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Ponto de vista: aulas e aulas

13:34 @ 03/02/2011

Tom Jobim já foi vaiado num festival de música popular brasileira. Todos meus amigos dizem que “o rei” Roberto Carlos “canta mal” (!). Os Beatles foram recusados no seu primeiro teste numa gravadora. Fausto Silva, o Faustão, é o apresentador de TV mais malhado de toda TV brasileira, a despeito de seu programa estar há 20 anos no ar.
Acho que existem muitas pessoas que não curtem Tom Jobim, Roberto Carlos, os Beatles e o Faustão, mas maior injustiça é não reconhecer que Tom é um gênio, que Roberto Carlos chegou num patamar que poucos artistas alcançaram, os Beatles são referência na história da música, e há apresentadores menos comunicativos do que Fausto Silva fazendo o mesmo programa, no mesmo horário há tanto tempo que ele. Bem, nem Cristo foi unanimidade...

 

Já passei por esse drama: desenvolví o conteúdo programático de um curso, e anos depois, uma aluna do mesmo curso se queixou a coordenação de que "eu desconhecia o conteúdo da matéria" (!). Leia-se: se ela não estava aprendendo, o problema só pode ser meu (!). O professor que prosseguiu depois de mim foi alvo das mesmas críticas, já que a instituição de ensino em questão não possuía (e não possui até hoje) estratégias ou políticas de ensino para alunos com deficiências de aprendizagem...

 

Estava vendo um anúncio de um curso de inglês que vendia “turmas para adolescentes”, onde um representante reclamava em alto e bom tom: “não quero aula chata”, “nem decoreba”; era como se dissesse “quero dar boas risadas enquanto estudo”.
Quem já fez aulas de pré-vestibular conhece esse estilo de aula: o professor organiza um rol de piadas para inserir nas aulas enquanto passa a matéria.  Nada contra, mas o perigo é o aluno lembrar mais das piadas do que da matéria.
Ok, tem a coisa da memória afetiva: você se lembra da situação divertida, vai se lembrar da matéria também. Acredito que quando a situação é criada pelo aprendiz é mais fácil que essa relação ocorra. Por exemplo, se o estudante de biologia pega um música e recria a letra com elementos da matéria, a chance dele se lembrar da matéria anos depois é muito maior do que se o professor musicar suas aulas.

 

Em outro cenário semelhante que assistí: o(a) docente faz da aula uma palestra, onde discorre com muita mise-en-scéne sobre seu conhecimento. Nenhum exercício de fixação, nenhuma contextualização, nenhuma dinâmica, nenhum trabalho em grupo, nem material paradidático. Meus colegas aplaudiram a aula, mas eu questionei: “você se lembra do assunto X que o(a) docente falou?” resposta: “não”. “Então essa aula maravilhosa foi uma droga” eu retruquei.

 

O que quero dizer com esses exemplos é que “a aula boa é a aula que fica”, e não “aula boa é a aula que parece ser boa”. E essa “aula boa” depende em 50% do aluno. É claro que se o docente atingir seus objetivos parcialmente a mágica não acontece, mas no caso desta falha, estratégias – material paradidático, aulas de reforço, trabalhos de recuperação – devem ser utilizados pois o foco é o conhecimento não o “circo” em torno dele.
Claro, que até “o circo” bem organizado pode ser um elemento contribuidor dos objetivos de aprendizagem.

 

Um exemplo: comecei a fazer curso de teatro e uma das lições que aprendi foi que o ator deve “ocupar o espaço cênico” caminhando, buscando lugares vazios no palco e preenchendo-os com sua presença. Fiz isso em aula - comecei a passear pela sala ao explicar um assunto e os comentários típicos dos alunos com déficit de atenção ou hiperativos - “que sono” - desapareceram como que por completo. Entrou na sala de aula, esqueça que a sua cadeira existe, caro docente.

