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Um ex-colega de mestrado, doutor na sua área de conhecimento (usabilidade, um ramo da ergonomia) comentando sobre sua experiência de ensinar essa matéria num curso técnico me levou a uma conclusão meio pragmática: ensino de tecnologia deve estar atrelado à atividade final (produto ou processo) e a geração de conhecimento tem seu espaço nas universidades.

Explicando: o curso era de webdesign, a matéria, usabilidade, um assunto para o qual ainda não existem botões suficientes no software que englobem todo o assunto (ou preencham várias aulas práticas por si só). A turma (de ensino técnico) não se motivou pelo conhecimento que não era aplicável inteiramente via ferramenta de trabalho (no caso software para produção de páginas para web).

Isso nos leva a algumas conclusões meio preconceituosas ou questionáveis: nos cursos latu sensu o conhecimento teórico (ou por que daquele saber) existe a reboque do conhecimento técnico. Um curso técnico acaba sendo um primo do curso de capacitação, subentendidos como cursos que focam o uso de uma tecnologia ou a realização de uma ou mais atividades relacionadas a um objetivo específico. Assim sendo, do ponto de vista do aluno, transmitir conhecimento teórico num curso técnico é tão “errado” (faço questão de enfatizar as aspas) quanto, do ponto de vista educacional, transmitir conhecimento essencialmente prático na universidade.

Sei que muitos vão dizer, corretamente, que a prática é a contextualização do conhecimento, a unidade de medida para avaliar se uma hipótese, conhecimento ou informação é real (fato científico). Agora, há que se separar o conhecimento técnico do tecnológico e do científico. Não é da universidade o papel de desenvolver inovação tecnológica – esse papel é do mercado de trabalho, empresas, indústrias – assim como a razão de ser da indústria não é ser uma universidade com bibliotecas, pesquisadores e doutores embora esta possa desenvolver pesquisas com ou sem rigor científico.

Agora, a universidade deve desenvolver conhecimento para que o mercado de trabalho (indústria, comércio, serviços) aplique em inovação, e este dê origem a ferramentas que viabilizem a aplicação de um conhecimento. Ou seja, a ciência deve ser a base do desenvolvimento tecnológico e este o pilar da tecnologia. Agora, porque as pessoas buscam facilidades - formação técnica na universidade - são muitas e variadas:

- ver a universidade como um “curso técnico mais valorizado”
- querer o canudo apenas para ascender profissionalmente no local de trabalho
- desconhecimento, desinformação
- reflexo da cultura fast-food (informação em vez de conhecimento, a rapidez da superficialidade em vez da profundidade da reflexão) [*]

Agora, voltando ao curso de Usabilidade do início deste texto, creio que num futuro próximo este conhecimento será mais e melhor incorporado à tecnologia existente (software) de forma a facilitar o ensino desta matéria no âmbito técnico; paralelamente esta área do conhecimento continuará se desenvolver como conhecimento científico, pois independe da web para existir. Usabilidade se aplica em qualquer produto fabricado pelo homem, de automóveis a páginas da web.

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Notas

[*] O pensador Fredrick Jameson no texto “Transformações da imagem na pós-modernidade” diz com muita propriedade que a geração atual (da MTV, dos desenhos animados a la “bob esponja” e da propaganda dos últimos 20 anos) foi educada para absorver mais informação em menos tempo, daí o ritmo frenético da informação condensada num vídeo-clipe. Jameson coloca que os mais jovens conseguem absorver num clipe de música o equivalente de informação de um longa-metragem; eu acrescentaria que isso é fato, mas sem a profundidade do discurso escrito ou cinematográfico, por exemplo.

J.L. de Campos no seu texto “Eis dois cachimbos: Roteiro para uma leitura foucaultiana de Magritte” ao discutir a relação entre mídia escrita e visual coloca que a imagem encurta o caminho que a palavra estaria encarregada de representar, o que explica a “preguiça” crescente das novas gerações com a informação escrita.

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