Grupos

Estava eu  numa reuniao de departamento, com o então coordenador de curso de uma unidade da instituição de ensino. Antes de comentar sua saida da função (estava se demitindo do cargo de coordenador) ele sugeriu que um outro docente assumisse sua função, pois, no seu entender, somente alguém que é docente pode estar a frente da coordenação de seus pares.

 

Claro, não é o único requisito, e raramente o mercado segue esta lógica (*), mas a observação é deveras relevante, pois quando um aluno faz uma reclamação a quem desconhece a atividade, este vai ver o problema com olhos de aluno (ou seja, vai ter uma visão parcial da situação).
É fácil compreender a situação. Peça a uma criança perguntar a outra criança o que ela acha dos pais as "obrigarem" a tomar banho todos os dias, e você vai ter uma resposta do ponto de vista de uma criança.
Peça a um coordenador que nunca deu aulas a analisar os queixumes de um aluno. Ele nunca será capaz de ler nas entrelinhas o que está sendo dito em comparação a realidade dos fatos, nem de argumentar que existem objetivos claros com o modus operandi dum curso coletivo, e que infelizmente serão quebrados ao se personalizar o curso para o queixante.

O aluno acha a aula ruim porque não pode usar o MSN enquanto o professor explica a matéria; o pai "pagante do curso" reclama que o filho adolescente não aprendeu a fazer cartões de visita no MS Word (mesmo que esta competência não esteja dentro do escopo do curso) pois ele comprou um micro novo e deseja que o filho produza cartões de visita para amigos, na esperança de recuperar o investimento feito; o aluno se sente desconfortável pois está no século XXI aprendendo no mesmo modelo de ensino que existia em 1945. E por aí vai.


Esse tipo de filtro só possui quem está na "linha de frente" dos cursos, ou seja, o professor.
Por isso que sempre bato na tecla de que uma empresa deve ouvir mais de uma parte (a prata da casa incluso) antes de tomar decisões. Até para que as decisões não sejam corporativistas, nem "de cima para baixo" (fora da realidade).



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"Aprenda o básico de Photoshop em menos de 25 minutos"
http://www.htmlstaff.org/ver.php?id=25463
Por isso que o ensino "do software" se banalizou; hoje faz mais sentido o ensino de "aplicações interessantes do software" em sua profissão.
A geração mais nova já entra em sala de aula com assinatura da revista Photoshop, a bíblia do Photoshop, videoaulas do YouTube, tutoriais na web...
Cursos do tipo "retoque de imagem para publicidade" pode até não fazer sentido para quem trabalha no ramo, mas ajuda a vender um curso de Photoshop.

Em breve "curso de Photoshop" será substituído por "técnicas de Photoshop", assim como curso de "Excel" foi substituído por "Excel Avançado".


Não que os cursos básicos irão acabar, mas será um tipo curso com espaço cada vez menor.

 

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Um colega docente conseguiu dar a "volta por cima" dentro da área de docência. Ele acabou migrando de curso para outro (da área A para a área B) por ação do mercado, uma vez que o local onde ele ministrava aulas não percebeu que o seu insucesso em sala de aula se dava por questões não relacionadas ao docente. Entre outros micos, o MSN era permitido durante as aulas (**), o conteúdo programático não ia de encontro às expectativas dos alunos, tanto na parte pedagógica quanto em infra-estrutura.


Particularmente fiz o mesmo, cerca de 10 anos antes, por opção própria (percebí a situação antes do colega); Hoje percebo que a própria área de profissional onde estou inserido está mudando rapidamente, tanto no conteúdo como em demandas extra-curriculares (aptidões interpessoais, políticas e até sociais) o que me faz pensar em como me reinventar para continuar na área de docência.
Mas esse assunto merece um post inteiro.

 

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Presto serviço numa instituição de ensino de formato privado, onde problemas em relação a satisfação dos clientes/alunos é um fato, por conta até do gigantismo da instituição. As relações aqui são essencialmente impessoais como a relação entre um motorista de ônibus e você.
Estou fazendo curso numa ONG, que, ao contrário da instituição privada, as relações são mais personalizadas, o que minimiza problemas de satisfação, p.ex. Não que não hajam problemas na ONG, mas a questão da satisfação do corpo discente (alunos) nesta ong é das mais altas.


Problemas todos têm, mas é curioso como os problemas são diretamemnte relacionados com o modelo (políticas) de cada instituição.

 

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Uma frase que sempre utilizo é a de que os alunos, quando assumem papéis de consumidores, frequentemente se utilizam do bordão "estou pagando..." da personagem Lady Kate do programa Zorra Total da Tv Globo. Ou seja: "se estou pagando, tenho direitos...".
O que as pessoas não percebem é de que a personagem do programa humorístico mostra nas entrelinhas é que ter dinheiro (ou direitos de consumidor) não transforma ninguém em uma pessoa melhor. Melhor dizendo, comprar um curso não significa que o respeito de quem está do outro lado do balcão esteja à venda. Aliás, esse respeito tem de estar presente em ambos os lados.


A tecla que me bato é que os problemas começam nos sistemas e terminam nas pessoas. As pessoas são o espelho do sistema a sua volta. Certa vez numa universidade pública pedí informação a uma funcionária sobre como preencher um formulário e tive como resposta "você sabe ler?". Se esta pessoa estivesse na iniciativa privada (em outro sistema) dificilmente a resposta seria essa...

 

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Notas

(*) Cargos de confiança normalmente não são dados a desconhecidos; e raramente um conhecido seu vai preencher todos os requisitos para a solução de seus problemas... Daí existirem tantas pessoas chefiando áreas/pessoas fora de sua formação ou experiência.
Há quem afirme que o principal para ser gerente/coordenador é entender de pessoas, pois nem sempre a pessoa "certa" vai estar disponível no mercado de trabalho no momento necessário.


Concordo com a importância de possuir "inteligência interpessoal/emocional" ao lidar com pessoas, mas isso não habilita conhecimento de causa sobre como as coisas funcionam. Me peça para consertar uma TV e irei levá-la a um técnico, mesmo correndo o risco de contratar um mau técnico. Me peça para consertar um micro e serei capaz de descobrir ao menos onde está o defeito, e se o conserto foi bem feito. No primeiro caso desconheço o assunto, no segundo não - a possibilidade de me sair melhor no conserto do micro são maiores do que na TV, por mais que tenha inteligência interpessoal/emocional ao lidar com pessoas...

 

(**) Nada contra o MSN (ou serviço de SMS via internet); se bem usado pode ser um recurso paradidático excelente - já usei o MSN em cursos para deficientes auditivos. Em vez de depender da intérprete em libras - linguagem de sinais para surdos - pedir para prestarem atenção, eu "puxava a orelha" deles via SMS, que estava sempre ligado, com resultados mais efetivos...