Grupos

Encenando a aula

13:49 @ 06/07/2011

Assistindo um vídeo do criador do Facebook dando uma palestra percebí que o cara só conseguiu reunir tanta gente por tanto tempo devido ao seu sucesso profissional. Mesmo assim muitos dos presentes devem ter desgostado da mis-en-scene do palestrante.

O teatro é uma imitação da vida, todos nós temos papéis sociais e a sala de aula não é diferente. Imagine que você docente é uma companhia teatral de uma pessoa só: você é autor, diretor, ator, figurinista ou cenógrafo de si mesmo. O que você pode fazer

Como figurinista, em relação ao seu visual?

Sabemos que o hábito não faz o monge, e que beleza não põe mesa, mas uma embalagem boa ajuda a vender um produto. Se o ambiente é bom, se vista de acordo, não destoe, cause uma impressão tão boa quanto seu entorno.

Como cenógrafo, em relação com o palco (ou sala de aula)? Dá pra mudar os móveis de lugar para que as pessoas assistam sua performance de modo mais agradável? Dá pra melhorar a visão de aula para os alunos que ficam longe de você?

Como ator,  como é a sua comunicação (verbal e não-verbal) com os alunos? As pessoas te escutam bem de longe? Você se comunica com clareza? Os alunos mais atrasados conseguem acompanhar a matéria, sem ficar para trás?
Como entretainer (animador) você dá a mesma atenção para todos, proporcionalmente?


Como autor, sua história é previsível e linear ou tem reviravoltas inesperadas - e interessantes - ao longo da peça? os diálogos possuem piadas e social para descontra(r)ir?

Como diretor, o que faz para que o conteúdo (a "história") seja interessante para quem aprende/ assiste? Você fala sobre um mesmo assunto longamente (esgota o assunto de modo consativo) ou divide um assunto em doses homeopáticas?

Cursos de informática podem ser esquetes, peças, óperas ou novelas.

Workshop é um tipo de aula (como uma esquete teatral, de curta duração), mas aulas (encenações longas, de média/longa duração como peças ou óperas) ou cursos (como as novelas)  não podem ser workshops.
Exposições curtas podem ser superficiais, focar um único assunto em profundidade ou vários sem aprofundamento. Cursos subentendem um conjunto de informações com média ou alta complexidade que se encaixam.

Essas são apenas algumas idéias para organizar aulas, de modo geral, do ponto de vista do teatro - que é espelho da vida.

Organizando a aula

09:40 @ 17/07/2011

Mesmo não sendo pedagogo - ou talvez até por esse motivo - vez em quando sou convidado ou incumbido de ajudar alguém que está ingressando na atividade de docência emcursos de informática. Mesmo sabendo que eu mesmo ainda sempre aprendo algo novo todos os dias eu procuro passar dicas de organização de aula, como roteiro e apresentação de aula.

 

Plano de aula não é a aula, apenas um roteiro que vai informar às pessoas sobre os assuntos tratados. Mas é uma das bases sobre a qual a aula pode ser construída.

 

Costumo dizer que montar uma aula é como escrever uma obra de ficção: um livro, um filme, novela... Tudo isso é feito de trás para frente.
A partir do plano de aula, defina o produto final de sua aula. Agora pense nas estratégias para orientar as pessoas a chegarem nesse objetivo.

 

Exemplo: se seu plano de aula é ensinar a desenhar formas simples (linhas, quadrados e círculos, você pode pegar como objetivo uma figura simples (boneco do tipo "palito").
Isso pressupõe ensinar a criar linhas, círculos e quadrados (formas simples) e depois reunir esses desenhos na forma de um boneco simples. Ou seja, a aula parte do mais simples para depois chegar ao mais complicado. O planejamento parte do complexo (objetivo), e pensa como levar o aluno até lá (meio).

