Grupos

Uma vez, conversando com colega docente ela relatou um caso de uma outra colega que teve de substituir, e que, nas palavras dela, “se perdeu psicologicamente com a turma” (leia-se: fez muita amizade com os alunos mas não conseguiu manter o interesse deles pela matéria). Eu mesmo já me deparei com essa situação ao substituir um docente, mas consegui extrair fatos e soluções comuns dessas situações que colhi ao longo do tempo.
Caro(a) docente, se a matéria que você deu com sucesso recentemente não está motivando o grupo atual, pode ser que:

(a) a turma esteja achando o conteúdo fácil demais (parte da turma pode já conhecer a matéria, o assunto pode não estar dentro do interesse de um grupo, etc).

O que pode ser feito: comece a dar a matéria “de trás pra frente”: o “mais difícilque ficaria pro final comece a dar agora. Quando a bola do corpo discente baixar, retome a matéria onde estava. Isso sempre funciona.
Use sempre referências estrangeiras (que os alunos só terão acesso com maior dificuldade); use referências em língua portuguesa apenas se não houver em outros idiomas. Não é questão de "ser chique", se os alunos encontrarem suas referências facilmente irão questionar se o seu saber é relevante...

(b) a saída de parte dos alunos (por motivos de saúde até imprevistos pessoais) numa turma pequena, dando a impressão aos restantes de que o conteúdo “não é relevante”.

O que pode ser feito: aumentar o grau de dificuldade da matéria, variar os exercícios a cada aula ou mudar o projeto de aula (pode-se dar o mesmo conteúdo de diversas maneiras, lembre-se!)

(c) Desnivelamento no grau de dificuldade dos exercícios ou no nível de aprendizado dos alunos

O que pode ser feito: ter mais exercícios do que vai dar de fato, ajuda a distribuir as tarefas por nível de dificuldade; colocar os alunos menos aptos para perto de você docente, geograficamente, de forma a dar mais atenção, mais rapidamente.

(d) haja uma grande diferença de idade entre docente e alunos

O que pode ser feito: aí entram técnicas de relacionamento interpessoal, que vão desde uso de expressões corporais (se movimentar ocupando toda a sala, complementar o que é dito com gestos) até pequenos arranjos pontuais (no caso de turmas longas, mudar os  alunos de lugar a cada mudança de módulo; propor técnicas de avaliação de acordo com a faixa etária). Tudo é válido para quebrar a monotonia.

(e) haja uma grande diferença de idade entre os alunos

O que pode ser feito: agrupar alunos na sala conforme a faixa etária; posicionar um aluno que precisa de ajuda com outros mais adiantados, para que se ajudem.

(f) haja uma grande diferença de estilo de aprendizagem entre alunos

O que pode ser feito: ter me mente que alunos mais introvertidos ou mais conservadores precisam fazer construções do conhecimento de um modo diferente dos colegas mais extrovertidos ou comunicativos. Pautar a aula pelos alunos mais conservadores na hora de explicar a matéria ao grupo (leia-se não quebrar nem fragmentar uma explicação), de forma que estes não se sintam deslocados e passe truques mais avançados nos intervalos aos mais adiantados.

Enfim, são algumas observações que recolhi ao longo do tempo e que acho que podem ser aplicadas com certo sucesso em sala de aula.

Atrasar não adianta

01:50 @ 27/05/2011

O aluno chega atrasado, e nada acontece por conta disso. No dia seguinte chega mais atrasado ainda. No terceiro dia mais atrasado que no dia anterior e assim por diante. No final do curso, reclama que não aprendeu muita coisa...

 

O colega deste aluno vê o colega chegar tarde e resolve imitar pelo mesmo motivo. “Nada acontece mesmo...” Um belo dia chega na hora e vê a sala esvaziada. “O que está acontecendo?” ele pensa; “O conteúdo da aula está ruim, os colegas estão debandando, vou faltar a próxima aula para ver o que acontece” aumentando a bola de neve.

