Grupos

Fiz uma permuta de serviços numa unidade da empresa onde trabalho: uma prestação de serviço em troca de um curso, um treinamento em um software no qual desejava me atualizar. Só não imaginava que a aula que ia ter não era de software.

 

O professor - um rapaz novo, com bom conhecimento técnico - começou a ministrar um curso (muito semelhante ao que eu mesmo ministro, mas em outra área de conhecimento), mas pelo meio (!). Tudo bem, depois é só concatenar o conhecimento colocando as peças na sua devida ordem, mas os problemas não pararam aí.

 

Como o rapaz tinha um cronograma muito bem definido, ele simplesmente ignorava qualquer pergunta que não estivesse ocorrendo no momento definido por ele, neste cronograma.

 

Além disso, ele exibia material didático sobre o curso (aparentemente royalty-free) e, quando indagado se poderia ceder parte desse material retrucava que "ele estava na web", no site que ele indicou como referência. Ok, o material pode ter direito autoral, pode ser parte do capital intelectual do professor, etc, etc...
Para concluir com o corolário de desconforto, o próprio ainda colocou pequenas grandes verdades ao afirmar que o conhecimento muda muito rápido e que sempre irá faltar um detalhe que poderia inviabilizar a realização de projetos de alunos. Sim, é fato que qualquer curso básico é insuficiente para projetos profissionais grandes ou interessantes, que sempre demandam criação de novas ou complexas soluções. Não mostrar a luz no fim do túnel (soluções possíveis) é o que questiono.

 

Na época abandonei o curso contrariado, mas hoje vejo que deveria ter ficado até o final, pois o professor estava me dando aulas diárias de erros que não se devem cometer em educação/ensino. Credito esse estado de coisas ao fato dele ter pouca idade e um temperamento difícil (uma combinação ruim em termos de relacionamento interpessoal) mas se fosse fazer uma lista de recomendações a esse colega de profissão elas seriam:

 

- Modus operandi: Ter em mente que em educação existem diversas abordagens e metodologias de aula e avaliação; se conhecê-las foge ao seu objetivo ou interesse, definir qual é a sua metodologia de trabalho antes de iniciar a primeira aula é uma boa prática. Ninguém quer conhecer as regras dum jogo no meio.

 

- Objetivos claros: Mostrar aos alunos onde se deseja chegar, no início de cada aula, é uma prática bem-vista, para que não se gere frustrações ou expectativas não-atendidas durante o curso. Além disso abre ao aluno chance de fazer perguntas que complementem ou vão além do que está no programa. Por exemplo, meu ex-sócio usa toda a primeira aula fazendo uma visão geral do curso aos alunos.

 

- Perguntas e respostas: Sempre que possível tentar responder a pergunta do aluno no momento em que ela é feita, mesmo que fuja ao cronograma/programa do curso; quase sempre a pergunta está relacionada a algo que foi ou está sendo explicado. Responder contextualiza a explicação, dá razão de ser ao conhecimento; mas isso remete a alguns cuidados:

 

a) se você está no meio duma explicação normalmente fazer desvios para depois retomar o caminho original não será interessante para alunos com estilo de prendizado linear (onde um assunto não pode ser fragmentado). Neste caso, termine a explicação e crie um espaço durante a aula para respoder ao aluno. Até uma explicação teórica é válida.

 

b) se o assunto for de interesse específico, responda ao aluno em particular; caso contrário responda em grupo. Essa noção do que é geral ou específico (relevante para um  profissional ou interessante para uma platéia) só é possível quando se domina o assunto ou se tem experiência de sala de aula.

 

- Honestidade intelectual: melhor assumir que não conhece o assunto, ou que irá (de fato) respondê-lo mais adiante do que deixar uma pergunta em aberto ou mal respondida. Perguntas em aberto são um atestado de insegurança, e isso é uma bola de neve (contra você).

 

Pós-aula: Se o conhecimento muda muito depressa, faça disso uma oportunidade: venda consultoria pós-curso, que pode ser contabilizado como projetos de curta duração. Na pior das hipóteses, ter um grupo de discussão, indicar terceiros é uma boa prática para criar networking. Deixar o aluno achando que o investimento no curso será inútil em 6 meses é uma meia verdade.

 

- Avaliação e recuperação: isso depende da metodologia de cada professor. Há os mais clássicos que aplicam prova ao final do módulo (a chamada avaliação somativa) e outros, como eu, fazem avaliações durante o curso (avaliações formativas) ou antes do curso(diagnósticas).

 

Na instituição onde presto serviço é colocado que as recuperações devem ser durante o curso, o que é um complicador para quem não é professor em dedicação integral. De minha parte acredito que ter um método - para ensinar, avaliar ou recuperar - é melhor do que não ter nenhum, até porque o objetivo sempre será aperfeiçoar o ensino. Particularmente uso a abordagem Wrap around[1] para criar o material didático de recuperação, e faço avaliações em forma de revisão da matéria [2].

 

Confesso que tenho o hábito de assistir aulas de colegas para aprender algo novo, verificar se estou utilizando a abordagem correta entre outras coisas. Até quando assisto uma aula ou apresentação abaixo da média procuro ajudar o palestrante indiretamente (fazendo perguntas interessantes ou ajudando a responder algumas questões em forma de bate-papo).

 

Esse blog é uma forma de ajudar outros professores a não perpetuar determinados erros simplesmente porque se escreve mais sobre os acertos do que sobre erros e soluções. Como muitos teóricos da educação argumentam, o erro não deve ser visto como ponto final do aprendizado, e sim como ponto de partida. Parafraseando os surrealistas, não há nada mais didático do que uma solução ruim. Ela é no mínimo uma referência do que deve ser evitado, um alerta para o que deve ser feito para acertar.

 

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Notas:
[1] Nesta abordagem, que traduzo como abordagem mista, pois é um meio caminho entre outras duas abordagens (curso+suporte e integrada) o material didático é aproveitado de terceiros e o conteúdo é revisto a cada curso.

 

[2] Meu ponto de vista é de que o conhecimento se fixa no longo termo ou quando há memória afetiva forte. Como a segunda opção é mais difícil de alcançar no dia-a-dia, repasso a matéria várias vezes - como revisão - o que ajuda aos alunos a fixar a informação e transformá-la em conhecimento. A sabedoria em utilizar esse conhecimento a posteriori é algo individual, e independe do professor.

 

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