Por falar em amigos e amizade, achei por bem indicar e falar através da crônica escrita pelo Léo Jaime.
De Leo Jaime.
Recebo um email curioso, leio em meio a tantos outros e deixo pra responder depois. Preciso pensar. O tema surpreende. Um rapaz quer comprar uma moto e precisa citar, no cadastro da loja, referências pessoais, amigos, e pede que dê meu telefone para que ele me cite no negócio. O problema é que, segundo ele, nós nos "conhecemos" no orkut. As aspas vão por conta de que é possível até que alguém se conheça e inicie algum tipo de amizade no orkut ou por intermédio de algum outro mecanismo de Internet. Não era o caso.
Antes do referido bilhete - era mais um bilhete, do que uma carta, - o tal jovem nunca tinha tentado se corresponder comigo. Aquela era a primeira abordagem. Um pedido para citar-me como referência em uma compra, ou seja, alguém para ser procurado caso o negócio fosse para o pau. E o bilhete terminava com a patética indagação: será que eu não tenho amigos? Pois é. Uma vez que ele se permite fazer um pedido desses a alguém com quem nunca falou antes, é compreensível. E triste.
Como foi que ele escolheu o meu nome e mais: o porquê! Essa dúvida é que vale a reflexão. Ter um pedido aceito para ser admitido na minha lista de orkut, beleza, é um sinal de simpatia. Se me pedem para tirar uma foto ou comentam qualquer coisa na rua, em geral, a recepção é a mesma. Gosto de tomar café na padaria batendo papo com os cidadãos, e quase sempre não sou reconhecido. Ou não mencionam. Prefiro pensar que sou um cara comum que gosta de falar com os outros na rua. Mas recuo quando me oferecem negócios da china, e muito mais quando pedem coisas íntimas sem haver intimidade.
Talvez seja esta a questão: a dificuldade em estabelecer, nos novos padrões, o que seja intimidade. Trepar pode ser tão banal quanto teclar num Chat. E teclar num Chat pode ser tão íntimo quanto trepar. Tudo é muito relativo. Dá pra abrir o coração num blog e, a um só tempo, permanecer anônimo sob um nick. Quem é de fato amigo? Os que freqüentam? Evidente! Desde que não traiam! Os que participam da nossa felicidade e dela se regozijam. Sim, os que estão interessados em nossa infelicidade, mesmo os que ajudam, podem estar apenas curtindo um pouco do sentimento de superioridade que nossos infortúnios produzem em si. Gente que fica feliz com nossas vitórias é que são os amigos, e os que são generosos. Os que oferecem coisas. Os que oferecem companhia, humor, tempo, idéias, ouvidos etc.
Há um charme propagado do cinismo. Chamam de atitude o que em outros tempos era ser mascarado. Ser frio pode ser confundido com ser cool. Amar é e sempre foi uma coisa meio obsoleta e nem um pouco hype. Diz um belo poema que toda carta de amor é ridícula. E o amor tem um traço de cafona. Pois é, a amizade é o momento sublime do amor. Chamam de amizade de amor subtraído do sexo. De um amor que falta alguma coisa. Acho que não, que é perfeito, absolutamente transcendente a tudo, até ao desejo, e perfeitamente incondicional, como deve ser o amor.
Mesmo que a gente tenha alguém pra mencionar como referência em uma compra, ou nove mil e tantos adicionados com o título, não significa que a gente tenha de fato um amigo. Não há garantias. E, no entanto, não há nada que mereça mais uma festa do que o amigo. Por isso pareceu-me tão dolorosa a pergunta. Pra quê comprar uma moto? O rapaz, se é que um conselho meu vale alguma coisa, deveria era sair de casa, imediatamente, e procurar um amigo. Já pensou: morrer e não ter um amigo no enterro?
Leo Jaime é cronista do Blônicas e escreve todas as quintas.