 

O terceiro aluno começa a ter “compromissos inadiáveis” todo final de aula, pois, para ele, não faz sentido ficar até o final de uma aula longa numa turma que se esvazia, mesmo tendo tarefas a cumprir e conteúdo a apreender.

 

Pra culminar, o professor resolve chegar atrasado, pois cansou de chegar na hora e encontrar a sala esvaziada. Os alunos que chegam ou comparecem começam a ficar com a pulga atrás da orelha e solicitam a mudança de docente, pois analisam não o conteúdo mas o esvaziamento da sala de aula.

 

Como diz uma das leis de murphy, as coisas deixadas por sí só vão do ruim ao pior.

Na verdade o professor frente a situações de desordem do alunado(*) tem de ter estratégias para contornar o problema - o esvaziamento da sala através dos atrasos, ausências e faltas - e por ordem na sala de aula.

 

Definir as regras do jogo no primeiro dia de aula – e relembrá-las ao longo do tempo – é uma primeira ação:

- definir percentual de faltas mínimas permitidas por módulo;
- faltas não justificadas abonadas somente com realização de trabalhos ou avaliações;
- ausências antes do final da aula são convertidas em falta na aula inteira;
- presenças são contabilizadas da hora de chegada até a hora de saída.
- nunca "voltar a matéria": o atrasado prossegue a partir do ponto que chegou, em respeito aos que chegaram na hora. Se puder ver um resumo da matéria no intervalo, perfeito.

 

Além dessas ações, comunicar a situação dos alunos ao final dos módulos é uma segunda ação efetiva para que o aluno fique a par de seu próprio comportamento e desempenho, fazendo auto-gestão de seu estudo.

 

Estas diretrizes solucionam problemas na origem, através do monitoramento do problema e da imposição de limites a comportamentos inadequados.

 

Não há receita de bolo: Cada professor adota soluções de acordo com seu ponto de vista, temperamento ou estratégia frente ao problema. Tenho um colega docente que trata a questão de forma diversa da minha, sem ser fiscal de alunos: os alunos chegam e saem a hora que desejam, e ele avalia as competências adquiridas ao final do curso, seja quais forem...

 

Outros colegas docentes, quando os alunos atingem certo patamar de ausências/faltas pedem para a instituição de ensino ligar para os responsáveis pagantes do curso (o problema é quando o aluno é maior de idade, a instituição não liga...).

 

Enfim, o tema é antigo como a sala de aula, mas é um problema de gestão educacional e como tal, contornável quando se possui um método.

...

Nota:

* Normalmente essa desordem é fruto de políticas equivocadas do docente frente ao problema ou de políticas frouxas da instituição de ensino, como o uso de celular em sala de aula.


Num cenário desorganizado o docente pede que o aluno não use o celular e este se nega, gerando atitudes severas por parte do docente ou instituição de ensino.


Num cenário adequado o docente pode dar o exemplo de que o celular não deve ser usado em aula ou o poder público pode determinar uma lei que proíba o uso do aparelho em instituição de ensino.

O docente pode definir que o uso do celular deve ser em caso de emergência ou a instituição de ensino pode recomendar pessoalmente e por escrito o não uso do celular em aula.

Boa aula versus aula ruim

02:04 @ 27/05/2011

Existem varias maneiras de se abordar um problema, todas com prós e contras. Se formos perguntar a um docente e a um aluno o que é “uma boa aula” ouviremos definições quase que opostas, mas com elementos em comum: “a cara dos alunos diz se a aula foi boa ou ruim” diriam alguns professores ou “eu me diverti aprendendo” podem responder os alunos.

