Grupos

Quando comecei a ensinar webdesign[1] em cursos livres, webdesign era ensino de ferramentas (tecnicas) para esta atividade. Era o boom da internet comercial, por volta de 2000, e apesar de algumas iniciativas interessantes existirem no campo conceitual (como existem até hoje) basicamente o layout "página de revista" era regra geral na web. Ensinar ferramentas era o que o mercado buscava, as boas práticas vinham a reboque, até porque, pouca gente imaginava como fazer dinheiro com a web, de modo concreto, na época.

 

O tempo passou e, sem perceber, à medida que ia modificando o conteúdo de meus cursos,ia me adaptando às exigências do mercado intuitivamente. Só que o mercado mudou radicalmente entre 2003 e 2007. Hoje webdesign tem de dar conta de conceitos sólidos de usabilidade, experiência de usuário, arquitetura de informação... além das ferramentas (tecnologias que viabilizam tudo isso) que por sí só já são um capítulo à parte, dos mais extensos.

 

No caso dos cursos de web, o modelo de ensino tradicional já não dá mais conta de certas necessidades, que irei destrichar nas linhas seguintes, e solicita certas adaptações da parte do docente.
Quero frisar de antemão que as "soluções" por mim sugeridas aqui são baseadas num modelo de aula onde o tema dos projetos são definidos pelos alunos, ou sugerido pelo docente (a partir de um modelo pré-definido). Existem outras abordagens projetuais que não estou considerando aqui [2] mas que são igualmente eficientes do ponto de vista da dinâmica ou gerenciamento da aula.

 

Por exemplo, a complexidade dos projetos de webdesign desde 2003 me fez por dividir as turmas em dois grupos, para poder dar a mínima atenção aos presentes. Certo, o ideal é ter um monitor, mas como nem sempre essa necessidade bate com as planilhas de custo da instituição de ensino, resolví a questão assim, pela divisão de horários, com 50% do horário para cada metade dos participantes (alunos).

 

Outra questão "atual" é que a complexidade dos projetos pressupõe - como em qualquer projeto real - a dedicação de um tempo relativamente exclusivo para análise, formulação e seleção de alternativas, e, por fim, implementação com testes. Novamente não dá para dividir a atenção entre uma dúzia de pessoas e ainda fazer análise de projetos. Levar "dever de aula" para corrigir em casa acaba gerando dupla jornada, que se torna improdutiva quando se tem outras atividades que não a docência (coisa comum).

Minha solução foi reservar determinados dias de aula para fazer essa análise de projetos complexos, ainda que liberando a turma para usar os computadores (para navegar, se informar ou buscar soluções próprias). Aliás, essa opção por fazer a análise em sala de aula (e não em casa) acaba por ser interessante pois faz com que os alunos eventualmente descubram uma solução até antes do professor, poupando trabalho desnecessário. E filtra o argumento de que o docente está de bermudas em casa, sendo pago para isso.

 

Vale frisar que todas essas "soluções" devem ser negociadas de antemão, para que não hajam atritos entre as partes. Um exemplo típico seria informar que a carga horária reservada ao projeto fatalmente será insuficiente para que todos concluam o mesmo (mas suficiente para realizar as seções principais). Sempre cito como exemplo o site de um ex-aluno que fez o curso de webdesign duas vezes a fim de terminar seu (belíssimo) site.

 

Outras questões não menos relevantes como se ater à infra-estrutura que se dispõe (se o acesso a sites fundamentais ao desenvolvimento da aula está bloqueado, informe o fato de antemão aos alunos e trabalhe sem eles) ou se programar para ministrar as aulas mesmo sem estes recursos (p.ex. copiar o conteúdo necessário de antemão e disponibilizar em CD) acaba sendo tão necessário quanto ter proeficiência no conteúdo que está conduzindo. Assim como estar bem-disposto todos os dias mesmo que o biorritmo não esteja colaborando.

 

No mais, como diria Clemente Nóbrega (diretor de marketing da Amil, autor dos best-sellers "A empresa quântica" e "Empresas de sucesso, pessoas infelizes") o PLANEFAZENDO (planejar à medida que se executa) pode ser uma metodologia que pressupõe já saber planejar e fazer, mas acima de tudo pressupõe que um projeto (pedagógico) se faz aparando as artestas no seu curso (conhecimento tácito), sem receitas de bolo (conhecimento explícito).

 

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Notas

[1] Existe até hoje uma discussão se o termo "webdesign" não é empregado errôneamente. Um exemplo disso é o curso (técnico) de Editoração Eletrônica (Desktop Publishing) que no Rio de Janeiro é chamado de Design Gráfico (!). Se formos tomar o nome pelo seu significado literal, design para  a web - projetar para a web - o termo está errado, pois formação em projetos é assunto para  cursos de longa duração (cursos superiores, p.ex.) pois envolveria tanto a conceituação do projeto, necessidades deste e design (que vai além do desenho simplesmente).
Se entendermos webdesign como ensino de ferramentas que permitem o desenho da interface, aí sim, o nome está correto, ao associar design com desenho, grafismo ou escrita. Particularmente o SENAC RJ adotou uma solução ao (re)nomear o curso de editoração eletrônica como "Ferramentas básicas de design gráfico", subentendendo design gráfico como desenho para mídia impressa.
Existe na língua espanhola os termos diseño e dibujo, que respectivamente significariam projeto e desenho; mas como termos de língua inglesa tem peso no mercado brasileiro (até que a atividade se torne campo comum do saber) webdesign irá sobreviver até ser renomeado como "Ferramentas de webdesign" ou "Ferramentas de design/projeto para web".

[2] Propor um projeto onde o professor é a figura do "cliente" e a turma se divide em grupos produtivos funciona muito bem, assim como fazer da aula um grande workshop onde as idéias fluem livremente e a orientação se dá em horários flexíveis. Fazer da "aula expositiva" um projeto também funciona, pois a cada aula se constrói um (grande) projeto, ou vários projetos semelhantes ao longo do tempo. O projeto final, previsto na grade curricular pode ser utilizado para fins diversos (reforço da matéria, recuperação, finalização de projetos, etc).

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