanalmente visitas à turma, ou ao final de cada módulo, poderia perceber o esvaziamento da classe, além dos problemas de infra-estrutura que já existiam desde o primeiro dia de aula.

 

SENGE (1998, p. 73) resume a situação simulada no jogo da cerveja assim:

1) A estrutura influencia o comportamento

Pessoas diferentes na mesma estrutura, agem igual[2]. Quando as coisas vão mal é fácil encontrar em quem pôr a culpa (o varejista reclamava do atacadista que não trazia os pedidos; o atacadista reclamava da cervejaria o mesmo atraso; a cervejaria reclamava do atacadista que cancelou os pedidos extras, ao entregar as cervejas solicitadas...). Mas são os sistemas que causam as crises, não as pessoas ou forças externas.

2) A estrutura dos sistemas humanos é sutil

Nos seres humanos, estruturas correspondem ao modo de tomar decisões, que se traduzem em ações, frutos de percepções, metas, regras e normas de trabalho.

 

3) A alavancagem (solução) vem de novas formas de pensar
No trabalho as pessoas se concentram em suas decisões, ignorando as consequências nas pessoas a volta. No jogo da cerveja, os atores não percebem que criam a instabilidade ao não se comunicar com os parceiros do negócio cervejeiro, e ao tomar as decisões que afetem a vida dos colegas. A famosa regra de ouro: eu só posso crescer se o colega ao lado crescer também foi esquecida.

 

Como SENGE (1998, pag. 98) resume com sabedoria, "Não existem culpados, ninguém lá fora fez isso ou aquilo à nós. Você e a causa de seus problemas fazem parte de um único sistema. A cura está no relacionamento com seu 'inimigo'".

 

No exemplo do curso de informática, o que se fez quando a turma esvaziou? Despede-se o docente e contrata-se outro. Quem vem depois ou cai nas graças da turma (se o problema for apenas o docente) ou repete-se o drama, sem nada poder fazer.
Demitir um docente sem conhecer o sistema que originou o problema redunda em perpetuar o problema com o docente seguinte.

 

Quando problemas surgem a tendência é achar que "alguém" tem de ser responsável (quando na verdade a culpa está no "algo" - o sistema que organiza essas relações). Do ponto de vista do aluno, se ele não desenvolve as mesmas competências que o colega o professor 'tem de ser culpado" pelo "mau" ensino. Se os computadores dão problema durante a aula o curso "tem de ser culpado" pois isso também prejudica o ensino e assim por diante.

 

Só se quebra esse círculo vicioso corrigindo o sistema que envolve os atores (alunos, micros, ambiente, ensino, docente).

 

SENGE (1998p. 99) diz que o "pensamento sistêmico" é uma disciplina para ver o todo. E dá dicas de como criar um diagrama de uma situação para descobrir as forças que atuam para o sucesso ou fracasso de um sistema.
Tive a oportunidade de ver um exemplo do "pensamento sistêmico" quando visitei a Xerox do Brasil com meus alunos e um dos funcionários me mostrou um diagrama do fluxo de trabalho da empresa. Cada etapa tinha de seguir o diagrama, sendo protocolada (assinada) por alguém, que dá a etapa como concluída. Desta forma, se um problema surge se identifica onde ocorreu, e com quem. Chegando na pessoa levanta-se o que houve e o que pode ser feito para resolver o problema, para que não ocorra de novo.

 

O provedor de hospedagem de sites que utilizo para hospedar meu site tem procedimento semelhante: se faço uma solicitação, tenho um prazo para dar retorno ou a solicitação é dada como atendida. Ainda assim posso dar prosseguimento à solicitação (retornar a solicitação) até ela ser concluída.

 

Essas duas ações - ter os procedimentos padronizados e solicitações acompanhadas de perto por um "ouvidor" até serem dadas como finalizadas pelo solicitante, seriam, para mim, o melhor sinal que um "sistema de qualidade real" existe numa empresa. Se a lâmpada queimou, solicita-se a troca, o responsável providencia e um terceiro fiscaliza se tudo foi feito a contento no menor tempo possível.



Mas claro, existem situações que não são uma troca de lâmpadas - situações que envolvem pessoas. Ter mecanismos como o que citei para solucionar problemas com pessoas acaba sendo tão fundamental quanto resolver problemas materiais.