 

Após isso pense no exercício de fixação, que deve ter alguma coisa de mais complicado que o trabalho de aprendizagem, para estimular o interesse do alunado.
Por exemplo, passe um exercício para criação da "família palito": desenhar o marido, esposa e filho com cenário (parque com árvores).

 

O material paradidático nessas horas é fundamental para os alunos mais atrasados ou que perderam a aula. Como nem sempre haverá material que seja o espelho de sua aula, você pode recorrer a tutoriais na internet, videoaulas, apostilas digitais. Se precisar montar material próprio, telas que ilustrem o exercício "pronto" ou passo-a-passo (sem descrição) são úteis.
Por fim, se puder pensar em ilustrar suas explicações teóricas, é importante pois as pessoas fixam mais o que vêem do que aquilo que lêem. Sem falar que isso poupa tempo de aula, evitando que tenha de refazer esquemas/gráficos que ilustrem sua explicação, a cada aula.
Indicar redes sociais para que o aluno possa pesquisar suas dúvidas por conta própria também é útil.

 

Se fosse juntar tudo num roteiro de aula seria mais ou menos assim:
1) apresente os objetivos da aula (de forma ilustrada), e defina as ferramentas, técnicas ou conhecimento a serem trabalhados.
2) apresente as ferramentas e comece a construir o exercício com os alunos. Uma vez apresentado os caminhos básicos, deixe os alunos terminarem o trabalho sozinhos.
3) passe um segundo trabalho, ligeiramente mais complexo, como exercício. Se tiver elementos que não ensinou ainda é útil para medir o grau de conhecimento dos alunos na matéria e estimular a curiosidade.
Por fim, ofereça um exercício onde o aluno possa construir um conteúdo de seu interesse, com as ferramentas e técnicas utilizadas.

 

Essa metodologia se baseia no "aprender fazendo" do construtivismo, mas com uma organização prévia, típica do ensino tradicional. O aluno aprende de forma organizada, porém com espaço para fazer suas próprias construções do conhecimento ao final. Em todo o processo sabe de onde parte, para onde vai e como chegar.
Isso tudo evita o "ensino baseado na tecnologia" onde mostrar a tecnologia acaba sendo a condição para chegar num resultado prático.

 

Enfim, esta é uma metodologia que embora use para orientar "novos docentes" vale para docentes antigos que trabalham com "metodo próprio" (que funciona bem com o próprio docente mas não necessariamente com outras pessoas ou alunos) e que acaba sendo um "método sem método".

Manual do bom docente

00:52 @ 31/07/2011

Mais uma vez, como escreví num post anterior, me sentei na cadeira de aluno num curso de informática e cheguei a algumas conclusões interessantes:

  • "alunos" muitas vezes fazem jus à definição do termo (a=sem luno=luz, "sem luz") pois aceitam situações pedagogicamente "erradas" como se fossem algo "natural" (os exemplos seguem mais adiante) seja pela pouca idade ou desconhecimento de causa.
  • Maus exemplos são extremamente didáticos, pois acabam orientando sobre o que se deve fazer, de fato.
  • A origem dos problemas podem estar no sistema a nossa volta ou dentro de nós; a própria personalidade, temperamento ou modo de perceber o mundo podem ser tão prejudiciais quanto um ambiente que não colabora para que as coisas funcionem de modo adequado. Perceber isso é tão difícil quanto fundamental para quem trabalha com o público.

Enfim, vou discorrer sobre situações que presenciei enquanto aluno; antes de tudo um pedido: quem por acaso se identificar com algumas das situações a seguir, por favor encarem os comentários como forma de auto-aperfeiçoamento. Ninguém sabe tudo sobre docência e nem Bill Gates sabe tudo sobre informática.

Se a aula for em sala com computadores, evite:

1) Projetar a tela de computador em resolução alta (com letras e detalhes pequenos). Aula de informática não é exame de vista. Se você precisa mostrar um recurso que só aparece em resolução alta (tornando os detalhes da projeção um jogo de adivinhação) use "recursos de acessibilidade" como a lente de aumento do Windows, ou, após mostrar o que desejam retorne à menor resolução possível, com os elementos de tela maiores.