 

Eu acredito que vivemos no século do Entretenimento, com E maiúsculo: tudo hoje ou é ou passa pelo entretenimento. Esporte é entretenimento (isso deve explicar tantos eventos de esporte nas praias dos centros litorâneos), cultura é entretenimento (se não for não consegue patrocínio), política (os showmícios são prova inconteste disso) informação é entretenimento (os telejornais que fazem shownalismo são um bom exemplo), enfim... educação também virou uma forma de entretenimento. É fácil entender: numa época onde o acesso ao entretenimento é tão fácil (nos grandes centros é fácil ter acesso a espetáculos gratuitos ou de preço simbólico, além da internet, TV a cabo, DVD, jogos, cinema, teatro, eventos...) que as pessoas podem se dar ao luxo de escolher como e quando vão se entreter. Entretenimento – e não só ele - é um consumo tão fácil que tudo o mais entra na mesma categoria ou se nivela a ele: das nossas relações pessoais até as escolhas profissionais. Ao fazer um curso, comprar um livro, ler uma revista, folhear um jornal, ouvir uma rádio, assistir um programa na TV, temos o pressuposto de que qualquer atividade deve ser rápida e prazerosa como um sanduíche de fast-food. O cerne da questão reside aqui.

 

Se para o professor da geração anterior à internet a boa aula coletiva é aquela em que os conceitos são passados, exercitados e fixados por todos, para os alunos criados com a internet a “aula boa” deve ser individual como a tela de seu computador, e a informação só deve parar de ser transmitida quando a sensação de cansaço for semelhante a de ficar o dia inteiro assistindo ao YouTube. Ou assistindo vídeos do Humor Tadela.

 

Certa vez ouví uma definição ótima de "mau aluno": aquele que acha que possui conhecimento do assunto o suficiente, ou só deseja aprender "o que está na sua frente" sem profundidade. Também já ouví uma definição excelente do que deve ser a meta do professor: melhorar a pessoa que está à sua frente (Paula Wenke, diretora teatral). Lidar com esses extremos fazem parte da missão de quem lida com o público, ou com educação.

 

Mesmo sabendo que não existem fórmulas mágicas, apenas recomendações que devem ser dosadas conforme o contexto, particularmente acho que é importante tentar equilibrar as piadas e o social que faço durante as aulas com conteúdo, pois no meu entender, é o conteúdo que segura a aula, por melhor que seja minha habilidade em entreter as pessoas.

 

Outra coisa que tento fazer é criar estratégias de personalização/individualização do ensino dentro de aulas coletivas, seja nas tarefas de aula como nas tarefas de recuperação; por exemplo, aplico uma mesma base de exercício - com variações individualizadas de acordo com o grau de necessidade de cada um - a alunos diferentes. Isso me poupa a tarefa de criar exercícios ou recuperações novas sempre, embora isso seja necessário ao longo do tempo.

 

Por fim, revisão permanente do conteúdo – a cada turma tento incluir conteúdo novo de forma a atualizar ou aumentar o grau de dificuldade da matéria. A forma com que nos comunicamos entra nesse rol de expertises também. Acho que esse trinômio – entretenimento, personalização e conteúdo – é um pilar no qual a “boa aula” deve se pautar, sempre.

Curso para clientes

20:17 @ 29/05/2011

Todo mundo que trabalha já viu esse filme: a pessoa era alguém fora de seu eixo profissional (parente, amigo/a) ou profisional da sua área (colega de trabalho, sócio/a), gente finíssima... até o dia em que virou cliente. Aí começou a se portar igual a qualquer estranho, com comportamento igual ao dos clientes que costumava criticar (como no caso de colega de profissão).
Não que os profissionais não pisem na bola - errar é humano, daí existirem códigos de ética profissional - mas achei interessante a idéia de fazer uma cartilha do que seriam os "mandamentos do bom cliente" até porque as pessoas, de modo geral, não tem consciência de que são "maus clientes" do ponto de vista profissional e agem de acordo com o senso comum de que "se estou pagando tenho todos os direitos; o que estou solicitando não é de graça, afinal". Como diria Ricardo Semler no seu livro "virando a própria mesa", todos tem o direito de serem tratados com justiça, e a justiça pode estar dos dois lados do balcão.

 

Uma lista de recomendações segue abaixo, baseada na observação de certas atitudes de pessoas próximas, colegas de profissão e claro, ex-clientes que, ao tomarem atitudes profissionalmente incontornáveis, tiveram algum tipo de prejuízo:

 

a) Procure ter certeza do que está pedindo e atenha-se ao que pediu até o final.
Se tem dificuldades de tomar decisões sobre o que deseja, peça um dia ou dois para refletir sobre o assunto.
Nem todo serviço profissional é como ir na copiadora da esquina (1); imagine que, para quem está prestando serviço, consertar um furo no casco de um navio ou na sola de um sapato é um trabalho que demanda experiência, custo material e tempo de execução (2). Ambos serviços merecem igual respeito, independente da sua complexidade ou tamanho.