No exemplo do jogo da cerveja, os atores devem cultivar o hábito de se comunicar, independente do quão atarefados se encontrem. Isso faria com que todos "não fizessem nada" frente ao aumento de vendas: o varejista não solicitaria mais cerveja do que o atacadista pode entregar; o atacadista faria o mesmo em relação ao cervejeiro; todos perceberiam que a demanda extra é sazonal, e se contentariam com o lucro habitual, ou fariam estoques menores, dentro da capacidade de produção e entrega possíveis.

 

No caso do curso de informática, o docente poderia ser orientado pela coordenação a sempre começar as aulas na hora, independente do número de pessoas em sala, para criar hábito positivo em relação aos horários.
O coordenador, a partir de visitas periódicas à turma saberia que a manutenção nos micros estava deixando a desejar e solicitaria ajuda externa. A direção poderia orientar a coordenação sobre como proceder em casos como esse, que já devem ter ocorrido em outras épocas, com outros profissionais.

 

Enfim, o jogo da cerveja é o primeiro passo para compreender como as coisas se articulam em sistemas e como se deve lidar com eles para solucionar questões. Até porque não há como ser vitorioso num sistema falho, e que, como tudo, deve ser aperfeiçoado com o tempo.

 

...
Notas
[1] Já dizia a lei de Murphy que quando as coisas vão mal, fique descansado, pois todos os problemas estão a vista; quando as coisas vão bem, preocupe-se, pois os problemas estão bem escondidos. Esse "pensamento às avessas" tem uma coerência enorme com a realidade dos fatos, se formos pensar bem.


[2] A política é o melhor exemplo disso.

Referências:
Peter Senge, "A quinta disciplina". Ed. Best Seller / Círculo do livre, 1998, São Paulo, SP

Um resumo disponível na internet:
http://www.malkesconsultoria.com.br/ilustracoes/quintasenge.pdf

 

 

Competências e habilidades

20:04 @ 07/02/2010

Lembro das sábias palavras de Umberto Eco, que disse em seu livro "Como escrever uma tese" que dissertações são como um animal suíno: delas se aproveita tudo. Na minha dissertação de mestrado pesquisei definições de inteligência, competência e habilidade que aproveito aqui:

Inteligência segundo MACHADO (2008) "Ao se estudar o cérebro, só encontramos condições para dois grandes tipos de inteligência: a analógica e instintiva, e a inteligência racional, identificada com a lógica aristotélica".

Competência seria "Capacidade para apreciar e resolver determinado assunto"  (FERNANDES, LUFT, GUIMARÃES, 1993, p.238).

Habilidade por sua vez é "Característica de quem é hábil (adj.) – que tem aptidão ou capacidade para algo". (O DIA, AURÉLIO, 1993. p. 166).

Quando uma pessoa faz um curso procura adquirir competências, que só serão atingidas se tiver - ou desenvolver - as habilidades necessárias. E isso não tem nada a ver com inteligência.
Já tive alunos muito inteligentes (que já trabalharam há tempos na área que ensinava e vinham se atualizar comigo) e que não tinham habilidades para o assunto em questão, e portanto não desenvolviam cmpetências para colocar em prática.

O problema central é que nem todas as pessoas são altas e magras, ou ricas e famosas. Todos nós levamos mais ou menos tempos para adquirir certas competências (ou desenvolver certas habilidades). O aprendizado passa pelo interesse e aptidão de cada um por determinado assunto, além do ambiente. Eu dificilmente seria um bom aluno de física quântica, pois esse não tenho simpatia por essa matéria (interesse), embora tenha facilidade (aptidão) em entender assuntos relacionados à ciência. Por fim, se não tiver necessidade (ambiente) de aprender esse assunto jamais serei um grande conhecedor.

Oferecer um curso com o pressuposto de que todos os pagantes irão desenvolver as mesmas competências no mesmo tempo é como vender uma roupa manequim 30 para pessoas de todas as alturas, pesos e medidas, o famoso "tamanho único". Na ergonomia, existe um assunto que alguns estudiosos chamam de "a falácia do homem médio[*]", que trata do mesmo exemplo que dei agora.