 

No meu entender, qualquer ferramenta – técnicas de teatro, psicologia – podem e devem ser utilizadas, mas com critério para não se perder o foco do ensino. Todo docente sabe como fazer com que as aulas fluam da melhor maneira, mesmo não passando – ou fixando - conhecimento algum: seja oferecendo material didático que “se encaixa” na primeira tentativa do aluno, fazendo um social com o alunado antes durante e depois das aulas e principalmente sendo extremamente flexível com as faltas e ausências.

 

Certa vez ouvi de um professor de graduação que ele “não reprovava alunos” pois, no seu entender “reprovação é atestado de mau ensino”. Ele ainda argumentava que “não preciso cobrar dos alunos pois o mercado de trabalho vai fazer isso por mim mais tarde”.
Outro professor me deu o outro lado da moeda “tenho de ser rígido para preparar vocês para o mercado de trabalho, que é extremamente exigente”. Isso incluía não corrigir trabalhos que eram entregues num tamanho que não fosse - exatamente - o A4. Particularmete opto pelo meio-termo - nem fazer da aula a casa da sogra nem deixar o barco correr solto no leito do rio.

 

Enfim, acredito que fazer da aula uma experiência agradável é condição sine qua non para que a informação possa ser absorvida de maneira adequada. Agora, fazer do ensino entretenimento é algo que tem de ser dosado. Já trabalhei em instituições onde o ensino é visto, tratado e vendido como entretenimento, porém, havia toda uma estrutura/organização para que o aprendizado ocorra e seja fixado ao longo do tempo.
Não sou contra o “pão e circo” na educação. Se o pão alimentar o corpo, e o circo alimentar o espírito, preparando ambos para o dia de trabalho, perfeito. Acredito que quando as políticas de ensino são bem amarradas – os objetivos, ferramentas e métodos visando o ensino são bem definidos pela instituição de ensino (1)– esse tipo de discussão – a aula é boa ou ruim - inexiste. O docente sabe como a aula deve ser conduzida, pois segue objetivos bem claros, independente de seu estilo de ensino. Se o método 1 não atingiu os objetivos, tem-se de se ter a mão uma segunda abordagem para o mesmo fim (2). Se o aluno reclama de políticas bem definidas, ele tem todo o direito de procurar seu estilo de aprendizado no mercado de ensino, que com certeza oferece o pão com o recheio procurado e o entretenimento com a dose desejada...


...

Notas:
(1) Trabalhei numa franquia de ensino onde as aulas seguiam o seguinte modelo: 1/3 de aula teórica (no início meio ou final da aula) e 2/3 de aula prática. A aula teórica era apoiada em projeção de transparências ou projeção de telas do computador, com jogo de perguntas e respostas; as telas são fornecidas pela instituição de ensino, onde se repassa o conteúdo do material didático (“quais são as etapas para realizar tal procedimento?”).

 

As aulas práticas seguem o roteiro do material didático, sendo que há espaço para os alunos praticarem fora do horário de aula, uma vez por semana, exercícios extras criado pelo docente ou exercícios do material didático. De qualquer forma a chance de fixar conhecimento com outros docentes, com outro métodos e abordagens é o principal desta metodologia.

 

Hoje em dia o mercado de ensino procura oferecer abordagem de aulas individuais em turmas reduzidas,  onde os alunos são agrupados com colegas do mesmo nível; isso evita que um aluno mais adiantado diga que o curso é um ruim, apenas porque o ritmo da aula segue o ritmo da maioria.
Acredito que boas idéias acompanhadas de um modelo palpável a ser seguido é o melhor caminho para solução de problemas, não só em educação.

 

(2) Por exemplo, não tenho tempo de elaborar recuperações durante os módulos. Se  a instituição de ensino onde presto serviços tivesse sistemas de avaliação e ensino à distância, essa lacuna poderia ser preenchida independente de minhas possibilidades.
Avaliação e recuperação são atividades normalmente não-remuneradas em instituições de ensino; são vistas cono parte do rol de atividades que o docente tem de ter pronto, como seu plano de aula. A questão é que aulas coletivas são preparadas uma vez para uma coletividade; recuperações - e avaliações de recuperações - são individuais, e preparadas várias vezes, mesmo existindo estratégias pedagógicas para agilizar esse processo.

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