Se projetar em tela com detalhes grandes implicar em mostrar uma coisa e os alunos verem outra:
a) coloque a tela dos alunos na mesma resolução que a sua
b) se não for possível, tente decorar as diferenças entre a sua tela e a dos alunos (tenha uma imagem da tela como os alunos vêem sempre à mão) e explique durante a aula que na sua projeção a tela "está assim", mas na projeção dos alunos "está deste modo".

2) Terminar a aula depois do horário ou começar antes da hora. Respeite quem precisa acordar cedo no dia seguinte ou mora longe. Parece surreal mas já ví um docente fazer as duas coisas numa mesma aula...

3) Dar mais atenção aos alunos mais adiantados, pois os atrasados demandam maior atenção para compreender a matéria.

4) Não assumir que desconhece um assunto é desonestidade intelectual. Ficar com a dúvida é preguiça mental. Tente descobrir a dúvida não respondida até a aula seguinte ou final do módulo, se possível, e repasse o esclarecimento. Os alunos vão ficar com boa impressão de você, pode crer.

5) Assumir que o aluno conhece programas ou assuntos que fogem ao escopo do que é ensinado. Se o aluno não conhece um segundo programa - ou informação - que vai ajudar a realizar uma tarefa no programa principal, explique teoricamente ou faça com o aluno passo-a-passo.

Eu particularmente faço uma dinâmica ao início do curso/módulo para medir o nível de conhecimento dos alunos: peço para que realizem tarefas, relacionadas a informática básica, que serão desenvolvidas no decorrer do curso. Isso permite que eu saiba de antemão quem precisa mas de atenção dentro do grupo.

6) Abandonar os alunos mais atrasados, pois eles irão abandonar você. Crie estratégias para que os mais atrasados acompanhem os mais adiantados. Por exemplo, se - um aluno perdeu o fio da meada- o computador do aluno travou e ele não salvou - copie para ele o trabalho em desenvolvimento para ele prosseguir a partir daquele ponto.
Isso pressupõe que suas explicações são passo-a-passo, e que você desenvolve exercícios junto com os alunos.

6) Demonstrar o que não será ensinado; deixe bem claro que isso foge do escopo do curso. Mostrar e não ensinar deixa a impressão de que se está sonegando informação, no mínimo.

7) Ignorar demandas dos alunos. Se pedirem mudanças no programa, faça alterações, deixando bem claro que se está deixando de ensinar um assunto em favor de outro.

No caso de divergência, decisões por consenso são melhor do que por maioria: se a maioria decide algo que não agrada a minoria, você pode "perder" a minoria, que pode gerar um efeito dominó de esvaziamento da turma. Neste caso tente uma solução em que ambos os lados abrem mão de alguma coisa em favor da opinião do colega.

Exemplo: se a maioria decide que o curso de informática básica deve abordar instalação e uso de um programa utilitário e a minoria acha que isso não é relevante, que tal ensinar o uso de um software que tenha versão instalada, portátil e online? Mostrar o uso de um software online (que possui poucos recursos) será bem mais rápido do que instalar e explicar um software completo...

8) Fugir ao programa do curso. Se o curso é sobre o software "A" não comece a explicar o software "B" porque você acha melhor.
Imagine que num curso de "Apresentação de slides" começo a explicar um outro programa que faz organo/fluxogramas pois este faz organogramas melhores que o primeiro? E quem pagou para aprender apresentação de slides fica como?
Agora, se no final da aula parte da turma deseja dicas de como usar o segundo programa, e ele está instalado, não há problema em explicar esse assunto apenas para os que desconhecem, num intevalo ou ao final da aula...

Enfim, a lista é longa essas são apenas algumas situações recorrentes. Quem quiser dar outros exemplos ou comentar, fique a vontade.