 

b) Tenha em mente que alterações no combinado implicam em custos extras.
Pedir ao frentista do posto de gasolina para colocar gasolina com álcool no seu carro e depois de abastecido pedir para trocar por gasolina sem aditivos- sem custos - não é o que se espera de uma pessoa coerente.

 

c) Solicitou e foi entregue conforme o combinado, efetue pagamento. Foi entregue parcialmente, pagamento parcial.
Além do sinal, essa é uma situação que merece atenção de ambos os lados, contratado e cliente (3).

 

d) Faça uma auto-crítica baseado na reação das pessoas: ninguém sorrí quando está insatisfeito ou o contrário. Analise porque o outro lado (contratante) não sorriu para você em determinada situação de trabalho e tente não repetir a situação mais adiante.

 

e) Assim como não nos relacionamos bem com qualquer pessoa, o inverso também vale. Se por acaso o relacionamento profissional A não fluiu bem, tente com o profissional B. Se os problemas persistirem as chances do problema estar em alguma atitude sua são grandes.
Em último caso veja se não lhe interessa aprender a atividade que necessita, para ficar independente e resolver o problema por sí só. Lembre do ditado que problemas são oportunidades disfarçadas de trabalho...

 

f) Tenha em mente que a vida é uma rua de mão-dupla: assim como você descarta pessoas que não lhe atendem dentro do esperado você pode ser descartado como um cliente que não se comporta de acordo, sendo atendido de forma a não voltar de novo.
Assim como você recomenda negativa e publicamente uma empresa ou profissional o outro lado do balcão pode fazer o mesmo tipo de comentário a seu respeito no mercado, se o sentimento for recíproco (e pior: esse comentário não será público, mas pode propagar na mesma proporção que o seu entre empresas e profissionais do ramo).
Como diz o ditado, em caso de divergência, mais vale um acordo do que uma ação.

 

g) Nem toda relação de trabalho é uma relação pessoal, assim como nem todas as pessoas que você conhece frequentam sua casa. Se para você segurança envolve relações pessoais talvez contratar autônomos por indicação pessoal seja uma solução de personalizar minimamente as suas relações de trabalho.

 

h) As oportunidades de trabalho e de ofertas de serviços são amplas mas cada mercado é pequeno, as pessoas se conhecem. Se os dois lados do balcão puderem deixar uma boa impressão para a outra parte todos saem ganhando. Evite ser um mau cliente que acaba pagando caro para ter seu problema resolvido a contento ou evite ser um prestador de serviços que ninguém recomenda.

i) Errar é humano. Ninguém em sã consciência quer ter ou dar prejuízo. Se ambas as partes erraram em algum momento na hora de tomar decisões, divida o prejuízo.

No mais, felicidades para todos nós, clientes e profissionais.


...
Nota:
(1) mesmo assim conheço empresas que fazem cópias que solicitam uma assinatura na entrega da cópia de um documento, em papel comum, para que não hajam dúvidas sobre o que foi solicitado e o entregue...


(2) Nesse ponto entra uma questão comum a maioria das áreas profissionais: o hiato entre o prometido e o oferecido. Nem todo profisional apresenta uma amostra fiel do que vai oferecer ao final da prestação de serviços. Particularmente só inicio um serviço após apresentar essa amostra - fiel - do que será entregue, com aprovação formal, por escrito.


(3) Costumo recusar trabalhos em que a parte contratada se recusa a colocar por escrito os termos do trabalho. Formalizar por escrito as relações - das solicitações ao recibo de pagamento - é segurança para ambos os lados, e evita ruídos na comunicação. Eu elaboro relatórios de serviços ilustrados para reduzir ao mínimo os ruídos na comunicação, com resultados positivos.