Algumas instituições, franquias de ensino adotam estratégias flexíveis no sentido de estimular o desenvolvimento de habilidades respeitando o tempo individual: o aluno pode frequentar o curso para fazer treinamentas monitorados durante um determinado período, durante e após o término do curso.
Durante  o curso também são oferecidos horários para fazer as mesmas aulas monitoradas.
Outra estratégia adotada por cursos de inglês é oferecer ensino à distãncia com material paradidático multimídia (CD, DVD, livros, áudio-books, etc).
Enfim, existem várias formas de fazer com que o ensino presencial seja efetivo no sentido de permitir o desenvolvimento de habilidades, que, aí sím, levam às competências.

Aqui chegamos ao topo de nosso raciocínio. Uma vez desenvolvidas as competências, durante o curso como mantê-las, após, para que possam ser exercidas?

As estratégias que citei (aulas monitoradas, p. ex.) são sinônimo de prática, treino. Estagiar na área estudada, desenvolver projetos individuais são estratégias para se manter as competências adquiridas vivas na memória. Sem a prática não há exercício de habilidades, que como citei, levam às competências.

O papel das instituições de ensino não é ser, ela própria mercado de trabalho, embora seja uma porta em diversas situações: as incubadoras de empresa, empresas júnior, os escritórios-padrão que as faculdades de advocacia oferecem à população (sem custos) são meios para o exercício da prática profissional em muitas áreas. Infelizmente assim como o sistema penal não conduz os que desejam abandonar a marginalidade a uma atividade profissional (e deveriam fazê-lo!), nem todas as instituições de ensino tem como filosofia abrir espaço para a prática profissional como parte do processo de aprendizado.

Na instituição onde presto serviços há demanda para a produção de material didático próprio, que poderia ser produzido (editorado) por ex-alunos de meus cursos, a custos baixos em comparação a contratação de terceiros. Mas tudo isso esbarra nas políticas de cada instituição; cada uma tem objetivos e prioridades próprias.

Enquanto estava na faculdade fiz curso técnico, na minha área profissional, e depois estagiei para poder exercer a atividade de editoração eletrônica. Formado, continuei a trabalhar na área, e acabei por ministrar aulas, curiosamente, no mesmo local onde fiz o curso técnico. Foi minha forma de manter viva a chama do conhecimento. Mesmo assim, existe a questão de saber no que se é "melhor ou pior" dentro de sua área de competência[**] - posso ser um bom diagramador e um criador razoável. Normalmente somos chamados a executar trabalhos relacionados com nossas aptidões naturais, ou desenvolvidas e mantidas ao longo do tempo.

Enfim, independente da filosofia de cada instituição de ensino, cabe ao estudante procurar seu caminho dentro das oportunidades de aprendizado que lhe são oferecidas, seja através de um curso intensivo (como os cursos preparatórios para concursos), um curso regular (como os técnicos) ou de médio/longo prazo (como os superiores ou de pós-graduação).



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Notas
[*] Essa teoria desmonta a idéia de que projetar produtos para seres humanos com medidas "na média" contempla a maioria dos usuários. Os ônibus coletivos são o melhor exemplo dessa teoria, onde pega-mãos no teto são inacessíveis a pessoas mais baixas, e a maioria dos assentos não comporta pessoas altas ou obesas, ou seja, "fora da média". O fato da população a cada década ser mais alta e os assento continuarem a ser projetados nas mesmas medidas só reforça essa teoria.
[**] Existe uma teoria chamada Peter Principle - ou nível de incompetência - que diz que por mais que sejamos conhecedores num assunto, somos incompetentes em uma área deste conhecimento; posso ser um bom teórico (redigir bons textos) e ter problemas de didática (explicar mal o assunto), por exemplo.

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Referências:
MACHADO, Luiz. Não há Inteligências Múltiplas, __, Campinas, ___. 
Disponível na Internet: http://www.cidadedocerebro.com.br/newsletter_inteligencias_multiplas.asp 
Acessado em junho 2008.

O DIA, Jornal; AURÉLIO. Dicionário prático da língua portuguesa. 3a ed., Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira 1993.

FERNANDES, Francisco; LUFT, Celso Pedro; GUMARÃES, F. Marques. Dicionário brasileiro Globo. 30ª ed., São Paulo: Ed. Globo, 1993.